LITERATURA

O Infinito no Meio: reclusa na própria memória

Nós não aprendemos a lidar com a perda. É uma das questões que só conseguimos enfrentar com o passar do tempo, que acabam trazendo novas vivências, ensinamentos e, principalmente, maturidade. Mas e se o tempo parasse em um momento de extrema dificuldade e vulnerabilidade?  E se fôssemos reféns de um único espaço onde ele não corresse e tivéssemos que observar todo mundo a nossa volta viver e permanecêssemos no mesmo espaço físico e temporal? Essa é a história de Cecília, a protagonista de O Infinito no Meio, novo livro de Priscilla Matsumoto, autora de Ball Jointed Alice.

Aviso: este texto contém spoilers!

Cecília vive há quase 30 anos sozinha em seu apartamento onde o tempo não passa, lugar que ela apelidou de “infinito no meio”. Lá, as lâmpadas não queimam, ela não envelhece e nem precisa se alimentar, pois não perdeu nutrientes desde que o tempo parou. Suas companhias são seres fantasiosos, como um vampiro, fadinhas, seres exóticos e fantasmas. Mas a que mais marca presença é a sua memória.

Foi do dia para noite que a vida de Cecilia sofreu uma reviravolta. E tudo começou com o entregador da farmácia, Nathan, que foi o primeiro ser humano a tocar sua campainha desde de que ela se excluiu do mundo no “infinito no meio”. Nathan era um jovem de 18 anos, gay, que possui um estilo alternativo e próprio, o que chamou a atenção de Ceci. A “jovem senhora”, que, apesar de ter a aparência de uma mulher de 22 anos por conta dos efeitos de seu apartamento, de acordo com a nossa realidade, deveria ter mais de 50 anos, tomou coragem e chamou o jovem para tomar um copo de água, sem imaginar que essa socialização mudaria sua vida.

Apesar de sua insistente resistência, após um ato impulsionado pelo medo de perder uma de suas principais memórias, Cecília sai de seu apartamento e quando se dá conta, está imersa no século XXI.

São muitas as novidades no mundo fora do “infinito no meio”. Novas formas de comunicação, um novo posicionamento sobre gênero, novos desejos e personalidades dos jovens da modernidade. Priscilla nos envolve nas aventuras de Nathan e de Cecília, pensando nos mínimos detalhes como uma pessoa que nasceu nos anos 80 se adaptaria a instantaneidade de hoje em dia, e, sobretudo, como a protagonista internaliza que o tempo está passando.

Um dos destaques da escrita de Priscilla é sua desenvoltura poética. Cada frase é harmônica e aprofundada, construída com um vocabulário simples, de maneira sinfônica. É claro o desejo da autora de provocar reflexões acerca de seus personagens, que serão concluídas de maneiras diferentes por cada leitor. De maneira subliminar há críticas políticas e sociais em sua obra, que são pontuadas por pequenas indagações da personagem principal. Esse é o segundo livro de Matsumoto que leio, e, particularmente, uma das questões que mais me atraem em suas obras é como ela lida com o gênero e a sexualidade. Nenhum de seus personagens é padronizado. Embora apresentem certas características que se “enquadrem” em alguns recortes, é muito natural a maneira que as obras de Priscilla abordam o assunto, trazendo relações instigantes e pouco faladas na literatura.

Temas ainda considerados tabus na sociedade como um todo também ganham uma forma poética e empolgante em O Infinito no Meio. Sexo, menstruação. Não há assuntos que não possam ser abordados, repensados e criticados. A liberdade literária de Priscilla pontua os objetivos de suas obras: inclusão, crítica ao sistema, livre arbítrio de escolhas.

“Como que por mágica, toda a culpa me abandonou.
Seu orgasmo redimiu meus pecados.
Ofegante, ele esperou que eu me levantasse para abrir os botões da minha calça…

…. Quando Nathan enganchou as mãos por trás dos meus joelhos, de modo a aproximar meu quadril do seu, foi que notei o sague entre minhas pernas. Uma mancha viva na minha calcinha branca de algodão. Placas grudentas, de um vermelho-escuro meio amarronzado, aderidas às minhas coxas”.

Ao longo da trama, vamos acompanhando os dramas da protagonista narrada em primeira pessoa e quais os motivos que a levaram ao “infinito no meio”. A obra desliza entre o presente e o passado, fazendo um panorama de como eram as relações nos anos 80 e como elas se dão na atualidade. O lugar onde o tempo não passa é o apartamento onde Cecília viveu com sua família: seus pais e seu irmão, Vicente. O relacionamento deles era mais do que sanguíneo, era físico, carnal. Cecília e Vicente eram amantes, fato que tentaram esconder ao máximo de seus parentes, mas quando as coisas desandaram, a culpa foi, obviamente, dela.

O aborto clandestino foi só o começo. Sem mencionar a não aceitação do relacionamento abusivo, da primeira transa, do estupro. O ato horripilante veio do “parceiro de sangue”. A jovem adolescente não tinha a quem recorrer, e nem recursos que a fizessem refletir sobre a sua relação com o irmão que, para ela, era pautada no amor. Ele era tudo o que ela conhecia, e nem sequer podia compartilhar com suas amigas ou família, pois sabia quais seriam as consequências de seus atos. Como muitas mulheres da época, Cecília absorveu toda a pressão psicológica da mãe, o sentimento de culpa que foi impregnado em seu cérebro, o relacionamento abusivo que tinha com o irmão. Muito além de ser apenas uma crítica social, todas essas questões citadas acima influenciam diretamente as características da personagem, evidenciando os motivos de sua insegurança e seus questionamentos sobre sua própria existência. E nesse limbo existencial, o leitor navega junto com ela em suas descobertas e sua personalidade oscilante.

Nathan é um personagem delicioso de acompanhar. Seu espírito desapegado, festivo e principalmente seu instinto protetor evidenciam que há um real vínculo entre os dois personagens, que é explicado nos últimos capítulos da trama. Acompanhar a desenvoltura de dois personagens que iniciaram a trama apresentando características de espírito tão diferentes, mas que, no decorrer da obra, conseguiram aprender um com o outro o melhor de suas personalidades foi sublime. Embora Cecília tenha partido de um estado de solidão e confinamento, com naturalidade a autora desencadeou o empoderamento da personagem, sua entrega a sua nova realidade, um novo olhar sobre suas relações e, principalmente, sobre si mesma.

O exemplar foi cedido para resenha pela autora.


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