CINEMA LITERATURA

O dito e o não dito: a homossexualidade em The Children’s Hour

O teatro norte-americano do século XX sempre foi minha paixão. Foi através de filmes antigos que tomei conhecimento de nomes como Tennessee Williams e Eugene O’Neill, pois as peças de teatro deles foram largamente adaptadas para o cinema. Williams carrega no currículo oito peças de teatro (!!!) adaptadas para as telas hollywoodianas, sendo Uma Rua Chamada Pecado a mais famosa delas. Comecei a perceber que todos os nomes relevantes para o teatro dessa época eram homens. Cadê as mulheres? Foi aí que, felizmente, descobri Lillian Hellman.

Por ser a única dramaturga norte-americana do período mais conhecida, Lillian poderia ser considerada uma espécie de musa do teatro norte-americano. Como acontece a toda mulher, seu romance com o escritor Dashiel Hammett ficou mais conhecido do que sua extensa carreira na dramaturgia. As adaptações de suas peças para o cinema incluem alguns dos filmes mais famosos de Bette Davis nos anos 40, como Pérfida e Horas de Tormenta.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em 1934, Lillian escreveu The Children’s Hour, inspirada em um caso real que ocorrera no século XIX, em uma escola para garotas. Duas professoras foram acusadas de manter um caso amoroso por uma das alunas. A reputação delas foi destruída; a escola fechada porque as mães começaram a tirar as filhas de lá. O mecanismo do qual Lillian se valeu para escrever a peça de teatro é muito interessante. Uma análise grosseira do vocabulário da peça nos mostra as três palavras que são mais utilizadas para descrever o suposto romance entre as duas professoras, Martha e Karen: anormal, nojento e assustador. Em momento algum a palavra “homossexualidade” é dita, logo faz sentido que outras palavras de campo semântico negativo estejam fazendo o papel de dizer o que não pode ser dito.

O que é verbalizado em The Children’s Hour é sempre turvo e passível de conclusões dúbias. O não dito, ou seja, a maneira como as personagens se comportam é o que prova aquilo que se está tentando dizer nas entrelinhas. Por exemplo, no primeiro ato, temos a seguinte conversa entre Lily Mortar e Martha:

Lily: Você gosta muito de Karen, eu sei disso. E isso é não é natural, é tão anormal quanto poderia ser. Você não gosta que eles estejam juntos. Você sempre foi assim, mesmo quando criança. Se tivesse uma amiguinha, você sempre ficava zangada se ela gostasse de outra pessoa. Bem, acho melhor você arranjar um rapaz agora – uma mulher da sua idade. (Tradução minha)

Martha parece incomodada com a presença de Joe, noivo de Karen. Ela é ríspida com ele, trata-o sem grande empolgação. Opa, o espectador pensa, tem algo errado com essa mulher. Em seguida, temos o diálogo entre Lily e Martha que reforça a ideia de que há algo errado com ela, pois nunca se interessou por homens, bem como nunca ses casou. A última frase de Lily, chamando os sentimentos de Martha por Karen de anormais, sela a crença de que ela só pode ser apaixonada pela outra professora. Por se desviar do casamento e dos filhos, Martha é automaticamente colocada sob suspeita. Ela não poderia estar sozinha por opção, é claro que não.

Sendo assim, a suspeita vai sendo construída única e exclusivamente através das atitudes de Martha, uma vez que Karen ocupa a posição segura da heterossexualidade na trama.

A adaptação para o cinema de 1961

Em 1961, The Children’s Hour foi adaptado pela segunda vez para o cinema. Na primeira vez, nos anos 30, a homossexualidade foi apagada do roteiro escrito pela própria Lillian, e a história foi transformada em um triângulo amoroso heterossexual. Apesar de o mesmo código de censura – o Código Hayes –  ainda vigorar na Hollywood de 1961, a homossexualidade não foi jogada para debaixo do tapete. É claro que teríamos uma condição para que ela fosse retratada: um final trágico e, quem sabe, redentor. Essa tônica negativa predominou em Hollywood nos anos 1940 e 1950.

O código de censura entrou em vigor no ano de 1934 para acabar com o que os conservadores consideravam a deturpação dos valores morais. Antes do código, na chamada Era Pre-Code, os filmes eram muito mais livres. Tínhamos tramas que claramente retratavam a lesbianidade, como Senhoritas em Uniforme. Essas produções criaram alguns tropos recorrentes em filmes sobre lésbicas e bissexuais, como a ideia de relacionamento entre a butch e uma menina mais nova, geralmente mais feminina. Diferente dos outros, filme de Richard Oswald sobre relacionamentos gays, também é da mesma época que Senhoritas em Uniforme. Nele, o diretor busca chamar a atenção para o problema do suicídio masculino, motivado pela orientação sexual. E, para aumentar ainda mais a ira dos conservadores, havia os filmes expressionistas alemães, que também podiam ser lidos como alegorias de tudo aquilo que não era considerado “normal” pela sociedade. Na tentativa de estancar esse cinema livre, o código de censura foi criado. E é claro que deu ruim.

O código de censura, ao contrário do que os conservadores esperavam, adicionou um desafio ao trabalho dos diretores e roteiristas. Começava a época do subtexto, ou seja, da inserção do sexo, da homossexualidade e de qualquer outra coisa que o código proibisse de maneira sutil, mas que o espectador atento conseguia captar. Por exemplo, ele perceberia pelos trejeitos e pela flor na lapela de Joel Cairo, personagem do filme noir Relíquia Macabra, que ele era gay. Essas coisas passavam, muitas vezes, despercebidas pelos censores.

A adaptação de The Children’s Hour de 1961, Infâmia, é muito fiel ao que Lillian Hellman escreveu, com diálogos da peça inteiramente reproduzidos no filme. Ela também é fiel ao que move a trama, isto é, o segredo. Assim como em Festim Diabólico, filme de Alfred Hitchcock, a homossexualidade é o grande segredo da história, o que mostra a visão daquela época sobre essa questão. Assim como na vida, o cinema precisava silenciar a existência do amor homossexual, o que podemos considerar uma forma de violência simbólica.

A cena mais emblemática de Infâmia acontece dentro de um carro, em um ambiente fechado. Nele estão Mary Tilford e Mrs. Tilford, sua avó. Depois de fugir da escola por ter sido punida por Martha, Mary vai até a casa da avó e diz que não pode mais voltar para a escola. Mrs. Tilford, a princípio, não liga muito para o que ela diz e decide levar a menina de volta. No carro, ao perceber que seus argumentos não foram convincentes, Mary decide se valer do que suas amigas haviam ouvido anteriormente, ou seja, a conversa entre Lily e Martha, sobre a qual falei no bloco anterior deste texto. Ela cochicha no ouvido da avó algo que ao mesmo tempo sabemos e não sabemos o que é. O rosto de Mrs. Tilford vai passando por estágios, da surpresa ao terror, até que ela finalmente diz à Mary que ela não precisará voltar à escola. Nunca mais.

Festim Diabólico se vale de um recurso ainda mais simbólico para retratar a homossexualidade. Na trama, Philip Morgan e Brandon Shaw, um casal de estudantes, matam o colega de universidade e escondem o corpo dentro de um baú. Esse objeto, a solução de todo o mistério, está o tempo inteiro em cena, guardando o grande segredo, que na verdade nem é o corpo, e sim a homossexualidade. O baú lacrado, visível para todas as personagens do filme, é uma alegoria da homossexualidade: dentro do armário, porém sabida por todos.

Em Infâmia, a homossexualidade também está enclausurada, e não me parece coincidência que a cena da revelação do “segredo” aconteça dentro de um carro: é assim que uma orientação sexual desviante do padrão deve ser mantida, fechada a sete chaves. De certa forma, o filme nos mostra que estava tudo bem enquanto o segredo estava garantido, mas que a revelação dele trouxe tragédia e destruição na vida de todos ao redor de Martha e Karen. Indiretamente, Infâmia tenta nos dizer que a homossexualidade é uma maldição.

No mês passado, a série 13 Reasons Why estreou no Brasil, e muito se falou sobre o suicídio como responsabilidade social, no nosso papel enquanto indivíduos que perpetuam determinadas atitudes que levam ao suicídio de uma pessoa. Em Infâmia, os “culpados” pelo suicídio de Martha foram seus algozes. Em 2012, uma pesquisa mostrou que jovens LGBQTs são cinco vezes mais propensos a tentar suicídio que outros. Isso porque muitos não conseguem se integrar a uma sociedade que os repudia e odeia. Martha, infelizmente, faz parte desse grupo. Desde o primeiro minuto de filme, ela sofre inúmeras violências simbólicas, que misturam misoginia e lesbofobia. Ela chega ao seu ápice na cena do filme e da peça na qual eu mais chorei, a que ela se descobre lésbica. Martha diz:

Talvez eu te ame do jeito que eles dizem.

Quando finalmente “o amor que não ousa dizer seu nome” é verbalizado, ele vem acompanhado de uma chuva de culpa e sentimento de sujeira. Eu não quero olhar para você, não me toque, diz Martha para Karen. É insuportável para Martha admitir seus sentimentos pela outra professora, uma vez que ela tem uma dimensão muito forte do inferno que é ser homossexual. Esse momento na peça é crucial, pois as peças do quebra-cabeça da violência simbólica finalmente se reúnem, fazendo com que a personagem entenda sua condição no mundo. A partir daquele momento, o olhar de estranhamento do menino da mercearia, horas antes, para as duas mulheres, como se elas fossem dois extraterrestres, fazendo com que Martha diga, Ei! Olhe pra mim, eu tenho oito dedos!, torna-se insuportável. A tia Lily e suas suposições, a escola aos pedaços e o desprezo das mães das alunas. Tudo isso são fatores que contribuem para o final trágico do filme. E em 2017, nós ainda precisamos falar muito sobre isso, pois essas violências simbólicas continuam acontecendo e matando a nossa população LGBQT. É triste constatar que isso não ficou em 1961.

Apesar de ser um filme considerado ousado para a época em que foi feito, Infâmia presta um desserviço à comunidade LGBQT. Isso porque a trama reforça a ideia de que o único destino para quem é homossexual é a morte. Foi somente depois de Stonewall que as coisas começaram a mudar em relação ao retrato que se fazia dos LGBQTs no cinema. Até lá, continuamos a ter deturpações do que é o amor entre duas mulheres, conforme mostrado no filme, The Killing of Sister George, de Robert Aldrich, em 1968. Além disso, depois de ler tanto sobre a peça de teatro, cheguei à conclusão de que a própria Lillian presta uma espécie de desserviço à comunidade LGBQT com sua peça. A intenção dela, veja bem, não é retratar a homossexualidade, mas sim o poder de uma grande mentira. A maior prova disso é que ela não se sentiu nenhum pouco incomodada ao transformar sua peça em um triângulo amoroso heterossexual na primeira versão para o cinema de The Children’s Hour. Isso levanta a seguinte questão: até onde Lillian estaria usando assuntos delicados para a comunidade LGBT para chocar as pessoas? Será que ela estaria se valendo dos nossos sofrimentos? Eu não sei.

O que eu sei é que, em muitos aspectos, Infâmia é extremamente moderno, o que me assusta muito.

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