TV

The Bold Type: mulher ajuda mulher

Há mais ou menos quatorze anos Regina George, a icônica personagem de Meninas Malvadas (2004, dirigido por Mark Waters), interpretada por Rachel McAdams, recebia em alto e bom som que “you can’t sit with us” [“você não pode sentar com a gente”, em tradução livre]. Anos mais tarde, a frase serviria para dualizar grupos – geralmente femininos –, em uma tentativa ferrenha de provar que o meu, o seu, e o nosso grupo era melhor do que aquele da pessoa do lado. Ou do que a pessoa do lado. Entre usar rosa nas quartas-feiras e uma campanha que buscou ensinar a garotas que you CAN sit with us [você pode sentar com a gente], anos se passaram e com eles vislumbramos, aos poucos, a queda de uma ferramenta narrativa há muito utilizada nas produções para cinema e TV: a de colocar mulher contra mulher. Entre filmes e séries que, a partir de então, enalteceriam a amizade feminina, foi em 2017, na tímida emissora televisiva Freeform, que teríamos uma das melhores novas produções do gênero: The Bold Type.

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CINEMA TV

Os estereótipos da mulher latina nas produções hollywoodianas

No cinema e TV norte-americanos, as mulheres latinas são vistas sob duas óticas opostas: uma mulher jovem de corpo curvilíneo, bronzeado e incrivelmente sexy, ou uma mulher “madura”, pouco atraente e frequentemente no papel estereotipado de Empregada Latina. O segundo estereótipo costuma passar tão despercebido que os nomes das atrizes que o interpretam são pouco fixados em nossas memórias. Já o primeiro perfil desdobra-se em dois estereótipos amplamente utilizados nas telas: a Mulher Latina Sexy, como a personagem de Penélope Cruz no filme Zoolander 2, dirigido por Ben Stiller, de 2016, e a Mulher Cabeça-Quente, que é tão extravagante quanto bonita, como a ruidosa personagem de Sofia Vergara na série televisiva Modern Family, no ar desde 2009. Citar uma atriz consagrada em Hollywood, como Penélope Cruz (de origem espanhola), e a atriz Sofia Vergara (de origem colombiana), atualmente a mais bem paga da TV norte-americana, é importante para demonstrar que nem mesmo elas conseguem se descolar do perfil “mulher latina” e que esses não são estereótipos antigos que já caíram em desuso pela produção hollywoodiana. Os estereótipos da mulher latina nessas produções persistem como uma equivocada representação. Continue Lendo

TV

Xica ou Chica da Silva: o estereótipo da negra quente e sedutora

Há 21 anos, em setembro de 1996, estreava a primeira telenovela com protagonista negra da história do Brasil. A história de Xica da Silva, interpretada pela maravilhosa Taís Araújo, misturava ficção e realidade para contar a trajetória de Francisca da Silva de Oliveira, mulher que saiu da condição escravizada ao se casar, no século XVIII, com um nobre contratador do interior de Minas Gerais. A produção exibida pela Rede Manchete não foi a primeira a ter Francisca/ Xica/ Chica como foco. Figura mítica por ter conseguido ascender à alta sociedade, a ex-escravizada já havia sido tema de livros e de um filme estrelado por Zezé Motta nos anos 1970.

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LITERATURA

A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil – um ninho de penas entre as estrelas

O primeiro título de ficção científica do selo DarkLove, da DarkSide Books, não poderia ter sido melhor escolhido: A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil, escrito pela norte-americana Becky Chambers, é um daqueles livros que vão te impactar do começo ao fim. Unindo uma história de viagem espacial ao desenvolvimento pessoal de cada personagem, a trama escrita por Becky é capaz de nos fazer viajar pelas estrelas e entender a importância de conviver com as diferenças. Se somos cada um especiais e importantes à nossa maneira, porque não encarar nossas diferenças como algo a ser aceito e compreendido?

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CINEMA MÚSICA

Stefani Coração de Diamante: a vulnerabilidade de Lady Gaga

“I might not be flawless but you know I got a diamond heart” [Eu posso não ser perfeita, mas você sabe, eu tenho um coração de diamante] diz o refrão da primeira faixa de Joanne, álbum mais recente de Lady Gaga, lançado ano passado. Embora pareça uma declaração simples – afinal, poucas pessoas além de Beyoncé podem se dizer infalíveis sem gaguejar – essa confissão de humanidade surpreende quando olhamos para quem é que está falando. Minha sequência favorita de Five Foot Two, mais recente documentário sobre a cantora, é uma montagem de vários momentos que mostram Gaga tentando entrar ou sair do carro rodeada por uma horda de fãs, usando seus figurinos marcantes, óculos escuros, perucas absurdas – lembro que, quando ela surgiu, em 2009, sua figura era tão imponente, impenetrável e desconcertante que eu tinha dificuldades até de assimilar como era seu rosto de verdade – intercalada com a filmagem de Gaga encontrando fãs ano passado, pouco antes do lançamento do disco: de short jeans, camiseta branca e delineador borrado, a cantora dá autógrafos e tira fotos com todos, mas seu olhar é vazio. Dá pra ver bem o seu rosto, e ele mostra que ela está perto de ter um ataque de pânico.

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CINEMA

Entendendo a romantização de transtornos mentais na ficção: o caso de Shangri-La Suite

No ano passado, a Obvious Mag publicou um texto que buscava discutir a romantização de transtornos mentais em diferentes obras do cinema mainstream. As Virgens Suicidas, Garota, Interrompida e o Lado Bom da Vida eram algumas das produções citadas pela autora, Raquel Avolio, cuja similaridade estava ligada ao fato de todas, em maior ou menor escala, tratarem a depressão, o suicídio, distúrbios alimentares, a ansiedade e o sofrimento de seus personagens como algo fascinante. Meninas adolescentes, para as quais a tristeza havia sido fatal, são retratadas com graciosidade, beleza e muitos tons pastéis, enquanto hospitais psiquiátricos transformam-se em lugares aconchegantes onde garotas cantam e tocam violão escondidas de madrugada, quase como se o diagnóstico as tornassem mais complexas e interessantes, e suas jornadas, invariavelmente mais poéticas.

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