TV

Once Upon a Time: pra que ser inimiga se posso ser amiga?

Nos contos de fadas tradicionais, compilados pelos Irmãos Grimm, as mulheres não têm amigas: quer sejam princesas, fadas ou crianças, todas partilham de um destino em comum, a solidão. São poucas as histórias em que há mais de uma mulher e, quando isso acontece, geralmente é a figura da madrasta má que aparece, da bruxa, da rainha perversa que persegue a princesa que casou com seu filho… Sempre houve inimizade, mas nunca uma parceria entre essas mulheres, que precisavam ser salvas por um homem forte e valente. Once Upon a Time (OUAT) rompeu com isso ao adaptar os contos de fadas mais famosos para o mundo das séries, criando um enredo comandado por mulheres que se respeitam e se ajudam.

Recentemente, Jennifer Morrison anunciou que sairá de OUAT. Seu motivo foi bem coerente: Jen acha que já conseguiu completar o arco de Emma Swan, sua personagem e a grande heroína (ou, melhor dizendo, savior) da série: atingir seu final feliz. Apesar da tristeza generalizada dos oncers – porque, honestamente, não sei como vão continuar a série sem a personagem principal no elenco -, a Jen não poderia ter sido mais verdadeira. OUAT sempre foi uma série sobre novas chances e finais felizes. Muito mais do que apenas contos de fadas, a série nos mostra que todos temos direito à felicidade. E a felicidade de Emma Swan só pôde ser atingida após, em seu papel de savior, ajudar a resgatar a dos outros, o que só se fez através de fortes laços de amizade – amizade que, de acordo com os roteiros normais, não deveria existir.

Todos sabem que a Evil Queen (Lana Parrilla) é uma vilã. Quer dizer, o próprio nome já diz: Rainha Má. Por causa da ambição de sua mãe, ela foi quase forçada a agir com crueldade. Por algum tempo, teve de representar um papel para conseguir atingir as expectativas alheias e viver a sua vidinha. O problema é que ela realmente encarnou a personagem e fez muitas maldades: incendiou vilas inteiras, usou de magia para arrancar os corações de várias pessoas e manipulá-las, matou inúmeras personagens sem nem pestanejar, e, finalmente, perseguiu a Snow White (Ginnifer Goodwin) de formas tão terríveis que chegou ao ponto de matar o próprio pai para criar uma maldição que acabasse com a vida da princesa. Mas, em meio a isso tudo, ela se sentia sozinha e acreditava genuinamente que a maldição, a concretização de sua vingança, a faria feliz. Não fez. Então, após alguns anos de solidão naquela cidade de gente desmemoriada, ela decidiu adotar uma criança pra chamar de filho.

Dez anos se passaram, o tempo em Storybrooke – a cidade criada pela maldição – continuava parado, as pessoas não se lembravam de quem eram e Regina Mills, nossa Evil Queen, reinava como prefeita e lei absoluta naquela cidade na qual todos os dias eram idênticos ao anterior. Exceto por um detalhe: Henry (Jared S. Gilmore), o filho adotivo de Regina, crescia mais a cada dia e fazia perguntas. Muitas perguntas. Coisas acontecem e Henry acaba indo atrás de sua mãe biológica. E, é claro que sua mãe não seria ninguém além de Emma Swan, a filha de Snow White e de Charming (Joshua Dallas). Sua chegada à cidade de Storybrooke quebra a maldição, o que faz com que todos recuperem suas memórias – o que deixa Regina muito irritada.

Até aqui temos uma história que, apesar de seu enredo cheio de magia e na vibe conto de fadas, é o que já conhecemos há muito tempo: mulheres fortes sendo antagonistas umas das outras porque ou não sabem perdoar e é necessário estar sempre armada contra quaisquer ataques etc. Por algum motivo, roteiristas adoram colocar mulheres poderosas brigando entre si. Porém, o que Once Upon a Time fez foi sensacional porque eles simplesmente disseram: “mas pra que ser inimiga se posso ser amiga?”.

Emma e Regina

Com um filho em comum, tendo de conviver na mesma cidade pequena e enfrentando o tempo todo ameaças vindas de gente completamente maluca por poder, Emma e Regina percebem que precisam se unir pelo bem de Henry. No início, a relação é conturbada porque Regina é Evil Queen e a mulher que tentou de trocentas formas matar a mãe de Emma, Snow White. Porém, elas se dão conta de que o amor é mais forte e sempre há uma segunda chance, um recomeço. É assim que elas se transformam melhores amigas. Mas a relação, que poderia ficar apenas em encontros constrangedores de compartilhamento de guarda, se torna cada vez mais próxima e seu ponto em comum é ampliado pra muito mais do que apenas o menino Henry, que tem duas mães maravilhosas: elas viram amigas de verdade. Emma e Regina se apoiam, se defendem e dão puxões de orelha uma na outra quando veem que uma delas está indo por um caminho de infelicidade.

O mais legal na relação delas é que elas foram feitas pra se odiarem, mas decidiram que não precisam ser rivais pela atenção do filho que compartilham, resolveram que não precisam escolher o ódio e a competição ao invés da amizade e do companheirismo. E isso aconteceu porque elas realmente olharam uma pra outra e aprenderam a se conhecer e a se respeitar. Regina respeita Emma porque não conseguiu intimidá-la e viu, várias vezes, que ela sempre tentava agir da forma mais correta possível, não importa o quanto se ferrasse por conta disso. Já Emma respeita Regina porque conseguiu ver a mulher por trás da Evil Queen e entender de verdade a vida horrível que fez com que ela se tornasse uma rainha cruel, eternamente em busca de vingança.

A amizade de Emma e Regina beneficia ambas de uma forma saudável, porque ao passo que Emma ajuda Regina a escolher o bem e a acreditar que vilões não precisam ser maus pra o resto da vida e podem, sim, ter um final feliz, Regina ensina a Emma que ela precisa acreditar em si mesma e ser mais autoconfiante, se permitindo ser feliz de verdade, sem o medo de ser abandonada e ter de viver sozinha novamente.

Regina e Snow White

A história de Regina e Snow é complicada porque começou bem, mas as coisas desandaram. Regina, ainda muito jovem, foi obrigada pela mãe a casar com um rei bondoso, mais velho, cuja rainha havia morrido há algum tempo. Ela não queria nada disso, mas estava cansada de lutar contra sua mãe, e seu gesto de ter salvado a filha do rei, Snow White, de um acidente em um cavalo incontrolável, fez com que o rei a escolhesse para ser a nova rainha. No início, ela gostava da pequena Snow, que era apenas uma criança na época, mas então Snow conta pra mãe de Regina um segredo que ela não podia ter contado, o que fez com que o amor da vida dela fosse perdido para sempre.

A partir daí, Regina foi caindo em mais e mais sofrimento, sempre culpando Snow por tudo o que lhe havia acontecido. Apesar de ter tentado perdoar a menina, não conseguiu, e arquitetou todo um plano de vingança que levou a cabo por cerca de três décadas. Mas Snow, acreditando fortemente no poder do amor, deu diversas chances à sua madrasta má. Mesmo assim, Regina não as aceitou, mas a vinda de Emma muda tudo e essas mulheres, com uma carga emocional tão forte em suas histórias, de repente se veem lado a lado, lutando pelas mesmas coisas e indo até o inferno – literalmente – para ajudar Emma a resgatar seu amor verdadeiro.

Regina e Snow tinham tudo para serem eternamente inimigas, o estereótipo da madrasta má e da princesa de bom coração. Tanto uma quanto a outra tiveram de aprender a perdoar e seguir em frente e a verdadeiramente compreender os motivos que as levaram até ali. Conviver com um inimigo não é fácil, mas em um mundo perigoso como Storybrooke é necessária união, ainda mais das líderes. Regina é a rainha, atual prefeita, e possivelmente a pessoa mais poderosa daquele local – exceto por Rumplestiltskin (Robert Carlyle), que é o Dark One e praticamente ensinou as artes mágicas pra todas as gerações que existem lá – e Snow, por mais que não tenha poderes mágicos, é a verdadeira líder daquele povo, a quem eles escutam e auxiliam sempre que preciso. Com inimigos poderosos como Rumple, não fazia sentido elas se manterem afastadas por causa de um passado sombrio: a vida continua e mulheres poderosas unidas jamais serão vencidas.

Snow e Ruby

Uma das amizades mais legais da série inteira é a da Snow com a Ruby (Meghan Ory), também conhecida como Red (Chapeuzinho Vermelho), isso porque elas têm uma amizade genuinamente verdadeira. Não há laços tensos de parentesco ou circunstâncias contra suas vontades que as obrigaram a conviver e se tornarem amigas. Elas se conheceram quando Snow estava na Floresta Encantada, fugindo da Evil Queen, e acabou se abrigando no celeiro da casa da Red, à noite, por medo do lobo que estava atacando o vilarejo.

Red acolheu Snow, mesmo sem saber quem ela era, porque ficou com pena daquela moça se escondendo clandestinamente em seu celeiro e roubando ovos das galinhas para se alimentar. Depois de umas boas refeições e conversas de amigas, elas saem pra caçar o lobo porque alguém tem que dar um jeito na situação e não vamos esperar os homens nos defenderem, não é mesmo? Dramas acontecem e quem está lá para consolar a Red é a Snow, sempre aceitando as pessoas do jeitinho que elas são e levando esperança pra todo mundo.

Snow dá o suporte moral que a Red precisava pra sobreviver àquela tragédia, lhe ensina a ter sempre esperança e saber que a vida é cheia escolhas e podemos escolher o bem, mesmo que tenhamos uma natureza controversa. Já Red ajuda Snow a relaxar e se abrir à vida e às amizades porque, apesar de todos os percalços que a vida de fugitiva de uma rainha poderosíssima e vingativa pode causar, sempre há tempo de parar tudo, fazer uma fogueira e tomar uma sopinha enquanto se coloca o papo em dia, porque são essas as coisas que fazem a vida ser melhor.
Em um mundo cheio de obstáculos, perigos e gente com magia tentando matar todo mundo, é sempre importante ter uma amiga em quem confiar, e esperamos sinceramente que, já que decidiram renovar a série mesmo sem sua personagem principal e mais alguns outros também do elenco central, que ao menos Once Upon a Time continue sendo o que sempre foi: uma história sobre amor, confiança e segundas chances baseadas em laços de amizade entre mulheres incríveis.

Posts Relacionados

Comentários

Deixe um Comentário