LITERATURA

O Livro do Juízo Final: ficção científica e viagem no tempo

O Livro do Juízo Final, primeiro da série Oxford Time Travel, escrito por Connie Willis e publicado no Brasil pela Suma de Letras, é um livro que mistura ficção científica, viagens no tempo e um relato cru e sem fantasias da Idade Média. No imaginário popular, a Idade Média normalmente aparece como um universo à parte, repleto de príncipes galantes e princesas à espera, mas a realidade era outra – e bem diferente. O livro de Connie, que mescla passagens do ano de 2054 e 1320, na Inglaterra, retrata com maestria como o século XIV foi perigoso, principalmente para moças viajando desacompanhadas – o que, se pararmos pra pensar, não mudou tanto assim no século XXI.

Vencedor de prêmios importantes como o Hugo e o Nebula Awards, ambos concedidos aos melhores livros de ficção científica e fantasia de cada ano, O Livro do Juízo Final foi escrito em 1992 e permanece como um dos raros exemplos em que o protagonista da viagem no tempo é uma personagem feminina. Embora hoje em dia nós possamos ler (e assistir!) as aventuras de Claire Fraser em Outlander, dos livros escritos por Diana Gabaldon, e, finalmente, tenhamos a primeira Doctor mulher em Doctor Who, o fato é que, por muito tempo, as mulheres que viajaram no tempo eram vítimas de uma situação fora do controle e não donas da própria narrativa e vontade de explorar o passado e o futuro. No caso de O Livro do Juízo Final, no entanto, isso muda de figura: em Kivrin, uma historiadora que está se especializando na Idade Média na Universidade de Oxford, temos o perfeito exemplo de alguém que sabe muito bem o que quer e é determinada a fazer o possível e impossível, para consegui-lo.

Na Oxford de 2054, viajar no tempo para realizar estudos de campo é uma realidade, e é isso o que Kivrin deseja fazer: estudar a Idade Média na Idade Média. Para tanto, a jovem se prepara o melhor possível de maneira a se adaptar perfeitamente à época que pretende visitar, aprendendo latim, inglês antigo, os maneirismos nas falas, a maneira de se portar e se vestir. Kivrin faz o trabalho completo e, embora voltar tanto no passado seja algo perigoso mesmo para o nível tecnológico alcançado em 2054, ela não hesita em fazer essa viagem acontecer. Dessa maneira, Kivrin vai até seu mentor na faculdade, o professor James Dunworthy, em busca de conselhos e aprimoramento em seus estudos, e consegue autorização do professor Gilchrist para levar adiante o projeto.

Dividido em duas narrativas, O Livro do Juízo Final cria uma dinâmica interessante entre os relatos da vida na Idade Média, com uma descrição crua e real do cotidiano no século XIV, e as facilidades tecnológicas de 2054. Mas enquanto Kivrin precisa lidar com doenças, falta de higiene, fome, a religiosidade exacerbada e a influência da Igreja Católica na vida das pessoas, no século XXI o cenário também não é dos melhores quando um vírus desconhecido coloca em risco não apenas a população de Oxford, mas a própria viagem e retorno em segurança de Kivrin. Connie Willis consegue construir narrativas instigantes nos dois períodos de tempo e com dois protagonistas diferentes e, apesar dos capítulos passados em 2054 serem divertidos e, ao mesmo tempo, densos, e tenham alguns dos melhores personagens do livro – sim, estou falando da Drª Mary Ahrens e de seu sobrinho pré-adolescente, Colin – é inegável que os momentos mais bem construídos de toda a trama residam na vivência de Kivrin no passado.

Kivrin é uma protagonista jovem, determinada, estudiosa e que sabe muito bem o que está fazendo. Ela não foi até a Idade Média a passeio e apesar de precisar lidar com situações difíceis logo nos primeiros instantes em que coloca os pés no século XIV, ela não se deixa abater. O medo surge, é inevitável e uma das premissas de ser humano, mas nem por isso Kivrin deixa que ele a absorva e norteie suas ações. Ainda que tenha planejado sua viagem no tempo com o intuito de estudar de maneira local a Idade Média, sua cultura e sociedade, Kivrin logo se afeiçoa às pessoas com quem se relaciona, o que, ao mesmo tempo em que transforma sua estadia em algo memorável, também a faz sofrer com a iminente despedida e a tragédia que se aproxima. Mesmo que uma pesquisa científica precise de distanciamento do objeto de estudo para se chegar a conclusões claras e precisas, Kivrin não consegue deixar de criar laços com a família que a acolhe, principalmente com as pequenas Agnes e Rosamund, e o gentil Padre Roche.

Connie Willis constrói uma história sobre viagens no tempo que é mais do que isso, visto que sua narrativa trata muito mais da humanidade e empatia de seus personagens do que dos aspectos técnicos e científicos que envolveriam um salto entre séculos. Enquanto Kivrin, no século XIV, sente por não poder fazer o suficiente pelas pessoas que lá vivem, no século XXI temos Dunworthy lutando para trazer sua aluna para casa em segurança, e a Drª Mary fazendo o impossível para sustentar uma situação de quarentena e um vírus desconhecido que coloca mais pessoas hospitalizadas a cada dia que passa. O Livro do Juízo Final se transforma em uma história sobre persistência, coragem e determinação quando coloca seus personagens enfrentando situações desesperadoras, o que demonstra que o ser humano é resiliente e se reinventa quando necessário.

A narrativa da autora é outro ponto positivo e comprova que O Livro do Juízo Final foi premiado por justo merecimento: Connie Willis descreve com verdadeira profundidade todos os piores aspectos da Idade Média e não poupa detalhes quando narra doenças e pústulas, deixando o relato de Kivrin ainda mais verossímil. A autora se preocupa em falar dos aspectos poucos lisonjeiros do século XIV, e isso apenas enriquece a narrativa e a aventura de sua protagonista. Ainda que algumas passagens se tornem cansativas e repetitivas – principalmente quando o professor Dunworthy passa dias inteiros em busca de um telefone ou a espera de um telefonema –, são pequenos detalhes que não desmerecem a trama em nenhum momento. O Livro do Juízo Final, uma ficção científica escrita e protagonizada por uma mulher, entra sem dúvidas para a lista dos melhores livros do gênero ao entregar ao leitor uma trama rica em detalhes, uma narrativa envolvente e personagens carismáticos, fáceis de amar.  

O exemplar foi cedido para resenha como cortesia pela Editora Suma de Letras.


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1 Comentário

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    Caio Borrillo
    22 de novembro de 2017 at 12:44

    Livro lindíssimo!

    Outra viajante do tempo é Nix, de A Girl From Everywhere!

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