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Mulher-Maravilha: entre a representatividade e o queerbaiting

Mulher-Maravilha queerbaiting

Ninguém na DC disse “Ela tem que ser hétero”. Ninguém. Nunca,” declarou Greg Rucka, um dos roteiristas dos HQs da Mulher-Maravilha. Essa declaração, feita pelo escritor no segundo semestre de 2016 como se fosse uma grande obviedade, levou as redes sociais ao delírio. Para mim, porém, o cheiro que fica é de queerbaiting.

Na sociedade heteronormativa em que vivemos, não é preciso que se declare que uma pessoa (ou um personagem) é heterossexual. A heterossexualidade é a norma, o pressuposto que vigora até que se prove o contrário. Afirmar isso não é dizer que é assim que deveria ser, é simplesmente como as coisas são. Nesse contexto, se declarar não-heterossexual de alguma forma é um posicionamento com forte carga política, haja ou não essa intenção.

O problema da declaração de Rucka, portanto, é colocar como óbvio algo que, na nossa sociedade, não é óbvio. Muito pelo contrário: na medida em que relacionamentos entre mulheres só valem na proporção em que servem ao desejo masculino, é mais fácil aceitar que essa tribo de mulheres sobrenaturais prescindem de relações românticas do que pressupor que elas se relacionem amorosamente de forma plena e completa entre si, sem precisar da presença masculina. É por isso que a declaração feita por ele não se sustenta como obviedade no contexto em que nós vivemos; porque talvez esse fosse um raciocínio básico e natural se a heterossexualidade não fosse um pressuposto, mas ela é.

A intenção é que seja o paraíso. A intenção é que você possa viver feliz. A intenção é que você possa — em um contexto em que você possa viver feliz, e uma parte do que um indivíduo precisa para atingir essa felicidade é ter um parceiro — ter um relacionamento romântico e sexual que te satisfaça plenamente. E as únicas opções são mulheres. Mas uma Amazona não olha para outra Amazona e diz “você é ‘gay’.” Isso não existe. O conceito não existe.”

Eu não estou pedindo que ela saia por aí gritando que é bissexual sem ninguém ter perguntado, mas não é só com palavras que coisas são ditas. Se em mais de 70 anos de existência da personagem nunca se viu nenhuma declaração, ainda que implícita (apesar do raciocínio nada intuitivo que Greg Rucka usou), dessa orientação sexual, uma “revelação” bombástica desse tipo justamente às vésperas do lançamento do filme e em um momento social de valorização da representação de “minorias” sociais tende muito mais ao queerbaiting do que a uma representação real.

Para quem não conhece o conceito, que já apareceu aqui pelos lados do site antes:

O queerbaiting é uma tática utilizada por muitas séries de televisão para atrair o público LGBQT sem ferir a audiência conservadora. Como? Simples: nós colocamos dois personagens do mesmo gênero que parecem viver uma eterna tensão sexual, criamos uma dubiedade que grita ao público FIQUEM JUNTOS, mas na hora do vamos ver nada acontece. Trata-se de uma forma bastante inteligente de agradar dois públicos tão diferentes. Os LGBQTs sentem-se “representados”, ao passo que a televisão continua imaculada para os conservadores. Todos saem ganhando.

A origem dessa palavra está ligada a outra tática chamada gay baiting, que significa “isca gay”. A isca aqui, por exemplo, seria o próprio homem gay, tão irresistível que é capaz de atrair um rapaz inicialmente identificado como heterossexual. Esse tropo foi bastante explorado em mangás yaoi, gênero que surgiu nos anos 80. Como consequência, houve uma fetichização de relações homossexuais por parte de pessoas heterossexuais, algo bastante problemático e que ainda encontra ecos na televisão e no cinema atualmente.

Se o Rucka estava realmente tão interessado em declarar o (que para ele é) óbvio, um meio muito mais eficaz e produtivo seria trazer dentro da história um romance lésbico envolvendo a Diana. Quem está preocupado com representação não chega e simplesmente dá declarações polêmicas para meios de comunicação. A única intenção que fica clara com essa atitude é a de arrebatar um público extremamente carente sem precisar arriscar o público que já se tem. Isso é basicamente a definição de queerbaiting.

Não estou dizendo que não é ótimo que a Mulher-Maravilha seja bissexual. É ótimo, ou seria ótimo. Mas o que o público LGBT precisa realmente não é ser usado, mais uma vez, como massa de manobra, como mais um público a ser agregado, mas só se não ameaçar as estruturas de poder e o patriarcado. O que esse público quer e precisa é representação real. Nós estamos muito acostumados a (r)existir subliminarmente dentro de histórias e obras da cultura pop, mas existir de verdade, é isso sim que nós queremos.

O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Valkirias, Momentum Saga, Nó de Oito, Ideias em Roxo, Preta, Nerd & Burning Hell, Séries por Elas, e o Prosa Livre.

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1 Comentário

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    Linkagem de Segunda #61 – Sem Formol Não Alisa
    10 de julho de 2017 at 22:55

    […] Mulher Maravilha: entre a representatividade e o queerbaiting, Paloma no Valkírias […]

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