MÚSICA

Miley Cyrus contra o mundo

Quando eu era pré-adolescente, fazia parte de uma comunidade anti-Miley Cyrus no Orkut. Caso vocês estejam se perguntando – ou sejam jovens demais para lembrar da era das divas pop no Orkut –, as comunidades em prol de uma cantora pop geralmente levavam ao hate de outras. A finada Cantoras Internacionais, que discutia todas em um lugar só, era um eterno ciclo de fãs, haters e todo mundo que ia de um lado para o outro em menos tempo do que levava para baixar um mp3.

Mas nossa cara Miley talvez tenha sido a cantora pop teen mais reconhecida – tanto na fase teen Disney Channel quanto no crescimento – e, com isso, experimentou todas as possibilidades da fama e da infâmia sem passar pelo esquecimento coletivo. E, claro, em muitas intensidades perante a opinião pública. No meio dos anos 2000, lá quando High School Musical fez sucesso e a Disney resolveu lançar uma série baseada em uma adolescente que canta, tudo sobre a Miley era adorável. Ela era, tanto na ficção quanto na vida real, a filha de um cantor country conhecido e, além de uma voz bonita, passava toda a imagem de garota de família tradicional americana. Em Hannah Montana, tinha uma carreira musical não-ofensiva e amigos, crushes e uma família fofa à beira da praia. Na vida real, ela era basicamente a mesma.

A maior questão de tabloides, na época, era o fato de que Miley namorava seu equivalente masculino, a figura então adorável do Nick Jonas. Tínhamos aí o casal fofo ideal: ambos de família, ambos cristãos e ambos falando de como gostavam de ser puros e passar uma imagem de virgindade. Nick Jonas, inclusive, famosamente usava anel de pureza, tal qual seus irmãos. Dá pra entender como Miley, então, era vista pelo público adulto: uma boa influência para seus filhos, a cantora pop santa e pura.

Em algum momento entre turnês pelo mundo e especiais no Disney Channel, Nick e Miley terminaram e daí saiu a primeira rivalidade dela, cumprindo mais um clichê de cantora pop: ser colocada como oposta a outra. No caso da Miley, era a Selena Gomez. Além de ambas serem do mesmo meio, filmes e séries da Disney, elas duas gostavam do Nick Jonas. Parece familiar? Pois é, é exatamente a mesma coisa que aconteceu com Lindsay Lohan, Hilary Duff e Aaron Carter.

Musicalmente, o estilo da Miley também não diferia tanto do seu alter ego Hannah Montana. Em 2007, Meet Miley Cyrus era literalmente o lado B do álbum de Hannah Montana, tinha músicas sobre dançar com as amigas, ter crushes e outros temas assim. A primeira vez que a Miley, como Miley mesmo, teve uma voz em público foi no álbum seguinte, Breakout. Lançado em 2008, ele trouxe “7 Things”, que soava mais como Avril Lavigne do que como a Miley que estávamos acostumados a ouvir. Dessa vez, ela não esteve só restrita ao público que já tinha pelo seriado, mas, cantando indiretas pro Nick Jonas (os fãs, claro, dissecavam as letras para referências), virou hino pré-adolescente contra todo e qualquer boy lixo antes que soubéssemos o que eram boys lixo: “You make me laugh, you make me cry, I don’t know which side to buy [Você me faz rir, você me faz chorar, não sei em que lado acreditar]”.

Em 2009, Miley ainda estava na fase Disney. Foi nessa época, quando ela já estava no final da adolescência, que foi lançado o filme da Hannah Montana. Desse filme, saiu “The Climb”, outra das músicas mais reconhecíveis da Miley, e “Hoedown Throwdown”, aquela com a coreografia maluca da qual você talvez ainda lembre um pouco. Na vida real, ela lançou “Party in the U.S.A.”, que apesar da letra inocente, já apresentava a Miley como figura um pouco mais sexy. Não que algo estivesse errado nisso, ela já era praticamente adulta, mas foi o primeiro sinal de que a figura pura perante o público tinha outros traços de personalidade.

Não que tenha sido a primeira vez que imagens mais sexy dela tenham se tornado públicas. Em 2008, um hacker americano invadiu contas diversas do Myspace e acabou vazando imagens dela em poses sexy com uma amiga. Pouco depois Miley apareceu sem camisa em um ensaio feito por Annie Leibovitz para a Vanity Fair, segurando um lençol sobre o corpo. Mas em ambos os casos vieram acompanhados de pedidos de desculpas. “Party in the U.S.A.” não. Inclusive, na apresentação que Miley fez da música nos Teen Choice Awards do mesmo ano, ela incluiu um trecho de pole dance, que foi considerado inapropriado pela audiência.

Em 2010, Miley era protagonista de A Última Música, filme baseado no romance de Nicholas Sparks, e contracenava com Liam Hemsworth, o que acabou tornando os dois um casal público em pouco tempo. A última temporada de Hannah Montana ainda estava acontecendo, mas, à essa altura, não era a coisa mais interessante para o público em relação à Miley. Foi também em 2010 que ela lançou Can’t Be Tamed, o álbum e o single homônimo. No clipe da música titular, Miley liberta uma imagem mais sexy enquanto canta sobre não poder ser controlada. Era um spoiler da mudança de imagem que estava por vir.

Mas aí nossa cara Miley resolveu dar um tempo da carreira musical. Nesse meio-tempo, ela continuou namorando Liam Hemsworth e os dois chegaram até a ficar noivos, o que claro, gerava manchetes e shippers pela internet. Nesse período ela também fez parte de alguns filmes que não fizeram sucesso, como LOL, postava bastante nas redes sociais, lançou uma série de covers acústicos no YouTube e fez alguns feats com outros artistas. Entre tudo isso, ela também cortou publicamente o cabelo (lembram de como isso foi polêmico na época?) e assumiu mais obviamente uma estética de garota rebelde.

Em 2013, no entanto, foi quando a bolha de sua imagem de boa menina finalmente estourou de vez. Primeiro com o lançamento de “Ashtrays and Heartbreaks”, parceria com Snoop Lion, sobre maconha. Depois, com a divulgação do seu primeiro single em anos, “We Can’t Stop”. O clipe do single era obviamente sexy e trazia a Miley que viríamos a conhecer depois: poucas roupas, de língua para fora, twerking e sendo mais sexual. No Video Music Awards de 2013, Miley apresentou, com Robin Thicke, um mashup de “We Can’t Stop” com “Blurred Lines” (single do cantor que ficou conhecida por glorificar a cultura do estupro). Ela abraçou seu lado sexy e fez twerking, pole dance e tudo o mais no palco, o que a colocou de vez como a grande polêmica do mundo de cantoras pop. Ao invés de debatermos se ela podia ou não ser considerada ícone pop, como acontecia na sua fase adolescente, Miley estava de vez no meio; a polêmica estava em torno de sua sexualidade. Logo mais a polêmica se intensificou com o lançamento do clipe de “Wrecking Ball”. Miley surge nua em cima de uma bola de demolição e, além de memes, se torna oficialmente uma figura sexy. Uma figura que gerava textões de preocupação sobre como ela estava fora de controle e nossa, que absurdo ela ficar assim. Uma mulher jovem, ex-Disney e que antes tinha sido a figura bela, recatada e do lar, se tornando ápice da sexualidade na música pop não era palatável.

No âmbito pessoal, chegou ao fim o noivado de Miley com Liam, ela começou a falar mais abertamente sobre o uso de maconha, frequentava mais festas e outros clichês de garota má de Hollywood. Tudo sobre sua imagem era em relação a essa perda de controle que adoramos colocar em cima de jovens famosas que saem do que é esperado delas.

Bangerz, o álbum pós-Disney de Miley, saiu no fim de 2013 e, com ele, veio uma turnê cheia de twerk e notícias polêmicas por aí. De certa forma, ela não se deixou abalar pela necessidade de pedir desculpas por quem era. Quanto mais falavam que ela devia se aquietar e voltar a ser a Miley de antigamente – fãs antigos, pais de adolescentes, críticos –, mais ela intensificava a era Bangerz e toda a expressão sexual que veio com ela. É claro que no meio das críticas conservadoras vieram críticas legítimas: Miley constantemente caía na apropriação cultural e se utilizava da estética do hip hop e da cultura negra para ganhar notoriedade e ser, na falta de termo melhor, diferente de outras cantoras do pop mainstream. Essa crítica se materializou na forma de Nicki Minaj e o famoso Miley, what’s good? nos VMAs de 2015, mas assim como costuma acontecer com outros casos de apropriação cultural, a crítica não ganhou tanta força. Em meio a tantas polêmicas, passaram sob o radar fatos interessantes sobre a Miley. Abertamente pansexual (durante algum tempo, Miley namorou a modelo Stella Maxwell), ela criou uma instituição chamada Happy Hippie Foundation, dedicada a ajudar jovens LGBTQ+ em situação de rua e outras partes vulneráveis da população.

O álbum subsequente, Miley Cyrus and Her Dead Petz, foi bem mais experimental e muito menos mainstream. Foi liberado gratuitamente no Soundcloud e misturava gêneros musicais. Ainda que Miley continuasse polêmica, o fato desse álbum ter sido intencionalmente menos popular também fez com que causasse menos impacto na discussão sobre ela.

Em 2016, o comeback (apesar de ela nunca ter ido a lugar algum) de Miley começou a ser estruturado quando ela se tornou uma das juradas do programa The Voice, juntamente com Alicia Keys, Adam Levine e Blake Shelton. Esse trabalho, de certa forma, a trouxe de volta à opinião pública não como polêmica, mas como cantora. Uma coisa inegável sobre Miley é que ela sabe cantar. Com The Voice, ela se tornou novamente palatável, ainda que lentamente. O público a via toda semana de uma forma mais relacionada à música e menos à sua sexualidade.

Ainda em 2016, começaram a surgir rumores da possível volta do casal Miley/Liam. Ainda que nenhum dos dois assumisse nada, Miley ajudou Liam a adotar um cachorro e posteriormente foi vista no Instagram da cunhada dele, Elsa Pataky, em uma viagem à Austrália (terra natal do ator). Alguns meses depois dos rumores começarem, Miley e Liam assumiram que estavam juntos novamente depois de quase três anos do fim de noivado e voltaram a ser um casal relativamente público, demonstrando afeto no Instagram e morando juntos novamente.

Neste ano, a volta aos holofotes de Miley se concretizou. Ela lançou o single “Malibu”, que fala sobre reatar a relação com Liam e sobre a tranquilidade que os dois experimentam vivendo na praia. Ao contrário de Bangerz e Dead Petz, “Malibu” não é sexual. Pelo contrário, a música é bem pop, enfatiza a voz da cantora e fala sobre amor. O clipe mostra Miley na areia, mas não traz muita sexualidade, pelo menos não se formos comparar com trabalhos anteriores. Nas entrevistas promocionais, Miley menciona ter parado de usar maconha porque não se sentia mais no controle. De certa forma, é o oposto da era Bangerz. Ela é parte de um casal heterossexual com um galã hollywoodiano, canta uma balada sobre amor usando suéter de lã e deixa o cabelo crescer, enquanto fala como se arrepende do uso de maconha. Para o público, é uma volta da Miley “certa” e Bangerz se concretiza como uma “fase de rebeldia”.

O interessante sobre Miley é que ela nunca pôde ser classificada como boa garota ou má garota. Em seus muitos anos sob os holofotes, ela cumpriu ambos os papéis. E, nessa nova fase dela, é fácil colocar a fase anterior como só isso, uma fase. É fácil julgar que ela perdeu o controle e agora a vida está de volta nos eixos, mas por que colocamos a figura de party girl como descontrole? Crescer e tomar conta da própria sexualidade, tal qual Miley Cyrus fez, não é um sinal de descontrole, mas fomos rápidos ao dizer que era. Não que seja inesperado: esse ciclo “garota boazinha” > supersexualização > mudança da imagem > polêmicas públicas não começou e não terminou com ela. Pelo contrário, sempre aconteceu com jovens mulheres na cultura pop. Mas o fato de Miley ter pego esses clichês e os usado intensamente para subverter a imagem de garota Disney nos seus próprios termos não é tão aceitável quanto dizer que ela era só uma garota perdida que agora está de volta. É, no entanto, desonesto. Como artista, Miley tem a capacidade de se inventar e reinventar sempre e trazer eras diferentes tanto em sua vida quanto em seu trabalho. Ela nunca foi a lugar algum, só explorou facetas diferentes.

É mais honesto admitirmos que todas essas facetas fazem parte da mesma pessoa e da mesma artista e, ao invés de tratarmos sua nova fase como uma volta, tratarmos Miley com a complexidade que ela merece. Esteja ela cantando sobre festas ou sobre o namorado, ela não é uma pseudo-cantora pop genérica. Pelo contrário. Se essa década de fama e infâmia da Miley nos ensina algo, é que mulheres são complexas e mesmo que a fama tente colocá-las em pequenas caixas de papéis de gênero, garotas boas e garotas más, essas caixas devem ser quebradas.

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