TV

Troféu Valkirias de Melhores do Ano: Televisão

O ano de 2017 pode ser facilmente classificado como o das narrativas sobre mulheres. Foram várias as séries e produções que focaram em suas personagens femininas, em sua força e resiliência, em suas histórias, dramas e sonhos. Foi 2017 que nos trouxe a incrível adaptação de O Conto da Aia, livro homônimo escrito por Margaret Atwood, e também Big Little Lies, inspirado no livro de Liane Moriarty. Nunca antes as produções colocaram tantas mulheres em foco, contando suas próprias histórias e impressões sobre a vida, o universo e tudo o mais. O ano das narrativas sobre mulheres também é o ano das quebradoras de silêncio, quando tantas delas ergueram suas vozes para apontar aqueles que as fizeram calar anteriormente por medo de perderem suas carreiras e até mesmo suas vidas. Ainda que 2017 nos tenha trazido tantas personagens femininas intrigantes e narrativas feitas por elas, em boa parte dos casos isso só foi possível devido a uma estrutura doentia que perdura há anos com base em abusos.

2017 está terminando e o que fica é um sabor agridoce: nos calamos e não fomos ouvidas por muitos anos. Não mais.

Seguindo a tradição iniciada ano passado, nossa seleção de Melhores do Ano segue critérios mais subjetivos do que técnicos e absolutos. Você vai encontrar um monte de listas definitivas por aí, mas há muito aceitamos que não somos mestres de nada e no fim de um ano cansativo como foi 2017 queremos esticar as pernas e jogar conversa fora sobre as histórias que ficaram, as frases de efeito que ainda repetimos, e personagens pelos quais nos apaixonamos. Nesse espírito, dividimos agora a seleção pessoal de favoritos na televisão feita pelo nosso time de colaboradoras e convidadas externas.

13 Reasons Why, Netflix

Por Tati

É muito provável que, assim como eu, muitas mulheres tenham se identificado e refletido com a série 13 Reasons Why. A produção da Netflix trouxe à tona um dos assuntos menos discutidos na mídia: o suicídio. A protagonista Hannah Baker (Katherine Langford) é uma adolescente que, após passar por diversas situações repressoras e humilhantes, tira a própria vida. Mas, antes disso, ela deixa 13 fitas para as 13 pessoas que a levaram a cometer o suicídio. Muitos dos assuntos enfatizados na série já foram vivenciados pela maioria dos adolescentes, pois essa fase é um período de muitos descobrimentos, principalmente relacionados a sexualidade. Dentre os temas discutidos na série estão os padrões de beleza que nós, mulheres, somos pressionadas o tempo todo a seguir, bullying, perseguições, compartilhamento de imagens pelas redes sociais, isolamento, gênero, e, o principal deles, estupro.

A série exemplifica o quanto a cultura do estupro é enraizada desde cedo nos homens e como eles interpretam o bárbaro ato com naturalidade, sem pensar nas consequências e nas permanentes marcas (físicas e mentais) que as mulheres precisam conviver depois. Mesmo que não representada diretamente, a produção trouxe diversos flashbacks da minha adolescência, como por exemplo, o quanto eu sofri com a gordofobia, e só enfatizaram a real necessidade de continuarmos promovendo discussões e evidenciando a importância do feminismo na sociedade, desconstruindo padrões e acabando de vez com a soberania masculina sobre nossos corpos. Gostaria de sinalizar que a série não deve ser assistida por pessoas que sofrem com a doença (depressão), pois a produção contém cenas fortes e que podem despertar gatilhos que estão sendo tratados. A segunda temporada de 13 Reasons Why já foi confirmada e, recentemente, a atriz Katherine Langford foi indicada ao Globo de Ouro por sua atuação na série.

Para saber mais: Os 13 Porquês: Lado A, 13 Reasons Why: Lado B

A Força do Querer, Rede Globo

Por Jazz

Depois de Avenida Brasil, a gente achou que nenhuma outra novela iria parar o Brasil, mas nos enganamos: A Força do Querer trouxe muitas pessoas de volta ao horário nobre. Com uma pegada um pouco diferente do que estamos acostumados a esperar de Gloria Perez, a trama das nove trouxe a história de diversos personagens, desconstruindo a ideia de um único protagonista. Além disso, A Força do Querer nos colocou diante de diversas mulheres, com histórias e caminhos diferentes, mas todas movidas por um querer. Houve, ainda, uma quebra de expectativas em relação à dualidade vilã/mocinha afinal, como escolher entre torcer por Jeiza (Paolla Oliveira) ou Bibi (Juliana Paes)? Era impossível, uma vez que a história delas nos fazia sentir empatia por ambas. Isso só podia ser coisa de um texto cuidadosamente escrito por Gloria Perez, que pesquisou demais para compor a vida de todas as suas mulheres. Ela esteve em contato com a policial que inspirou Jeiza, assim como com pessoas viciadas em jogo para compor a personagem Silvana (Lilia Cabral). Para além disso, a novela também abordou temas de extrema importância social como a transexualidade através do personagem Ivan (Caroline Duarte).

Para saber mais: A Força do Querer: sonhos, ambições e as diferentes nuances da existência feminina

Alias Grace, Netflix

Por Thay

Mais de um mês após devorar os episódio de Alias Grace, ainda me pego pensando na série, em sua protagonista e no desfecho que deixa todas as conclusões em aberto. A série da Netflix baseada no livro Vulgo Grace, de Margaret Atwood, conta a história de Grace Marks – a incrível Sarah Gadon – uma jovem protestante que em 1840 migra com sua família de Ulster, na Irlanda, para Toronto, no Canadá. Se a vida já não era fácil na Irlanda, com os protestantes sendo perseguidos por sua religião, não melhora muito quando a família chega na “terra prometida”: com a morte da mãe durante a viagem de navio, cabe a Grace a função de prover para a família visto que seu pai, um homem bêbado e violento, não pensa em nada além de ser sustentado pelas mulheres da família.

Alias Grace, com o decorrer dos episódios, constrói uma narrativa com base em uma protagonista não confiável, montando pouco a pouco a personalidade ambígua de Grace enquanto tentamos descobrir se a moça é, ou não, responsável pelo assassinato de seu patrão. Nós podemos vê-la planejando como contar sua história – afinal, é a primeira vez que lhe dão ouvidos – enquanto coloca seus interlocutores sobre seu domínio. É impossível dizer se há inocentes ou culpados em Alias Grace, mas uma coisa é certa: a série continuará reverberando em sua cabeça muito tempo depois de tê-la assistido, e aí está toda a magia e força da narrativa.

Para saber mais: A ambiguidade de Alias Grace

Big Little Lies, HBO

Por Ana Vieira

Se você procura entretenimento, fotografia impecável, grandes atuações, trilha sonora que não erra, um roteiro sem furos e uma série para, assim como eu, maratonar em uma sentada de não conseguir desgrudar os olhos da TV, Big Little Lies é provável a sua melhor pedida. A série adaptada do livro homônimo de Liane Moriarty conta a história de três mulheres, mães e donas de suas próprias narrativas, de vidas aparentemente perfeitas, que mostram que são multifacetadas e reais, longe da dualidade muitas vezes características das mulheres e mães da televisão.

2017 foi o ano das mulheres e Big Little Lies é uma das maiores provas que histórias sobre mulheres são importantes, fortes e necessárias. Ainda que fictícia, é muito real e joga em nossas telas todas as consequências do que abusos físicos, emocionais e violência doméstica podem fazer com uma mulher e, acima de tudo, a importância da união entre mulheres. Indicada para 6 Globos de Ouro – a mais indicada série desse ano –, ganhadora do prêmio de Melhor Série Limitada no Emmy 2017, e com outros 24 prêmios na estante, a produção da HBO é, sem dúvidas, uma das grandes estreias do ano e merece todo o clamor positivo que recebeu. Está renovada para uma segunda temporada, até este momento sem data de estreia prevista.

Para saber mais: Big Little Lies e a importância das mulheres que contam suas próprias histórias, Crítica: Big Little Lies, uma história sobre mulheres

Crazy Ex-Girlfriend, The CW

Por Anna Vitória

Em suas duas primeiras temporadas, Crazy Ex-Girlfriend cumpriu com louvou a missão de explorar como as narrativas de romance moldam (de forma equivocada) nossas expectativas de felicidade. No caso das mulheres, o grande problema é como essa felicidade parece estar sempre vinculada ao amor romântico e heterossexual como único final feliz possível. Rebecca Bunch (Rachel Bloom) acreditou nisso e largou sua vida em Nova York para reconquistar seu ex-namorado em West Covina, na Califórnia, e há muito mais nuances nesse gesto do que a interpretação superficial que a classificaria como uma ex-namorada doida. Mulheres são frequentemente chamadas de loucas por expressarem suas vontades, sentimentos e não-conformidade com o papel que lhes é imposto, mas o que acontece quando uma mulher sofre de verdade com transtornos psicológicos que alteram sua noção de identidade e a percepção da realidade ao seu redor?

Ainda que saúde mental seja um tema constante e recorrente ao longo da série, é na terceira temporada de Crazy Ex-Girlfriend que as roteiristas Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna mergulharam fundo na cabeça de Rebecca, explorando a meta-narrativa da série até o clímax existencialista que a levou a concluir que a vida não faz sentido narrativo. Esse assombro diante do vazio não é privilégio dos neuroatípicos, mas sim da humanidade como um todo, mas a forma como a personagem lida com essa conclusão rendeu um dos arcos mais honestos (e ao mesmo tempo sensíveis) sobre suicídio que já vi na televisão. O cuidado da série ao falar sobre transtornos psicológicos fica ainda mais evidente quando vemos o quão longe ela está disposta a ir na exploração dessa faceta da personagem, validando seus sentimentos e mostrando caminhos possíveis, um olhar empático e acolhedor. Que bom que isso está acontecendo numa comédia absurda e musical, pois só mesmo grandes números musicais surrealistas para dar conta da aventura que é viver dentro da própria cabeça.

Para saber mais: Crazy Ex-Girlfried: Rebecca Bunch não é só uma garota apaixonada, Crazy Ex-Girlfriend e o futuro das comédias românticas

Dear White People, Netflix

Por Paula Maria

Dear White People é uma série original da Netflix, lançada em abril desse ano. Baseada no filme homônimo, o objetivo da série é tratar de racismo institucional e estrutural e quebrar a ideia de que vivemos em uma sociedade pós-racial. A personagem principal Samantha White (Logan Browning), é uma das líderes da militância negra de sua universidade e através dela, a série retrata a história de outras personagens negras que fogem ao estereótipo do que normalmente é esperado quando se trata de negros na mídia tradicional. Mesmo sendo uma série com traços cômicos, Dear White People conseguiu retratar dores e problemas comuns às negras e negros e tratar de questões complexas, como a masculinidade negra, violência policial e colorismo. Apesar de se passar nos Estados Unidos, muitos dos problemas apontados em Dear White People são recorrentes no Brasil. A série foi renovada para segunda temporada, ainda sem data de estreia.

Para saber mais: Dear White People e os muitos porquês do movimento negro

Feud: Bette and Joan, Fox

Por Jazz

Nunca saberei ser grata por Ryan Murphy ter trazido a história de Bette Davis e Joan Crawford de volta para a cultura pop. Aparentemente taxada de “uma série sobre duas velhas que se odeiam”, Feud se revelou um trabalho que veio para questionar se o cinema mudou tanto assim ou não na forma de tratar suas estrelas mais velhas. Deixando de lado a suposta rixa entre as duas atrizes, Murphy retratou a relação de ódio entre elas como produto de uma Hollywood que lucra em cima do ódio e da rixa entre mulheres. De tudo que aconteceu durante a série, talvez o que mais me tocou tenha sido a maneira multifacetada com a qual Bette e Joan são mostradas. Não há a boazinha, nem a vilã. O que existe são duas mulheres extremamente marcadas, que conseguiram vencer na vida e pagaram um preço bastante caro por isso. Tudo em Feud é de encher os olhos, desde a fidelidade com que cenários e cenas de filmes foram reproduzidos até a maneira com que Jessica Lange e Susan Sarandon decidiram conduzir suas personagens. O cinema antigo precisava muito desse refresco, e posso dizer que meu coração ficou quentinho demais ao ver tantas pessoas se interessando pelo sistema de estúdio, pelo legado que Joan e Bette deixaram para nós. Estou torcendo demais para que a série fature vários prêmios no Golden Globes, pois merece muito!

Para saber mais: Por que assistir Feud?

Grace and Frankie, Netflix

Por Mia

A gente não vê quase nada de produções cujos protagonistas estejam na terceira idade. Menor ainda é o número de protagonistas da terceira idade que sejam mulheres. Ainda menor quando o enredo não é uma inimizade terrível entre duas senhoras que não se suportam, mas sim a amizade baseada em uma situação peculiar que as levou a se conhecerem melhor e perceberem que amizades femininas são a melhor coisa com a qual se pode contar. Grace and Frankie é assim. Se não bastasse o completo show de interpretação dado pelas protagonistas, Jane Fonda e Lily Tomlin, o enredo não perde em nada para as melhores comédias que existem e ainda acrescenta por trazer gente como a gente na velhice: mulheres de setenta e poucos anos que descobrem que a vida não terminou só porque o casamento acabou e que se adaptam a uma nova vida que, na realidade, pode ser bem mais divertida do que a anterior. A série, que está em sua terceira temporada, continua sendo incrível e vale a pena dar uma chance – sem preconceitos com idade, é um entretenimento da melhor qualidade e para todos.

Para saber mais: Sobre amizades e recomeços: Grace and FrankieQueerbaiting ou não: o caso Grace and Frankie

Insecure, HBO

Por Tany

Quando conheci a série, li em algum lugar que era Sex and The City com mulheres negras e boa trilha sonora. Não podiam estar mais enganados. Insecure é sobre a vida de Issa (Issa Rae) e Molly (Yvonne Orji), duas amigas que ao mesmo tempo são muito parecidas e muito diferentes, morando em Los Angeles. Issa tem um relacionamento de cinco anos completamente desgastado e sem perspectiva de nada melhor, inclusive com um cara que diferente de muitas séries tem dimensão e personalidade, um emprego, mas é acomodado e infeliz. Ela quer mais. Molly é uma advogada de sucesso com uma vida amorosa trágica que também não é muito feliz. Graças a golden age of television nós temos personagens que são muito bem aproveitadas.

A melhor parte de Insecure não são os problemas que elas passam mas como respondem a isso. Issa e Molly não são perfeitas, têm problemas financeiros, em seus relacionamentos amorosos e profissionais, trabalham, erram uma com a outra, mas sabem pedir desculpas, e acima de tudo, reconhecer seus erros e evoluir em vez de se lamentar. Elas crescem diante de nossos olhos virando mulheres maduras e interessantes, consequentemente, mais felizes, seguras de quem são e do que querem para suas vidas. Além de ser uma série divertida, e com a melhor trilha sonora da televisão, é também retrato de como ficamos tão perdidas no final dos nossos vinte anos, onde eles foram parar quando metade do que gostaríamos de fazer simplesmente evaporou, o que precisamos fazer para mudar isso e redescobrir quem somos.

Juana Inés, Netflix

Por Mia

Eu tenho medo de freiras. Medo real e irracional, provavelmente fundado em dezenas de filmes de terror em que elas ou são possuídas pelo demônio ou são pessoas horríveis que adoram ver o sofrimento alheio. Mas mesmo com todo esse medo não pude deixar de ver Juana Inés, que chegou à Netflix no início deste ano, uma série que só posso definir como simplesmente sensacional sobre uma figura histórica desconhecida até então, mas que já admiro muito. A história se passa em 1660, na Nova Espanha (local que se tornaria o México mais tarde) e conta como Juana Inés (Arantza Ruiz/Arcelia Ramírez), uma moça que servia de dama de companhia para a vice-rainha, foi obrigada a ir para um convento para conseguir um mínimo de liberdade intelectual: só lá ela poderia ler e escrever. Ela literalmente preferiu a prisão do claustro à prisão de um casamento arranjado onde de forma alguma poderia ter acesso à escrita e seria propriedade do marido.

Juana Inés é uma daquelas mulheres que a história, sempre escrita por homens, nos escondeu, mas que aos poucos estão sendo devidamente redescobertas e servindo de inspiração para várias pessoas que se surpreendem com a força de uma escritora que viveu tantos séculos atrás, mas que escreveu sobre questões que nos perturbam ainda hoje – como o papel da mulher na sociedade e a forma com que os homens nos tratam como objetos. É uma série de apenas uma temporada e poucos episódios, imperdível tanto para quem gosta de história quanto para quem gosta de literatura feita por mulheres.

Para saber mais: Juana Inés ou por que uma mulher poderosa incomoda tantoNão há prisão para a alma: a história de Sór Juana Inés de La Cruz

Malhação: Viva a diferença, Globo

Por MR Silva

Garotas muito diferentes entre si que acabam virando amigas não é uma narrativa nova, mas dentro das 25 temporadas do seriado Malhação isso é algo completamente inédito. Em 22 anos, é a primeira vez que a série tem cinco protagonistas. Todas garotas, todas diferentes em suas vidas e seus passados — as cinco conectadas de repente pelo mesmo vagão do metrô.

Apesar da série ter vivido muitas temporadas boas, Malhação: Viva a Diferença tem uma qualidade superior difícil de ser igualada pelas outras. Não só pelo trato com os personagens e suas passagens pela turbulência da vida, mas também com a condução das narrativas. Viva a Diferença conseguiu o que poucas ou quase nenhuma temporada de Malhação havia conseguido até o momento: atingir um nível narrativo que vem sendo comparado a novelas de outros horários da emissora, que é referência internacional no que diz respeito à qualidade técnica de seus folhetins. É difícil não se apaixonar pelas five do metrô e seus cotidianos e uma temporada de sucesso assim não seria capaz com a configuração antiga que Malhação vinha tendo. A transformação do formato sugerida por Cao Hamburger e sua equipe foi crucial para contar histórias importantes de jovens brasileiros que até hoje vinham sendo negligenciadas. Viva a Diferença é prova viva que o audiovisual brasileiro é tão bom quanto o estrangeiro e que se pode fazer obras voltadas aos jovens com a mesma qualidade destinada ao público adulto.

Para saber mais: Malhação: viva a diferença e viva Cao Hamburguer

Master of None, Netflix

Por Anna Vitória

Criada por Aziz Ansari e Alan Young, Master of None existe para provar que fórmulas clássicas de se contar uma história só se tornam obsoletas quando os olhares sobre essas histórias insistirem em uma perspectiva única. Episódios de Dia de Ação de Graças são um clichê das séries americanas e mesmo assim um dos melhores episódios de 2017 foi “Thanksgiving”, que usa essa mesma data ao longo dos anos para contar a história das diversas saídas do armário de Denise (Lena Waithe), um trabalho que rendeu a Lena Waithe, que escreveu o episódio com base em sua experiência como lésbica e negra, o Emmy de Melhor Roteiro.

Explorando diferentes perspectivas, Aziz Ansari dá nome e voz aos personagens anônimos de Nova York que passam despercebidos em narrativas majoritariamente brancas sobre a cidade. Sendo ele um filho de imigrantes indianos de tradição muçulmana, o ator, roteirista e diretor traz uma visão fresca ao formato “comédia sobre jovens adultos vivendo numa grande cidade e descobrindo seu lugar no mundo” enquanto Dev, seu personagem, vive todas as questões, construindo ao lado dos outros personagens masculinos da série também uma nova perspectiva sobre masculinidade, mais sensível e vulnerável, mas nem por isso imune a certos vícios, principalmente no que tange ao relacionamento com as mulheres. A exploração dessas nuances e a abertura que Master of None dá para seus personagens falharem e se questionarem faz da série uma pequena obra-prima e um triunfo sobre todos os clichês já escritos sobre Nova York.

Para saber mais: Master of None: Aziz Ansari, I love you; Lena Waithe: mais uma voz para as mulheres negras na televisão.

Orphan Black, BBC America

Por

Orphan Black foi uma série responsável por elevar o significado da palavra sororidade para um novo patamar. Tatiana Maslany conseguiu de forma impecável trazer a tona mais de dez personalidades complexas e diferentes por meio de personagens fortes e únicos; a atriz foi tão maravilhosa em sua tarefa de interpretar os clones que, por alguns momentos, praticamente esquecíamos que tudo aquilo era obra de apenas uma mulher. Após cinco anos as histórias de Sarah, Alison, Cosima, Helena e Rachel (todas interpretadas por Maslany) nos ensinou muito sobre elas mesmas, sobre o valor que cada uma tinha em toda a trama, mas principalmente elevou ao nível máximo o que significa ser aliada e não adversária. Mulheres independentes que selaram seu destino a partir da união e que conquistaram o que queriam juntas. Sem uma ter um peso maior que a outra, mas sim todas igualmente poderosas e donas de suas próprias vidas. Com um amadurecimento na medida, o fim de Orphan Black deixou todo mundo com um buraquinho no coração, mas preencheu como um todo a alma das mulheres que viram na série a importância da irmandade.

Para saber mais: Orphan Black: as mulheres em primeiro plano

Outlander, Starz

Por Mia

Viagem no tempo é algo que sempre me interessou. A ideia de poder sair do século XXI diretamente para ver os vestidos de baile do século XVIII é algo que me atrai desde criança, mas que sabia não ser possível. Porém, na televisão tudo é possível (assim como na literatura), e essa mágica acontece em Outlander. A série, o ar desde 2014, só fez crescer em 2017. Claire Beauchamp (Caitriona Balfe) é uma das personagens femininas mais fortes e determinadas que já vi em séries. Em sua terceira temporada, Claire mais uma vez encara os desafios de uma viagem no tempo para uma época em que ser mulher fazia mal à saúde. Dessa vez o desenvolvimento da personagem mostra claramente que não basta estar com quem se ama: mulheres não são apenas objetos de decoração da família perfeita ou donas-de-casa exemplares. É por isso que Claire se torna uma das primeiras mulheres a se formar em Medicina e exerce sua profissão, seja nos anos 1960 ou no século XVIII.

Para saber mais: Outlander – uma mulher estranha num tempo estranho 

Pretty Little Liars, The CW

Por Júlia

Depois de muitos plot-twists e A’s, Pretty Little Liars finalmente chegou ao seu fim em junho desse ano. Foram sete temporadas de suspense, dramas, romances problemáticos e personagens secundários sem muito propósito. Pretty Little Liars é aquele tipo de série que devia ter terminado muito antes do fim oficial, mas é também o tipo de série que você quer que dure para sempre. Depois do salto temporal de cinco anos e o muito esperado fim do Ensino Médio para Alison (Sasha Pieterse), Spencer (Troian Bellisario), Aria (Lucy Hale), Hanna (Ashley Benson), Emily (Shay Mitchell) e Mona (Janel Parrish), as meninas tiveram que retornar à Rosewood para lidar com um novo vilão. A última temporada pareceu que foi feita apenas para as fãs da série, pois teve a retomada da tortura clássica de PLL: o vilão que obriga a fazer as coisas que, lá no fundo, as personagens querem que aconteça. Após muitos alarmes falsos, a série acabou definitivamente, é até difícil de acreditar. Para quem desistiu no meio do caminho, um conselho: assista tudo, pois apesar dos acidentes de percurso, Pretty Little Liars faz a jornada valer a pena.

Para saber mais: Revendo Pretty Little Liars

Riverdale, The CW

Por Júlia

Comecei a ver Riverdale como uma substituta para Pretty Little Liars. Tinha todos os requisitos: dramas adolescentes no Ensino Médio, pais não confiáveis, mil referências a filmes antigos de mistério e terror, cidade pequena com alto índice de crimes e um mistério central: a morte de um adolescente. O que me pegou de surpresa é que, ao contrário de Pretty Little Liars que nunca cumpria o que prometia, Riverdale fechou a primeira temporada com a resolução do crime e a descoberta do assassino. Em outubro de 2017 começou a segunda temporada, que conseguiu, até agora, retomar os pontos fortes da primeira e introduzir novos dramas. A faceta nova e inesperada é a responsabilidade de tratar assuntos “polêmicos” sem cair nos clichês furados de sempre. Por exemplo: os produtores e roteiristas ouviram sua audiência e terminaram com o relacionamento abusivo entre uma professora predadora e um aluno menor de idade. E ainda na nova temporada teve também a cena mais catártica e prazerosa de se ver: meninas adolescentes batendo e chutando um homem abusador.

Skam, NRK

Por Tany

A série norueguesa que já falamos anteriormente foi uma grande febre no momento que estreou em seu país. O propósito era ser um pequeno retrato dos jovens adolescentes noruegueses, seus relacionamentos amorosos e amizade, até a internet descobrir e virar uma febre mundial. Skam veio para ocupar o espaço de série teen que estava vago no meu coração nos últimos anos. Atual, com uma ótima trilha sonora, esteticamente agradável, com bom senso de moda e acima de tudo: personalidade. Fui conquistada logo no primeiro episódio. Cada uma das suas temporadas focou em um personagem diferente: Eva (Lisa Teige),  Noora (Josefine Frida Pettersen), Isak (Tarjei Sandvik Moe) e, na sua quarta e última temporada, pela garota muçulmana com o sorriso mais bonito da Noruega e o maior coração que um dia você vai conhecer: Sana (Iman Meskini).

A temporada final é especial por si só, mas também é com ela que conseguimos ter conhecimento de uma cultura e uma forma diferente de lidar com a adolescência – relacionamentos e expectativas dos pais, preconceito e amizade – do que estamos acostumados. Em cada temporada é explorado um tema característico de seus personagens passando por amor próprio e dependência em relacionamentos, feminismo, descoberta da sua sexualidade, relacionamento com alguém do mesmo sexo, entre outros. Mas a parte mais bonita entre todas elas são seus diálogos reais, sem dramas superficiais que nós estamos acostumados em muitas séries americanas adolescentes, e a amizade entre os personagens. A amizade está sempre em primeiro lugar, o diálogo vem logo depois e é bonito demais de se ver jovens dando exemplo de como ter relações saudáveis e verdadeiras com outros jovens em vez de uma competição entre garotas ou passar por tudo e todos para conseguir o que quer. Em um mundo em que é cada um por si nunca é demais ter exemplos de que unidos, e com as pessoas certas, nós somos mais fortes. Sentirei saudade de uma das melhores séries da atualidade.

Para saber mais: SKAM: drama adolescente na Noruega, SKAM e a representação da amizade entre garotas

The Crown, Netflix

Por Thay

Ainda que a segunda temporada de The Crown tenha pecado terrivelmente ao colocar a Rainha Elizabeth II (Claire Foy) em segundo plano, a série permanece uma de minhas favoritas. O grande tempo de tela dado aos dramas de Philip (Matt Smith) pode afastar alguns daqueles que se encantaram com a primeira temporada, mas ainda assim é possível se deleitar com a narrativa de outros personagens muito mais carismáticos, como é o caso da Princesa Margaret de Vanessa Kirby. Passados um pouco mais de dez anos desde a coroação, Elizabeth ainda é uma figura solitária quando precisa lidar com o peso de usar a Coroa, e isso se reflete na rachadura aparente no casamento com Philip e no ciúme que sente quando Jacqueline Kennedy (Jodi Balfourvisita a Inglaterra, conquistando sorrisos e suspiros por onde passa. O último ano do elenco original poderia ter sido mais lisonjeiro com a Elizabeth de Claire Foy – sempre maravilhosa em cena –, mas tivemos que perder um longo tempo de narrativa com os resmungos de um duque ressentido e homens que acham que sabem o que estão fazendo.

Para saber mais: The Crown e a solitária Rainha Elizabeth, The Crown: família em primeiro lugar

The Bold Type, Freeform

Por Sofia

A longa tradição de histórias sobre garotas se descobrindo enquanto trabalham em revistas segue viva com The Bold Type, da Freeform. Aos elementos clássicos desse tipo de universo (uma personagem profissional mas com pouca experiência de vida, um caso inapropriado no ambiente de trabalho, confusões e constrangimentos públicos, homens bonitinhos mas que não prestam), a série acrescenta uma mensagem poderosa de amizade, uma figura rara de mentora profissional, um relacionamento tocante e romântico entre duas mulheres e uma dose razoável de realismo quanto à produção de conteúdo para internet, com um toque pesado de millennial. Depois de uma excelente primeira temporada (culminando em uma finale que me fez chorar baldes), a série foi renovada para mais duas, com dez episódios cada.

Para saber mais: The Bold Type: amigas conversam sobre tudo, The Bold Type: mulher ajuda mulher

The Good Place, NBC

Por Júlia

Depois de ver e rever mil vezes Parks and Recreation e The Office, foi uma surpresa mais que agradável me deparar com The Good Place. Produzida e criada por Michael Schur, a série consegue ser, ao mesmo tempo, engraçada e instrutiva. O que eu mais gosto em The Good Place é como a série consegue ser engraçada sem ser depreciativa e sem ofender ninguém. É estranho que em pleno século XXI ainda haja tanta gente fazendo piada baseada em clichês pejorativos e estereótipos de minorias. The Good Place não cai nessa cilada e ainda discute moral, ética, vida após a morte e outros conceitos e mistérios que a humanidade não conseguiu desvendar.

Para saber mais: O humor possível: The Good Place

The Handmaid’s Tale, Hulu

Por Paloma

Desconheço um soco no estômago televisivo que tenha sido maior que The Handmaid’s Tale esse ano, série que com certeza deu o que falar em muitos sentidos e de fato caiu na boca do povo. Adaptação do livro O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, a trama se passa em um futuro distópico, na hipotética República de Gilead, surgida no território atualmente ocupado pelos Estados Unidos, após uma revolução político-social de base fundamentalista religiosa. Em uma sociedade em que as taxas de natalidade caíram drasticamente, a fertilidade se torna uma questão pública e mulheres férteis passam a ser encaradas como meros instrumentos, meios para um fim – dar filhos à elite política do país. A série acompanha a vida de Offred (Elisabeth Moss), uma aia, no meio disso tudo, intercalando com flashbacks de sua vida anterior à revolução e do processo que levou à nova ordem social.

A série assusta não só por sua realidade brutal, violenta e absurdamente opressiva, mas sim – como acontece com as melhores distopias – pela atualidade do que é retratado. Apesar de ambientada em um futuro distópico, muitos dos aspectos representados na série encontram correlações muito fortes com a vida real, e com o passado. É assustador reconhecer nas telas, na forma de uma distopia, aspectos do que vemos todos os dias, como a tomada de poder político por forças conservadoras e/ou religiosas e o controle da autonomia corporal e reprodutiva das mulheres, mas de certa forma também pode ser um alerta para que fiquemos atentas ao que acontece à nossa volta e não nos deixemos ficar inertes em face de tudo isso. Caso alguém no mundo ainda não tenha assistido The Handmaid’s Tale, fica o projeto para 2018.

Para saber mais: The Handmaid’s Tale

Twin Peaks, Netflix

Por Tany

Quando Twin Peaks estreou pela primeira vez eu estava aprendendo a andar, e por causa do filme e do livro O Diário de Laura Palmer acabei assistindo sem expectativa nenhuma, mas o que não imaginava é que viria ser tornar minha série preferida. O amor que tenho por esse clássico cult, que influencia tantas produções até hoje e ainda inspira 9 entre 10 showrunners atuais, é de outro mundo. Por isso me peguei feliz, mas muito nervosa quando soube o que a série iria voltar 26 anos depois. O que esperar? Como surpreender e continuar a história décadas depois? Ainda seria boa? Iria me fazer sentir alguma coisa que não fosse vergonha alheia ou saudades do que um dia já foi?

Felizmente, posso falar que sim. David Lynch conseguiu criar um mundo novo indo muito além da essência da série. Assim como a indústria da televisão e seriados evoluiu, a pequena cidadezinha em Washington teve suas mudanças e o universo místico anteriormente de somente alguns milhares de habitantes se espalhou pelo país. A série, que pelos criadores é considerada um longo filme de 18 horas, não olha só para o passado, mas para as consequências dos atos finais na segunda e, até então, última temporada, e como moldaram o resto da vida dessas pessoas e das que vieram depois. Ao mesmo tempo que são dadas pequenas explicações sobre alguns personagens e eventos que desencadearam o início de tudo muitos anos antes da história que conhecemos começar. É complicado falar de uma série que em grande parte dos episódios você talvez não entenda, é preciso paciência e atenção para entrar nesse universo que faz pouco sentido durante e até mesmo depois que você assiste. Mas acredite no que digo que valeu muito a pena esperar porque Twin Peaks não é mais uma pequena cidade, ela realmente virou algo muito maior, e pode se dar ao luxo de introduzir personagens novos e resgatar (quase todos) os antigos somente para uma aparição rápida, ao mesmo tempo que não perde sua essência. Longe disso, ela ficou melhor, mais estranha e inesperada do que antes.

Posts Relacionados

1 Comentário

  • Responda
    Ana Beja
    4 de Janeiro de 2018 at 11:29

    The Bold Type, The Handmaid’s Tale e Outlander foram para mim as grandes surpresas do ano. Só comecei a ver Outlander à coisa de 1 mês, mas fiquei rendida à história e às personagens. The Bold Type, fez diferença na minha vida porque se assemelha muito à realidade, e a problemas que todas temos, no fundo, o nosso dia a dia. The Handmaid’s Tale foi assustadoramente parecido com a realidade que vivemos, em que as mulheres são constantemente jogadas para trás, devia ser série de carácter obrigatório para as pessoas no geral. Parabéns por mais um magnífico artigo!

  • Deixe um Comentário