LITERATURA TV

Píppi Meialonga: por uma representatividade positiva de meninas na Literatura Infantil

Conheci a personagem Píppi Meialonga através de uma antiga série de TV dirigida por Olle Hellbom em 1969 e protagonizada por Inger Nilsson. Na época, eu era ainda muito menina e não sabia que a produção tinha por inspiração o mundo das letras impressas; foi somente mais tarde que eu descobri que por trás das telas existiam páginas de papel. Além desta, houve outra adaptação cinematográfica, As Novas Aventuras de Píppi Meialonga, dirigida por Ken Annakin em 1988, e também uma série animada, As Aventuras de Píppi Meialonga, lançada em 1997. Todos esses enredos são baseados na coleção de três livros da escritora sueca Astrid Lindgren, editados entre 1945 e 1948. O primeiro livro da trilogia, Píppi Meialonga (no original, Píppi Långstrump), foi escrito inicialmente apenas como um presente para o aniversário de dez anos de sua filha, mas a história conquistou a todos e foi traduzida para cerca de 80 idiomas, do árabe ao zulu. Essa foi a obra de maior sucesso da autora e lhe concedeu diversos prêmios, entre eles, o prestigiado Hans Christian Andersen – maior prêmio de Literatura Infantil.

O livro Píppi Meialonga foi traduzido para o português por Maria de Macedo e ilustrado por Ingrid Nyman para a editora Companhia das Letras, pelo selo Companhia das Letrinhas, que posteriormente também lançou o segundo e terceiro livros, Píppi a Bordo e Píppi nos Mares do Sul. A série de narrativas é dividida em capítulos, cada um contendo um episódio completo e autônomo na vida de sua protagonista Píppi, uma menina esperta que mora sozinha, pois sua mãe faleceu quando ela era ainda bebê e seu pai, o capitão Efraim, perdeu-se no mar e foi parar em uma ilha distante. A história do primeiro livro inicia-se com Píppi chegando à terra firme, com “uma mala cheia de moedas de ouro“, indo viver em uma casa chamada Vila Vilekula, lugar que herdou do pai. Píppi compartilha a moradia com seu amigo, o macaco Sr. Nilson, e seu tão querido cavalo. Próximo a sua casa mora o casal de irmãos Tom e Aninha, dos quais Píppi logo se torna melhor amiga. Ao longo dos livros são contados vários episódios divertidos e curiosos que nos falam um pouco mais sobre Píppi, seus amigos e o local no qual mora.

Ainda na infância, eu, em minhas procuras solitárias na biblioteca, não encontrei os livros escritos por Lindgren, então cresci somente com a lembrança dos filmes e animação. Agora, já distante da época das tardes de brincadeiras e de livros ilustrados, fui novamente à busca do texto de origem para lê-lo. Talvez muitos se questionem: por que, já adulta, procurar por livros infantis? A resposta é: uma parte de nós nunca abandona a pureza da criança que fomos, e para além disso, muitas de nós é mãe ou tia ou irmã mais velha de uma pequena ou tem afeto por qualquer outra criança próxima e, se não formos nós o filtro de leitura delas, quem será? Ao ler um livro infantil você pode fazer desta experiência algo prazeroso para passar a diante, presentear uma criança com livros é dar a ela o acesso que talvez você não tenha tido. É preciso estimular a leitura durante a infância e, especialmente com meninas, é importante fortalecer seus valores através dos livros, a presença de personagens femininas bem construídas na literatura infantil funciona como uma referência positiva na formação da identidade de pequenas leitoras. Píppi Meialonga é uma dessas personagens que torna esse momento de identificação, inspiração e aprendizagem, possíveis.

Píppi chama a atenção já de imediato por sua aparência: é uma menina com o rosto cheio de sardas e de cabelo cor laranja dividido em duas tranças tão apertadas que ganham um aspecto espetado. Ela também confecciona suas próprias roupas e usa duas meias compridas (uma de cada cor!), o que enaltece seu estilo único de se vestir. Sua aparência, desde o início, denota sua autoconfiança, a menina importa-se pouco com as críticas alheias; ela, sabendo de seu valor, orgulha-se de ser como é.

Píppi é uma menina ousada, que mesmo tendo apenas nove anos, se vira sozinha em Vila Vilekula, tem autonomia e mostra-se autossuficiente: ela mesma é quem cozinha – mesmo que viva a base de biscoitos, panquecas e sanduíches – limpa e faz reparos na casa. Píppi é tão habilidosa que, ao mesmo tempo em que faz tranças no cabelo, amarra os sapatos. E tão forte que é capaz de levantar, sem qualquer ajuda, seu cavalo em seus dois braços. Detentora de tamanha força, ela faz questão de defender-se sozinha e, quando valentões aparecem em seu caminho, ela apanha-os pelos cintos e os pendura nos galhos de uma árvore. Não apenas isso, ela está sempre presente em defesa das pessoas que lhe são queridas, como quando enfrenta um touro para proteger seu amigo Tom ou quando de forma muito empática compra doces e brinquedos para as crianças pobres que estão a desejá-los. Píppi é uma heroína infantil que não usa máscara.

No entanto, ninguém é perfeito, e tudo bem, Píppi também não é. Píppi mantém certo desdém pelo mundo dos adultos e, por isso, às vezes pode parecer um pouco rude. Talvez isso seja fruto de Píppi ter tido que viver de forma tão autossuficiente, já que viver sem a presença constante de adultos também significou para Píppi viver sob suas próprias regras – Píppi anda para trás e abre a massa de biscoitos no chão da cozinha, atitudes condenáveis pelos adultos. Exatamente por isso ela não gosta muito de figuras de autoridade e arranja algumas discussões na escola, como quando irritou-se com sua professora por ela fazer perguntas cujas respostas já sabia ou quando não compreendeu ao certo o motivo de ter que limitar-se ao papel sendo que poderia estender seu desenho às paredes e ao chão. Por outro lado, esses mesmos elementos podem ser interpretados como um caráter de extrema espontaneidade e senso crítico; ser uma criança questionadora é essencial para desenvolver-se em um sujeito com opiniões transformadoras. Talvez isso nos mostre o quanto precisamos estimular as crianças a serem independentes. Píppi é um exemplo de criança imaginativa que pensa em formas inovadoras para resolver seus próprios problemas.

Como comenta Emy Beseghi, professora de Literatura Infantil da Faculdade de Ciências da Formação, da Universitá degli Studi di Bologna, “A escandalosa Píppi, a irredutível moleca, a irreverente, irônica e contestadora Píppi, é sempre atual. Um clássico ao qual se retorna continuamente”. Para a pesquisadora, este é um livro que “não conhece o desgaste do tempo” e sua personagem é “a resposta feminina a tantos livros que narram histórias de moleques. Todos do sexo masculino”. Píppi é um tipo de alteridade ingovernável e a própria autora comenta sobre a repercussão de sua libertária personagem ao dizer que, durante a década de 40, muitas de suas leitoras lhe escreveram já adultas para lhe contar “sobre o sentimento de libertação que experimentaram ao ler Píppi, e o quanto era importante que fosse uma menina (…)”.

Píppi Meialonga é uma personagem empoderada e destemida que em muito lembra a boneca Emília de Sítio do Pica-Pau Amarelo, série literária do autor brasileiro Monteiro Lobato. Ambas são personagens inteligentes, tidas como meninas “impossíveis”, sempre com uma resposta na ponta da língua e uma inabalável confiança em si mesma. Além delas, outras personagens meninas que são protagonistas de suas próprias histórias figuram em meio a Literatura Infantil, como a tão conhecida Alice, de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho (do britânico Lewis Carroll), personagem tão curiosa que sonha um mundo mágico, vivendo uma subjetiva passagem da infância para a adolescência. Enquanto, Mary Lennox, personagem de O Jardim Secreto (livro de autora inglesa Frances Hodgson Burnett) aprende às duras penas, lições de empatia e formas de continuar acreditando na magia do mundo. Já Sara Crewe, personagem de A Princesinha (também da autora Frances Hodgson Burnett), ensina como mesmo em um mundo tomado por horrores, é possível acreditar em si mesma e manter sua generosidade. Pollyanna, personagem principal do livro que leva seu nome (da autora norte-americana Eleanor H. Porter), nos mostra como manter o otimismo e a esperança diante das adversidades, assim como Anne Shirley, de Anne de Green Gables (da autora canadense L. M. Montgomery), cuja mente imaginativa a ajuda a transpor esses obstáculos. Matilda, protagonista de seu livro homônimo (do autor britânico Roald Dahl), nos apresenta como o mundo dos livros pode ser reconfortante para uma criança e envolvê-la em uma rede de força para consigo mesma. Na literatura brasileira também não faltam exemplos: Isabel, personagem de Bisa Bia, Bisa Bel (de Ana Maria Machado), fala de uma bonita relação entre neta e avó; Narizinho, de Reinações de Narizinho (de Monteiro Lobato), é uma personagem corajosa que desbrava um mundo de aventuras. Esses são apenas alguns exemplos, na literatura infantil contemporânea há muitas outras sugestões, dá até mesmo para enveredar pela Literatura de Cordel voltada para os pequenos, como o trabalho da autora Jarid Arraes.

Contudo, nessa bonita estante de Literatura Infantil, algumas prateleiras ainda precisam ser preenchidas: é necessária uma maior representação da diversidade de vivências infantis e para isso é essencial abrir mais espaço para histórias cujas personalidades e contextos abordem diferentes relações de classe social, gênero e etnias, assim como personagens de mobilidades físicas diversas. Faltam livros que dialoguem sobre as muitas constituições familiares e relações afetivas, por exemplo, e são também menos divulgados os livros infantis que tem como protagonistas personagens negras, asiáticas e indígenas. A Literatura Infantil é um diferencial na construção da identidade por possibilitar o acolhimento através da representação da criança em personagens e seus mundos, além de promover um processo educativo através dos valores que ali são compartilhados. Torcemos para que a leitura de fortes personagens infantis possa, cada vez mais, oferecer positivos referenciais às meninas leitoras, futuras mulheres que conhecem sua própria força.

Posts Relacionados

Comentários

Deixe um Comentário