MÚSICA

Nota 10 é Dina Di: força independente, filha da mãe, elo da corrente

Tenho um filho de 3 vou completar 26
e se preciso for começo do zero outra vez.
É como um vício difícil largar,
só eu sei o que eu passei o que eu vou ter que passar pra ficar.

Vou lutar desistir nem pensar
Dina Di, Visão de Rua, pronta pra disparar.

(Mente Engatilhada)

Se hoje temos Negra Li, Karol Conka e Thássia Reis, o mérito é quase todo de Dina Di — a voz feminina mais importante do rap nacional, a primeira mulher a alcançar reconhecimento nacional fazendo rap. Até hoje, o estilo é majoritariamente dominado por homens e poucas mulheres conseguem se destacar; no entanto, apesar de Dina Di ser lembrada por vários rappers e sua influência no cenário nacional ser inegável, seu nome tem ficado meio ofuscado nesse bom momento do rap nacional e, pra quem gosta do rap e tem vontade de se aprofundar no assunto, não dá pra não conhecer Dina Di.

Dina Di era a vocalista do Visão de Rua, que em 2000 e 2001 conquistou o Prêmio Hutúz como “Melhor Grupo Feminino”. A premiação, que era parte do Festival Hútuz, criado pela Central Única das Favelas (CUFA), foi o principal prêmio destinado ao hip hop brasileiro.

Assim como a maioria dos rappers, Dina Di tem uma história muito comum nas periferias brasileiras mas esquecida constantemente porque não vivencia essa realidade. Largou a escola antes de completar o ensino fundamental, tinha problemas de dicção, mas isso nunca a impediu de escrever.

Me lembro perfeitamente como se fosse agora,
o dia o mês e hora em que saí, pelo mundão afora
na esperança de ser, alguém se dar bem,
embora não ter apoio de ninguém.

(Confidências de uma Presidiária)

Aos 13 anos, após anos trabalhando pra mãe vendendo bonecas e flores, Dina Di fugiu de casa. Dizia que não sabia quantas vezes passou pela FEBEM ou outros distritos policiais. Seu pai, mestre de obras, morreu engasgado em 1995 com um pedaço de carne num bar. Em 1998, conheceu Tchock, seu grande amor e quem a transformou em “A Noiva de Tchock” – durante vários anos do relacionamento dos dois, Tchock esteve preso. Em 2001, sua mãe, foi brutalmente assassinada, asfixiada com um pedaço de pano enquanto estava amarrada com o varal de roupas. Em 19 de março de 2010, Dina Di faleceu. Sua morte, tão feminina e brasileira, se deu por conta de uma infecção hospitalar, adquirida quando ela deu a luz à sua segunda filha, Aline.

Dina Di, sempre de roupas largas, subia no palco pra denunciar a sequência de tragédias que teve em sua vida. Seu rap era sobre as dificuldades diárias dos que vivem nas ruas, sobre drogas, sobre ser uma mulher nessas ruas e sobre o que era ser esposa de presidiário e passar horas na porta de cadeia por amor. O que ela realmente queria era viver da música, do rap, sem se vender e sem deixar de cantar as verdades em que acreditava.

Hoje é a quarta da vaidade,
mulherada dá um corre, se arruma, se perfuma,
ó, e passa o dia atrás das grades.

(Do Lado di Fora da Muralha)

Famosa antes do rap ser respeitado e trending do Spotify, Dina Di teve que se provar boa duas vezes mais pra alcançar o que alcançou. Primeiro como rapper, depois como mulher. Afirmava que as roupas largas eram uma maneira de fazer com que os caras focassem na sua voz e não no seu corpo. Não queria ser objeto, queria ser ideia. Aficcionada por Racionais, Dina Di afirmava não respeitar Mano Brown porque ele chamava as mulheres de vadias. Em várias entrevistas, dizia que mulheres podem ser o que quiserem se acreditarem nelas mesmas. E foi isso que ela fez até o final.

Milhares de mulheres ao redor do mundo
Sofrem nas mãos de homens violentos, covardes em sentimentos
Pelos filhos são capazes de suportar o grosso das indignidades
Perde o prazer de viver, a autoestima, a liberdade

(Dormindo com o Inimigo)

Em 2009, ganhou o Prêmio Hútuz de maior cantora de rap do século XXI. Tinha ainda muitos planos. Estava bem, saudável. Queria ter feito um projeto novo, talvez de MPB. Se foi antes do tempo, deixou saudade e influência pra um monte de mina, virou verso do rap de Criolo, expoente nacional, e tem seu lugar guardado junto com Sabotage, RZO, Rapin Hood e mais dos maiores nomes do rap brasileiro.

1997, surge no cenário do rap: Dina Di.
E Deus jamais vai permitir uma mulher forte cair.
Eu sou mulher, sou do lar, sou da noite, do dia,
sou do Rap, eu sou do bem, fruto da periferia,
uma peça do quebra-cabeça,
uma força independente, uma filha da mãe,
a mãe de todos, um elo dessa corrente.

(Guerreira de Fé)

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