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Nazaré Tedesco: sentir-se bonita é sinônimo de vilania?

O ano era 2004. Você provavelmente nem tinha completado 15 anos. Renata Sorrah tinha 57. Conhecemos Nazaré Tedesco, a maior vilã de telenovelas do século XXI. Ladra de crianças, assassina, falsa enfermeira, ex-prostituta e exímia estelionatária, Naza infernizou quase todos os personagens da novela Senhora do Destino utilizando suas armas preferidas: a tesoura, a escada, o espelho e o batom.

Duvido que alguém não conheça o enredo. Nazaré rouba a filha recém-nascida de Maria do Carmo (Susana Vieira), com o objetivo de acobertar sua falsa gravidez e dar continuidade ao seu casamento com o rico Luís Carlos (Tarcísio Meira). No decorrer da história, a vilã se mostra inescrupulosa e mal passa um capítulo sem cometer algum crime – de maior ou menor gravidade – ou uma cena sequer sem ridicularizar algum dos personagens da novela.

“Gostosa, irresistível, impressionante como o tempo só te valoriza” (TEDESCO, Nazaré)

Entretanto, Nazaré Tedesco não era apenas uma pessoa perversa, era uma mulher forte e incrível que muito nos ensinou – e nenhum desses ensinamentos tinha a ver com matar pessoas e roubar bebês. Naza exalava autoestima do alto de seus 50 e poucos anos. Naza se reconhecia e se elogiava como poucas vezes foi visto na televisão brasileira. A conexão dela com o espelho – sempre armada com o batom que valorizava seu tão amado bocão – era bem mais saudável que a nossa relação aos 15, 20, 30 anos com nossa imagem. A presença marcante e a ausência de vergonha de ser quem é, deixava as rugas e marcas do tempo imperceptíveis.

Basta uma rápida busca pelo Youtube para refrescar a memória de quem não se lembra da vilã exaltando a si em frente aos espelhos que encontrava pela frente. “Loura louca, loura linda”, “Lorassa boazuda, gostosa pra caramba, bocão”, “Gatosa, gotosa” e “Lorona gostosa” são frases e expressões que Nazaré utilizava frequentemente para se exaltar entre uma maldade e outra. Tirando o fato de os elogios que deferia a ela mesma terem cunho extremamente sexualizado – isso fica para outra discussão –, o que chama a atenção é: por que não se vê mocinhas e protagonistas em atitudes de semelhante exaltação? Por que em um mundo em que a beleza é tão cobrada de nós mulheres o fato de achar-se bela ainda é relacionado a atos de vilania e só se observa mulheres más afirmando-se bonitas?

A história é antiga. Ainda no tempo dos contos de fadas, Branca de Neve já protagonizava uma trama em que a vaidade era característica da maldosa Madrasta. A vilã do conto consultava seu espelho diariamente perguntando: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Para o que o objeto respondia que não havia mais bonita, até a puberdade e florescimento de Branca de Neve como mulher. A princesa é o oposto de sua Madrasta. Apesar de ser a mais linda de todo o reino, a personagem jamais reconhece sua beleza, apesar de ser elogiada por ela o tempo todo, ela age com o recato, delicadeza e subserviência que, em pleno 2016, permanecem celebrados como características femininas.

Outras marcantes vilãs vindas de diferentes produções da cultura pop também ostentam a maldade e a vaidade, tal qual Nazaré e a Madrasta. As americanas Mulher Gato (Michelle Pfeiffer) e Regina George (Rachel McAdams) são alguns exemplos e a vilã mexicana Paola Bracho (Gabriela Spanic), merece menção honrosa. A gêmea má tem a aura poderosa que só quem reconhece o próprio poder consegue apresentar. Já sua irmã boazinha, Paulina, apesar de fisicamente idêntica, só veste tons pastéis e recusa totalmente qualquer posição que possa remeter à vaidade. Na heroína da trama e em outras mocinhas, a beleza acontece sem cuidados com o corpo, com a cútis e sem horas na frente do espelho. É um milagre, um dom (vide Lorelai e Rory Gilmore que só comem besteira e permanecem magérrimas).

“Se de uma coisa eu tenho certeza, é da minha beleza” (BRACHO, Paola)

A ficção reproduz as expectativas da sociedade – ou seria o contrário? O historiador e sociólogo Georges Vigarello, dedicado a estudar a relação social do indivíduo com seu corpo, destaca que a partir do fim do século XIX, observa-se a queda dos padrões de religiosidade e espiritualidade e há um crescimento do individualismo. Nesse contexto, o corpo deixa de ser a casa da alma, e torna-se habitante do mundo físico e real. A estrutura corporal deve ser, além de limpa e saudável, bela e agradável aos olhos. Mesmo em uma época em que matéria e espiritual começam a se separar, a também historiadora e socióloga, Denise Sant’Anna destaca que ainda “no começo do século XX, a beleza física tendia a ser vista como uma dádiva divina. À mulher cabia conservá-la, com recato e comedimento”. Sem exagerar na maquiagem, sem usar roupas que chamem atenção, sendo a imagem e semelhança da casta Virgem Maria.

Hoje, a maquiagem está estampada nos nossos rostos todos os dias e dispor de intervenções cirúrgicas para mudar o que incomoda já não carrega o mesmo estigma de outrora. Nesses tempos, a contradição é: se a beleza é perseguida a qualquer custo, por que ainda é feio assumir-se bela? Numa época em tanto se fala sobre autoestima e sentir-se bem, dizer em público que está bem com a sua aparência não é visto com bons olhos. Aliás, uma mulher dizer que se acha engraçada ou inteligente ou boa em qualquer coisa, não é bem vista nunca. Não nos ensinam a gostar de nós.

As mocinhas das novelas seguem perfeitinhas, nada complicadas e irreais demais. Há quanto tempo uma protagonista “do bem” não te conquista? Achar uma heroína realmente inspiradora na dramaturgia brasileira é achar agulha no palheiro e a TV reflete em muito a cultura do nosso país.

“Tá se achando. E que coisa boa que você tá se achando!” (JOUT, Jout)

Em um vídeo publicado em abril de 2016, a youtuber Jout Jout fala sobre o que achar-se bonita ou inteligente ou engraçada ou habilidosa em qualquer coisa significa na cultura brasileira. A vlogger reflete sobre como o medo de parecer “estar se achando” afeta os indivíduos – principalmente as meninas – durante a fase da adolescência e como esse receio continua nos afetando na idade adulta. Passamos muitos anos de nossas vidas tentando nos apagar de diversas maneiras, com atitudes como encolher o corpo, adotando uma péssima postura, e deixar de falar em público por falta de confiança em relação à aparência.

O ponto também é abordado por Meaghan Ramsey, embaixadora do projeto Dove Self-Esteem, em sua palestra do TED “Por que achar que você é feio é ruim para você?”. Na apresentação, Ramsey não fala sobre se encaixar em padrões de beleza, ela defende a beleza de sentir-se confortável em ser quem é, sem ver nenhum problema ou vilania nisso. No discurso, cita um estudo realizado na Finlândia, EUA e China que afirma que “um terço das meninas não se envolve em debates em sala de aula porque não querem chamar atenção para a sua aparência”. A palestrante também destaca que a falta de confiança em relação à própria aparência acarreta maior risco de depressão, propensão à preocupação extrema com a opinião do outro e maior vulnerabilidade à influência do mundo exterior. Não são apresentados dados concretos sobre a procedência desse estudo, mas basta olhar para nós mesmas e nossa trajetória até aqui para confirmar o quanto isso é verdadeiro e realmente nos afeta.

A solução? Humanize Nazaré Tedesco, Paola Bracho e Madrasta da Branca de Neve. Crie e exalte personagens que sentem-se bem e não precisam viver encobertas por uma cortina de “que isso, são seus olhos, nem me arrumei hoje” e belezas milagrosas de mocinhas brancas e magras que não ligam nada para isso. Não diga às meninas que é feio elas se acharem boas em qualquer área da vida, não ensine que segurança é sinônimo de arrogância. Educar para body confidence significa buscar um futuro em que o constrangimento com a própria aparência não impeça garotas e mulheres de se expandirem intelectualmente, profissionalmente e emocionalmente. Nisso as vilãs têm muito a nos ensinar.

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3 Comentários

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    Libia
    17 de janeiro de 2017 at 10:26

    Viva as vilãs, eu amo a raposa felpuda Nazaré. E Paola Bracho, então? Nem se fala. Gosto de mulheres com atitude. E estou tentando me educar e ter mais atitude, embora tenha sido ensinado à minha geração que isso era feio. Feio é não se achar!

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    Karen Ferreira Bueno
    18 de janeiro de 2017 at 06:54

    Lindo texto Laura, parabéns… Muito sucesso escorpiana, você é 10….

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    Tamires Felipe
    26 de abril de 2017 at 15:34

    E o que fazer quando se tem amiguinhos com a auto-estima baixa que precisam derrubar a sua também? “Meu nariz é grande… o seu também é!”. “Eu era muito feio, a gente melhorou com o tempo!”.

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