MÚSICA

Pitty – not a delicate flower

Em um mundo masculino, repleto de músicas com letras machistas e, em grande parcela, internacional, Pitty se destaca fazendo o diferente: sendo uma mulher brasileira que canta rock e fala de feminismo. “Tá, mas e daí?”, você pode se perguntar visto que tantas artistas já são a maioria feminina, e feminista, em gêneros musicais como o pop e o axé. E aí que o rock sempre foi masculino. Fechado. Clube do Bolinha. Para que uma mulher fizesse sucesso no mundo do rock’n’roll, ela teria de se esforçar o dobro, aceitar a hiperssexualização de seu corpo e ficar bem caladinha a respeito de questões de gênero.

Pitty não fez nada disso. Foi chegando na música brasileira com letras fortes e provocativas e roupas que não exploravam explicitamente sua sexualidade, mas compunham parte do universo do rock, em tons de preto, vermelho e saias longas e esfiapadas. Com essa atitude, muitas meninas que cresceram assistindo- na MTV, ouvindo suas músicas e colecionando seus álbuns, encontraram nela um modelo de mulher forte, empoderada – antes da palavra virar chavão nas redes sociais – e politizada, com um discurso questionador muito necessário.

A questão não é exaltar a Pitty ou qualquer mulher apenas porque ela não age da forma como muitas outras artistas agem, usando sua sensualidade como marketing, mas reforçar que essa hiperssexualização do corpo feminino é o que se espera de uma mulher, especialmente uma mulher do rock. Como a Pitty disse em entrevista: “Já toquei bateria numa banda de meninas e a descrença era enorme. Nos chamavam porque éramos bonitinhas, aí eu fazia questão de ir bem feia pros shows (risos)”. Nesse mundo, a mulher é vista como a diva, a gostosa, a deusa, não a artista talentosa, compositora, com uma voz marcante e posicionamento político definido – esse papel é destinado aos homens. Isso sempre incomodou a cantora, que deixou bem claro, várias vezes, não tolerar esse tipo de comportamento. Em um show, ela chegou a pedir que o público parasse de chamá-la de “gostosa”, “porque é cultural, e faz parte dessa mentalidade de objetificação da mulher. É fruto do machismo presente na nossa sociedade. A mulher é vista como uma coisa a ser tomada, tida, possuída. Um objeto que está ali para o divertimento e deleite visual do homem”.

Isso não é uma reação de adolescente rebelde que não quer jogar o jogo, é uma reação forte de uma cantora que estava de saco cheio de não ser levada a sério somente porque é do gênero feminino. O rock não leva a sério as mulheres e raramente abre espaço para que uma mulher entre no clubinho.

Lembro que, quando era adolescente, formei uma banda de rock. A banda era toda formada por meninas e a gente sempre procurava músicas de outras mulheres, mas a dificuldade era imensa porque as representantes do rock ou eram a própria Pitty – e não queríamos fazer uma banda cover da dela – ou Amy Lee, do Evanescence. Não havia muita representatividade na área, e foi bem difícil montarmos um repertório, mas aos poucos conseguimos; limitado, porém estava lá. Só que não éramos levadas a sério. Ninguém acreditava em nós, quatro garotas esquisitas que queriam cantar o bom e velho rock’n’roll. Lembro claramente de ter ouvido que era “muito feia” para cantar rock. Com o passar do tempo, começamos a acreditar naquilo e adeus banda, adeus sonho musical.

Resistir no mundo do rock, sendo mulher, é muito difícil. E se é difícil na adolescência, quando temos aquele primeiro impulso de rebeldia, de mudar o mundo, aquela visão inconformista das coisas, que o fará depois, durante a idade adulta. Temos vários exemplos disso, inclusive na ficção. Lane Kim (Keiko Agena), de Gilmore Girls, era uma garota do rock, uma adolescente que desafiava o moralismo religioso de sua mãe para ser baterista de uma banda. E tudo ia bem, até que no revival descobrimos que ela teve de deixar de lado sua vida no rock’n’roll para ser mãe de gêmeos, se dividindo, de forma precária e sem muita ajuda, entre a Lane baterista e a Lane mãe. Ela abdicou de uma carreira musical para ser mãe e esposa.

A pressão que a sociedade impõe em cima das mães é imensa. Aparentemente, uma mulher não tem capacidade de existir como pessoa individual a partir do momento em que tem seu óvulo fecundado. Tudo o que importa é a criança e a mãe, esse ser angelical, precisa se adaptar completamente, deixando de lado sonhos e carreira para exercer vinte e quatro horas por dia seu papel de cuidadora. Enquanto isso, o homem pode ser pai e trabalhar, ter amigos e vida social, sem problema algum.

No início de 2016, Pitty precisou cancelar shows já agendados da turnê do álbum Setevidas porque descobriu estar grávida e precisava cuidar de sua gravidez, que era de risco por conta de um encurtamento no colo do útero. Dos três meses de gravidez até há pouquíssimo tempo, Pitty basicamente não saía de casa e teve um momento de introspecção fortíssimo e muita revolta, por ter de parar seu trabalho por estar grávida. Sincera como sempre, ela deixou bem claro que essa história de maternidade ser sagrada não é bem assim e que a mulher tem que aguentar muitos perrengues quando passa por essa situação. Na nossa sociedade, grávida não pode sofrer. Como se fosse uma mácula do sagrado. Você tem que estar grata o tempo inteiro por estar grávida. Sim, estou grata, mas isso não me exime de certas angústias. E elas existem, têm que existir, fazem parte das nuances de sermos humanos”, disse.

Desde que ganhou sua filha, Madalena, ela tem se dedicado totalmente a ser mãe, mas recentemente falou acerca da maternidade e foi muito criticada por isso. “A maternidade é tão idealizada, tão associada a um negócio divino, sagrado, como se a mulher virasse meio santa quando está grávida, que eu acho que as pessoas esquecem que tem uma pessoa real ali passando por isso.” Mesmo com as críticas de pessoas que não concordam que ela exponha essa visão nada romântica da maternidade, Pitty deixa bem claro que é importante falar a realidade do que uma mãe passa. Afinal, ser mãe não é aquele paraíso ensolarado que nos contam desde pequenas. É pesado demais passar por várias transformações em seu corpo, ter uma revolução hormonal gigantesca e ter de reorganizar toda a sua vida porque agora há um ser dependente de você – e, numa sociedade patriarcal, o esperado é que a mulher abdique de tudo sem se queixar de nada porque a dádiva da maternidade deve ser o momento de maior esplendor na vida de uma mulher. Exceto que não é bem assim. E Pitty expõe isso.

É importantíssimo o que ela está fazendo, falando abertamente sobre essas questões, porque sendo ela uma referência de mulher para muitas de nós, que crescemos ouvindo suas músicas, temos, assim, uma pessoa da nossa realidade brasileira falando sobre coisas como puerpério e querer sair pra beber e não poder porque se tem de cuidar da saúde durante a gravidez. Falar sobre como é complicado ter de parar de trabalhar, interromper sua carreira, para se dedicar exclusivamente à criança por vir.

Prestes a completar um ano do nascimento de Madalena, Pitty voltou aos palcos no mês passado, no festival João Rock 2017. Dentre vários artistas, ela era a única mulher presente – o  que é um absurdo, já que estamos em pleno 2017 e o que mais tem por aí são mulheres fazendo música, mulheres maravilhosas mostrando que já era essa história de rock é coisa de homem. Rock é coisa de quem quiser.

Dá pra ser mãe. Dá pra ser do rock. Dá pra ser tudo o que quiser – e é isso o que Pitty, nossa musa inspiradora do rock brasileiro contemporâneo, é.

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