CINEMA

Mulheres na comédia: aqui tem

Um dos meus gêneros preferidos durante toda a vida sempre foi a comédia, em especial a romântica, ou aquelas coming of age, em que os personagens passam por aquele período turbulento entre a adolescência e a vida (jovem) adulta. Com o passar dos anos, no entanto, eu e as comédias do ramo cinematográfico nos afastamos. Aproximei-me das comédias de TV, já que no cinema Hollywood só quis (e quer) saber de super-heróis, remakes e reboots

Segundo o Google, comédia é o ato de usar humor na arte. Humor, por sua vez, pode ser uma disposição de ânimo ou uma veia cômica. Cada um tem a sua ideia do que é engraçado, o que não é, e o que pode e o que não pode. Particularmente falando, um tipo de comédia que nunca curti muito é o comédia-guri, aquela em que temos um moço desajustado ou sarado ou nerd ou pegador que decide a) fazer festa antes que seja tarde demais (vai que o homem case e a vida acabe etc etc) ou b) se apaixonar por alguém que não quer ele ou c) crescer a custo de uma mulher salvadora. Comum nesses estilos de comédia é a mulher aparecer pra servir de eye candy ou manic pixie dream girl, duas expressões em inglês pra resumir que a mulher só está ali a serviço do protagonista homem.

Então eu encontrei o pulo do gato e percebi que eu gosto mesmo é de comédia de mulher. Não só as famigeradas águas com açúcar, desdenhadas o tempo todo, mas as comédias que contam histórias em que mulheres conseguem se relacionar, ou que mulheres estão contando, ou em que mulheres, no geral, façam coisas (!) e falem de coisas (!). Parece absurdo esperar isso de filmes em pleno 2017, mas nem o Teste de Bechdel me deixa mentir – ainda há muitos filmes em que as personagens femininas só conversam sobre caras, como se isso fosse o único assunto possível entre mulheres.

Estatisticamente falando, comédia é, junto aos documentários, o ramo onde há mais mulheres trabalhando. O número, contudo, atinge seu ápice em 34%, de acordo com uma pesquisa do Indiewire de 2015. Segundo a Forbes, dos 10 comediantes mais bem pagos do último ano, apenas uma mulher – a primeira da história – apareceu na lista (Amy Schumer, em quarto lugar). Natalie Portman, atriz que já ganhou um Oscar e dois Globos de Ouro, revelou que recebeu 3 vezes menos que seu colega de filme, Ashton Kutcher, na comédia romântica No Strings Attached (Sexo Sem Compromisso, no Brasil). Não sendo suficiente essa disparidade, a mulher também é objeto de comédia e o estupro, uma forma de piada (para mais, indico esse texto da Roxane Gay).

Há muito o que se trilhar: não é que não haja mulheres engraçadas no ramo, elas existem sim, mas ainda são muito poucas. Mulheres não são engraçadas, é o argumento utilizado por eles – os que ocupam um espaço majoritariamente masculino e podem decidir quem entra ou não na roda. Felizmente, mais uma vez eles estão errados, porque mulheres sabem fazer comédia, muito obrigada, sim, senhor. E eis aqui alguns filmes para quem curte comédia sobre/de mulheres:

BAD MOMS (Perfeita é a Mãe), 2016

Sobre o que é? Amy Mitchell (Mila Kunis) é mulher, mãe e funcionária que faz muito e além da conta por seus filhos, casamento e profissão. Cansada de segurar o mundo com as mãos, Amy faz amizade com Kiki (Kristen Bell) e Carla (Kathryn Hahn), e as três partem em busca da libertação.

Por que é bom? O filme fala sobre, acima de tudo, mães que não sabem direito o que estão fazendo. Quebra o clichê de mãe perfeita e mãe-pano-de-fundo dos filmes em geral. Entrega pra quem assiste a ideia de que mãe é uma função – maternidade compulsória, olá –, muito mais do que uma graça natural da vida e que toda mulher deseja pra si. Toca em tópicos pertinentes, como a responsabilidade imensurável posta sobre a mulher na criação e educação dos filhos, e em como isso é socialmente cobrado e estruturalmente esperado de nós, mulheres, de maneira que homens jamais entenderão. Além de tudo isso, as risadas são garantidas com os absurdos (e outros nem tanto) que acontecem, e Kathryn Hahn está especialmente destruidora de tão engraçada.

Pontos negativos: poderia ter trabalhado muito mais a temática, mas só há um tanto que um filme de pouco mais de uma hora e meia pode fazer. O elenco é pouco diversificado, e nem roteiro nem direção têm a mão de uma mulher.
 

THE HOUSE BUNNY (A Casa das Coelhinhas), 2008

Sobre o que é? Shelley (Anna Farris), uma coelhinha expulsa da mansão, encontra a murcha e caída fraternidade Zeta Alpha Zeta. Lá vê a oportunidade de fazer bom uso dos seus talentos, repaginando suas colegas e a própria casa, evitando que a fraternidade seja fechada.

Por que é bom? Porque é um besteirol americano só de mulheres. Besteirol americano é um estilo de filme que já teve seus dias de glória, com filmes como American Pie ou Todo Mundo em Pânico ganhando inúmeras sequências, mas o estilo perdeu lugar no mercado na última década. A Casa das Coelhinhas cumpre todo o papel que um besteirol americano cumpria, exceto que aqui somos agraciadas com um elenco feminino de peso. Assisti ao filme há anos, não lembro tanto da história, mas lembro muito das risadas que dei assistindo. Não é um filme que vá mudar sua vida, muito pelo contrário, mas foi uma das primeiras comédias de mulheres que assisti, e ficou marcado. Foi escrito por Karen McCullah e Kirsten Smith.

Pontos negativos: apela pra contexto sexual e, de certo modo, pela aprovação masculina; reforça padrões estéticos; o elenco é pouco diversificado, mas trabalha com temáticas que englobam desde a gravidez até problemas de saúde; dirigido por um homem, Fred Wolf.

LIFE PARTNERS (Parceiras Eternas), 2014

Sobre o que é? Paige (Leighton Meester) e Sasha (Gillian Jacobs) são amigas inseparáveis, que veem sua amizade posta a prova quando Sasha se apaixona por um moço aí (Adam Brody).

Por que é bom? Apesar da dose de romance envolvendo uma das protagonistas, o filme é, acima de tudo, sobre a amizade entre duas mulheres e o crescimento delas. Paige e Sasha estão quase completando trinta anos, mas para Paige a tarefa de crescer parece muito mais difícil. O filme toca em assuntos típicos da vida adulta, e apresenta uma personagem lésbica sem fazer muito caso sobre isso. Life Partners é um tipo de comédia leve, que flerta com o drama. Foi dirigido e roteirizado por uma mulher, Susanna Fogel.

Pontos negativos: elenco pouco diversificado; em questão de tempo, poderia ser mais desenvolvido e melhor finalizado.

BRIDESMAIDS (Missão Madrinha de Casamento), 2011

Sobre o que é? Uma competição maluca entre damas de honra e madrinhas de casamento, em que uma tenta ser melhor que a outra. Annie (Krysten Wiig), que enfrenta problemas profissionais e amorosos, é convidada para ser madrinha de casamento de Lillian (Maya Rudolph), uma grande amiga. No entanto, Annie conhece Helen (Rose Byrne), que está batalhando para ser a nova melhor amiga de Lillian, e as coisas saem do eixo.

Por que é bom? Porque é uma comédia pastelona no melhor estilo, e uma das mais famosas e relevantes comédias de mulheres dos últimos tempos. Bridesmaids é uma pastelona tão pastelona que é garantido que você chore de rir em alguma cena – deixo livre a sua escolha – do filme. O elenco é feito por muitas mulheres (óbvio!), e o enredo foi escrito pela protagonista Kristen Wiig e Annie Mumolo.

Pontos negativos: branco, é claro. Em primeiro momento instiga o girl hate (ódio entre mulheres), recaindo no péssimo hábito de colocar mulher contra mulher. Produção e direção não feita por mulheres.

TRAINWRECK (Descompensada), 2015

Sobre o que é? Amy (Amy Schumer) é uma mulher atrapalhada, que já passou dos trinta. Sua vida amorosa se resume a casos de uma noite e muita bebedeira. Ao fazer uma reportagem pra revista onde ela trabalha, Amy conhece Aaron, e as coisas podem mudar a partir daí.

Por que é bom? Estruturalmente falando, Trainwreck é mais uma comédia romântica do que uma comédia de mulheres propriamente dita. No entanto, com a escrita peculiar de Amy – que garantiu à moça duas indicações ao Globo de Ouro –, o filme merece aparecer na lista. Ele cumpre com as expectativas, e entrega uma inversão de papéis que fez muitos se coçarem por dentro. Aqui, a personagem mulher é quem se envolve com todos, faz sexo quando dá na telha e bebe para além da conta. Não é a personagem quem vai salvar o protagonista homem. Se Amy fosse Aaron e Aaron fosse Amy, nada de novo teria sido trazido pras telonas. A surpresa é interessante. Além do mais, gostei muito de assistir as interações entre Amy e sua irmã Kim (Brie Larson), então há mais isso para adicionar na lista.

Pontos negativos: embora a protagonista não seja padrão, o filme tem pouca representatividade. As piadas são bem regionais – americanizadas –, não dando certo para todo mundo.


Ademais, além dos mencionados aqui, vale a indicação dos filmes O Clube das Mães Solteiras, Caça-Fantasmas, Casamento de Verdade e até mesmo o clássico Legalmente Loira, filmes de comédia (feminina) tão bons que não passaram sem nota aqui no site.

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2 Comentários

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    Gabriela Dunham
    31 de Janeiro de 2017 at 13:17

    Vou deixar só uma sugestão: “Quatro Amigas e Um Casamento” (em inglês é “Bachelorette”). Dirigido por mulher e protagonizado pela Kirsten Dunst, Isla Fisher, Lizzy Caplan e Rebel Wilson. É mais divertido que Missão Madrinha de Casamento!

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      Ana Vieira
      1 de Fevereiro de 2017 at 07:53

      Sim!!! Eu tô com esse e outros (How to Be Single, Sisters, Miss You Already etc) aqui pra assistir, e era justamente a ideia de que algum entrasse no texto. Pena que não deu tempo. =( Quem sabe mais pra frente saia uma versão 2. :3

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