CINEMA

O Babadook está entre nós

Mais de uma pessoa já tinha me indicado o filme de terror psicológico O Babadook desde que ele entrou no acervo da nossa amada Netflix — mas, desobediente que só eu, obviamente levei milênios para finalmente me render. Até que apareceu a ideia dessa semana do terror, que me permitiu unir o útil ao agradável.

Objetivamente falando, o filme conta a história de Amelia (Essie Davis), que cria sozinha o filho de sete anos Samuel (Noah Wiseman), após a morte do marido em um acidente de carro pelo qual passaram a caminho do hospital no dia do parto. Um dia, quando se aproxima o sétimo aniversário de nascimento de Samuel e morte de Oskar (Benjamin Winspear), um livro infantil desconhecido aparece na estante de Samuel. Um livro aterrorizante sobre um monstro chamado Babadook.

Babadook livro

Curiosidade: “Babadook” é anagrama de “a bad book” (um livro mau).

Esse é um dos melhores filmes que eu já vi na vida. E se encaixa tão bem nessa semana temática quanto teria se encaixado na nossa Semana da Saúde Mental do mês passado. Porque o Babadook é o monstro mais real que eu já vi em um filme de terror. O Babadook não só existe, como já visitou muitas de nós.

Mas vamos por partes.

Não é fácil ser Amelia

Amelia é mãe solo e sem uma rede de apoio. Ela tem a irmã, que demonstra clara má vontade e hostilidade em relação a Samuel, e tem a vizinha idosa, que é um amor e muito disposta a ajudar — mas que, além de ser idosa, tem Parkinson e, logo, sua capacidade de ajudar é limitada. Dentro de casa são Amelia e Samuel, sozinhos. A responsabilidade é toda dela e se o fato de o marido ter morrido nos “poupa” de discutir o papel dos pais que somem e deixam o fardo dos filhos todo nos ombros da mãe, não diminui o fato de que ela tem que carregar esse fardo sozinha.

Babadook

Ela tem uma responsabilidade imensa criando sozinha uma criança difícil. Com uma criança tranquila, já não seria fácil, mas o comportamento do filho contribui para aumentar ainda mais o isolamento pelo qual as mães já passam todos os dias.

A maternidade compulsória significa que todos os dias, por todos os meios, dos mais sutis (romantização da maternidade, brincar de boneca) até os mais agressivos (aquela tia que pergunta toda semana quando vem os bebês), nós somos levadas a acreditar que não teremos uma vida completa se não tivermos filhos, que seremos menos mulheres por causa disso, que estaremos de alguma forma traindo nosso destino biológico de fêmeas ao nos recusarmos a procriar.

Por outro lado, quando uma mulher se torna mãe, ela perde imediatamente muito do seu (já pouco) espaço na sociedade. Ela perde seu status de pessoa autônoma e passa a ser mãe e só. Sua presença não é mais bem vinda (às vezes não é nem mesmo possível) porque agora tem outro ser humano preso a ela e aquela presença é considerada inconveniente. E se ela não se doar integralmente àquela criatura em tempo integral, então ela só pode ser uma mãe ruim, desnaturada, egoísta — ela está mais uma vez traindo seu destino biológico.

Essas são coisas que acontecem com qualquer mãe. Mas com mães solo acontece de forma mais acentuada. Porque boa parte do tempo ela está ali, presa e sozinha com uma pessoa que no começo mal é uma pessoa, no quesito companhia.

O Babadook

Superando todos os monstros de filmes de terror, o Babadook merece destaque porque ele é real — independentemente das concepções religiosas que se tenha. Ele é nada menos do que a personificação de algo que muitas entre nós conhecem muito bem: a depressão, o luto.

Babadook

Amelia nunca teve a chance de lidar com a morte do marido, porque literalmente no mesmo dia em que isso aconteceu ela ganhou um outro ser humano para cuidar, completamente dependente dela, e que representava, ainda, um lembrete perpétuo da dor que ela não podia lidar e da qual não podia se livrar. Ganhando de bandeja esses dois baques simultâneos (a morte e a maternidade) , começou a crescer dentro dela o monstro que a acompanhou por sete anos até o momento em que nós começamos a acompanhar trama.

Ao mesmo tempo que passa pelo estado puerperal (pós parto), com todas as flutuações hormonais e mudanças físicas que isso traz, ela tem centenas de questões psicológicas e emocionais das quais não pode correr. No meio disso tudo, vemos uma criança que personifica todos os horrores que estão acontecendo. Então temos a rejeição pelo próprio filho e a culpa que advém disso, todos esses elementos que ela se força a reprimir e guardar no porão, crescendo e se tornando o monstro que não pode ser contido.

Tudo a partir daqui é repetição do que o próprio Babadook anuncia na sua chegada: quanto mais ela se recusar a encarar, mais forte ele fica, e você não pode se livrar do Babadook. O que pode ser mais assustador do que isso?

Babadook livro

“Seja com uma palavra / ou com um olhar / você não pode se livrar / do Babadook”

Depressão é uma doença e tem tratamento — inclusive a base de remédios — mas é uma doença que nunca vai completamente embora. Uma vez que ela se instala, a única coisa que se pode fazer é mantê-la sob controle — encarar de frente, aprender a reconhecer a forma como ela se comporta, e o que se pode fazer para evitar que o Babadook tome o comando.

É isso que O Babadook mostra: a face mais violenta dessa doença, de uma forma metafórica que permite que nós, que estamos de fora, consigamos perceber de forma absolutamente clara que a culpa de tudo aquilo que está acontecendo não é da Amelia, é do monstro. Um monstro que nunca vai embora, mas com o qual ela tem poder de lidar e manter sob controle, e viver uma vida normal. É um filme de terror, sim, mas também um filme com uma mensagem muito positiva.

O Babadook não é um filme que vai te dar sustos, mas isso não significa que ele não dê medo de alguma forma. E é definitivamente o melhor filme sobre depressão que eu já vi.

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