COLABORAÇÃO MÚSICA

Por que Lemonade é um álbum tão importante?

Lemonade é o sexto álbum da carreira solo de Beyoncé, uma das melhores cantoras dessa geração. Ele foi lançado no dia 23 de abril, mas um mês depois ainda é assunto de portais de música, artigos de ativistas e, com certeza, nas rodas de conversa e pelas redes sociais, mesmo entre aqueles que não são fãs da cantora. E o mais engraçado é que ele ainda permanece na minha cabeça.

Afinal, como superar algo tão magnifico?

E é agora que devo explicar por que estou escrevendo um texto sobre música, mesmo não sendo especialista. Esse texto é meramente opinativo e, devo dizer, bastante tendencioso. Vou além: sempre fui, e provavelmente sempre serei, completamente apaixonada por Beyoncé. Até mesmo quando ela fez aquele clipe cor de rosa para Check On It. Então, mesmo que Lemonade fosse um álbum horrível, você provavelmente não me veria admitir isso.

Mas a questão vai além: Lemonade é uma das melhores coisas que já ouvi na minha vida. E ter sido feito por Beyoncé o torna ainda mais especial.

Poderia gastar horas explicando, mas resolvi escolher meus momentos favoritos do álbum e a “mística” que permeia tudo o que ele representa, além do que significa para mim, como mulher e negra.

 A complexidade do álbum

Talvez não seja tão perceptível para quem somente escuta o álbum, mas ao ver a parte visual você entende logo de cara que ele foi dividido de uma forma linear. E isso que o torna tão complexo. Para entender Lemonade completamente, você tem que assistir ao filme e não apenas ouvir as músicas aleatoriamente. Quando você entende cada “divisão”, percebe que o álbum se trata da forma em que uma mulher negra encara as várias fases de um relacionamento.

A parte visual de Lemonade é dividida em: Intuition (Intuição), Denial (Negação), Anger (Raiva), Apathy (Apatia), Emptiness (Vazio), Accountability (Prestação de contas), Reformation (Correção), Forgiveness (Perdão), Resurrection (Ressurreição), Hope (Esperança) e Redemption (Redenção). Isso também se aplica ao áudio, exceto que nele não percebemos a divisão tão claramente. E, como é de se esperar, cada música conversa diretamente com o tema em que está inserida. Hold Up, por exemplo, é a segunda música do álbum; Denial é a segunda divisão.

“Something don’t feel right because it ain’t right especially comin’ up after midnight”

Assim como somos pessoas complexas, um álbum sobre uma mulher negra e a sua perspectiva de um relacionamento também é complexo.

A sinceridade do álbum

Antes de analisar a qualidade do álbum, que pode ser questionável dependendo do gosto de cada um, devemos pensar o quão sincero ele é. Lemonade não é somente um álbum que estourou nas paradas, que fez Beyoncé ser tópico em várias rodas de conversa por aí; é um álbum completamente sincero, realista e emocional sobre uma mulher negra e os seus relacionamentos.

E quando digo mulher negra, posso estar me referindo a própria Beyoncé, mas também a todas as outras mulheres negras que se enxergam nessas músicas. As letras falam de traição, da solidão da mulher negra, do relacionamento com o pai e com o marido, das dúvidas que um relacionamento pode trazer, das suas origens e em como isso pode influenciar toda a sua vida. É como se, em pouco mais de uma hora, tivéssemos acesso a tudo o que ela passou e outras mulheres passam ou estão passando.

“He better call Becky with the good hair”*

A participação de mulheres negras

Para escrever esse texto, eu tive que assistir novamente ao álbum visual (talvez pela décima vez?). Foi a primeira vez que percebi que os sentimentos e as músicas em que a personagem principal desse álbum consegue se reerguer e encontrar novamente a felicidade − ou talvez apenas a paz −, são exatamente os momentos em que mais aparecem mulheres negras. Coincidência? Não. Para mim é uma mensagem bem óbvia: precisamos estar juntas, e, juntas, nós podemos qualquer coisa.

“A pessoa mais desrespeitada na América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra. A pessoa mais rejeitada da América é a mulher negra.” (Malcolm X, no discurso Who Taught You To Hate Yourself?)

E, para melhorar tudo isso, Bey convidou para participar de alguns momentos do álbum várias mulheres negras famosas que ou não são realmente reconhecidas pelos seus talentos, ou já foram atacadas pela mídia americana: Serena Williams, Quvenzhané Wallis, Amandla Stenberg e Zendaya são alguns exemplos. E muitas outras estão reunidas ali, mulheres que continuaram na luta após a perda de seus filhos, mulheres empreendedoras, mulheres modelos, mulheres bailarinas, etc.

Não podemos esquecer que as narrações durante o álbum são, na verdade, poesias de uma jovem mulher negra chamada Warsan Shire.

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A própria Beyoncé

Em 1999, Destiny’s Child – a girlband que revelou Beyoncé – lançava seu segundo álbum de estúdio, The Writing’s on the Wall. Em Hey Ladies, a nona música do álbum, as integrantes do grupo cantavam letras como “Ei garotas, por que é que os homens podem nos fazer mal?”. Dois anos depois era lançado Survivor, o terceiro álbum de estúdio do grupo, agora com três integrantes e não mais quatro. Independent Women Part I é a primeira música. Nela, Beyoncé, Kelly e Michelle cantam para que “todas as mulheres que são independentes joguem suas mãos para mim”.

“All the women who are independent throw your hands up at me”

Survivor, a segunda música e que dá nome ao álbum, é, para mim, a melhor música da carreira do grupo, começa com “Agora que você está fora da minha vida, ela está muito melhor”.

Você deve estar se perguntando por que eu estou falando disso? Para dizer que Beyoncé sempre cantou sobre a força da mulher. Na época com suas companheiras de grupo, agora sozinha. Beyoncé É a definição da força de uma mulher e o poder que nós temos de alcançar o que quisermos. O fato de sermos mulheres nunca deve impedir isso.

É óbvio que Lemonade mostra o crescimento de uma artista e também de uma mulher negra. Beyoncé tinha apenas 17 anos quando o álbum de estreia do Destiny’s Child foi lançado. Estamos em 2016, já se passaram 18 anos, o mínimo que podíamos esperar era que ela crescesse de alguma forma. Lemonade é o resultado desse crescimento, mas ele não surgiu ontem.

Lemonade mostra a vivência de uma mulher negra em uma fase de relacionamento, mas essa vivência é composta por uma bagagem que ela já está carregando até ali. Não, a Beyoncé feminista e empoderada não surgiu ontem. Ela estava ali desde o começo, com suas falhas, claro, mas estava ali. Com Lemonade, Beyoncé apenas escancarou tudo ao entregar um álbum perfeito, carregado de sentimentos, lições e crescimento.

“I had my ups and downs, but I always find the inner strength to cool myself off. I was served lemons, but I made lemonade”**

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Texto por Olívia Pilar. Jornalista, social media, feminista e ativista. Criadora do projeto de mídia digital Meu Cabelo Crespo é Amor, que engloba página no Facebook, Blog e Instagram.

N/E: “Becky with the good hair” é uma gíria usada principalmente por mulheres negras para se referir a pessoas brancas ou negras de pele mais clara e cabelo mais liso. Na época da escravidão, o tom da pele determinava a posição que uma mulher negra ocuparia: as mais claras trabalhavam dentro de casa, como empregadas; já as mais escuras eram mandadas para fora, executando trabalhos braçais. Fonte: MTV 

** Tive meus altos e baixos, mas sempre encontrei força para me acalmar. Foram me dados limões, mas eu fiz uma limonada (tradução nossa). N/E: a frase que inspirou o nome do álbum é uma homenagem a Agnéz Deréon, avó de Beyoncé, e é repetida por Hattie White, avó de Jay Z, no vídeo da canção Freedom. 

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1 Comentário

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    Vanessa Reis
    24 de Maio de 2016 at 11:09

    Olivs, você é incrível. E não falo isso porque eu te amo – casualmente também, mas é além disso. Você é incrível por manter esse pensamento sempre mais alto, essa postura sempre disposta a olhar além, a querer ser mais. E você é. Beyoncé é um ícone pra trocentas milhões de coisas e eu quero que saibas que você também é. Eu fico completamente feliz por ver você descobrir, diariamente, como alcançar outras pessoas com o teu ativismo, com a tua essência, com esse jeitinho de problematizar e me fazer pensar além das minhas paredes. Obrigada. Você me inspira. Me ensina. E, como canta a rainha, “respect that, bow down!”

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