MÚSICA

Melanie Martinez: “um pouquinho de açúcar, mas muito veneno também”

Melanie Martinez

Na primeira vez que Melanie Martinez se apresentou em rede nacional, em 2012, seus espectadores mais importantes estavam de costas para ela. Porque é assim que funciona no The Voice, talent show americano que visa descobrir novos talentos musicais com base na habilidade vocal do candidato acima de tudo. No começo não é preciso demonstrar presença, tampouco habilidades performáticas, tanto quanto é preciso demonstrar confiança e autocontrole. Cantando uma versão acústica de “Toxic”, de Britney Spears, enquanto tocava violão com as mãos e pandeiro com os pés, Melanie fez três das quatro cadeiras virarem para ela: as de Adam Levine, Blake Shelton e Cee Lo Green. Escolhendo o time de Adam, esse foi o primeiro capítulo dela como cantora profissional.

No entanto, o prólogo da trajetória de Melanie Martinez é mais antigo: ela começou a nutrir gosto pela música em sua tenra infância, ouvindo seus artistas preferidos herdados do repertório de seus pais, e aos 14 anos foi autodidata no estudo de violão e começou a compor suas próprias músicas. Assim como muitos aspirantes, seus primeiros passos foram dados por meio do YouTube, onde ela compartilhava vídeos cantando suas músicas autorais. Alguns deles estão disponíveis até hoje na internet para servir como evidência de que o estilo de Melanie estava encaminhado desde cedo. Ainda que fosse muito novinha naquela época, ela já demonstrava grande maturidade ao abordar temas complexos pela perspectiva de um eu-lírico vulnerável, mas demorou um pouco para essa percepção ser bem recebida. Enquanto ela era apenas uma estudante com o sonho de ser cantora, nos subúrbios de Nova Iorque, a singularidade de Melanie aflorando desde cedo causava certo estranhamento em seus colegas de classe, que costumavam praticar bullying com ela tocando suas músicas originais nos alto-falantes da escola. Apesar desses espinhos logo no início da sua jornada na carreira musical, Melanie não se deixou abalar e permaneceu focada em seu objetivo até finalmente colher os frutos dos seus esforços, que começou com oportunidade para se apresentar no The Voice e mostrar para o mundo inteiro aquilo que era capaz de fazer. A partir de então, o sucesso foi gradativamente aumentando.

Entretanto, ainda para o público internacional, Melanie Martinez chega como uma surpresa. De cabelo dividido em duas cores – preto e branco, como Cruella De Vil, a inspiração definitiva por trás do icônico estilo adotado por ela –, laços, e vestidinhos boneca, o estilo usado por ela no The Voice foi apenas uma amostrinha de sua inspiração: uma mistura do vintage com o infantil. Só descobriríamos que a moda é apenas um complemento que casa perfeitamente com os temas de suas músicas depois, quando Melanie foi eliminada do programa em sexto lugar, e com um contrato assinado com a gravadora Atlantic Records pouco depois, ela pôde se dedicar ao seu álbum de estreia e não apenas trabalhar com covers – algo que pretendia desde o início. Não que para ela o The Voice tivesse apenas servido como meio de ganhar visibilidade. Sua passagem pelo programa foi uma experiência que como todas as outras a ajudou a amadurecer sua percepção musical e ter um gosto do que era trabalhar como artista de verdade. Mas desde seus primórdios como musicista, o que a realmente fazia se sentir confortável era escrever suas próprias canções, com base naquilo que a representava ou visualizava em sua própria cabeça, e ela é bem específica quanto à forma de expressar suas ideias e conceitos, tanto nas letras e melodias das músicas quanto na parte visual delas.

Foi exatamente com esse cuidado que o álbum de estreia Cry Baby (2015) foi produzido, lançado e promovido. Diferentemente de outros álbuns de música pop, Melanie Martinez quis que o seu primeiro full-lenght fosse um trabalho conceitual que contasse a história de uma personagem chamada Cry Baby, a qual ela admite ter sido inspirada nela mesma graças ao fato de ela ser uma pessoa extremamente emocional, e quando criança costumava ser sensível e chorar bastante, o que levou seus colegas a apelidarem de cry baby. Em torno dos seus 20 anos, ela decidiu abraçar esse seu lado como algo positivo, sinônimo de força por ser capaz de expressar seus sentimentos e não escondê-los como muitas pessoas o fazem pelo medo de ocupar uma posição de vulnerabilidade. Contudo, ela mesma define as semelhanças da história dela com a de Cry Baby como sendo limitadas – as músicas do álbum em sequência contam a história da personagem, mas muitas delas surgiram em seu imaginário, especialmente as que dizem respeito a temas mais sombrios. Porque apesar de o álbum aparentar ser um produto de nostalgia com seu visual infantil, as letras revelam um conteúdo mais complexo, adulto, e obscuro, equilibrando dois lados extremamente opostos. Cry Baby foi recebido muito bem pela crítica tamanha sua originalidade e relevância; um álbum que não aparenta ser nem um terço daquilo que entrega aos seus ouvintes.

Se a primeira faixa, “Cry Baby” apresenta a personagem central que vai conduzir a história do álbum, “Dollhouse” e “Sippy Cup” apresentam seu contexto familiar: uma família que vista de fora é modelo ideal, mas que por trás das paredes da casa de cerca branca esconde mais segredos do que sonha a nossa vã filosofia. O pai é adúltero, a mãe é alcoólatra, e os filhos sofrem as consequências de virem de uma família disfuncional. As roupas, no entanto, se mostram impecáveis, e o sorriso, no rosto. Tratando-se de uma história que já conhecemos, a personalidade problemática de Cry Baby muito tem a ver com o que acontece por trás das cortinas de seu lar, além dos adicionais conflitos trazidos por relacionamentos, o que nos leva a “Carousel” e “Alphabet Boy”. Essas duas músicas foram inspiradas em um relacionamento real de Melanie, e ela tentou transmitir por meio delas a sensação de estar envolvida por um sentimento que gira em círculos como um carrossel, e o desfecho desse relacionamento quando ela conseguiu se desvencilhar do rapaz em questão. “Soap” e “Training Wheels”, por outro lado, já falam sobre um outro relacionamento, que descreve a dificuldade de Cry Baby de declarar seus sentimentos, seguido por uma música romântica que contempla o melhor lado desse relacionamento, sendo a única música realmente fala sobre amor no álbum. Advertidamente, não é do feitio de Melanie trabalhar com esse lado em suas canções. Como forma de desabafo, suas letras acabam por ser mais melancólicas ou agressivas, e isso se adequa perfeitamente à estética do seu trabalho.

A oitava faixa do álbum, também inspirada por um evento real da vida de Melanie, chama-se “Pity Party”, e descreve a ocasião em que ela, ou melhor, Cry Baby faz uma festa de aniversário, mas nenhum de seus colegas aparece. Fazendo referência à música dos anos 60 de Lesley Gore com os versos “It’s my party and I’ll cry if I want to” [É minha festa e vou chorar se eu quiser], a música intensifica a temática do álbum para os temas mais agressivos, ainda que o vídeo seja perturbadoramente divertido. “Tag, you’re it” e “Milk and Cookies” descrevem Cry Baby sendo sequestrada pelo Lobo Mau e sua vingança, respectivamente. Há quem acredite que as músicas são o retrato de um abuso, contudo a cantora só comenta as faixas com base na história do álbum. Em “Pacify Her”, Cry Baby torna-se a “outra” de um relacionamento amoroso, talvez em consequência dos eventos contados em músicas anteriores que afetam ainda mais sua perturbação. Mas é a seguinte “Mrs. Potato Head” que realmente chama a atenção, não por estar na reta final dos capítulos dessa história, mas pela mensagem que ela aborda: a influência midiática sobre a aparência das mulheres. Muito se diz sobre o assunto, é verdade, e a mensagem ao redor da internet nos incentivam a nos aceitar como somos. Todavia, dentro no universo de Cry Baby, a imagem da personagem conversando com Sra. Cabeça de Batata, brinquedo conhecido por mudar as partes do seu rosto, tem um efeito muito mais crítico e eficaz quando a música diz como as crianças crescem se espelhando nas pessoas e estímulos ao seu redor. Além de ser uma crítica, a música se torna um lembrete para pensar duas vezes antes de mudar drasticamente qualquer pedaço do nosso corpo. E, por fim, “Mad Hatter”, inspirada em Alice no País das Maravilhas, fala sobre transtornos psiquiátricos, não tratando o tema como um tabu, mas com uma naturalidade rebelde que celebra o fato de “as melhores pessoas serem loucas”, e tudo bem.

Em suma, o trabalho de Melanie Martinez é inteiramente baseado em uma narrativa fictícia com algumas inspirações pessoais que procura celebrar quem você verdadeiramente é. Sua carreira é recente e tem pouco em que se basear, para sermos sinceros, mas em baby-steps ela está construindo um caminho sólido e bem delineado. Melanie pode fazer parte da nova leva de artistas jovens com grande potencial para encher os cofres das gravadoras, mas desde o começo ela deixa claro que tem seu trabalho bem definido na sua cabeça, e ela exerce controle sobre ele, como deveria. A pouca idade já mostrou que não é um empecilho para que ela tome as próprias decisões e decida o futuro de sua música. Ser uma cantora comercial está longe de suas prioridades. Autenticidade se prova ser uma das palavras-chave da artista que se inspira em cantoras como Marina and the Diamonds, Lana Del Rey, e Regina Spektor, que também são bem singulares dentro da indústria musical e referência no gênero alternativo. São artistas que assinam a composição das músicas que vendem, e não ligam para números como ligam para a qualidade do seu trabalho e, principalmente, a identidade dele.

O fato de Melanie adotar o estilo de uma criança e colecionar brinquedos antigos incomoda as pessoas que nunca procuraram saber sobre ela, e gera os inevitáveis julgamentos de primeira impressão. Só que se essas mesmas pessoas pararem um minuto para observá-la, perceberão que ela não tem nenhum distúrbio de personalidade ou algo do tipo, mas que ela veste, e canta, aquilo que aprecia, e tudo faz parte da construção da sua identidade e o direito de ser quem realmente é. Algumas das notícias mais polêmicas relacionadas a ela estavam relacionadas ao seu trato com fãs por se sentir desconfortável com a reação deles. Em uma ocasião, Melanie se aborreceu com um fã que a interrompeu gritando “eu te amo” num show, enquanto ela estava tentando explicar para a plateia o significado de uma das suas músicas. Em outra, ela se incomodou com uma fã que chegou perto dela e tirou uma foto sem pedir sua permissão, enquanto ela atendia outra pessoa. Ainda em seus shows, ela teve objetos roubados do cenário, incluindo sua própria bolsa. Por isso, inúmeras vezes ela se manifestou nas redes sociais para desabafar sua decepção nessas situações, e buscar a compreensão das pessoas que a idolatram, porém esquecem sua humanidade. Há mais de um ano, Melanie escreveu em seu Tumblr algumas considerações sobre a fama, incluindo algumas palavras sobre os fãs que a chamavam de “mãe” e “rainha” nos comentários do Twitter e do Instagram – ela deixou claro que não queria ser nenhum dos dois para eles, e sim uma amiga. Que como ser humano imperfeito, ela não tinha como ser modelo para ninguém, e por isso esperava não ser julgada pelos seus erros ou hábitos, já que não estava disposta a julgar ninguém. Por mais que seja delicado para um artista postar declarações públicas, alguns ousam dizer o que pensam e enfatizar os limites da função que ocupam. Podem criar algumas faíscas, é claro, mas não deixa de ser uma maneira de estabelecer uma relação sincera.

O próximo álbum de Melanie Martinez está em vias de gravação e produção, e para ele podemos esperar o retorno de Cry Baby, dessa vez não como a protagonista da história, mas como narradora. Enquanto isso, ela segue fazendo shows, inclusive marcando presença do Lollapalooza 2017 aqui no Brasil, e conquistando mais um punhado de fãs a cada dia. Para aqueles que cruzam com suas músicas e decidem acompanhá-la, é necessário que entendam e respeitem que nem tudo sobre Melanie será normal, assim como dizem os versos em “Milk and Cookies”, tem “um pouquinho de açúcar, mas muito veneno também”. Basta saber provar.

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1 Comentário

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    Ana Beatriz
    25 de março de 2017 at 16:06

    Que review sensacional sobre a cantora. A primeira coisa que eu fiz depois de terminar a leitura foi abrir a página dela no Spotify pra ouvir as músicas de outra maneira.

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