LITERATURA

Por que Orgulho e Preconceito é a melhor história de amor de todos os tempos e a desconstrução do amor à primeira vista

Todo mundo já ouviu falar, já leu, já assistiu a uma história de amor à primeira vista. É um clichê que sempre dá certo nos filmes. A moça meio desajeitada, apressada para algum compromisso esbarra num moço meio mal-humorado no meio da rua e derruba todas as suas coisas. Os dois se abaixam para recolher o que caiu no chão e seus olhares se encontram e, por um instante, apenas por um instante, a moça não tem mais pressa e o humor do moço é o melhor do mundo. Pronto, a paixão nasceu. É simples, fácil e quase sempre dá certo.

Apesar de funcionar na ficção, é sempre um pouco estranho esse conceito na vida real, acreditar que alguém pode se apaixonar por outra pessoa sem ao menos conhecê-la. Eu, pelo menos, não consigo me ver apaixonada por alguém que apoia o Trump, ou que detesta Harry Potter, por exemplo. E nada disso é possível descobrir apenas olhando para a pessoa.

Então por que compramos tão facilmente o conceito de que o amor pode ultrapassar qualquer barreira? Está aí outra concepção meio torta; será que é mesmo legal que o amor ultrapasse toda e qualquer barreira? Se eu me apaixonasse por um serial killer misógino, por favor, me tirem dessa cilada!!! Nunca haverá atração suficiente para superar tantas diferenças. E assim voltamos ao amor à primeira vista: mesmo que eu me apaixonasse por uma pessoa só de olhar para ela, acho bem difícil continuar apaixonada depois de realmente conhecê-la.

As minhas histórias de amor favoritas acontecem quando nenhuma das personagens centrais têm interesse uma na outra quando primeiramente se conhecem. E apesar do trope (termo em inglês para clichê ou alegoria usado na ficção para a construção de personagens ou enredo) “amor à primeira vista” ainda ser bem forte e muito usado na literatura, muitos livros hoje tentam subverter esse clichê; como em Fangirl, da Rainbow Rowell, ou na Saga dos Corvos (The Raven Cycle) da Maggie Stiefvater. Os dois exemplos são bem recentes – Fangirl foi lançado em 2014 e a Saga dos Corvos começou a ser publicada em 2012. Talvez a subversão do “amor à primeira vista” seja um fenômeno recente, mas bem antes de qualquer um desses livros serem lançados, antes mesmo dessas autoras terem nascido, já havia um belo exemplo de história de amor em que o amor em si é uma construção que leva bastante tempo, e o nome dessa história é Orgulho e Preconceito, da Jane Austen.

Esse ano completa 200 anos da morte da autora e 204 anos desde a primeira publicação do romance, talvez o mais falado e conhecido livro de Jane Austen. Apesar de já ter mais de dois séculos de idade, Orgulho e Preconceito é uma daquelas histórias que não envelhece. É um clássico.

No livro Por que Ler os Clássicos, de Italo Calvino, o escritor explica que a obra clássica é aquela que se relê; porque se ela é clássica, todo mundo já conhece a história, então mesmo numa primeira leitura o leitor, revisita a obra. Podemos dizer que Orgulho e Preconceito é um clássico porque é uma história que todo mundo conhece: moça conhece moço, moça não gosta do moço, o tempo passa e o moço se mostra merecedor do afeto da moça e os dois declaram o amor um pelo o outro. Final feliz. Não é à toa que a história de Jane Austen tenha sido o ponto de partida de várias adaptações para obras modernas, como os filmes O Diário de Bridget Jones e Orgulho e Preconceito e Zumbis, ou a incrível web série The Lizzie Bennet Diaries. Orgulho e Preconceito continua sendo uma história atual porque é um clássico; e é um clássico porque continua sendo uma história atual.

Apesar de concordar com Italo Calvino, quero acrescentar aqui mais um fator que faz de Orgulho e Preconceito um clássico: identificação. Se as personagens do romance não fossem tão bem construídas, tão complexas que quase parecem pessoas reais, grande parte da força do livro se perderia. Até porque na vida real, as pessoas podem mudar de ideia, quebrar a cara e ter opiniões fortes que às vezes levam ao erro e ao mau-julgamento. Estar errado não é necessariamente igual a ser uma má pessoa, na verdade é bem diferente. Todos nós estamos errados em algum momento de nossas vidas – ou em vários momentos. E tudo bem, porque sempre podemos perceber o erro, pedir desculpas e melhorar. As pessoas podem – e devem – sempre melhorar, ouvir os outros, ter empatia e não serem preconceituosas. Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, os heróis da história, erram, julgam mal um ao outro e outras pessoas, são preconceituosos e orgulhosos, mas se arrependem, pedem desculpas e melhoram.

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar à procura de uma esposa. É com essa frase que começa o livro original de Jane Austen, uma frase que ficou bem famosa no mundo da literatura e reconhecida como um dos mais memoráveis inícios de livro existentes. Lendo assim ela parece bem boba; e se o homem solteiro na posse de uma bela fortuna não quiser casar? Ou se ele for gay e estiver na procura de um esposo? Hoje em dia a frase faz menos sentido ainda do que fazia na época, mas não é por isso que ela é tão importante, mas é pelo o que vem depois dela.

Para quem leu o livro ou viu o filme, já sabe que o homem solteiro com dinheiro pode ser tanto Mr. Darcy ou Mr. Bingley. São esses os dois principais personagens masculinos ricos que se casarão ao longo da história. Mas se levarmos em consideração apenas Mr. Darcy, a verdade universalmente conhecida não se aplica. Talvez a verdade nem seja tão verdade assim. É certo que Mr. Darcy é solteiro e possui uma bela fortuna, mas não é certo que ele esteja procurando uma esposa. A frase denominada como “verdade universal” não é “verdade” e nem tampouco “universal” porque, apesar de se encaixar nas expectativas da sociedade inglesa do início do século XIX, Jane Austen sabia muito bem que não é bem assim que histórias de amor funcionam. Elizabeth Bennet não espera nenhum homem solteiro e rico, e Mr. Darcy muito menos está à procura de tal esposa.

Voltando ao amor à primeira vista: se o amor dependesse apenas da primeira impressão que temos das pessoas, relacionamentos amorosos estariam em severa decadência, e se essa regra se aplicasse ao romance Orgulho e Preconceito, nenhuma das personagens se casariam no final (talvez apenas Jane e Bingley). Elizabeth continuaria orgulhosa e Darcy preconceituoso, mas ainda bem que segundas chances existem!

O amor à primeira vista normalmente chega aliado à idealização da pessoa amada. Mesmo que seja bem fácil imaginar como outra pessoa deve ser e nutrir sentimentos por essa ideia, é também perigoso. A representação de mulheres na ficção, ainda mais em histórias de amor, é comumente associada à idealização de uma mulher perfeita, um sonho masculino que se torna verdade. É daí que vem outro trope muito comum: a Manic Pixie Dream Girl, que é aquela menina meio estranha e linda sem nem ao menos tentar, cujo único papel na história é ajudar o desenvolvimento de outros personagens (normalmente o seu par romântico). Apesar de muita gente estudar, prestar atenção e denunciar essas falhas, a representação feminina na ficção ainda não é das melhores. É claro que hoje temos mais personagens mulheres desenvolvidas, mas falta um longo caminho a percorrer. Contudo, há dois séculos atrás, Jane Austen criava mulheres com desenvolvimento, vontades próprias e com visões críticas sobre o mundo.

Elizabeth não gosta de Darcy no primeiro encontro entre os dois, nem no segundo, nem no terceiro. Na verdade, ela só começa a pensar nele positivamente quando eles, de fato, se conhecem – conversam, pedem desculpas pelos erros e se abrem para outras visões de mundo que não as próprias. Elizabeth não existe apenas para fazer Darcy um homem melhor, nem o contrário. Os dois são personagens igualmente desenvolvidos e tridimensionais. É quase impossível ler Orgulho e Preconceito sem sentir empatia ou se identificar com eles.

Acho que empatia é a palavra central de Orgulho e Preconceito, porque é apenas quando Darcy e Elizabeth se colocam no lugar do outro que eles conseguem sair de seus mundinhos orgulhosos e preconceituosos e começam a ver os outros com novos olhos. E isso não vale apenas para os dois, mas também para Elizabeth e sua irmã Jane, ou sua amiga Charlotte e sua mãe; vale também para Darcy e a família Bennet, e Darcy e seu amigo Bingley.

Orgulho e Preconceito é talvez a melhor história de amor porque fala sobre personagens compatíveis com o mundo real, porque acredita em segundas chances, porque depende da empatia, porque mostra que é possível errar, se arrepender e melhorar e porque mostra que ninguém é perfeito, nem mesmo o amor.

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8 Comentários

  • Responda
    Filomena maria
    14 de março de 2017 at 21:56

    Concordo plenamente com sua opinião. Todos temos direito a uma segunda chance. Adorei o filme por me identificar muito com os personagens.

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    Hannah Beatriz
    14 de março de 2017 at 23:43

    Que texto lindo! Acho que uma das melhores reflexões sobre o livro. Adorei a forma de condução da escrita, nunca tinha visto esse site e com certeza acompanharei daqui pra frente!

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      Júlia Medina
      15 de março de 2017 at 09:15

      Aaaaah! Obrigada <3
      Acompanhe mesmo porque é apenas sucesso (:

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    Thâmara Baia
    15 de março de 2017 at 17:10

    Amei o texto!!!! Leio e releio as obras de Jane Austen e sinto sempre verdadeira empatia por Darcy e Liz.

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    Renata Souza
    18 de março de 2017 at 19:56

    Jane Austen é incrível. Já leu Emma? A heroína (a qual deveríamos facilmente amar) é irritante, preconceituosa, mimada a tal ponto que em determinado momento, sequer sabemos se gostamos ou não. Mas é o efeito Austen, esse desnudamento do herói, a complexificação das vontades e das relações humanas reais. Nenhum personagem é plano, sobretudo as mulheres.
    Linda análise da obra e perspectiva sobre o amor, Júlia! Obrigada por compartilhar. Por favor, continue.

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      Júlia Medina
      19 de março de 2017 at 10:23

      Ainda não li Emma, mas está com certeza na minha listinha para ler!
      Aaah, obrigada! E pode deixar, que irei continuar! hahaha (:

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    Fernanda
    25 de março de 2017 at 00:29

    Chega a doer ver tanta foto desse filme de 2005 com um texto tão bom sendo que a serie de 1995 é muito mais fiel.

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    Tamires Felipe
    26 de abril de 2017 at 14:52

    O livro Música ao Longe, do Érico Veríssimo, traz uma construção muito bonita e delicada de uma história de amor. Lembro que li aos 14 anos e tive uma sensação muito nova, porque aquilo parecia muito mais real que os filmes românticos que eu tinha visto. Recomendo muito esse livro, e as qualidades da narrativa vão além da história de amor.

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