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Outlander – uma mulher estranha num tempo estranho

Histórias com viagens no tempo existem aos montes. A ideia de, por mágica ou alta tecnologia, ir parar num tempo distante, no passado ou no futuro, sempre intrigou o ser humano e é uma das bases da ficção científica até hoje. Temos curiosidade a respeito de outras épocas, mas isso não significa que queiramos, de fato, viajar no tempo. Claire Randall (Caitriona Balfe) não queria. Ela era apenas uma jovem mulher que recém havia saído dos tempos de enfermeira do Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial e que aproveitava o fim da Guerra para ter uma segunda lua de mel com o marido, Frank Randall (Tobias Menzies). Numa viagem para a Escócia, após a noite de Samhaim, Claire desmaia e, ao acordar, se depara com o mesmo lugar, mas em outro tempo: é a Escócia de 1743, e ser uma mulher solteira e britânica naquele lugar não fazia bem à saúde.

Aviso: este texto contém spoilers!

A Escócia de 1743 estava se encaminhando pra o auge de um conflito que acabou com o estilo de vida dos escoceses das Highlands (Terras Altas): os clãs. Lá, mesmo no século XVIII, o povo ainda vivia numa espécie de sociedade feudal, em que o líder do clã respondia pela família – composta de trocentas pessoas entre filhos, irmãos, primos de vários graus e agregados – e o líder também era senhorio de várias famílias que viviam em suas terras e que lhe pagavam uma certa quantia – em moeda ou em animais – pra contribuir com o senhor da terra e continuar vivendo lá. Resumindo: uma sociedade baseada nas leis de cada líder de clã, extremamente desunida, já que os clãs viviam brigando entre si, e completamente misógina, onde a mulher só tinha espaço na cama ou na cozinha.

Só que o contexto político da época envolvia também a invasão britânica, que forçou a união da Inglaterra com a Escócia, simplesmente dizendo que agora eles teriam de servir a um rei britânico ao invés de ter seu rei escocês e quebrando totalmente com o modo de vida daquela gente. Havia muitos conflitos na época e qualquer lugar era lugar pra ser morto por uma arma ou uma espada. Obviamente os escoceses não se renderam a isso e muitos foram torturados e enforcados em praça pública pelos ingleses apenas porque sim, porque eles tinham o poder pra fazer isso.

Claro que, mesmo sendo brasileira do século XXI e não tendo absolutamente nada a ver com essa história, não dá pra ficar isenta e não achar que os britânicos foram os grandes vilões da história porque eles foram sim. E se eu sinto isso por ter visto a série e lido vários artigos e trechos de livros a respeito dessa invasão britânica à Escócia, imagina o que os escoceses sentiriam ao ver, no meio daquele clima tenso de ódio e luta, uma mulher inglesa que não apenas é mulher e inglesa, mas também desafia todo mundo por se portar “como um homem”?

Claire, assim que chega àquela Escócia, na cidade de Inverness, dá de cara com um homem que é a cara do seu marido – exceto que ele está vestido com uma casaca vermelha do exército britânico de 200 anos antes da época dela. Ela, claro, fica confusa, achando que alguém estava lhe pregando uma peça e que estavam rodando um filme no local, já que parece estar havendo um conflito armado ali, com vários casacas vermelhas atirando pra todos os cantos. Ela chama pelo nome do marido, mas quem responde é o casaca vermelha Capitão Black Jack Randall – o mesmo homem a quem seu marido estava investigando durante sua lua de mel porque ele era um antepassado dele. O que o homem faz ao ver uma mulher perdida naquele monte de árvores, em meio a um conflito e vestida com apenas um vestido branco comum – que, pra aquela época, era roupa de baixo? Tenta estuprá-la, claro. É aquela velha história de a mulher ser propriedade pública e seu corpo estar disponível a qualquer homem que seja se não houver outro homem para “protegê-la”. Se isso é forte hoje em dia, o que dirá naquela época.

Só que, num desses golpes do destino, um montanhês viu aquela cena e, com raiva de Black Jack, nocauteou-o e tirou Claire dali – desmaiada, num rapto “em nome do bem maior”. Nisso, ela foi parar num esconderijo de montanheses, com um bando de homens escoceses com caras de mau e que não gostaram nada de ter uma sassenach (inglesa) entre eles, ainda mais uma vestindo roupas de baixo e que não baixou os olhos ou a voz pra nenhum deles, exigindo ir embora logo. Claro que ninguém atendeu seu pedido e o estupro foi novamente considerado, porém os homens do Clã Mackenzie são contra estupro e tiveram a “gentileza” de não fazer isso.

Ainda discutindo o que fazer com ela e tendo pouco tempo para decidir, um deles aparece ferido e os homens do Clã o seguram para colocar no lugar seu braço, que está deslocado. É aí que Claire, mesmo sabendo que o melhor seria ficar calada, não consegue ver aquilo sem intervir e fala que é uma enfermeira e que se eles fizerem da forma como estão fazendo vão quebrar o braço do cara. Então, Claire conhece Jamie (Sam Heughan) e enfaixa seu braço, começando ali uma relação que lhe colocará em muitas dificuldades, mas também lhe fará experimentar o amor e o sentimento de pertencer e não pertencer a um lugar e a uma época simultaneamente.

A partir disso a história vai se desenrolando, mas é interessante observar que Claire só não foi estuprada e largada na estrada e pôde ter uma continuação de sua história por conta de suas habilidades como enfermeira ou, como os escoceses do século XVIII chamavam, curandeira. Se ela não apresentasse utilidade prática, se não conhecesse medicamentos, ervas e tivesse noções de anatomia do corpo humano, provavelmente teria sido tratada como uma prostituta e deixada pra ser de quem a quisesse – e se ela não gostasse disso, simplesmente apanharia ou seria morta.

Obviamente que essa habilidade de curandeira era uma bênção e uma maldição naquela época. Assim como salvou a vida de Claire e lhe deu oportunidade de ter uma profissão e uma certa independência e respeito por ser a curandeira do Clã Mackenzie, eram tempos perigosos para mulheres que tinham qualquer tipo de conhecimento e, é claro, mais uma vez a igreja não viu isso com bons olhos.

Em 1743, a Inquisição já não era tão forte quanto nos séculos anteriores, mas ela ainda atuava, afinal a Igreja Católica sempre teve bastante poder e eles não abririam mão disso tão facilmente. Esse poder era especialmente forte nas Highlands da Escócia, onde a população era extremamente católica e levava aquilo muito a sério. Como a sociedade era basicamente feudal, o clero tinha uma importância extrema, o que significa que não apenas interferia em questões políticas e no ideário popular, mas também na saúde pública.

Doenças eram vistas ou como uma forma de Deus castigar alguém por algum pecado que ela tenha cometido ou como possessão demoníaca. No primeiro caso, o tratamento era à base de rezas e penitências, no segundo, a coisa era mais complicada: exorcismos poderiam ser realizados, se amarrava a pessoa “possessa” e o padre ficava lendo textos “sagrados” e largando água benta e óleos ungidos na pessoa doente. Obviamente isso não resolvia muita coisa, mas deixava a população bem assustada porque, conforme o “tratamento” era aplicado, o doente ficava cada vez pior – o que eles interpretavam como um sinal claro da presença do demônio ali, que reagia mal às coisas divinas.

Se a coisa era tão horrível assim e os tratamentos eram à base da fé, o que aconteceria com uma mulher que tivesse conhecimentos médicos e soubesse identificar doenças e indicar tratamentos adequados com ervas, chás e poções? Ela iria para a fogueira, é claro. Qualquer pessoa que ousasse querer saber mais do que o padre, o porta-voz do divino, seria considerada maligna, aliada ao diabo, bruxa.

Isso não foi diferente com Claire que, tendo desafiado a igreja e descoberto que crianças estavam morrendo não por possessão demoníaca, como dizia o padre, mas por envenenamento acidental através de uma planta que tinha num terreno onde elas brincavam, foi chamada de bruxa. Porém, como ela era “convidada” do Clã Mackenzie, tinha uma certa proteção e não chegou a ser condenada. Claro que a proteção acabou no instante em que os homens foram viajar e ela ficou sozinha com sua amiga Geillis (Lotte Verbeek), uma mulher também à frente de seu tempo e que cultivou fama de feiticeira por vender poções e indicar ervas que livrassem mulheres de uma gravidez indesejada, por exemplo. Geillis havia se tornado um problema na vida do pessoal do Clã Mackenzie, então aproveitaram a deixa pra se livrarem de dois problemas de uma só vez: armaram uma armadilha e acusaram as duas mulheres de bruxaria.

Até o século XVIII era muito fácil se livrar de alguém que estivesse incomodando. Geralmente, as denúncias contra bruxaria eram feitas por questões políticas, por ciúmes ou simplesmente para desviar a atenção de si mesmo. Foi assim que começou a histeria coletiva que resultou no julgamento das bruxas de Salém, por exemplo. O medo e a ignorância sempre levaram a erros e crimes, especialmente em sociedades com uma forte moral religiosa.

O que Outlander fez não foi apenas mostrar um julgamento de “bruxas” digno de ilustrações da Idade Média, mas sim valorizar a importância de não romantizar aquela época e a Inquisição. Quando olhamos de longe, aqui de 2017, não entendemos ao certo o verdadeiro pavor que era ser acusada de bruxaria. E qualquer pessoa poderia ser. A Inquisição matou milhões de pessoas, sendo que a maioria eram mulheres, e havia uma questão: se você fosse acusado não haveria escapatória. Ou você morreria por tortura ou na fogueira. O objetivo da Inquisição era “salvar a alma, mesmo que o corpo pereça”. Se eles realmente acreditavam nisso, não sei. Após ler o Malleus Malleficarum (O Martelo das Bruxas, livro escrito por dois padres alemães que funcionava como um manual de caça às bruxas e que pôs início aos terrores da Inquisição) cheguei à conclusão de que os padres e inquisidores que iam atrás de mulheres comuns e as torturavam até que elas confessassem coisas que, obviamente, eram mentira, não passavam de misóginos que se apoiavam no poder da Igreja para exterminar o máximo de mulheres que pudesse, já que, de acordo com os textos bíblicos, a mulher é impura e a iniciadora do mal.

Isso é bem mostrado na série, que não romantiza de forma alguma a caça às bruxas, tampouco dá poderes mágicos a ninguém. É tudo muito cru e cruel, desumano e, no entanto, real. É mostrada a mesquinhez das pessoas, do público da vila que ia aos julgamentos apenas para se satisfazer, torcendo pra que as bruxas fossem queimadas, pra que o mal fosse extinguido – mesmo que esse mal lhe tenha salvado a vida alguma vez, já que muitas pessoas que torciam pela morte na fogueira eram as mesmas que já haviam recorrido às “bruxas” por causa de alguma doença, algum problema de amor ou mesmo uma gravidez indesejada.

Claire se salva por algo que jamais teria acontecido na vida real: a amizade dela com Geillis faz com que a amiga assuma uma culpa que não tinha e seja morta no lugar da viajante no tempo. No entanto, esse foi mais um acerto da série (que total passa no Teste de Bechdel): ao fazer com que Claire se salve pelo sacrifício da amiga, Outlander mostrou a força da união feminina. Numa época cheia de misoginia e moral cristã, a única coisa que poderia salvar é ter mulheres unidas.

A série, cuja 3ª temporada estreia em setembro, só poderia ter sido inspirada na escrita de uma mulher: Diana Gabaldon é a autora da série de livros Outlander e suas histórias se aprofundarão cada vez mais não apenas na crítica ao machismo da época como também nas relações femininas entre personagens, dando papel de destaque a mulheres fortes que surgem para desafiar padrões de comportamento retrógrados e horríveis e nos incentivar a não aturar desaforo algum de ninguém apenas pelo fato de sermos mulheres, não importa a época.

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2 Comentários

  • Responda
    Catarina
    15 de agosto de 2017 at 16:50

    Imagina a minha felicidade ao abrir o site, depois de semanas, para ver as novidades do mundo cult e me deparar com um texto inteirinho sobre uma das minhas séries mais queridas do coração. Claire é uma personagem incrivelmente complexa numa trama que, de início, me chamou atenção pela questão histórica da coisa, mas me conquistou pela qualidade da problematização, dos roteiros, dos diálogos, e da atemporalidade que traz.

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    Ana Beatriz
    17 de agosto de 2017 at 22:33

    Outlander se tornou rapidamente uma das minhas séries favoritas. A Claire é uma personagem muito boa, cheia de nuances, corajosa, e que me prendeu a atenção desde o início, assim como a Gillis! As mulheres de Outlander são muito bem trabalhadas.

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