LITERATURA

O Diário de Uma Garota Normal e o desconforto do leitor

O Diário de Uma Garota Normal, de Phoebe Gloeckner, é um livro autobiográfico. No processo de escrever essa matéria, li algumas entrevistas com a autora, dadas da época do lançamento da primeira edição do livro, em 2002, até 2015, quando a adaptação cinematográfica estreou nos cinemas. Nas entrevistas, toda vez, surge a pergunta: “isso foi sua experiência?” “é autobiográfico?” “são seus diários de verdade?”. E em todas as entrevistas, a autora tenta se desvencilhar da pergunta, explicar que não importa, que discutir as inspirações é menos interessante do que discutir a arte em si, que ela pode escrever algo sem ser a vida dela; quer dizer, em quase todas: em uma entrevista de 2015 para o The Rumpus, resignada, a autora diz que sim, que é autobiográfico. Mas que:

“I always resisted this thing about an autobiography, because honestly, what does it matter if it’s me or not. Every work of art is about the artist. I’m finally admitting, yes, that’s my experience. I’ve given up trying to explain to people. It’s not like I just took my life; it’s not a document. I had no interest in saying, ‘This is me and this is my story.'”

[“Eu sempre resisti essa coisa de autobiografia, porque, honestamente, por que importa se sou eu ou não? Qualquer obra de arte é sobre o artista. E estou finalmente admitindo que, sim, é minha experiência. Eu desisti de tentar explicar. Não é como se fosse só minha vida; não é um documento. Eu não tinha interesse em dizer ‘Isso sou eu, essa é minha história.'”

A questão autobiográfica é recorrente para qualquer artista mulher: a expectativa de que todos seus trabalhos sejam “confessionais”, sejam expressões de sua própria vida, a incredulidade face à noção de que podem ser ficção, ou ainda a ignorância de que tantos trabalhos de homens são inteiramente autobiográficos. Mesmo assim, a insistência dessa pergunta nas entrevistas com Phoebe Gloeckner me chamou a atenção: era muita, frequente, incessante, a pergunta que precisava ser respondida e resolvida antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita. A angústia que carrega a pergunta, no caso, tem um peso claro: o do abuso sexual.

O Diário de Uma Garota Normal é um livro que alterna entradas de diário e trechos ilustrados e em quadrinhos, representando um ano na vida da adolescente Minnie Goetze, vivendo na São Francisco dos anos 70. Minnie tem problemas com a mãe, problemas com a escola, problemas com as amigas. Minnie também é estuprada pelo namorado de sua mãe: continuamente, em o que ela, uma adolescente de quinze anos, vê como um relacionamento romântico secreto, como um caminho para sua descoberta sexual. No decorrer do livro, Minnie se envolve em outras situações sexuais de risco e de consentimento dúbio; e, ao final do livro, não há salvação, redenção ou um final bonito para que os leitores chorem, emocionados com a tragédia da vida de sua protagonista. Minnie acha sua vida tão trágica e tão pouco trágica ao mesmo tempo como a maioria das adolescentes – porque Minnie, como narradora, não se sabe personagem de um livro, e escreve em seu diário sobre o que sente a cada dia, não com reflexões grandiosas que encaixam tudo que acontece com ela em seus devidos lugares.

Quando terminei de ler o livro, fui marcá-lo como lido no Goodreads. Por curiosidade, passei o olho em algumas das resenhas, e notei uma reação recorrente: leitores que insistiam, desesperados, que Minnie não sentia pena de si mesma! Que ela não se dizia uma vítima! Que ela não declarava, em seu diário adolescente, com todas as palavras, que estava vivendo uma situação aterrorizante e horrível! Que ela não estava berrando “não”, tentando fugir, chorando para todos ao seu redor sobre o abuso em que vivia! E esses leitores, em pânico, sem saber o que sentir, davam nota cinco para a escrita e os desenhos, nota um para o conteúdo.

Esses leitores, assim como os entrevistadores que cercam Phoebe Gloeckner como fact-checkers, não sabem o que entender, o que pensar, o que sentir, ao serem apresentados à mente de uma adolescente nessa situação. Eles sabem, claro, a forma “correta” de lidar quando alguém conta uma história sobre uma conhecida que foi estuprada pelo padrasto: “que horror, coitada”. Eles sabem, talvez, como lidar se alguém confessa, anos depois, com lágrimas nos olhos e muito pesar, que foi estuprada quando adolescente, que foi uma experiência terrível e dolorosa que a traumatizou para sempre e sobre a qual ela só se abriu depois de anos de terapia, distância e clareza. Mas eles não sabem como lidar quando a vítima não é perfeita, quando a vítima ainda não tem a distância para ver com clareza sua situação, quando a vítima escreve para si própria o que sente e o que teme e o que acha que deveria sentir, quando a vítima sente desejo pela pessoa que a abusa, sem saber que aquele desequilíbrio de poder a impede de consentir. Em suma, eles não sabem – nós, de forma geral, não sabemos – o que fazer com uma vítima que tem agência.

Phoebe Gloeckner, naquela mesma entrevista com o The Rumpus, deixa claro que, sim, óbvio, foi abuso sexual:

“It was clearly sexual abuse. Sometimes I think about the movie and the book, and the truth is that that whole thing made me really sad. The whole experience. Writing the book, at least—I reject the idea of it being psychotherapy—but it made me feel like it gave this child a voice. But that didn’t make me feel any less sad about it.

I feel now that something was taken from me. Because he didn’t see the love I had for him. I actually really loved him. But I think that meant nothing for him, or he would laugh it off. “You’re just a kid.” If I look at that situation, it sounds crazy to say I don’t think I was abused.”

[“Foi claramente abuso sexual. Às vezes eu penso sobre o filme e o livro, e a verdade é que tudo aquilo me deixou muito triste. A experiência toda. Escrever o livro, pelo menos – eu rejeito a ideia de que é terapia – mas me fez sentir como se eu tivesse dado voz àquela criança. Mas isso não me deixou menos triste.

Agora eu sinto como se algo tivesse sido tirado de mim. Porque ele não viu o amor que eu tinha por ele. Eu realmente o amava. Mas eu acho que isso não significava nada pra ele, que ele achava engraçado. “Você é só uma criança.” Se eu olho para a situação, parece loucura dizer que eu não acho que fui violentada.”]

Treze anos depois da publicação do livro, tantos anos depois da sua experiência, Phoebe ainda tem que declarar, explicitamente: sim, foi abuso; sim, foi estupro. Me parece que o horror ao ler um livro em que a personagem não se identifica, ainda, como vítima parte do mesmo ímpeto que força a autora a se explicar, a justificar sua própria identidade de vítima: é o horror da vítima imperfeita. É o horror do leitor que se sente tão vulnerável e frágil quanto às suas próprias percepções sobre abuso e violência que, ao ser confrontado com uma vítima que vive suas experiências em vez de mastigá-las para o leitor, teme perder a certeza de que aquilo é ruim, de que aquilo é errado. Se Minnie/Phoebe não é impecável em sua posição de vítima, se ela não se desloca de sua experiência real para explicar com todas as letras o que ocorreu, o leitor se vê suspenso no desconforto.

O Diário de Uma Garota Normal é um livro autobiográfico, mas importa mesmo que ele seja? Não há espaço para personagens que não amarrem suas narrativas com laços de fita, para histórias que se preocupam com si próprias e não com o conforto de quem as lê? Phoebe Gloeckner escreve em Minnie a adolescente que vive experiências múltiplas ao mesmo tempo, que ainda tem quinze anos e não sabe o que vem adiante, que é capaz de prazer e felicidade intercalados com trauma e dor. Ao vermos um ano de vida escancarado, um ano em que acontecimentos demais se atropelam em um mês e outros se passam no marasmo, em que coisas ruins e coisas boas acontecem, em que a personagem cresce um pouco, vive um pouco, existe por um ano de muitos, encaramos a fragilidade das nossas narrativas pessoais e das que impomos aos outros. Nos diários de Minnie/Phoebe, a ambiguidade e a incerteza da protagonista nos obrigam a tomar uma posição própria: a de jogar a responsabilidade sobre a autora/personagem, ou a de assumir nosso papel no desconforto.

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