CINEMA

O poder do amor em Mulher-Maravilha

Mulher-Maravilha

Desde que estreou, no primeiro dia do mês de junho, Mulher-Maravilha vem quebrando recordes e arrebatando a audiência com mais força do que se Diana estivesse usando o laço da verdade nessa empreitada. O longa dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot tem sido sucesso de crítica, brilhando até nos meios mais difíceis e machistas, e espalhando uma mensagem forte e poderosa – a de que garotas podem salvar o mundo com a força do amor.

Alguns críticos, no entanto, conseguiram achar defeito em uma trama perfeitamente coesa alegando que apelar para a tal da força do amor como o maior poder da princesa amazona é algo brega e fora do tom, tornando difícil a tarefa de levar o filme e sua trama a sério. O que é preciso dizer, no entanto, é que em tempos tão sombrios quanto os que estamos vivendo, é importante que uma super-heroína levante a bandeira do amor como a maior força de todas. De ataques terroristas a guerras e conflitos sem fim, o mundo pode ser um lugar muito difícil, fazendo com que a tarefa de ver o bem no outro se torne cada vez mais difícil, e acreditar no amor, uma utopia.

A cultura pop influencia a maneira como enxergamos nosso mundo e como vivemos nele, ampliando ou atenuando os problemas que enfrentamos na vida real, romantizando abusos ou mascarando as dores que sentimos. É importante e, de certa maneira, imprescindível, que filmes, séries e livros possam trazer, além das conhecidas doses de cinismo e realidade, um mundo em que ter esperança e acreditar no amor é perfeitamente crível e aceitável. O que temos recebido do universo dos super-heróis, só para citar apenas um entre tantos, são personagens cada vez mais sombrios e deprimidos, personagens que só enxergam a vida em tons de cinza.

Com o desenrolar do filme, Diana Prince descobre, entre outras coisas, uma verdade incontestável sobre si mesma: ela acredita na força do amor e na força que esse amor tem de mudar o mundo, de transformar a humanidade e de fazê-la boa de novo. Ela acredita nisso com a mesma força que acredita no amor que sente por Steve Trevor (Chris Pine) ou por sua mãe, a Rainha Hippolyta (Connie Nielsen), ou sua tia, Antiope (Robin Wright). Diana acredita no amor como força essencial para colocar o mundo de volta aos eixos e tirá-lo dos horrores da Primeira Guerra Mundial. Embora seja um sentimento universal, eleger o amor como maior força de todas pode não agradar a todos – além de taxado como brega, o amor é normalmente relacionado à mulheres e, claro, mulheres são seres frágeis e bobos, nada parecidos com uma princesa amazona de espada e escudo na mão. Mas a verdade é claramente essa: Diana Prince é uma mulher de espada e escudo na mão, que chuta bundas e ama. Muito.

Quando falo sobre o amor que Diana sente, não me refiro apenas ao amor romântico ou o fraternal, mas do amor pelo mundo como um todo, pela humanidade e por tudo o que nessa terra vive. Diana sente empatia por tudo o que acontece do lado de fora de Themyscira desde o primeiro momento em que Steve menciona a guerra de todas as guerras e como milhares de pessoas estão sofrendo por causa desse conflito. Ao se deparar com soldados feridos, pessoas desabrigadas e uma mãe desesperada com seu bebê no colo, Diana sente que é seu dever fazer alguma coisa – e ela só desperta para esse senso de obrigação por ser uma pessoa com empatia exacerbada, por ser altruísta e sentir amor.

Sei que para algumas pessoas é difícil aceitar essa narrativa do filme, do amor resolvendo um conflito como o desencadeado por Ares, mas para mim tudo se encaixou perfeitamente. A Mulher-Maravilha é um símbolo do que há de mais puro e nobre, portanto nada mais acertado do que colocá-la como estandarte da força do amor – é realmente muito belo e simbólico que seja uma super-heroína, uma mulher, aquela que, teoricamente, é fraca por amar, colocar um fim ao conflito simplesmente por acreditar que o amor é a força que tudo modifica e que a tudo cria. O amor, via de regra, é aquele sentimento universal, aquele que todos temos em comum – e por isso é tão importante que seja a Mulher-Maravilha a portadora dessa mensagem tão importante. De acordo com a própria Patty Jenkins, em entrevista ao The New York Times,

“I wanted to tell a story about a hero who believes in love, who is filled with love, who believes in change and the betterment of mankind. I believe in it. It’s terrible when it makes so many artists afraid to be sincere and truthful and emotional. Art is supposed to bring beauty to the world.”

“Eu queria contar a história de um herói que acredita no amor, que está preenchido de amor, que acredita na mudança e na melhoria da humanidade. Eu acredito nisso. É terrível quando tantos artistas sentem medo de serem sinceros e verdadeiros e emocionais. A arte deve trazer beleza para o mundo.”  

Não há absolutamente nada de errado – ou brega, como li em tantas críticas – em ser sincero a respeito de seus sentimentos, e isso inclui o amor. Diana não vira as costas para a humanidade mesmo quando vê seu pior lado, mesmo em momentos de dúvida ou desespero – e, ao contrário, ela abre mão de tudo aquilo que é em nome do amor que sente por esse mundo novo que acabou de conhecer. Em Themyscira ela era amada e protegida, não havia motivo imediato para que deixasse para trás a segurança de seu lar, mas Diana vê como certa sua missão de libertar a humanidade de Ares e não hesita ao partir com Steve. O tipo de poder impresso nessa atitude, a empatia de Diana para com aqueles que não conhece e, tecnicamente, nada deve, demonstra a força imensa e a coragem da super-heroína.

O mundo precisa de mais amor, e de amor em todas as formas. Em tempos sombrios como o que vivemos, é importante encontrar uma mensagem clara e direta como a de Mulher-Maravilha – não há nada de errado, ou bobo, em amar e acreditar que dias melhores virão. Como símbolo de amor e paz há 75 anos, nada melhor do que Diana Prince, de Themyscira, trazer a mensagem que tanto precisamos relembrar. E como já diria Sia:

“To be human is to love
Even when it gets too much
I’m not ready to give up”

“Ser humano é amar
Mesmo quando é difícil
Não estou pronta para desistir”

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2 Comentários

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    Elaine Gaspareto
    15 de junho de 2017 at 10:36

    Concordo plenamente com o texto. E a empatia de Diana é tão forte, seu amor é abrangente, alcança por exemplo os cavalos de uma cena. Ela pergunta por que estão machucando os animais, ela quer ajudar. A empatia e o amor são assim, não discriminam nada nem ninguém, e essa é a força do filme, é o super-poder dela…

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    Manuella
    22 de junho de 2017 at 10:40

    Manas, estou ansiosa para vocês assistirem Colossal e escreverem sobre!
    Fui ao cinema ontem assistir e fiquei encantada. É aquele filme em que você sai contente só de ver que a mulher faz um papel que não é forçado, mas, sim, como todo papel feminino deveria ser… sabe? Empoderamento feminino com a naturalidade que devíamos ter no nosso dia-a-dia, nas relações com os homens que nos cercam. É um filme que, ainda assim, tem majoritariamente papéis masculinos – mas também tem pouquíssimos personagens – e mesmo assim parece que os papéis masculinos estão ali para cumprir personas diferentes que um homem pode assumir ao ser abusivo ou impotente com uma mulher, dando margem para uma personagem principal poderosa e dona de si, mesmo que com tantos problemas e alcoólatra. Anne Hathaway está maravilhosa e zero forçada!

    Quero muito muito que vocês assistam e opinem! Amo tudo que vocês escrevem!

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