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Penny Dreadful e os terrores da Londres vitoriana

Não sei se é uma benção ou uma maldição que Penny Dreadful tenha se tornado uma das minhas séries favoritas de todos os tempos. Lançada em 2014, a série criada por John Logan oferece tudo aquilo que uma pessoa medrosa como eu jamais esperaria gostar – vampiros! lobisomens! possessões! bruxas que tomam banho numa banheira de sangue! etc, etc – e, ainda assim, foi capaz de conquistar irreversivelmente o coração desta que vos escreve.

Atenção: o texto pode conter spoilers!

Ambientada em Londres durante a era vitoriana, a série conta a história de Vanessa Ives (Eva Green), uma mulher misteriosa e cheia de segredos que desde muito nova passou a ser atormentada por espíritos malignos – coisa que, naquela época, ela não era capaz de compreender. Sua mediunidade surge ainda na infância, quando Vanessa passa a ouvir vozes que a levam a cometer pequenos – e até então, inofensivos – atos de maldade e que abrem seus olhos para a complexidade das relações humanas. Com o passar do tempo, no entanto, suas ações se tornam mais sérias e trazem consequências que mudam para sempre a vida de todos ao seu redor.

Entretanto, é quando sua melhor amiga de infância, Mina Murray (Olivia Llewellyn), desaparece que Vanessa inicia verdadeiramente sua jornada, indo de encontro aos monstros e fantasmas que a atormentaram por tantos anos e, consequentemente, de sua própria redenção. Ao lado de Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton), ela parte em busca da amiga em um universo fantástico repleto de criaturas malignas que a desejam possuir acima de tudo e que ela luta para combater com todas as suas forças.

A série se desenvolve de maneira fluida e intensa, e constrói uma aura de suspense e mistério que abraça todas as três temporadas sem falhar em momento algum. Diferente de produções que apostam num terror escancarado, o medo em Penny Dreadful cresce muito mais pelas sensações que provoca do que, necessariamente, pelos monstros que assombram os personagens. A ameaça se faz presente de formas por vezes subjetivas e se mantém à espreita, escondida entre meros mortais e assumindo papéis muitas vezes inesperados enquanto espera pelo momento certo de atacar.

Penny Dreadful 2

Isso não significa que a série não tenha seus momentos dignos do mais tradicional filme de horror. A diferença, no entanto, reside na forma como os elementos são introduzidos na trama, fornecendo a dose necessária de sustos capaz de fazer até o mais cético espectador dormir com as luzes do quarto acesas. Se o mal pode estar em qualquer lugar, é certo que ninguém está a salvo – pelo menos, não em Penny Dreadful.

Embora apresente monstros muito conhecidos e construa sua mitologia em cima de fontes já consolidadas, a série se permite fazer as próprias interpretações e inovar dentro de um gênero que muitas vezes peca ao apostar nos mesmos clichês over and over again. Suas referências partem desde o Egito Antigo até os clássicos como Frankenstein, Drácula e O Retrato de Dorian Gray, passando por bruxas, bonecos ventríloquo, tarô e possessões que sempre vão além dos olhos pretos e das vozes alteradas já tão comuns nesse tipo de representação.

Além disso, a presença de personagens famosos da literatura acrescenta mais nuances à mitologia da série, o que enriquece e dá maior profundidade à trama. Se em qualquer outra circunstância pareceria uma missão impossível unir as obras de Mary Shelley, Bram Stoker e Oscar Wilde sem automaticamente transformar tudo numa farofa fadada ao fracasso, Penny Dreadful prova que é, sim, muito possível trazer todos esses elementos e personagens de forma coesa e bem amarrada que, em conjunto com uma trilha sonora espetacular e uma direção de arte primorosa, constroem um universo diegético único e muito, muito especial.

Se o mistério e a fantasia são partes fundamentais da premissa, responsáveis pela dose de horror em uma trama que, por si só, celebra o melhor que existe no gênero, são seus personagens o grande trunfo de Penny Dreadful. Ainda que possuam papéis de importância distintas dentro da história, todos são construídos de forma muito delicada e possuem trajetórias individuais tão complexas quanto os centrais. A série busca explorar o lado mais obscuro de cada um de forma profunda, sem apelar para dramas desnecessários e mostra que, embora sejam pessoas essencialmente boas, existem muito mais nuances entre bem e mal do que acredita nossa vã filosofia. Todos, ao seu próprio modo, buscam por uma espécie de redenção, que vem (ou não) nas mais diferentes formas.

Penny Dreadful 3

Redenção, aliás, talvez seja a palavra que melhor descreve a jornada das pessoas que, de algum modo, contam essa história. Da mulher atormentada por criaturas malignas que assistiu a vida de todos aqueles que amava ser irreversivelmente modificada até o pai que busca em sua jornada atrás da filha uma maneira de fazer as pazes com seus próprios fantasmas, passando pelo filho que destruiu a própria família e pelo médico que cego pela própria ambição se acha capaz de borrar as linhas que separam a vida e a morte; todos buscam uma forma de se redimir dos próprios pecados.

Embora a religião seja um fator importante na trama – Vanessa Ives, por exemplo, é uma mulher extramente religiosa e a sua fé determina muito da maneira como seu arco dramático é desenvolvido –, a série passa longe de ser conservadora e nunca banaliza as ações e escolhas de seus personagens – para o bem e para o mal. Talvez por isso seja tão fácil se importar com todos eles, inclusive aqueles que surgem de forma pontual. Humanos ou não, todos os personagens assumem características muito humanas e mostram que, mesmo cheios de boas intenções, todos estamos sujeitos a nos transformarmos nos monstros da história de alguém. Ao entrelaçar os arcos desses personagens, construindo relações tão distintas, Penny Dreadful explora infinitas possibilidades de interações e representações que se tornam essenciais para a construção desse universo.

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Ao abandonar as amarras socialmente impostas pela moral e questionar o status quo dentro de seu universo próprio, a série abre espaço para discussões pertinentes também para o nosso tempo e levanta questões que ainda são tratadas como tabus sem, no entanto, torná-las deslocadas ou mesmo uma representação vazia que nunca é capaz de estimular o diálogo verdadeiramente, mas que se apoia em causas importantes para vender a si mesma. Embora cometa alguns deslizes pelo caminho, Penny Dreadful consegue trazer discussões sobre religião, sexualidade, aborto, maternidade, gênero e o papel da mulher na sociedade de forma bastante eficiente, sem se apoiar em juízos de valor.

É ingenuidade acreditar que a série não esteja carregada de opiniões que refletem, acima de tudo, o olhar daqueles que constroem a história – um olhar que, por vezes, acaba caindo em estereótipos comuns, como é o caso de Brona/Lily (Billie Piper) que encontra justificativas para suas ações na perda da filha e alcança sua redenção ao assumir a figura de mãe. No entanto, a série acerta em não exercer de forma autoritária uma influencia sobre a opinião de quem assiste, permitindo que o espectador encontre respostas por conta própria e tire a partir daí suas conclusões, partindo de experiências e repertório pessoal, ao mesmo tempo que apresenta uma visão libertadora sobre a complexidade e ambiguidade do ser humano. Em uma de suas citações mais marcantes, a série mostra que está aí para celebrar as diferenças e aquilo que é incomum, e quem não estiver disposto a acompanhá-la nessa jornada que dê meia volta e saia já daqui.

Em um mundo marcado pelo conservadorismo – que retorna de forma assustadora para nossas vidas e traz consigo inúmeros retrocessos – Penny Dreadful é uma bela e delicada metáfora que mostra, acima de tudo, que o mundo é um lugar muito mais complexo do que acredita nossa vã filosofia. Entre monstros sedentos por sangue e demônios em busca de poder, existe um mundo inteiro a ser explorado e uma vez que enxergamos isso, não há dúvidas: é impossível voltar atrás.

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