CINEMA

A Piada Mortal não tem graça nenhuma

Quem gosta do universo dos quadrinhos e de super-heróis sabe que A Piada Mortal, HQ lançada em 1988 e escrita por Allan Moore e Brian Bolland, possui uma trama das mais controversas. Enquanto tenta contar uma história de origem para o vilão mais emblemático das histórias do Batman, o Coringa, os autores conseguiram transformar uma das personagens femininas mais interessantes da DC Comics, a Batgirl, em mero objeto e plot device. Se nos quadrinhos a história já era terrível e difícil de acompanhar, a animação, lançada agora em 2016 com roteiro de Brian Azzarello e direção de Sam Liu, só piora esse cenário.

Atenção: esse texto contém spoilers!

A história original é curta e, em teoria, não poderia render um filme muito longo, porém os responsáveis pela adaptação resolveram que seria uma boa ideia inserir uma história pregressa para Barbara Gordon, aka Batgirl, antes de entrarmos no roteiro original do quadrinho. Nesse prequel de cerca de 30 minutos acompanhamos Barbara em sua jornada enquanto “ajudante” do Batman. No combate ao crime, Batgirl age de maneira impulsiva e sem planejamento e tenta se provar o tempo todo, o que não ajuda em nada no momento de conceber a personalidade da personagem. Ao que parece, Barbara só quer se provar para Batman, seu mentor, e, para chegar a esse objetivo, acaba metendo os pés pelas mãos e entrando em uma armadilha planejada pelo primeiro vilão da história, o mafioso Paris Franz.

Franz não dá o menor crédito para Batgirl e faz piadinhas sexistas com ela durante todas as suas interações, o que nos fez revirar os olhos de descrença. Se a ideia de Azzarello era dar mais tempo de tela para Batgirl de maneira a fazer com que a personagem se tornasse mais complexa, ele errou completamente o caminho. Em uma das cenas entre Franz e Batgirl, o vilão chega a dizer que é aquele período no mês por que a heroína não consegue controlar sua raiva e o agride. Quer dizer então que para uma mulher “perder o controle” ela precisa estar no período menstrual? Errou rude e, pior, esse não é o único erro de um filme repleto deles.

Em outro momento, também durante os 30 minutos iniciais, Franz envia um vídeo para Batgirl onde a trata de maneira extremamente misógina e ela, enquanto isso, diz que se sentiu lisonjeada por ser alvo da atenção do mafioso. E aí Batman, em um exemplo claro de mansplaining (que ocorre quando um homem utiliza de toda sua dita “sabedoria” para dizer o óbvio para uma mulher) explica para a heroína que ele a está objetificando, numa condescendência totalmente desnecessária que, inclusive, permeia todos os minutos iniciais da animação. É quase como se Barbara fosse uma criança que precisa ouvir lições de moral do seu tutor em tempo integral ou como se não fosse mulher (!) e nunca tivesse sofrido com nenhum tipo de objetificação na vida, uma representação no mínimo ridícula, especialmente para uma personagem tão importante quanto ela.

A Piada Mortal 1

Mesmo a sua raiva, que poderia ser utilizada de forma positiva e empoderada, se torna um elemento bastante controverso. Ainda que a força física feminina seja um ponto importante e necessário dentro desse universo, ela não é utilizada como um traço de empoderamento na trajetória da personagem, e se transforma numa qualidade vazia que não serve pra nada além de transformar Barbara numa mulher descontrolada e emocionalmente instável, que não é capaz de separar seu trabalho como Batgirl dos sentimentos que nutre pelo Homem-Morcego. Em determinado momento, Barbara chega a agredir um homem completamente aleatório que discutia com a namorada, não porque a mulher precisasse de ajuda, mas simplesmente porque essa foi a forma que ela escolheu para extravasar toda sua frustração.

Grande parte das ações de Barbara no filme se resumem a dois tópicos: os descontrole emocional e o anseio por Batman. A personagem ocupa a maior parte de seu tempo pensando no Batman, falando sobre o Batman. Batman, Batman, Batman. Será mesmo que alguém ainda compra essa ideia de que a vida de uma mulher se resume aos seus relacionamentos amorosos?

Como se isso já não fosse suficiente, ainda temos a objetificação da personagem em diversas cenas completamente desnecessárias. Closes do corpo de Barbara aparecem durante todo o filme e ela ainda fica de roupas íntimas em duas ocasiões para simples deleite do público masculino que estiver assistindo – o chamado male gaze. O ápice de toda a lambança do roteiro, no entanto, acontece quando, após uma discussão acalorada com o Homem-Morcego, os golpes de luta entre Barbara e Bruce se transformam em sexo no telhado de um dos edifícios de Gotham. Como se não bastasse o nível bizarro da cena – uma briga que se transforma em sexo, um dos maiores clichês da cultura pop – ainda tem o fato de que, no original, Batman e Batgirl serem parceiros na luta contra o crime e a relação entre eles é de mentor e aluna, não há nada de sexual. Ao que tudo indica, os roteiristas entenderam que seria interessante para a motivação de Batman inserir um relacionamento mais íntimo entre os dois para que a caçada ao Coringa, mais tarde, fosse embutida com mais urgência e sentimento. Agora Batman não está apenas caçando um vilão psicopata, mas também está em perseguição ao homem que ousou agredir o objeto de sua atenção.

Não é a primeira vez que vemos uma personagem feminina ser utilizada como motivação para desenvolvimento de um personagem masculino ou como gatilho para que uma história se desenvolva, sacrificada em prol de um “bem maior” ou qualquer coisa assim. Mas até quando ainda vamos ter que assistir essas mulheres serem usadas como meros objetos até que alguém perceba que, opa, é preciso tratá-las com mais cuidado também? Que essas mulheres são seres-humanos e merecem histórias tanto quanto qualquer homem que sai dando porrada por aí nas horas vagas?

A Piada Mortal 2

Mesmo que o filme tente traçar um paralelo entre o passado do Coringa e o ataque à Barbara – que pode ser encarado como uma tentativa do vilão de fazer com que o Batman sofra aquilo que ele mesmo viveu no passado – não deixa de ser problemático pensar que sim, ela só serviu pra isso mesmo. Barbara é ferida, perde o movimento das pernas e é agredida sexualmente, tudo para que o Batman tenha uma motivação a mais para ir atrás do Coringa.

Toda essa situação no faz pensar imediatamente no termo criado pela quadrinista norte-americana Gail Simone, o women in refrigerators (mulheres no refrigerador). A expressão surgiu de uma observação de Gail a partir de uma das histórias do Lanterna Verde em que o herói encontra sua namorada morta dentro de sua geladeira e tem por intuito descrever todas as mulheres que foram mutiladas, violentadas e mortas em histórias em quadrinhos com a única finalidade de servir de motivação para personagens masculinos prosseguirem em sua missão/ história.

E aqui nós questionamos: qual a necessidade de tudo isso? Será que um herói nunca vai ser capaz de fazer seu trabalho sem ter uma motivação pessoal (e extremamente problemática) por trás?

Além do mais, é impossível deixar de pensar que, apesar de todos os traumas sofridos por Barbara, em momento algum Batman deixa de tentar fazer com que ele e o Coringa trabalhem juntos, e sugere que o vilão passe por algum tipo de reabilitação que possibilitaria o feito, ao que o Coringa responde que não, isso não será possível. O vilão então conta uma piada e como se o show de horrores que assistimos até então não fosse o suficiente, A Piada Mortal coroa toda sua bizarrice com uma cena absurda dos dois personagens gargalhando da mesma piada. Enquanto isso, nós só conseguíamos lembrar que em algum hospital de Gotham, Barbara estava deitada numa cama, incapaz de sentir as próprias pernas e sofrendo por todas as agressões pelas quais passou ao longo da história, fossem elas físicas ou não, muitas cometidas justamente pelo cara com quem seu mentor agora dá altas gargalhadas. Se essa não é uma situação absurda e extremamente problemática (pra dizer o mínimo do mínimo), nós realmente não sabemos o que é.

Ao final do filme temos uma pequena cena que mostra Barbara em sua nova vida na cadeira de rodas e se transformando na Oráculo, mas sabemos que a criação da heroína não é mérito algum dos roteiristas originais de A Piada Mortal. Assim como aquele prequel desnecessário de 30 minutos não faz parte do quadrinho original, tampouco faz a cena final. Desgostosa a respeito da maneira como a DC tratou Barbara Gordon, a editora e roteirista de quadrinhos Kim Yale, junto de seu marido John Ostrander, introduziram a Oráculo em uma revista do Esquadrão Suicida de 1989. Somente um ano depois foi revelado que a hacker que oferecia ajuda anonimamente para o grupo de super vilões era, na verdade, Barbara. Também em 1990 a personagem apareceu em um quadrinho do Batman e, em 1996, recebeu uma história de origem em Oráculo: Ano Um.

A Piada Mortal 3

Após os eventos de A Piada Mortal, que originalmente não fariam parte do cânone da DC, foram necessários anos para que uma história sobre Barbara, sua depressão e trauma fosse contada de maneira apropriada, colocando a personagem novamente no controle da própria trama. O roteirista Chuck Dixon provou que Barbara Gordon ainda poderia ser uma personagem importante colocando-a como líder do grupo de heroínas, as Aves de Rapina, em quadrinhos que foram escritos e publicados por mais de vinte anos interruptos. Por meio de tais histórias, Oráculo não era mais apenas uma hacker que conseguia informações privilegiadas, mas alguém a quem até mesmo a Liga da Justiça recorria em momentos de necessidade.

Apesar de atualmente fazer parte do cânone da DC como uma heroína tetraplégica e importante líder das Aves de Rapina, o percurso percorrido por Barbara até aqui não foi nada lisonjeiro. É de conhecimento geral de que o conteúdo de A Piada Mortal passa longe do aceitável no que diz respeito ao tratamento de uma personagem feminina (mesmo o Comissário Gordon, agredido e violentado no mesmo filme, não passa por metade dos estereótipos pelos quais passou Barbara), mas sua versão animada perdeu a chance de colocar um pouco de sentido em todo esse absurdo. Em pleno 2016 adaptar uma história que utiliza uma personagem feminina como mero recurso de roteiro é um completo desserviço.

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Crítica escrita em parceria por Ana Luíza e Thay

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3 Comentários

  • Responda
    Cleber
    10 de agosto de 2017 at 18:57

    Toda a crítica é válida, mas (sempre esse “mas”) a HQ foi escrita na década de 80 e fez um sucesso considerável justamente por ser… BIZARRA.
    A trama gira em torno de toda essa bizarrice, complexidade e loucura que existe no conceito de “herói”.
    O autor considera a história como uma chacota, uma crítica, uma ofensa as heróis e a todos que consomem essa idéia.
    Ele colocou o Batman como um sujeito tão louco quanto o Coringa. Ninguém é são e tampouco ético. Ali só tem doentes.
    A Bárbara Gordon foi só um objeto mesmo, e some-se a esse fato todo o machismo presente na década de 80.
    O próprio autor (Allan Moore) confessou recentemente que no último quadrinho da HQ o Batman mata o Coringa.
    Enfim… a análise devia levar em conta também o porquê dos leitores “endeusarem” um autor que os acha ridículos.
    O porquê do bizarro ser tão cultuado, admirado e fazer sucesso.
    A animação tem como alvo esse público que curte o bizarro, que curte a loucura. Que subverte, que tem um desejo reprimido de ser “vida loka” e sair por aí como um cachorro louco pela raiva (doença).
    Neste sentido imagino que é o último lugar em que se possa procurar algo que edifique o empoderamento feminino. A intenção não vai nesse sentido.
    De qualquer forma, belo texto. Gosto muito do site de vocês e aprendo sempre algo que antes eu desconhecia ou ignorava.
    Abração.

  • Responda
    Thay
    10 de agosto de 2017 at 21:37

    Obrigada pelo comentário, Cleber!
    A ideia não era procurar algo “que edifique o empoderamento feminino”, como você disse, em A Piada Mortal. O que a gente procura quando assiste a qualquer filme, inclusive um baseado em uma HQ, é que as personagens femininas da trama sejam tratadas como pessoas completas, não apenas como apoio de roteiro ou meros objetos narrativos. A gente sabe que a história original é bem bizarra, mas Barbara realmente precisava passar por tudo aquilo a troco de servir como motivação para o Batman ir atrás do Coringa? Nosso questionamento na crítica é simples: será que um herói precisa mesmo de uma motivação pessoal (e problemática) como essa para realizar seu trabalho? Fica a reflexão. (:

    • Responda
      Cleber
      10 de agosto de 2017 at 21:40

      😉

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