LITERATURA

Perigo das garotas adolescentes

Quando você é uma garota, ser fã de ficção assustadora e dark pode ser um pouco frustrante. Você lê livro atrás de livro e em todos eles as mulheres são a) vítimas indefesas, b) interesses românticos igualmente indefesos, ou c) vilãs unidimensionais cuja maldade é diretamente ligada a serem mulheres (normalmente rejeitadas). É raro ver mulheres como heroínas dessas histórias, mas ainda mais raro vê-las como anti-heroínas bem construídas – um nicho que, há muito tempo, é repleto de homens brancos charmosos e espertos.

E quanto a garotas adolescentes? Se mulheres adultas já estão restritas a essa simples rotação de papéis, adolescentes talvez estejam numa situação ainda pior: elas são ou especialmente indefesas ou especialmente más, escritas como inteiramente desprovidas de agência, a não ser que tal agência seja usada para seduzir um pobre e indefeso homem (adulto). É difícil ser uma garota, mesmo se ela for só imaginária, restrita a papel e tinta e à imaginação superficial de homens adultos que não conseguem vê-las pelo que realmente são: pessoas.

Felizmente, alguns escritores têm tentado mudar essa paisagem inóspita nos últimos dez ou quinze anos, escrevendo personagens femininas adolescentes interessantes e multidimensionais que podem ser tão complexas e assustadoras quanto seus equivalentes masculinos.

“É isso que ninguém entende. Nos veem como coisinhas belas e perfeitas, envernizadas, brilhantes e cobertas de lantejoulas, e riem, zombam, se excitam. Não entendem nada. O glitter, o brilho, a mágica? São pinturas de guerra, são plumas e garras, são sacrifício.” (Megan Abbott, Dare Me)

Animadoras de torcida são sempre retratadas na TV e no cinema como garotas bonitinhas, fofas e animadas – como a Torrance de As Apimentadas – ou como garotas cruéis, metidas e sensuais – como Brittany (Heather Morris), Quinn (Dianna Agron) e Santana (Naya Riveira) de Glee. Elas não costumam ser exploradas como personagens complexas, atletas dedicadas praticando um esporte tão tradicionalmente feminino e adolescente, dedicadas a uma arte que envolve tanta performance e força física. Isso é, até Dare Me, da Megan Abbott, uma ode ao lado perigoso das adolescentes que sabem – bem demais – o que esperam delas e como elas são frequentemente subestimadas, desprezadas e deixadas para trás. Abbott não teme explorar os aspectos complicados e turvos de ser uma garota adolescente, seja a possível crueldade de um time, as obsessões exageradas de uma amizade (The End of Everything) ou o mal infiltrado da (literal) histeria em massa (A Febre).

Tease, da Amanda Maciel, e Some Girls Are, da Courtney Summers, exploram os temas de bullying e slut-shaming, mas do ponto de vista daquelas que cometem esses atos. Em vez da perspectiva relativamente externa que observamos em filmes (sejam eles mais leves ou mais pesados) como Meninas Malvadas, Heathers e Jawbreaker, nos livros de Maciel e Summers nós mergulhamos na cabeça de adolescentes populares e cruéis, agora decadentes – garotas que tiveram que encontrar seu canto no espaço que podiam e lutar por ele com unhas e dentes, garotas que acreditaram no que aprenderam sobre competição, inveja e poder, sobre santas e piranhas, sobre a hierarquia social imutável que elas deveriam manter. Sara Wharton e Regina Afton, as protagonistas dos livros, acreditaram em tudo que ouviram sobre si mesmas e, ao agir de acordo, foram punidas e criticadas. Suas histórias são, justamente, repletas de desculpas e arrependimentos – em ambos os livros, suas ações tiveram impactos muito negativos em outras pessoas –, mas dolorosamente cientes da fraude que é esse jogo.

Histórias sobre mulheres aparentemente perfeitas que acabam se revelando criminosas cruéis e manipuladoras existem aos montes – de thrillers eróticos dos anos 90 ao mais recente best-seller Garota Exemplar –, mas escrever uma dessas histórias com uma protagonista adolescente é raro e difícil de acertar. Surpreendentemente, um homem foi bem-sucedido na tarefa. Não tão surpreendentemente assim, esse homem é Daniel Handler, mais conhecido por seu pseudônimo Lemony Snicket. The Basic Eight nos apresenta Flannery Culp, uma das minhas personagens fictícias favoritas, e seu grupo de amigos pretensiosos e privilegiados de São Francisco (que lembram A História Secreta de Donna Tartt, outro dos meus favoritos).

Flannery está no último ano do colégio, escreve em seu diário e participa de aulas de teatro; ela também é uma assassina. Evitarei spoilers, já que é um livro que depende muito de mistérios, ilusões e reviravoltas, mas o xis da questão é a crença inteiramente racional de Flannery sobre a inevitabilidade de suas ações, o resultado, mais uma vez, de acreditar no mito da garota adolescente e, especialmente, da sua relação com o garoto adolescente.

“A última vez que eu senti tanto nojo de um garoto foi quando era pequena, quando eles enchiam o saco das garotas no recreio, chutando e jogando areia e falando com uma voz alta, aguda e zombeteira. “Eles fazem isso porque gostam de vocês”, todos os adultos diziam, rindo como abóboras no Halloween. Acreditávamos neles, na época. Na época achávamos que era verdade, e nos sentíamos atraídas por aquela maldade porque significava que éramos especiais – deixe que nos chutem, deixe que gostem de nós. Gostávamos deles também. Mas agora parecia que nossos primeiros instintos estavam certos. Garotos não eram cruéis porque gostavam de nós; é porque eram mesmo cruéis.”  (Daniel Handler, The Basic Eight)

Não há vitória para garotas adolescentes. Elas são hipersexualizadas mesmo que se espere um ideal impossível de pureza, eternamente suspeitas mesmo que se espere que ajam de forma exemplar, julgadas por serem obedientes demais mesmo que se espere que obedeçam cegamente e não tenham opiniões. Garotas adolescentes vivem em um espaço constante de erro, tentando navegar os limites e regras sobrepostos e por vezes contraditórios impostos pela família, pela escola e pelos amigos.

Ser uma personagem fictícia não ajuda.

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2 Comentários

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    Amanda Aragão
    24 de julho de 2016 at 17:13

    que texto ótimo! O Valkirias já se tornou um dos meus lugares favoritos nessa internet. <3

    mas, gente, faltou Vivian Contra o Apocalipse nesse texto. COLOCA ELA AÍ URGENTE! rs! o livro é sensacional. fala sobre amizade (sororidade verdadeira), família, religião e até amor sem nenhum clichê e com personagens fortíssimas, que crescem muito ao longo do livro. Katie Coyle merece menção honrosa nessa lista!

    • Responda
      Sofia Soter
      25 de julho de 2016 at 00:24

      obrigada por gostar e comentar! <3

      mas acredita que eu ainda não li vivian contra o apocalipse? pecado, sei bem. várias amigas já me indicaram e mesmo assim ainda não comecei, mas com esse comentário acho que preciso mesmo começar asap! quem sabe até rola um textinho só sobre o livro depois? super obrigada pela indicação tão entusiasmada! (:

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