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North & South: Dois lados da mesma moeda

“I believe I’ve seen hell and it’s white, it’s snow-white” [“Eu acredito que vi o inferno e ele é branco, branco como a neve”, em tradução livre]. É com essa frase que a personagem principal da minissérie da BBC, North & South, Margaret Hale (Daniela Denby-Ashe), finaliza o primeiro episódio. É também ao proferir essa frase que Margaret deixa bem claro o que pensa sobre o seu mais novo lar.

Lançada em 2004, pela mais famosa emissora inglesa, North & South foi adaptada para as telinhas do livro homônimo de Elizabeth Gaskell. Durante 4 episódios acompanhamos a vida de Margaret durante o período designado como The Great Exhibition, ocorrido por volta de 1850. A existência pacífica e colorida que Margaret levava no sul da Inglaterra muda abruptamente quando seu pai, um pároco, decide largar tudo e levar a família para o norte do país, onde os dias são cinzentos, tanto no céu quanto nas construções, as pessoas são endurecidas e os costumes levemente diferentes. Lá, a personagem principal se depara com uma cidade borbulhando com o crescimento industrial, com a concorrência capitalista e com todas as consequências que vem com isso, especialmente para o proletariado. A dualidade pregada desde o começo pelo título da série e do livro se reflete em diversos pontos ao longo da minissérie, desde a personalidade distinta do casal principal – ele, fechado, arrogante, sisudo; ela, gentil, plácida, compreensiva -, passando pelas diferenças culturais, seja de trejeitos ou modos de iniciar uma conversa, até como patrões e empregados tem sua visão própria de uma mesma situação. E claro, a (não tão) boa e velha, diferença entre como homens e mulheres se expressam e são tratados em sociedade.

Enquanto vemos Margaret e John Thornton (Richard Armitage) fazerem às vezes de um dos casais mais conhecidos da literatura – sim, estou falando de Lizzie e Darcy – na nossa tela (e muito bem, por sinal, os arrepios e frios na barriga proporcionados pelos dois até superaram, em alguns momentos, os alcançados pelo casal de Jane Austen), paralelamente se desenvolve uma trama de abuso de uma classe sobre a outra. Funcionários que trabalham em fábricas de tecelagem em condições precárias, não seguras, ganhando um salário mísero, enquanto os patrões alegam não ser possível pagar um preço justo pela tarefa desempenhada. A beleza de uma série como North & South é que o roteiro apresenta os seus pontos e nos deixa decidir o que achamos certo ou errado. Os tons de cinza não são associados apenas com a fotografia da série, mas também quando, por breves momentos, passamos a entender o lado de Thornton, como patrão, ao mesmo tempo em que concordamos com Margaret, uma voz perdida na multidão que clama por melhores condições de trabalho.

O mais curioso é que o roteiro escolhe nos mostrar as consequências vividas pelos trabalhadores através de Bessy (Anna Maxwell Martin), filha de Nicholas Higgins (Brendan Coyle), um militante sindicalista, com quem Margaret acaba desenvolvendo uma grande amizade. Bessy acabou adoecendo por trabalhar em uma ambiente não seguro nas fábricas de algodão visto que, respirar os fiapos liberados pela matéria-prima com que trabalhava prejudicou seus pulmões, levando-a a adoecer. Assistimos, junto com Margaret, a ex-trabalhadora definhar e sofrer não apenas pelo fim de sua vida, mas também pelo pai e pessoas que vai deixar. Não é difícil se chocar com o tema abordado pela minissérie, uma vez que os tempos, infelizmente, não mudaram e patrões continuam a tirar proveito de seus empregados. É possível identificar mais de uma situação, diálogo e decisões que refletem, quase com precisão cirúrgica, o que o proletariado da nossa época precisa enfrentar (olá, reforma trabalhista!), por mais que a escala de horror seja menor em alguns casos.

Outro ponto destacado durante a trama, se relaciona com as diferentes faces das mulheres representadas em North & South. Em produções de época, sejam filmes, séries, livros ou afins, podemos observar, sem precisar dispensar um olhar muito apurado, como as mulheres tinham um papel muito restrito na sociedade e praticamente único, presas a convenções sociais absurdas, que se apresentavam de formas distintas para aquelas da alta sociedade e para as que não faziam parte deste círculo. Neste quesito, muitas vezes é de se ficar aliviada, com as conquistas que a classe feminina teve, com muita luta, ao longo do tempo. Ainda há um longo caminho a se percorrer, mas os percalços enfrentados e deslizes cometidos – aos olhos da sociedade da época – por Margaret durante a série nos mostram que o espaço feminino se expandiu desde então. Os costumes da época colocam Margaret em uma situação dúbia quando, para proteger Thornton, ela coloca o próprio corpo contra o dele em um multidão. O que deveria ter sido encarado apenas como preocupação e proteção, se desenrolará em um embaraçoso jogo de sentimentos ditos e não ditos colocando Margaret em maus lençóis e no meio de um desajeitado pedido de casamento – tudo isso apenas para ilustrar como da mulher se esperava o recato, fazendo com que a moça tivesse que reprimir o que sentia em prol das aparências, sempre se policiando para que um olhar a mais ou um sorriso muito brilhante não se tornasse alvo de falatório.

Margaret, boa em desempenhar o seu papel heroína de época, tem as características normalmente associadas às mulheres: gentil, conciliadora, amorosa, preocupada, disposta; mas também carrega traços de independência, como uma língua afiada, atrevimento e certa petulância. Tais características acabam por serem alvos das reprimendas de mulheres mais velhas que entendem que uma jovem moça jamais deve expressar sua opinião, ainda mais a respeito de assuntos não relacionados ao universo feminino – que é o que Margaret faz, vezes sem fim, ao falar sobre a situação dos trabalhadores das fábricas de tecidos, ou mencionar assuntos de cunho político e econômicos, tópicos ditos como masculinos.

Como é de praxe, a representação da mulher “louca para casar”, existe e aqui é desempenha pela irmã de Thornton, Fanny (Jo Joyner), que não vê a hora de arranjar um marido e finalmente poder parar de se submeter aos gastos restritos impostos pelo irmão ou pelas reprimendas sofridas pela mãe. Hannah (Sinéad Cusack), mãe de Thornton e Fanny, é do tipo que defende o filho com unhas e dentes; também é admirada pelo filho que não hesita em relembrar o quanto ela teve nervos de aço e pulso firme para comandar os negócios da família após a morte do marido. Mesmo que Hannah possa ser vista como uma Lady Catherine de Bourgh, a tia de Darcy em Orgulho & Preconceito, no quesito atrapalhar o relacionamento do casal principal, é preciso admitir que sua determinação e força de vontade a fazem uma personagem singular. Ainda que Hannah passeie por extremos – ora é fria demais, ora amorosa demais – as nuances da personagem, e os motivos por ela ser quem é, são muito bem explicados e verossímeis com sua trajetória de vida.

North & South conta uma história que evoca os sentimentos de um bom romance de época, como os de Jane Austen, ainda que consiga embutir uma crítica social dura em suas páginas. A trama é repleta de sentimentos, de fazer pulsar o coração ao contar com personagens muito humanos e vívidos, sem deixar de lado a problematização, seja social ou de papéis de gênero.

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