CINEMA

Não nos esqueçamos da Mulan, por favor

O filme Frozen, da Disney, chegou não só arrasando nas bilheterias e se tornando a animação mais lucrativa da história, mas trazendo também um discurso (fraco) de representatividade, principalmente devido à principal canção do filme, “Let it Go”. É fato que é importante termos uma mulher que governa um reino sozinha em uma animação, mas a protagonista Elsa está muito longe de ser a personagem mais feminista da Disney.

Primeiro porque a aparência da personagem não tem nada de quebra de estereótipos. Loira de olhos claros, maquiada e com vestido e cabelos impecáveis. Desculpem, mas essa princesa não me representa. E se observarmos bem, algumas outras princesas têm traços sutis feministas, como por exemplo, a Bela, que está enquadrada em uma narrativa onde as mulheres são mais inteligentes que os homens, uma vez que seu principal hobbie é a leitura, hábito pouco valorizado na época, e seu descaso com o “galã” Gaston, que mesmo sendo o homem mais desejado na vila está longe de ser o homem ideal para Bela.

Depois dessas pequenas observações, vamos para o ponto principal do artigo. Vamos falar da mulher, não princesa, que na minha opinião, é, até agora, a personagem feminina mais incrível dos filmes Disney. Vamos falar sobre a mulher que enfrentou o conservadorismo de toda uma dinastia. Vamos falar da personagem de animação que teve que passar por um processo de auto entendimento para decifrar o porquê dela não se enquadrar nos costumes de seu país e da sua família. Precisamos falar da Mulan.

Um clássico da Disney, o filme Mulan chegou às telonas em 1998 e foi baseado na lenda chinesa Hua Mulan, que fala de uma heroína que se juntou a um exército exclusivamente masculino para salvar a vida de seu pai. Até hoje não se sabe se Mulan foi real ou apenas uma lenda chinesa, mas o poema A Balada de Mulan, que deu origem ao conto, ainda navega pelos séculos e promove reflexões sobre os verdadeiros valores da vida. E foi exatamente desta forma que foi inserido o contexto na animação da Disney. Uma filha que, para proteger a saúde do pai, foge e se alista no exército chinês.

Entretanto, mesmo antes de fugir, Mulan já estava nos representando e apontando situações que, nós, mulheres, enfrentamos constantemente. O primeiro caso é a ditadura da beleza. Para “agradar seu futuro marido”, Mulan teve, contra sua vontade, que tomar um “banho de beleza”. Quilos de pó, batom, sombra, lápis.  Penteados, vestidos com faixas apertadas para afinar a silhueta (mesmo que a personagem já fosse magra) e tudo o que fosse necessário para que a chinesa se tornasse uma boneca.

Embora a história se passe na China, essa cena pode ser aplicada para o mundo inteiro. Que mulher nunca se olhou no espelho e se achou feia por estar fora dos padrões? Que mulher nunca passou horas se arrumando e, às vezes, usando uma roupa que não tinha nada a ver com seu estilo, simplesmente porque queria se sentir desejada, queria se sentir incluída? Eu aposto que muitas, e julgar essa atitude é inadmissível, porque o processo de aceitação é muito longo e difícil, e somente quem já conseguiu cruzar essa travessia cheia de obstáculos, é que pode confirmar o quanto foi árduo. E é por isso que nós temos que nos ajudar. Essa é uma das razões pela qual o feminismo é tão importante.

Mulan 1

Após se tornar a nova Barbie chinesa, Mulan vai ao encontro da “sabedoria feminina”. Uma mulher que irá julgar se ela tem os dotes necessários para ser uma boa esposa, uma vez que, segundo a cultura, a única coisa que uma mulher precisa saber é servir chá para agradar seus futuros sogros e saber os deveres da “boa esposa”. Para que escutar suas opiniões e ideias se esse seria apenas o dever do seu futuro marido, não é mesmo? Esse papo tão conservador me dá preguiça.

Após seu “fracasso” na entrevista para ser a esposa perfeita, Mulan sente vergonha ao voltar para casa, principalmente porque a última frase que ela escutou foi “você nunca trará à sua família honra”, um dos pilares mais importantes da dinastia chinesa. E é depois desse quadro que começa a grande jornada da guerreira.

Uma das cenas mais tocantes do longa é quando Mulan começa a cantar a música “Reflection”, (“Imagem”, em português), canção onde a personagem faz uma autorreflexão para entender o que há de “errado” com ela. Ali se inicia o processo de empoderamento de Mulan, onde ela começa a se livrar dos padrões ao tirar sua maquiagem e soltar seus longos cabelos negros. É uma cena de libertação, em que a futura heroína da China representa todas as mulheres que estão cansadas de tentar ser o modelo perfeito para a sociedade.

Após essa cena, Mulan descobre que seu pai, mesmo debilitado fisicamente, será convocado para a guerra. E como uma boa feminista, ela não deixa de agir por conta do conservadorismo. Ela termina sua mudança física, se livrando de vez do padrão de beleza. Mulan corta o cabelo, Mulan veste a armadura do pai, Mulan se torna a principal personagem feminista da história da Disney até hoje.

Mulan 2

Mas o principal desafio de Mulan ainda estava por vir. Caso descobrissem que ela infringiu a lei, a punição era a morte. Portanto, ela chega em um ambiente masculino, tendo que se forçar mentalmente e fisicamente por conta do treinamento exigido pelo exército chinês. A partir daí a Disney peca um pouco, pois constrói uma trilha sonora extremamente machista, e nos deixa a dúvida se o objetivo era lançar uma canção que fosse paradoxa às imagens exibidas, uma vez que Mulan é a primeira a realizar os exercícios de forma perfeita, ou se eles realmente não se importaram em intitular uma música de “Homem Ser” e outra “Alguém para Quem Voltar” – esta última que possui uma letra direcionada a exaltar o ego masculino.

Continuando pelas altas montanhas geladas da China, após salvar o que restou do exército chinês, a “farsa” de Mulan é descoberta, e embora muitos reconheçam que o fato dela ser mulher não impede em nada seu desempenho no exército, o (infeliz) conselheiro imperial, conservador até o último fio de cabelo, não perdoa o fato de ela ser uma mulher em um ambiente masculino. Aqui temos um paralelo com os conservadoristas do século XXI, que se agarram às suas crenças e fúteis valores e impedem o avanço dos direitos sociais. Eles optam por se cegarem ao progresso do país, assim como Chi Fu se cegou às glórias de Mulan e a violentou na frente de todos.

Mulan 3

Após ser deixada para trás nas montanhas, Mulan descobre que os inimigos do Império sobreviveram, e, no seu dever de honra, corre para se tornar a salvadora da China. Com muitos pensamentos enquadrados, ninguém acredita na sua palavra, afinal de contas, ela era novamente uma mulher. Mas nada a ia impedir de conquistar seus objetivos, e diante de uma população tão ultrapassada, Fa Mulan consegue, finalmente, ser ouvida, e, obviamente, as coisas começam a dar certo. Seus amigos Yao, Ling e Chien-Po seguem o plano da heroína e invertem os papéis com Mulan, onde eles abrem mão do conceito obsoleto e se vestem de mulheres, o que os tornam heróis junto com ela.

Quando nós finalmente achamos que Mulan será reconhecida por seus atos, Chi Fu retorna apontando falhas no heroísmo da guerreira, procurando todos os meios possíveis para não se curvar perante uma mulher. Mas como manda quem pode e obedece quem tem juízo, após o Imperador da China anunciar para a toda a sociedade que Mulan trouxe honra à sua família e ao seu país, o conservadorismo caí de joelhos perante o feminismo, e é lindo demais.

Mulan 4

Mesmo após o Imperador lhe oferecer um cargo de chefia em seu governo, Mulan recusa, e apenas pede para voltar para a casa, assim como no poema que deu origem à lenda:

“Em seu retorno, ela é convocada a ver o Imperador
No palácio, ela recebe a mais alta honra
Ela é promovida ao mais alto cargo
O Imperador lhe concede centenas de milhares em prêmios
O Khan lhe pergunta qual é o seu desejo
Mulan não quer um cargo de Ministro
Mulan não quer nada de extravagante
Gostaria que me emprestassem um cavalo veloz que me leve de volta para casa”

Diante de todos esses fatos, é impossível considerar que outra personagem que não seja Mulan represente o movimento feminista nos filmes Disney. Quando surgir uma outra protagonista que se aceite, enfrente os padrões e o conservadorismo, consiga a glória de um país e não fique com nenhum crédito por isso, voltamos a conversar.

E para os que pensam que a representação do feminismo em animações para crianças não é importante, o Mushu tem um recado para vocês:

Mulan 5

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6 Comentários

  • Responda
    Saturno
    5 de setembro de 2016 at 04:09

    Ah, como eu amo a Mulan! Sem dúvida, sempre foi minha personagem favorita. Lembro-me de quando era mais nova e minhas amigas costumavam brincar de quem era qual princesa: ninguém nunca queria ser ela, ou a Diana, Jasmine, ou até mesmo, às vezes, a própria Bela. Já eu me orgulhava em dizer: ei, deixa eu ser a Mulan! Acho que agora eu entendo por quê.

    Valeu por me lembrar dessa querida personagem, viu?

    • Responda
      Tati Perry
      9 de dezembro de 2016 at 21:14

      Oi, Saturno! Fico feliz que tenha gostado do texto! Eu também amo a Mulan e vou defendê-la até o final dos tempos! haha.

      PS: mil desculpas pela demora na resposta!

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    Deisy
    6 de setembro de 2016 at 07:40

    Ahhhh que lindo!!! A Mulan sempre é esquecida e isso é super injusto!! Eu choro até hoje na cena em que a China toda se curva em reconhecimento ao que ela fez.
    Lindo texto.

    • Responda
      Tati Perry
      9 de dezembro de 2016 at 21:15

      Essa cena realmente nos dá força para continuar lutando pelos ideais feministas, não é mesmo? Fico feliz que tenha gostado 🙂

      Super beijo Deisy!

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    Bruna Almeida
    12 de setembro de 2016 at 10:27

    Texto maravilhoso, mas também não nos esqueçamos da Merida! <3

    • Responda
      Tati Perry
      9 de dezembro de 2016 at 21:16

      Oi, Bruna! Você tem toda razão!
      A Merida também é um ótimo exemplo de empoderamento nas animações, principalmente porque ela era apenas uma adolescente, né?

      Beijos!

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