VALKIRIAS

O feminismo que estampa novas coleções

Esses dias eu estava em uma loja de departamentos comprando umas brusinhas quando me deparei com a seguinte estampa em uma delas: “Respeita as mana, as mina, as mona”. Fiquei meio surpresa. Não que antes eu não tivesse visto um monte de patches de “Girl Power” ou “Girl Gang”, essa coisa meio Taylor Swift e feminismo de #squad. Só que foi a primeira vez que eu vi algo em português nesse sentido. Na verdade, a estampa dessa blusa nada mais era do que palavras de ordem de alguns dos movimentos feministas brasileiros e ver isso totalmente descontextualizado em uma loja de departamentos me deixou meio pensativa sobre até que ponto isso é algo positivo para os movimentos feministas.

Vamos por partes: eu tento não ser uma pessoa pessimista que vê o fim do mundo em tudo. Acho muito massa o quanto o discurso feminista tem se disseminado nas redes sociais  –  ou, pelo menos, isso é o que vejo aqui da minha bolha de algoritmos  –  e acho ainda que isso aproximou muitas jovens do feminismo. Por mais que um post ou uma blusa com um “Respeita as mana, as mina, as mona” não seja capaz de conter nem um quarto do movimento feminista, é uma frase massa de ser compartilhada.

Mas, apesar de não ser pessimista, eu sou apaixonada pela Escola de Frankfurt, uma linha de pensamento alemã cujos percursores eram judeus perseguidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Sim, eles são pessimistas, e não, eles não poderiam ser de outra forma nesse contexto. Mas, o que importa, é que Adorno e Horkheimer criaram o conceito de Indústria Cultural lá em 1947. Indústria Cultural é a indústria que se apropria dos símbolos, discursos e artes e os transforma em uma mercadoria de consumo  –  nesse processo, as significações por trás do “produto” perdem seu sentido.

Partindo desse viés, a apropriação de um dos discursos feministas pelo mundo da moda transformaria esse mesmo discurso em uma fala vazia, uma vez que seu contexto é retirado. Uma blusa com essa estampa não fala o que é respeitar as mina, as mana, as mona ou por que respeitá-las. Não explica por que elas não recebem respeito, não diz nada porque exclui totalmente o caminho histórico que esse discurso percorreu até chegar ali.

Segundo Isleide Fontenelle, autora de “Caçadores de Cool: pesquisas de mercado de tendências culturais e transformações na comunicação mercadológica contemporânea”, a cultura dos jovens – e, atualmente (ainda bem), aqui entra o feminismo – é sempre visada por coolhunters: pessoas especializadas em rastrear tendências comportamentais através de profundas pesquisas de mercado. A intenção das marcas ao contratar coolhunters não é apenas encontrar possíveis comportamentos que possam vir a ser comercializados através de produtos, é também se engajar no ~mundo jovem~ e mostrar a esse público que a marca sabe dialogar com eles.

É claro que, a partir do momento em que um comportamento característico de jovens vira tendência mercadológica, seja através da moda, cinema, música ou tudo isso junto, ele deixa de ser uma nuance desse grupo e passa a ser uma tendência, que é uma palavra mais bonita para “padrão” – o que significa que muitos tentarão se adequar a ele, não por identificação, mas por um tipo de coerção social, e que muitos outros serão excluídos por não se encaixarem aqui.

Como bem afirma Fontenelle:

O que o coolhunter faz é oferecer não um modo de imitar a cultura jovem, mas as regras para atuar em seu interior.

Como o feminismo é, em certos aspectos, uma subcultura do movimento jovem, é claro que ele seria encontrado por esses caçadores de tendências. Ele está no VMA, no Facebook, nos patches de #GirlGang. E, independente dos motivos pelos quais ele foi parar nesses lugares de grande visibilidade, é inegável que o movimento ganhou uma notória visibilidade, afinal não é sempre que a apresentação da Beyoncé no VMA se inicia com a definição de “feminista” por parte de Chimamanda Ngozi Adichie.

A visibilidade das ideias dos movimentos feministas é importante porque atinge as pessoas que não têm acesso aos debates políticos e à academia, em que as questões pertinentes a gênero já são discutidas há anos. Por vezes (e falo por mim), passamos tanto tempo em nossas bolhas que nos esquecemos que algumas pessoas lá foram podem nunca ter ouvido falar do feminismo e que outra só o conhece de antes, através de representações deturpadas exibidas pelos grandes conglomerados comunicacionais brasileiros, que até bem recentemente não se preocupava em mostrar que o feminismo era mais do que a Marcha das Vadias.

Acho que devemos olhar criticamente pra esse processo, porque de nada adianta usar a hashtag #GirlGang na foto com as amigas e falar das inimigas no Twitter. Feminismo não é sobre isso. Também não adianta nada usar blusinha escrito “Respeita as mina” e trombar com inimiga na balada. Mas precisamos também entender que, em todas essas situações, o problema não é quem usa ou consume esses produtos, mas sim a falta de responsabilidade de quem os produz e da imprensa no geral de informar a seus consumidores quais são seus significados. O problema não são as meninas que vão usar lindamente essa estampa, mas o fato de lojas de departamento se apropriarem de algo que não deveria ser vendido.

É claro que é problemático que discursos ideológicos se transformem em mercadoria, na verdade, é a pior (e a melhor, pra algun$) coisa que o capitalismo faz. Mas isso não muda que o VMA, a Taylor Swift e a blusa que eu vi podem ser os primeiros contatos de jovens com o feminismo. Eles podem não ser a melhor porta de entrada para saber mais sobre o que é isso de “respeitar as mana”, mas ainda assim é uma porta, uma porta mais acessível do que a academia e discurso de movimentos sociais.

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3 Comentários

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    Yuri
    6 de abril de 2017 at 10:49

    Perdão, mas não se poderia dizer também que a estampa, independente dos motivos que a levaram a ser apreendida pelo mercado, uma forma de reafirmação e identificação de um determinado grupo social? O próprio intérprete, tendo em vista as pré-concepções e historicidade deste, não seria responsável pelo significado da estampa como símbolo?

    Pensei algo do tipo camisas de times de futebol. Mesmo sem escudo. uma camisa listrada horizontalmente, com as cores preto e branco, tendem a ser identificadas com o time do botafogo. A pessoa que as usa quer reafirmar a sua identidade como torcedor do botafogo, seja pra ela ou para que outras pessoas a reconheçam.

    Acho que viajando nesse sentido, a estampa não seria uma oportunidade das mulheres feministas a utilizarem, talvez, como reforço positivo de suas próprias identidades? O que não resolveria o problema, como o texto bem apontou, sobre como delimitar o significado do símbolo.

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      Paula Maria
      6 de abril de 2017 at 11:08

      A estampa pode ser usada com esse intuito, claro e não foi isso que foi problematizado aqui. O problema não é, de nenhuma maneira, usar a estampa, independente de ser alguém que se considera feminista ou não, o problema é o fato de se tornar mercadoria, porque, nesse momento, o símbolo perde sim sua significação, voltando a existir só após o uso por alguém que consegue significá-lo novamente.

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        Sabrina Eloize
        10 de abril de 2017 at 14:06

        Porque de forma rápida e “sem perceber”, encaixa toda a luta que o feminismo em uma estampa que provavelmente nem vai ser discutida em algum sentido, bem como a Paula destacou no texto. É claro que isso p o d e n ã o a c o n t e c e r, mas o fato é que vidas são importantes e é em vários contextos que o movimento se importa com elas, a ponto de considerarmos também o interesse do mercado…

        não conhecia o site, estou gostando muito de como cada coisa é abordada, parabéns pelo trabalho paula!

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