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Owen Hunt, o melhor pior homem de Grey’s Anatomy

Existem coisas que a gente não enxerga de cara por N motivos. O motivo mais comum é que a coisa em questão é algo tão corriqueiro que nosso cérebro não se dá ao trabalho de registrar. É por isso que eu me questiono todos os dias, quando já estou no ônibus, se tranquei a porta de casa; e é por isso que eu precisei reassistir mais da metade das 12 temporadas já lançadas de Grey’s Anatomy para perceber como todos os homens da série são bostas (e uma representação muito fiel da realidade).

Eu tentei, com muito afinco, achar um homem na série toda que fugisse a essa regra, mas os melhores que encontrei foram — por incrível que pareça — Mark Sloan (Eric Dane) e Alex Karev (Justin Chambers). Aconselho lerem esse texto com cuidado porque vai conter spoilers (se é que acontecimentos de muitas temporadas atrás ainda podem ser considerados spoilers).

A questão é que machismo é uma coisa sistêmica. É muito mais do que chamar mulher de vadia e dizer que lugar de mulher é na cozinha, é muito mais do que bater em mulher. O machismo está em toda a sociedade, em todos nós, e age de maneiras veladas que muitas vezes nós não conseguimos ver a olho nu.

Um caso clássico é a famigerada friendzone, na qual homens passam a acreditar genuinamente que têm direito à afeição feminina porque são Caras LegaisTM e que é absurdo que as meninas não reconheçam isso e caiam de amor por eles — e como em todas as nossas vidas nós também nos indignamos com esse absurdo, sem nos darmos conta de que ninguém é obrigado a ter interesse romântico no outro só porque a pessoa é legal. Esse é o exemplo mais leve e tosco que eu consegui pensar. (E talvez eu esteja dando esse exemplo por causa de um personagem já falecido que eu não vou dizer qual é O’Malley.)

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A princípio eu ia escolher um punhado de personagens que têm atitudes machistas menos descaradas — como o tão amado McDreamy (Patrick Dempsey) e o Richard (James T. Pickens), que além de arrogantes tratam as personagens femininas com paternalismo em um milhão de ocasiões diferentes – para mostrar como ninguém está livre disso, mas então eu cheguei até um personagem específico e achei melhor focar nele, porque já é material mais que o suficiente para um livreto.

O que me faz querer chorar aqui é que é um personagem que eu amo, de verdade. Sempre achei um cara incrível, fofo, que merecia encontrar um par na vida e ser feliz (não falei que a gente sempre acaba caindo nessa?). E não é que eu agora ache que ele seja um monstro comedor de criancinhas que merece ser capado e queimar no fogo do inferno e/ou morrer sozinho e sem amor, mas eu definitivamente não o acho mais tão legal assim.

Ele já chega mostrando a que veio: o militar, certinho, cheio de honra, que salva a mocinha (chega a ser engraçado chamar a Cristina Yang – Sandra Oh – de mocinha) que acaba de ser perfurada por uma estaca de gelo. Até aí tudo certo, não critico ninguém por salvar a vida alheia, muito menos um médico — mas definitivamente já temos indícios que Owen Hunt (Kevin McKidd) tem um gosto pelo posto de herói.

O tempo passa e os indícios se confirmam: ele é controlador e ciumento. Insiste que só está tentando proteger Cristina, e coloca de novo umas das personagens mais bad ass da série na posição de donzela indefesa a que nenhuma mulher (e, definitivamente, não Cristina Yang) pertence. Ela é ambiciosa, ela sabe o que faz e ela nunca age sem certeza, mas ainda assim ele se sente no direito de se comportar de forma agressiva porque ela não faz o que ele manda quando ele está só tentando “protegê-la”.

Você está fazendo isso bem errado, querido.

Você está fazendo isso bem errado, querido.

Ele mais de uma vez mostra uma insensibilidade absurda com os sentimentos alheios. Não avisa à mãe e à noiva(!) que está de volta da guerra — ele apenas volta e começa um novo relacionamento, considerando unilateralmente que o anterior não existe mais. E então ele resolve que é uma boa ideia trazer uma mulher com quem ele teve um relacionamento ambíguo antes e dar ela de presente (!!!!) para a nova namorada. Vamos reformular a frase: ele dá uma mulher de presente para a namorada, sem nem conhecimento prévio por parte do objeto em questão, e ignora completamente o fato de que os dois tiveram um “lance” no passado que poderia colocar todo mundo em uma posição, no mínimo, desconfortável.

Nós ganhamos, assim, Teddy (Kim Raver), outra personagem maravilhosa; e o Owen ganha mais uma desculpa para ser um grande babaca.

Sendo uma pessoa incrível, como a maioria esmagadora das mulheres de Grey’s, Teddy não vê nenhum problema em admitir os próprios sentimentos e jogar na cara do Owen o passado que ele convenientemente esqueceu. E ele fica profundamente ofendido com isso — como ela ousa se declarar para ele e deixar ele todo confuso? Meu deus!

Agindo com uma maturidade tipicamente masculina, ele tenta fugir da bagunça que ele mesmo montou ignorando a ex-melhor-amiga-feat-interesse-romântico e sendo, mais uma vez, um perfeito idiota. Ah, e vale mencionar também o claro incômodo dele quando, contra todas as probabilidades, as duas ficam amigas.

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E aí chegamos às piores partes do Owen, que ele conseguiu mostrar todas durante o relacionamento com a Cristina. A parte manipuladora, a parte que faz com que ela se sinta mal e inapropriada o tempo todo.

Cristina Yang é uma força da natureza, com certeza, mas também é uma mulher como o resto de nós, e não está imune a nada. Ela foge a muitos estereótipos e está longe de ser a pessoa mais emotiva do parquinho, mas é só olhar a figura toda que dá para ver como ela ainda assim é profundamente afetada pelo machismo. Com o Burke (Isaiah Washington), primeiro, concordando com um casamento que ela não quer e que não tem nada a ver com a personalidade dela, e depois repetindo exatamente a mesma coisa com o Owen.

Ele fica profunda, e desproporcionalmente, ofendido quando descobre que ela quase se casou com outro, mesmo que ele estivesse noivo quando se conheceram e não tenha contado para ela. Ele ignora o fato que ela não quer ter filhos e força a barra para que ela não aborte quando engravida. Ele não pensa por um segundo em como aquilo está sendo difícil para ela, ele só pensa no que ele quer, e é incapaz de admitir uma mulher que não tenha interesse em “formar uma família” — mesmo quando toma um choque de realidade e um esporro bem dado da Meredith (Ellen Pompeo), ele ainda volta a jogar a situação toda na cara dela no futuro.

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Eu poderia continuar, com certeza tem dezenas de outros exemplos melhores ainda que eu não estou me lembrando, mas se esse fosse um texto completo realmente daria um livro. O ponto aqui é muito maior do que o Owen ou Grey’s Anatomy, é o mundo.

Com algum desconto para a quantidade absurda de desastres acontecidos com o mesmo grupo de pessoas e um ou outro caso médico bem louco, Grey’s é uma série muito realista. O que acontece ali, acontece na vida real, a dinâmica é a mesma. A série não estaria há tanto tempo no ar se não rolasse essa identificação. O único motivo para que nós não enxerguemos que todos os personagens masculinos são machistas, é que a gente não consegue ver que, na prática, todos os homens são.

Seu pai, seu marido, seu filho, seu irmão, seu melhor amigo podem não ser monstros sem coração. Podem ser ótimas pessoas. Podem até acreditar na igualdade entre os sexos. Mas isso não significa que não sejam machistas. A sociedade é machista, e nós somos todos produtos dela.

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2 Comentários

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    Larissa
    13 de outubro de 2017 at 11:47

    Caraca, nunca tinha analisado o Owen dessa forma. Ja pensei sim em como ele manipula a Cristina e tal. A questão do aborto pra mim foi o auge da manipulação. Sinceramente pensei que perderia a personalidade da minha personagem favorita. Até comentei com meu marido hahaha. Olha, nao quero ter filhos não ein. Já temos muitas dogs e estou feliz com isso. Rsrs. Enfim. Texto maravilhoso. Estou amando o site!

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    Carol
    18 de outubro de 2017 at 23:31

    Não engoli de forma nenhuma a traição dele. Como ele ousa trair e ainda falar que foi “SÓ sexo?”…oi??

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