CINEMA TV

Os estereótipos da mulher latina nas produções hollywoodianas

No cinema e TV norte-americanos, as mulheres latinas são vistas sob duas óticas opostas: uma mulher jovem de corpo curvilíneo, bronzeado e incrivelmente sexy, ou uma mulher “madura”, pouco atraente e frequentemente no papel estereotipado de Empregada Latina. O segundo estereótipo costuma passar tão despercebido que os nomes das atrizes que o interpretam são pouco fixados em nossas memórias. Já o primeiro perfil desdobra-se em dois estereótipos amplamente utilizados nas telas: a Mulher Latina Sexy, como a personagem de Penélope Cruz no filme Zoolander 2, dirigido por Ben Stiller, de 2016, e a Mulher Cabeça-Quente, que é tão extravagante quanto bonita, como a ruidosa personagem de Sofia Vergara na série televisiva Modern Family, no ar desde 2009. Citar uma atriz consagrada em Hollywood, como Penélope Cruz (de origem espanhola), e a atriz Sofia Vergara (de origem colombiana), atualmente a mais bem paga da TV norte-americana, é importante para demonstrar que nem mesmo elas conseguem se descolar do perfil “mulher latina” e que esses não são estereótipos antigos que já caíram em desuso pela produção hollywoodiana. Os estereótipos da mulher latina nessas produções persistem como uma equivocada representação.

Nos Estados Unidos, o censo nacional considera os latinos e os hispânicos como um mesmo grupo étnico. O estereótipo do latino, apesar disso, varia de região para região. Em Miami, latino é sinônimo de cubano, enquanto em Nova York é sinônimo de porto-riquenho, e já para o sudoeste americano refere-se aos mexicanos. Em uma perspectiva geográfica, latino é todo aquele natural de uma região do continente americano que engloba os países onde são faladas, primordialmente, línguas românicas (derivadas do latim) – no caso, o espanhol, o português e o francês – visto que, historicamente, a região foi majoritariamente dominada pelos impérios coloniais Espanhol e Português. Contudo, é na abordagem do cotidiano que o termo torna-se evidente: para além da origem e descendência, é através do biótipo que pessoas são lidas como latinas, em suma, pessoas de pele morena-clara (uma tonalidade de pele conhecida por “tom de oliva”) com cabelos escuros e ondulados.

As mulheres latinas não são vistas inteiramente encaixadas dentro dos fenótipos branco ou negro, configurando, então, um grupo à parte. Há também o caso especial das mulheres afro-latinas que se encontram em dois contextos distintos; estas mulheres compõem um grupo que é manejado conforme convém à indústria cinematográfica: sempre lidas como negras, mas nem sempre lidas como latinas. Este é o caso de atrizes como Zoë Saldaña (de ascendência porto-riquenha e dominicana) e Gina Torres (de ascendência cubana). Já atrizes de ascendência latina, como Alexis Bledel (seu pai é argentino e ela foi criada no México) e Kaya Scodelario (sua mãe é brasileira), por exemplo, são esquecidas pela mídia e não compõem o grupo de “mulheres latinas” exatamente por não atenderem a esse biótipo, por serem lidas invariavelmente como mulheres brancas de traços europeus.

Para compor essa leitura étnica-social são atreladas às pessoas latinas concepções estigmatizantes, uma delas é que, dificilmente, são vistas em uma classe econômica privilegiada – e no caso das mulheres, se o são, é porque casaram com um homem rico –, a elas é sempre reservada uma história de vida sofrida, de muita luta, tendo crescido pouco, mas com o esforço de seu trabalho, vindas de famílias humildes. A personagem de Jennifer Lopez (de ascendência porto-riquenha) no filme Encontro de Amor [Maid in Manhattan, no original], de 2002, se encaixa nesse quesito: na trama ela é Marisa Ventura, uma mãe solteira que cresceu nos arredores da cidade de Nova York, vinda de uma família latina, e trabalha como camareira em um hotel de luxo, no qual, por forças do destino, conhece um charmoso herdeiro de uma dinastia política que será seu envolvimento romântico.

Não importa se em suas tramas as personagens de linhagem latina nunca saíram dos Estados Unidos, incompreensivelmente elas possuem um sotaque que, por terem nascido nos EUA, absolutamente não teriam. Ademais, elas estão sempre fadadas a carregar as histórias de imigração de suas famílias. Por sinal, esse círculo familiar é sempre descrito como um grupo caloroso, que contem um número enorme de parentes que incluem 10 primos, “abuela y abuelo” [avó e avô]. Uma família muito unida em meio a brigas extravagantes, porém passageiras. Não raro, a mulher latina possui um número incomum de irmãos – de preferência, homens fortes prontos a defender sua honra –, um pai sisudo e uma mãe/avó fortemente religiosa (sempre católica!). Os companheiros latino-americanos dessas personagens também não estão imunes aos estereótipos, são homens vistos como levemente possessivos, pouco carinhosos, mas amantes excepcionais. A atriz Salma Hayek (de origem mexicana) no filme E Agora, Meu Amor? traz todo esse cenário na bagagem.

Neste mesmo filme, Salma Hayek interpreta uma cena em que, distraidamente, dança enquanto cozinha, mexendo sensualmente seu corpo e volumoso cabelo ondulado, enquanto ao fundo, seu marido norte-americano assiste a cena e mostra-se deslumbrado com sua companheira latina. À Mulher Latina Sexy são especialmente associadas características como serem excelentes cozinheiras de pratos exóticos, com temperos incomuns e picantes, assim como a habilidade de dançar, particularmente o ritmo salsa ou samba, como também é demonstrado no episódio “Samba Story” da terceira temporada de Eu, a Patroa e as Crianças, no qual o pai da família, Michael (Damon Wayans), tem aulas de samba com uma sedutora professora brasileira interpretada por Sofia Vergara – que, como comentado, é de origem colombiana.

Ao traçar essas linhas entre as personagens latinas podemos observar os estereótipos que as unem, e o quanto esse uso já cansado ainda permanece como um recurso de roteiro. Um cenário que vem mudando, mas que ainda têm muito a evoluir, basta checar a lista de personagens interpretadas pelas atrizes já citadas, e tantas outras como: Michelle Rodriguez (de ascendência porto-riquenha e dominicana), Jessica Alba (de ascendência mexicana), Naya Rivera (de ascendência porto-riquenha), Rosie Pérez (de ascendência porto-riquenha) e Jordana Brewster (de origem panamenha e ascendência brasileira). Para algumas, esses papéis permanecem no início de suas carreiras, mas para outras, ele se mantém. A variedade e complexidade de papéis dados a essas atrizes costumam ser muito baixos; ainda hoje as atrizes latino-americanas costumam receber papéis secundários ou intermediários que dificilmente as levam às premiações, excluem-se poucos casos de atrizes cujas trajetórias superaram essa barreira. E quando surgem oportunidades de papéis protagonistas, eles os são negados, como o recente caso de whitewashing ocorrido com a personagem Katniss Everdeen, da saga literária Jogos Vorazes da autora Suzanne Collins, que no livro é descrita como “pele cor de oliva”, mas na adaptação para o cinema foi interpretada pela atriz Jennifer Lawrence.

Em geral, as atrizes latinas são destinadas a papéis hiperssexualizados que servem apenas como objeto de conquista do personagem masculino protagonista. De acordo com uma pesquisa elaborada pela Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nas cem maiores bilheteiras de 2013, 37,5% das atrizes latinas que apareceram nestes longas-metragens estavam parcial ou completamente nuas. Efe Marlene Roque, produtora de cinema e membro do Latino Film Institute, afirma que no cinema a mulher latina é sinônimo de objeto sexual, isto “quando decidem tirá-las do papel de garçonetes ou faxineiras” – alega a produtora.

Um triste exemplo do estereótipo da Empregada Latina pode ser observado no trabalho da atriz Lupe Ontiveros (de ascendência mexicana), que chegou a interpretar o papel de empregada em 150 produções. Uma releitura “jovem” desse estereótipo, mas que o mantém em essência, é a personagem de Paz Vega no filme Espanglês, onde a atriz espanhola dá vida a uma imigrante mexicana, Flor Moreno, que começa a trabalhar como empregada de um rico casal norte-americano, e mesmo sem falar inglês, envolve-se romanticamente com seu patrão.

O estereótipo da Empregada Latina talvez seja o mais evidentemente excludente, não apenas porque essas personagens não costumam ter qualquer potência narrativa, tendo até mesmo pouquíssima ou nenhuma fala, servindo de plano de fundo enquanto arrumam a casa das personagens principais, mas também porque são personagens expostas de forma humilhante, sendo frequentemente usadas em cenas que se propõem cômicas, como o fato de elas não falarem ou compreenderem bem o inglês ou terem forte sotaque. Dois exemplos são a cena em que Cher (Alicia Silverstone), em As Patricinhas de Beverly Hills, diz à sua empregada que não fala “mexicano” e por isso não a entende; e a cena em que Paris (Liza Weil), na primeira temporada da série Gilmore Girls, diz que sua babá fala português, mas ao se comunicar com ela arrisca um idioma indefinível entre português e espanhol. O conceito inicial e unânime é que todas as pessoas latinas falam apenas espanhol. De fato, o espanhol é o idioma predominante da vasta maioria dos países latino-americanos, porém, ao fazer disso uma generalização exclui-se a constituição linguística de diversos países da América Latina, como o Português, língua oficial somente do Brasil, porém falada por 34% da população da América Latina, e o Francês, falado no Haiti, em algumas ilhas do Caribe e na Guiana Francesa, além das diversas nações nas quais existem idiomas indígenas ou crioulos que derivam de línguas nativas do país, antes da colonização.

Na cerimônia do Globo de Ouro do ano passado, Eva Longoria (de ascendência mexicana) e America Ferrera (de ascendência hondurenha) ao apresentarem o prêmio, ironizaram dizendo que nenhuma delas era Eva Mendes (de origem cubana) ou Gina Rodríguez (de origem porto-riquenha), nem mesmo Rosario Dawson (de ascendência porto-riquenha e cubana), dando uma pequena alfinetada na caixa em que são jogadas todas as mulheres latinas no contexto norte-americano. A piada veio após, no ano anterior da premiação, em anúncio no Twitter da lista das candidatas, America Ferrera realmente ter sido confundida com Gina Rodríguez. Inclusive, Gina Rodríguez, estrela da série Jane the Virgin, em entrevista chegou a comentar: “Nos colocar em uma caixa é injusto”. As latino-americanas representam um vasto grupo de mulheres de diversas culturas, porém, para o cinema, basta que preencham um esperado biótipo – que não as diferencia culturalmente – para ganhar esses papéis, supondo que todas têm a mesma aparência.

Uma melhor representação das mulheres latino-americanas nas mídias é fundamental para quebrar este padrão que paira no imaginário do telespectador e que, sutilmente, segue como uma sombra as mulheres de origem e descendência latina que vivem no exterior. A jornalista Eva Recinos, de origem hispânica, em uma matéria para a revista Cosmopolitan, comenta que por causa de seu tom de pele as pessoas não acreditavam que ela era uma pessoa educada e que entraria na faculdade por seus próprios méritos:

Ninguém nunca me disse: “Você é hispânico/Latina, então você é obviamente estúpido”, mas os sutis golpes contra a minha inteligência me seguiram ao longo da minha vida. Eu me especializei em inglês e, como escritora, admito que tenho um vocabulário maior em inglês do que em espanhol (o que falo fluentemente). Ainda assim, me lembro de várias vezes em que conselheiros e funcionários administrativos perguntaram-me se eu gostaria de um formulário em espanhol para preencher ou diziam que tinham recursos em espanhol. Não há nada de errado em precisar de informação em espanhol, mas sempre senti como se estivessem me olhando com desprezo quando perguntavam. Muitas vezes, tenho a sensação de que as pessoas esperam que eu seja menos inteligente e menos bem sucedida.” – diz Recinos [tradução nossa].

De acordo com um estudo elaborado em 2014 pela USC, os latinos são a minoria mais sub-representada nos filmes da indústria cinematográfica norte-americana, um quadro que precisa mudar, haja vista que hispânicos e latinos são um dos grupos de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, a comunidade latina já soma mais de 40 milhões de pessoas. O cinema e a TV, ao denominarem as mulheres latinas como excepcionalmente sensuais, característica inversamente proporcional ao seu intelecto, acabam por reduzi-las aos seus corpos e limitam suas capacidades. Assim como a concepção preconceituosa de tê-las em personagens pouco complexos que são capazes apenas de manejar um espanador. Esses estereótipos sexistas e elitistas fomentam uma imagem degradante e ofensiva da mulher latina, e acabam por propagar o preconceito, o alimentando indiretamente. É necessário dar voz e imagem, explorar as identidades reais da diversidade e complexidade das mulheres latino-americanas nas telas, para que através desses papéis elas possam se ver melhor representadas. Ainda há um caminho longo a trilhar para subverter essa ordem.

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3 Comentários

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    Paulo Soares
    6 de outubro de 2017 at 07:49

    Entre as que se “escaparam ” do estereótipo temos a cubana Cameron Diaz.

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      Luana P.
      10 de outubro de 2017 at 11:45

      Bem lembrado, Paulo! A Cameron Diaz é de origem cubana pelo seu lado paterno. Acredito que ela faça parte do grupo citado no texto, das atrizes que apesar da descendência latina não possuem uma “aparência” que as caracterizam como latinas, então por não serem *lidas* como latinas (ela, no caso, é facilmente lida como européia), acabam por conseguir escapar do estereótipo.

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    Tany
    16 de outubro de 2017 at 18:44

    Esse texto foi na mosca. Tinham muitas situações que não lembrava que haviam acontecido inclusive de atrizes e suas origens ou ascendências. Acho que pra gente que não tem essa realidade tão na cara acabamos esquecendo dessa imagem tão frequente, mas imagino para quem queira seguir carreira e se depare com essas observações o quanto deve ser desmotivador.

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