CINEMA

O que Legalmente Loira tem a nos dizer 15 anos depois

No dia 26 de junho de 2001, quinze anos atrás, acontecia a premiere de Legalmente Loira, estrelado pela hoje vencedora do Oscar, produtora e uma das maiores defensoras de campanhas como a #AskHerMore, Reese Witherspoon. Desde lá, ele ganhou a internet, teve (muitos) momentos inspiradores transformados em gifs, foi declarado como o filme mais feminista de todos os tempos em posts no Buzzfeed e, é claro, foi problematizado também. Legalmente Loira foi um dos meus filmes favoritos enquanto adolescente, mas, depois de muito tempo sem rever, me peguei me perguntando o que ele teria a dizer para a Fernanda de hoje.

Lembro que quando ouvi falar sobre Legalmente Loira pela primeira vez achei que fosse uma comédia besta. O nome é engraçadinho e faz sentido considerando o contexto, mas ele não te faz pensar numa comédia boba americana? Fazia para mim – e olha que nessa época eu devia ter uns doze anos. Mas ele foi uma grata surpresa, no final, e acho que eu só entendi realmente o quão grata essa surpresa era nos anos que se seguiram, quando revi o filme pelo menos uma dezena de vezes e, inclusive, comprei o DVD. Porque ele era engraçado, mas era mais – era um exercício de autoafirmação, de se levar a sério quando o mundo se recusa a fazer o mesmo e, por que não, de sororidade. A capa do DVD traz uma tagline que até hoje não sei dizer se se propõe a ser engraçada, mas levando a mensagem do próprio filme a sério, ou irônica: “pelos direitos das patricinhas”,  diz. Mas Legalmente Loira me pareceu ser sobre mais do que isso. Não é pelos direitos das “patricinhas”, uma palavra que hoje parece muito datada, mas pelo direito de ser quem você é.

Voltando ao começo: o filme inicia com uma longa sequência que alterna entre imagens de Elle lentamente se arrumando para o que logo descobrimos ser um encontro com o namorado e de uma porção de garotas em uma irmandade assinando um cartão. Essa sequência inicial faz questão de afirmar a feminilidade de Elle Woods, como uma garota que gosta de rosa, de moda, de sapatos, de maquiagem. Tudo isso faz parte do que convencionou-se chamar de coisas de “mulherzinha” – e, é claro, de frívolas, fúteis, desimportantes. Essa sequência também reafirma que todas as garotas, todas essas mulheres, estão torcendo por Elle. Nesse momento, ela quer ser pedida em casamento pelo namorado, Warner. Nesse momento, portanto, é isso que todas aquelas garotas também estão torcendo para que aconteça.

Quando Elle decide que vai entrar na Faculdade de Direito de Harvard porque é esse o tipo de mulher que Warner, agora seu ex-namorado (que terminou com ela porque ela não era séria), iria querer, todas aquelas garotas estão torcendo para isso acontecer. Estão estudando com Elle ao invés de sair e esperando ansiosamente pela chegada dos resultados de seu LSAT. A irmandade a qual Elle pertence, a Delta Nu, é estabelecida como uma grande rede de apoio mútuo – embora aqui caiba a crítica: apenas para meninas brancas, ao que parece. O filme também caminha sobre uma corda bamba na hora de estabelecer as personalidades das outras garotas da Delta Nu. Se por vezes elas parecem incrivelmente estereotipadas, em outros momentos o roteiro parece estar ativamente querendo destruir essa ideia – uma das amigas aparece conversando com a manicure numa língua que eu mesma não sei identificar, por exemplo. Para além disso, uma das coisas mais interessantes no filme é perceber que ele estabelece Elle como uma garota inteligente exatamente a partir dos interesses de mulherzinha dela, a cinco minutos da história – quando uma vendedora tenta enganá-la e vender uma peça de roupa por um valor muito mais caro do que deveria, ela não permite. Ela sai vencendo.

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Então, é claro que é incômodo assistir a Elle Woods entrando numa faculdade de direito apenas para reconquistar um homem babaca, assim como é incômodo assistir a ela e Vivian, a nova namorada do babaca em questão, se atacando e competindo por causa dele. Só que o filme tem plena consciência disso, e cada um desses fatores é lentamente desconstruído. Mesmo que Elle consiga entrar na mesma faculdade que ele (com sua média 10 e seus 179 pontos no LSAT), Warner não leva seus esforços a sério em momento algum. Ele não tem a menor dúvida, em sua cabeça, de que está a anos-luz à sua frente e muito acima de qualquer coisa que ela venha a ser. Ver Elle questionando se “cheirou cola ou eles entraram na mesma faculdade” é lindo, porque é quando ela toma consciência de que nunca será boa o suficiente para ele não pelo que ela é, mas pelo que ele é – um idiota. E, nesse ponto, Elle decide que vai se dedicar como nunca e é quando ela começa a realmente se destacar em aula e chamar atenção. Isso não aconteceu quando ela estava tentando reconquistar Warner, mas quando decidiu que ia provar o seu valor para cada um daqueles que se opõe a sua presença em Harvard. Note que nesse momento ela não tem a menor dúvida quanto a seu valor.

O filme também brinca com o fato de Elle conquistar sua vaga em parte porque é um garota bonita e manda um vídeo de biquíni na piscina, mas, se repararmos bem, não deixa de ser sério ao apresentar um comitê de seleção que é formado exclusivamente por homens brancos de meia idade para cima. Aliás, o filme não deixa de falar sobre Elle, a menina loira, ser considerada só isso. Tudo o que eles veem quando olham para ela, diz Elle, é o cabelo loiro, os peitos. Ninguém a leva a sério de verdade, e a quebra por dentro descobrir que o cobiçado estágio que ela consegue com um de seus professores tem muito mais a ver com motivos escusos da parte dele, ainda que todas as pessoas que trabalham com ela lá percebam o quanto ela é realmente boa naquilo. Porque ainda que ela tenha começado essa jornada para reconquistar Warner, Elle descobre que realmente gosta da ideia de advogar, o que aparece na cena em que ela ajuda sua amiga manicure a recuperar seu cachorro.

Essa é só uma das muitas relações de amizade ou ao menos de algum tipo de companheirismo com outras mulheres que Elle estabelece ao longo do filme. Gosto da maneira como ela e Vivian se aproximam aos poucos, estabelecendo uma ligação graças ao fato de Vivian ser a única que precisa servir café ou fazer outras atividades mecânicas quando o grupo de estagiários conta com meia dúzia de pessoas. Ou de como, quando Elle decide voltar para sua vida antiga depois de descobrir que seu mentor na verdade só quer transar com ela, quem a convence a continuar é a professora Stromwell, ainda que Emmett – o par romântico – tivesse tentado também. Aliás, Stromwell é introduzida como a megera da faculdade, mas descobrimos que ela passa longe disso. Ela é rígida, é verdade, mas é possível ver em seu rosto o quanto ela parece genuinamente satisfeita quando Elle começa a de fato estudar e se dedicar às suas aulas.

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E, no fim das contas, Elle Woods só ganha o caso por ser exatamente quem ela é – uma garota que gosta de roupas, maquiagem, sapatos, moda e assim por diante. Tudo bem que é pouco crível que a testemunha, filha do assassinado e verdadeira culpada pelo crime, cometeria um deslize tão horroroso e gritante em seu depoimento, mas eu relevo esse fato com gosto porque o ponto que o filme quer reafirmar é mais importante. Elle não precisa deixar nenhum de seus interesses de lado para ser uma advogada, muito menos deixar de vestir rosa. Ser ou não séria não tem nada a ver com isso, e o fato de ela vestir rosa para o julgamento é extremamente simbólico. Elle Woods reafirma que ela é exatamente quem é, doa a quem doer (porque as risadinhas, elas acontecem). Assim como Elle Woods aceita, ao longo do filme, que os outros sejam quem são – desde que, é claro, isso não signifique ser um idiota machista. Ela não liga se Brooke, a ré que defende, prefere ir para a cadeia a revelar que fez uma lipoaspiração porque tem vergonha. Ela percebe que seu colega está sendo zoado por ser meio travado e decide ajudá-lo. Quando sua colega sugere que Elle a chamaria de “sapatão” pelas costas, ela simplesmente responde que não usa aquela palavra.

Confesso que ao rever o filme agora, ele me pareceu menos engraçado. O humor não é particularmente inspirado e, por mais que tente destruir estereótipos, alguns ainda são fortes demais. Mas, quinze anos depois, Legalmente Loira segue reafirmando de um modo bem claro e simples que outras mulheres não são suas inimigas, que não há nada de inferior em ser mulher, que não tem nada de errado em ser convencionalmente feminina – e que isso não faz uma mulher ser menos séria, inteligente ou capaz -, e que somos mais do que os outros dizem que somos e certamente muito mais do que as aparências deixam ver.

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