LITERATURA

Nimona: uma anti-heroína de língua afiada

Uma das primeiras leituras que fiz na vida, quando comecei a ser alfabetizada, foi uma revista em quadrinhos – da Turma da Mônica, para ser mais específica. Desde aquele momento, passando por todos os mangás e HQs de heróis que li da adolescência até a vida adulta (risos), os quadrinhos sempre fizeram parte da minha rotina. Em alguns períodos conseguia ler vários e de temas diversos, em outros me dedicava mais aos livros, mas o amor que tenho por esse tipo de narrativa nunca deixou de existir. Quando soube que a Editora Intrínseca lançaria no Brasil Nimona, uma das obras de Noelle Stevenson – alguém que eu já acompanhava com afinco via internet – havia decidido: precisava dessa edição.

Meu primeiro contanto com Nimona, ainda na internet, aconteceu por meio do Tumblr que Noelle mantinha e atualizava semanalmente, sempre com uma página nova de sua história. E eu, ansiosa que sou, quase não me aguentava por aquilo que estaria por vir. Quando li a primeira página de Nimona, enquanto procrastinava no Tumblr no lugar de fazer minhas tarefas (algo que não faço mais, juro), senti logo de cara que aquela era uma história diferente. Recheada de um humor ácido e uma protagonista fora dos padrões de beleza™, Nimona conseguia reunir tudo aquilo que eu, enquanto leitora de quadrinhos, não sabia que estava procurando até encontrar.

Nimona não é apenas uma menina, Nimona é uma metamorfa. E uma metamorfa muito poderosa. Nimona pode se transformar em um tubarão, um gato, uma raposa e um dragão imenso que cospe fogo – ou em qualquer outra coisa que queira. Com tanto poder, Nimona decide que quer ser comparsa do grande vilão Ballister Coração-Negro e, sendo assim, aparece no covil do malvado sem ser esperada, anunciando a ele seu desejo. Mas Nimona fica um tanto chateada quando descobre que seu ídolo, o maior vilão de todos os tempos, tem escrúpulos e segue leis muito rígidas sobre como proceder em seus atos de vilania – o que não a impede de quebrar essas mesmas regras eventualmente, é claro.

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Ballister Coração-Negro, apesar de reticente em aceitar Nimona em um primeiro momento, acaba permitindo que ela seja sua comparsa, visto que seus poderes como metamorfa podem ser úteis em seus planos. Sendo assim uma improvável parceria toma forma com Ballister Coração-Negro e Nimona lutando juntos contra os desmandos da Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem, comandada pela temível Diretora, e enfrentando o galante herói Ambrosius Ouropelvis que, descobriremos, não é tão heroico assim.

Esse é o início da saga de Nimona, uma anti-heroína maravilhosa, de língua afiada e debochada, que quer ver o mundo pegar fogo. Nimona não se importa em absoluto com regras e leis, e mesmo os planos detalhadamente pensados de Coração-Negro são por ela modificados durante a execução. Em suas missões, por exemplo, Coração-Negro, por diversas vezes, dá broncas em Nimona por ela matar os guardas em seu caminho quando era possível apenas passar por eles sem causar maiores danos. O que começou com uma relação hesitante entre o arquivilão e uma menina metamorfa se transforma em uma relação de amizade e cumplicidade de aquecer o coração.

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As personalidades de Nimona e Coração-Negro, tão diferentes, acabam se complementando de maneira interessante. Enquanto Nimona é zombeteira, brincalhona e sem papas na língua, Coração-Negro é sisudo, sério e tem um grande apreço por suas regras. A união de figuras tão diversas dá o tom divertido da trama da graphic novel, já que em um capítulo ambos podem ser vistos executando seus planos malignos – e, normalmente, falhando – para no outro estarem em meio a uma discussão saudável a respeito de sabores de pizza ou se divertindo com jogos de tabuleiro. É possível ver Nimona e Coração-Negro se aproximando e cultivando uma amizade sincera, balanceando a personalidade imprevisível da metamorfa com o lado racional do vilão. Essa dinâmica toma bastante espaço no livro e é o cerne do desenrolar da trama principal, e vale muito a pena acompanhar.

Outro ponto importante de toda a história, é claro, é Nimona. Embora eu tenha crescido lendo uma variedade de histórias em quadrinhos e mangás, não consigo me lembrar assim, de pronto, de uma trama cuja protagonista feminina não fosse dentro dos padrões. Sempre magras e altas, todas essas mocinhas que eu adorava acompanhar eram um tanto distantes das meninas e mulheres que eu conhecia. Ainda sou apaixonada por Sailor MoonCard Captor Sakura, só para citar alguns de meus títulos favoritos, mas tenho que ser sincera ao admitir que estou bem longe de ser uma personagem magérrima de pernas longilíneas.

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“Já posso matá-lo agora?” “Não” “Encantadora” “Depois de um tempo você se acostuma”

Com Nimona, no entanto, as coisas mudam um pouco de figura. Em um mundo dominado por personagens femininas com belezas padronizadas, Nimona se destaca por ser uma protagonista, uma anti-heroína para ser mais exata, um tanto baixinha, com curvas e um cabelo que ela muda de cor e de corte quando bem entende. Nimona foge do padrão de objetificação das mulheres, principalmente em se tratando de uma história em quadrinhos em que a protagonista tem superpoderes, e é uma personagem feminina forte com a qual meninas de todas as idades poderão se identificar facilmente. O passado cheio de segredos de Nimona aparece apenas para adicionar mais camadas à sua personalidade e nunca como justificava para seus atos ou desejo de ser vilã: ela não se desculpa ou justifica, faz o que deseja e quando deseja. E às vezes é somente isso o que queremos.

O universo de Nimona mistura referências medievais, como os cavaleiros e suas justas, com uma tecnologia avançada e aparato científico. As cenas em que os personagens se comunicam por meio de dispositivos eletrônicos são sempre divertidas, encontrar celulares e uma espécie de facetime em um cenário medieval é inesperado e ao mesmo tempo espirituoso. Noelle Stevenson foi capaz de criar uma trama jovial e divertida reunindo referências inesperadas e misturando tudo com bom humor e uma história sobre amizade capaz de levantar questões importantes sobre ética e moral – principalmente por meio de sua anti-heroína que não se importa em matar guardas e seu vilão com escrúpulos. Nada é o que parece ser em Nimona, e isso é extremamente positivo. Há, inclusive, a sugestão de um antigo relacionamento amoroso entre dois importantes personagens masculinos – mas isso vou deixar para você descobrir quando ler.

Noelle Stevenson é uma autora e quadrinista criativa e dinâmica que conseguiu conceber de maneira original uma trama sobre uma menina metamorfa superpoderosa e fora dos padrões. Noelle – autora, ilustradora e quadrinista – já trabalhou para grandes editoras como Marvel e DC, além de ter recebido o maior prêmio do mundo dos quadrinhos, o Eisner Award, e o Slate Cartunist Studio Prize de Melhor Web Comic por seu trabalho em Nimona. Não é pra menos que Nimona é tão maravilhosa, tendo nascido da inspiração de Noelle, uma mulher extremamente criativa e divertida.

Nimona é uma história subversiva e irreverente que mistura magia, ciência, ação e muito humor sobre camadas e mais camadas de reflexão – entre uma batalha e outra, é claro.

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O livro foi cedido para resenha pela Editora Intrínseca. 

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