LITERATURA

A Glória e Seu Cortejo de Horrores

Rio de Janeiro sempre foi, para mim, uma cidade decadente. Mesmo que eu nunca tenha realmente morado lá, eu sempre senti o peso da história que nunca chegou a ser o que prometia, o peso de gerações passadas, o peso da minha família. Meus pais vieram do Rio para São Paulo no final da década de 1980 e desde então minha família nuclear é mais paulistana que carioca, mas sempre que visito a cidade eu volto a sentir esse peso. O peso é totalmente uma invenção da minha cabeça, eu sei disso. É irracional porque nunca morei no Rio, eu apenas viajei para lá de uma a duas vezes por ano durante todos os anos da minha vida. Continue Lendo

CINEMA

Crítica: Em Pedaços

Muitas vezes temas que são polêmicos e muito abordados nas grandes mídias, quando vistos sob uma ótica mais próxima, ficam nebulosos, inexatos e difíceis de entender. No final, o caminho mais fácil (e talvez o certo) é o de entender que muitas coisas funcionam como um espectro, e que a cor predominante é o cinza. Muitas temas estão nessa área cinza.

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LITERATURA

As Irmãs Romanov: as filhas do último tsar

Lembro bem até hoje: era véspera de Natal, eu tinha nove anos e estava passando na TV Anastasia, animação que conta a história da princesa russa perdida durante a Revolução de 1917 e que por fim acabou reencontrando a avó e vivendo seu próprio conto de fadas. Aquela animação me fascinou e por muitos anos realmente acreditei que fosse baseada em uma história real. Até que, um dia, o advento da internet chegou à minha vida e eu pude finalmente pesquisar sobre a menina Anastasia e o que realmente havia acontecido com ela, para só então descobrir que ela e suas irmãs não tiveram o final feliz que eu havia visto quando criança, mas um fim terrível e cruel.

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LITERATURA

Entre versos e samambaia: o encontro de Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares

Elizabeth Bishop

Em 1951, saía do porto de Nova York um navio cujo destino era a Terra do Fogo, no Chile, e sua primeira parada seria no porto de Santos, em São Paulo. Dentro dele uma mulher, então com 40 anos, afastava-se de seu passado deixando-o na margem às suas costas. No horizonte, ela avistava um respiro em meio às lembranças que ainda ardiam como feridas abertas: a perda de seu pai meses após seu nascimento e, aos 5 anos, o distanciamento da mãe que, por não suportar a ausência do marido, sucumbe à dor e é internada em um manicômio. Órfã, a menina passa a infância em meio aos lares de parentes na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts (EUA), em um deles sofre abusos de um tio, caso que viria a ser relatado apenas anos mais tarde a sua psiquiatra Megan Marshall. Lembranças como essas, mesmo na vida adulta, invadem seu corpo em constantes surtos de eczemas e fortes ataques de asma alternados a episódios de depressão e alcoolismo.

“Que estranha você é, vista de dentro”

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TV

Anne With an E: mais alcance para a imaginação

De autoria da escritora canadense Lucy Maud Montgomery e publicado originalmente em 1908, o livro Anne of Green Gables já recebeu inúmeras versões cinematográficas, mas isso não impediu a Netflix de fazer sua própria versão intitulada de Anne with an E, em 2017 – e que sorte a nossa! A história da órfã Anne Shirley, enviada por engano para a fazenda dos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert, cativou gerações de leitores ao redor do mundo desde seu lançamento – a obra já foi traduzida para mais de 20 idiomas além de ter vendido cerca de 50 milhões de cópias – e retorna com outra roupagem por meio do serviço de streaming para encantar novos fãs. Com criação de Moira Walley-Beckett, responsável por alguns episódios de Breaking Bad, a nova Anne veio para ficar.

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