TV

Mary Winchester não é uma donzela em perigo

Dois de novembro de 1986. Algum tempo após colocar os filhos para dormir, uma mãe acorda com o barulho da babá eletrônica, posicionada estrategicamente ao lado da própria cama. “John?”, ela chama, ainda sonolenta, pelo marido; ele, contudo, não se encontra ao seu lado. Assim, ela levanta e se dirige até o quarto do bebê, cansada após mais um dia dedicado ao cuidado dos filhos, do marido e do lar; mas ao chegar no quarto, encontra um homem debruçado sobre o berço do bebê. No escuro e de costas para ela, sua silhueta lhe parece com a do marido, e sendo ele o único homem adulto na casa, não há nada com o que se preocupar – exceto que há algo muito errado acontecendo naquela casa. Era para ser uma noite qualquer na casa dos Winchester; até não ser mais.

Tudo isso acontece nos primeiros minutos do episódio piloto de Supernatural, uma espécie de prólogo que se dedica primordialmente a construir o universo da série, seus personagens e motivações. Sam (Jared Padalecki) e Dean Winchester (Jensen Ackles), os protagonistas dessa história, são as mesmas crianças que ainda na infância perderam a mãe, Mary Winchester (Samantha Smith), vítima de um incêndio provocado pelo demônio que, naquela fatídica noite de novembro, se debruçava sobre o berço do pequeno Sam. O pai, John Winchester (Jeffrey Dean Morgan), cego para quaisquer outras questões e para as necessidades dos filhos, tornou-se um uma figura negligente e pouco amorosa para crianças já tão machucadas. Não por acaso, o grande mote de Supernatural não são os monstros e demônios caçados pelos protagonistas ao longo da história: embora estejam presentes, a maior parte deles faz as vezes de pano de fundo para uma narrativa que, na realidade, trata de relações familiares e sua vulnerabilidade antes de qualquer outra coisa.

De forma pouco original, mas bastante eficiente, a série se utiliza de um grande clichê da ficção – a trágica perda da figura materna – para desenvolver personagens complexos, ambíguos, humanos e problemáticos, e que respondem ao trauma de formas completamente diferentes. Dean é o cara que não questiona as decisões do pai, que segue os mesmos passos do homem que o negligenciou a vida inteira, mesmo que ele próprio fosse a pessoa mais próxima de compreender sua dor e o luto, e que sempre coloca a família em primeiro lugar, mesmo que os problemas familiares sejam aqueles que gritam mais alto em sua jornada. Sam, por sua vez, é um jovem inteligente e sonhador, que deseja mais do que tudo levar uma vida normal e abandonar os traumas do passado – que, para ele, são experienciados num nível completamente diferente daquele vivido pelo pai e pelo irmão mais velho. Quando a série tem início, Sam está prestes a entrar em uma grande universidade; tem amigos, uma namorada doce e absolutamente adorável, com quem ele divide um pequeno apartamento, faz cookies com gotas de chocolate e que lhe dá apoio em tempo integral; e caminha para conseguir a vida que sempre sonhou. Mas a relação com o pai se equilibra no limiar entre a distância e a hostilidade, algo construído a partir de anos e anos de brigas, confrontos e uma falta mútua de aceitação.

A jornada de Mary, no entanto, termina muito antes de começar: não sabemos quem é a mulher Mary Winchester e muito tempo se passa até que tenhamos a chance de descobri-lo. Longe de ser uma figura dispensável para a narrativa, seu papel, contudo, restringe-se em grande parte ao da vítima que desencadeia todos os acontecimentos que movimentam a história, mas que jamais ganha voz para contá-la. Ela é a primeira donzela em perigo numa série repleta delas, mas a quem a chance de salvação já não é mais uma realidade. Assim como Jessica (Adrianne Palicki), namorada de Sam que morre exatamente como a mãe do rapaz, também no episódio piloto, Mary se encaixa no que Stacey Abbot e David Lavery, editores do livro TV Goes to Hell: An Unofficial Road Map of Supernatural, chamaram de “angel in the house” [anjo da casa, em tradução livre]; mulheres estigmatizadas como mães e esposas perfeitas – o ideal dourado do patriarcado.

“The presentations of both Mary Winchester and Sam’s fiancée, Jessica (“Pilot,” 1.1) owe much to the notion of the “Angel in the House,” a Victorian figuration of the perfect wife and mother that indentifies both characters with domestic activities and the home. Dean’s memories focus on Mary’s “angelic” mothering: she made him “tomato-rice soup” when he was ill, sang “Hey, Jude” as a lullaby, and told him “angels were watching over” [him] (“The Song Remains The Same,” 5.13). Similarly, Jessica’s character is and uncomplicated, nice, and supportive girlfriend who encourages Sam (…) and leaves home-made chocolate-chip cookies out for him. Both women are also situated in domestic space (…).”

As apresentações de Mary Winchester e da noiva de Sam, Jessica (“Piloto” 1.1), devem muito à noção de “Anjo na Casa”, uma figuração vitoriana da esposa e mãe perfeita que remete ambas as personagens às atividades domésticas e ao lar. As memórias de Dean focam a maternidade angelical de Mary: ela fazia sopa de tomate e arroz quando ele ficava doente, cantava “Hey Jude” como canção de ninar, e disse-lhe que “anjos estavam cuidando [dele]” (“The Song Remains The Same” 5.13). Da mesma forma, a personagem de Jessica é descomplicada, boa, e uma namorada apoiadora que encoraja Sam (…) e deixa biscoitos de gotas de chocolate caseiros para ele. Ambas as mulheres também estão situadas num espaço doméstico (…).

Mary e Jessica padecem no mesmo pedestal da perfeição, eternamente confinadas a um estereótipo que as desumaniza de forma brutal. Tanto uma quanto a outra são mulheres que se encaixam perfeitamente no padrão feminino imposto pelo patriarcado, verdadeiras santas que não fazem nada, absolutamente nada, para merecer o destino trágico que lhes é conferido; mas são elas que estão no lugar errado e na hora errada, e terminam mortas pelo mesmo demônio. Supernatural subverte momentaneamente um padrão comum nos filmes e séries de terror – as mulheres que são castigadas por não serem puras o suficiente para serem salvas – enquanto, ironicamente, constrói sua narrativa em torno de outro grande clichê da ficção: o das mulheres aparentemente perfeitas que são sacrificadas para mover o arco daqueles que são os verdadeiros protagonistas da história; no caso, os irmãos Winchester. Não é uma escolha aleatória. Mary e Jessica são mulheres, logo vulneráveis, e sofrem a barbárie de um mundo que não as enxerga como sujeito.

O que conhecemos sobre Mary – e Jessica – parte de uma ótica essencialmente masculina: Sam, Dean, e também John, se apropriam da sua voz, e são eles que falam por ela, confinando-a em uma imagem idealizada e romantizada do que é ser mulher, namorada e posteriormente esposa, mas também do que é ser mãe. A Mary que vive na memória dos filhos e do marido não é uma representação real da mulher de carne e osso que fora um dia, mas uma versão reducionista e unidimensional do ser humano de outrora. Supernatural nunca foi uma série sobre mulheres – muito embora, ironicamente, seu público seja predominantemente feminino – e Mary não foge à regra. Só muitos anos mais tarde, numa mudança sutil de direcionamento da série – uma resposta tímida, mas perceptível, ao feminismo que ganha espaço e se torna cada vez mais comercial – é que Mary ganha a oportunidade de contar a própria história, se distanciando cada vez mais da figura angelical imortalizada na memória dos homens da família – e, consequentemente, na nossa própria –, uma mulher de longos cabelos loiros, olhos azuis e camisola branca; mais clichê, impossível.

Atenção: o texto contém spoilers!

Boa parte da décima segunda temporada da série dedica-se, não por acaso, ao relacionamento entre mãe e filhos. Mais de trinta anos se passaram desde a morte de Mary quando Amara (Emily Swallow) a traz de volta dos mortos, como uma forma de agradecimento (“você me deu o que eu mais precisava, quero fazer o mesmo por você”), e trinta anos é tempo mais do que suficiente para mudar uma vida inteira. No tempo em que esteve no Céu, vivendo a vida que sempre sonhou ao lado do marido e dos filhos pequenos em seu paraíso perfeito, não só o mundo se transformou num lugar completamente diferente, que avança numa velocidade quase insana, mas seu marido, o amor da sua vida, está morto, e Sam e Dean, seus pequenos filhos, cresceram, viraram homens, e se tornaram aquilo que Mary mais temia: caçadores. Sendo alguém que cresceu dentro da rotina instável de uma família de caçadores e que viu de perto os horrores que ganhavam espaço em meio à ignorância humana, seu maior sonho era ter uma vida normal. Ao lado dos filhos e do marido – exatamente aquilo que encontrou no Céu.

Não é um desejo arbitrário: desde muito cedo, somos bombardeadas com a ideia de que ter uma família nos moldes de um comercial de margarina e sermos mulheres dedicadas exclusivamente ao cuidado do lar, do marido e dos filhos, são coisas pelas quais devemos almejar; e o resto é apenas o resto. Mary nasceu na década de 1950, uma época em que as mulheres eram massivamente – e especialmente – incentivadas a retornar ao lar; seus esforços, afinal de contas, não eram mais necessários, e o espaço que lhes restavam eram aqueles restritos ao ambiente doméstico. Assim, Mary – que, à época, ainda utilizava o sobrenome Campbell – cresceu cercada por esse discurso que lhe dizia exatamente o que desejar para sua vida, conceitos que eram muito distantes dos exemplos que ela tinha em seu lar. Sair desse padrão é algo que nos custa muito caro até hoje – somos taxadas de putas, vadias, histéricas, loucas, ambiciosas e insensíveis, para não dizer coisa ainda pior – e Mary, que cresceu numa família tão radicalmente fora da curva, sabia disso melhor do que ninguém.

Conforme descobrimos mais tarde, ela não abandona a caça de forma definitiva – mesmo após casar-se com John –, mas o desejo de pertencimento e, principalmente, por ter uma vida normal segundo os moldes do patriarcado, somado ao medo de ter tudo aquilo que mais amava arrancado de sua vida como consequência de uma rotina tão perigosa, sempre estiveram intrinsecamente ligados à sua trajetória. Como escrevem Ralph Beliveau e Laura Bolf-Beliveau em Supernatural, Humanity, And The Soul: On The Highway To Hell And Back, Mary é uma mulher que almeja encontrar a própria felicidade na família e no casamento:

“(…) Mary has plans to leave the family business. John, she is certain, will ask her to marry him soon. She is willing to “run away” to escape the hunter’s world and find domestic bliss as a married woman with a family. She craves the safety of the normal world, but moral evil interferes.”

Mary tem planos de deixar o negócio da família. John, ela tem certeza, a pedirá em casamento logo. Ela está disposta a fugir para escapar do mundo dos caçadores e encontrar a paz doméstica como uma mulher casada com uma família. Ela deseja a segurança do mundo normal, mas o mal moral interfere.

Esse mal moral, como Ralph e Laura chamam no livro, são em grande parte os monstros de olhos pretos e mente maligna combatidos na surdina pelos caçadores. Entretanto, como eles mesmos explicitam na obra, muitos desses males – que também são culturais – partem de interpretações e reinterpretações de valores morais que regem nossa sociedade, e essa sociedade, coincidentemente, também é muito machista. A filósofa feminista Nel Noddings, citada em grande parte do artigo, defende em seu livro, Women and Evil, que a noção tradicional do mal é, sim, patriarcal, e reflete tanto tradições aristotélicas quanto judaicas e cristãs; algo que Supernatural, curiosamente, também referencia em sua mitologia. Pela sua perspectiva, a figura feminina passeiam entre duas possíveis representações: a mulher como o próprio mal e sua atração pelos pecados “da carne”; e a mulher bondosa e compassiva, que se sacrifica por aqueles que ama.

No caso de Mary, o mal surge na forma de Azazel (Fredric Lehne), o demônio de olhos amarelos que atravessa seu caminho quando ela ainda era uma jovem caçadora chutadora de bundas, e deixa marcas indeléveis em sua jornada. “In The Beginning”, terceiro episódio da quarta temporada, nos leva justamente ao momento em que tudo isso aconteceu, no distante ano de 1973, quando Azazel mata toda a sua família, e seu ainda namorado John Winchester, numa tentativa de fazer com que Mary sucumba; e ela o faz, porque é humana, porque não suportaria viver em um mundo sem sua família e sem seu grande amor ao mesmo tempo, muito menos sem a perspectiva de um futuro diferente de tudo que havia vivido até então. Mary aceita o acordo e, embora não consiga sua família de volta, seu sonho ao lado de John continua vivo e é isso que a mantém também; sem saber que, dez anos mais tarde, esse mesmo demônio será responsável pela sua morte e por modificar inteiramente a trajetória da família Winchester.

“— Mas pense: você vai parar de caçar para sempre. A casa de cerca branca, a caminhonete, um par de filhos. Nada de monstros ou medo. Eu vou garantir.
— E só vai custar minha alma?
— Não, pode ficar com sua alma. Eu só quero sua permissão.
— Para quê?
— Em dez anos, eu vou passar na sua casa e fazer uma coisinha.
— Para quê?!
— Relaxe. Desde que eu não seja interrompido, ninguém se machuca. Eu prometo.”  

John – que até então era um cara absolutamente normal, meigo (!) e gentil (!), que calhou de ser mais bonito que a média e ter um carro muito maneiro – tornou-se não apenas o grande amor da sua vida, mas também o seu escape, porque a vida ao seu lado era o lembrete necessário de que, em meio ao extraordinário, Mary podia construir uma vida adoravelmente banal e suburbana. Então eles se apaixonam, se amam profundamente, têm filhos lindos, compram uma casa, a decoram e celebram cada minuto de suas vidinhas comuns; exatamente o sonho cor-de-rosa que Mary Winchester sempre idealizou.

Contudo, ao retornar dos mortos, o cenário que encontra não poderia estar mais distante desse sonho – porque sua morte é o que marca o início da série, e o que seria de Supernatural sem uma figura feminina que inspirasse vingança? John, que nunca fora um caçador, que na verdade se manteve alheio por boa parte da vida ao que acontecia nas sombras do mundo, de repente se tornara uma figura amarga e obcecada por vingança, muito diferente do homem gentil e amoroso do passado, e é essa vingança que serve como principal pano de fundo para a trama: primeiro, como motivação; depois, como uma eterna questão mal resolvida dos protagonistas.

Sam e Dean crescem num mundo hostil demais, instável demais, difícil demais, muito distante daquele passado encantador de comercial de margarina sonhado por Mary, e também por John. Pela primeira vez desde a sua morte, Mary é confrontada pela perspectiva de uma vida em que todos os seus sonhos foram queimados junto com ela e que seu sacrifício causou feridas profundas, que iam muito além do luto. Sua família já não existia mais; nem um marido, nem uma casa, nem crianças que precisavam de carinho e cuidado – ainda que existissem adultos que precisavam desesperadamente de todas essas coisas. É uma configuração completamente nova e inesperada para Mary, que precisa forjar um espaço inteiramente novo para si mesma num mundo que aprendeu a viver sem ela; mas também para seus filhos e público que, em níveis diferentes, aprenderam a conviver com essa ausência e agora precisam reaprender a viver com uma versão de carne e osso da mulher incansavelmente romantizada por pouco mais de dez anos. Mary Winchester está de volta – e agora?

É uma situação delicada demais, complicada demais, desconfortável demais, e Supernatural sabe disso. Mas a série não recorre a saídas fáceis e não se faz de rogada em expor a humanidade de seus personagens enquanto constrói um conflito que não parte da existência de criaturas sobrenaturais ou de uma ameaça iminente, mas das relações humanas; essas relações tão complexas e que nos são tão próximas. Não existem respostas simples: somos ambíguos, difíceis, contraditórios e imperfeitos, e nada mais natural que as ligações que estabelecemos uns com os outros também o sejam. Mary, Sam e Dean possuem a mesma história longa e tortuosa em comum, mas eles não se conhecem de verdade, e, a essa altura do campeonato, essa talvez seja uma tarefa muito mais distante do que fora um dia. Mary ama os filhos e deseja o melhor para eles, mas ela não conhece os dois homens que eles se tornaram. Da mesma forma, Sam e Dean amam profundamente a mãe, mas eles não a conhecem para além de suas memórias infantis – no caso de Dean – e das lembranças distorcidas pelo luto de John; uma mulher que já não existe mais, se é que algum dia existiu.

Naturalmente, Mary decide tirar um tempo para si – porque é humana, porque não é perfeita, porque precisa de espaço para assimilar todo esse novo momento em sua vida, etc etc – e é longe do olhar e superproteção dos filhos que ela tem a chance de crescer enquanto personagem. Ela ainda é uma mulher carinhosa e maternal, mas essas qualidades são momentaneamente deixadas de lado para que outras facetas recebam igual atenção. Assim, descobrimos que Mary continua a ser uma caçadora de mão cheia, destemida e inteligente, mas também cheia de sentimentos, uma mulher que mete os pés pelas mãos, que é cabeça dura, às vezes egoísta, e nem sempre faz as melhores escolhas, ainda que no fundo esteja fazendo aquilo que acredita ser melhor, o que também significa cometer erros de vez em quando. Ela corta o cabelo, escolhe os próprios casos, mantém uma vida sexual ativa sem precisar de um relacionamento estável para isso, come junk food como se não houvesse amanhã e confessa que, na realidade, nunca aprendeu a cozinhar.

Sua independência, no entanto, não é aceita de imediato – e talvez nunca o seja. Dean, que herdou o instinto protetor da mãe e teve toda a vida pautada por uma ausência idealizada da figura materna, possui uma resistência muito particular em aceitar que ela não precisa de proteção, que talvez precise ainda menos do que ele. Quando Mary decide ir embora, Dean sente novamente a falta da mãe; e se ressente, porque é humano e ainda que não seja ingênuo, deseja mais do que tudo construir uma relação com ela que seja profunda, mas ao mesmo tempo adoravelmente… banal. Muito se fala sobre o desejo de Sam de abandonar a caça e levar uma vida normal porque sua forma de lidar com a realidade sempre foi muito mais óbvia e clara, mas Dean, ao seu próprio modo, também sonhava em levar uma vida normal, em ter uma família, em ter um lar para onde voltar ao final de um dia de trabalho. Com o retorno da mãe, ele tem a chance de, não pela primeira vez, fantasiar sobre um futuro melhor; mas esse é um sonho que se desfaz em mil pedacinhos quando Mary vai novamente embora.

Numa subversão sutil, Supernatural constrói dois personagens que são extremamente parecidos, e são essas mesmas semelhanças que os afastam de forma brutal. Ao contrário do que se imaginava, Dean é uma versão de Mary se ela fosse homem, enquanto Sam é muito mais parecido com John – se John não tivesse pirado após a morte da esposa. Ironicamente, Sam e John nunca tiveram uma relação saudável: o contexto em que estavam inseridos nunca lhes permitiu isso e é só quando os dois experienciam exatamente a mesma coisa que esse vínculo assume contornos mais afetivos, embora ainda estejam muito longe de serem ideais. Em partes, isso também acontece com Mary e Dean, que precisam criar um vínculo real após anos e anos de fantasias, mas esbarram nas barreiras que inevitavelmente surgem em seus caminhos, em grande parte porque Dean projeta uma personalidade em Mary que não a representa e isso, naturalmente, frustra a ambos: ela, por não ser a mãe perfeita, sob medida para as necessidades de seus dois filhos; ele, por não encontrar aquilo que idealizou a vida inteira.

Ambos se reencontram durante o funeral de Asa Fox (Shaine Jones) e é ali, entre homenagens ao falecido, a busca por um demônio e conversas de mãe para mãe, que Mary decide que é hora de voltar e ficar ao lado de seus filhos, de sua família. Assim, ela passa a residir no bunker dos Homens das Letras, o local que seus filhos chamam de lar, contudo, os ressentimentos não são colocados de lado, pelo contrário. Ela tenta, e eles tentam, fazer o melhor que podem – se ajudam, tentam entender o lado uns dos outros, trabalham juntos na medida do possível e fazem uma tentativa sincera de respeitar o espaço que lhes é de direito –, mas a torta de climão eventualmente é servida. Quando descobrem que a mãe vem trabalhando ao lado dos Homens das Letras britânicos, tanto Sam quanto Dean sentem-se traídos e frustrados porque aqueles são os mesmos homens que, não muito tempo antes, enviaram duas mulheres para torturarem os Winchester e buscarem respostas sobre os caçadores norte-americanos.

Mary erra ao não ser inteiramente honesta com os filhos desde o início, e erra em muitos outros momentos também – como em “Stuck In The Middle (With You)”, quando aceita um trabalho de maneira irresponsável, que termina por colocar um fim a vida de um caçador e quase faz o mesmo por Castiel (Misha Collins) –, mas há algo de muito verdadeiro quando ela diz que, embora seja mãe, não é apenas mãe; o que faz absolutamente toda a diferença.

“— Dean, estou tentando…
— Que tal você tentar ser mãe?
— Eu sou sua mãe, mas não sou “só” mãe. E você não é uma criança.
— Eu nunca fui.”

É um diálogo dolorido, porque sintetiza anos e anos de dores e traumas e dúvidas e frustrações e sofrimentos e esqueletos escondidos a sete chaves no armário; sentimentos complexos demais para serem facilmente solucionados – o mundo, afinal de contas, não é uma fábrica de desejos e não nos deve favor algum. Mary aprende (ou reaprende) do jeito mais difícil que ser humana e estar viva nem sempre é uma tarefa fácil, que na verdade é a mais difícil, mas ela está tentando, sem abrir mão de sua humanidade e de quem verdadeiramente é. E quem ela verdadeiramente é não é uma mãe perfeita e imaculada em sua camisola branca. A trajetória de Mary Winchester se torna revolucionária porque, pela primeira vez em doze anos, Supernatural nos apresenta uma personagem feminina que não é exatamente nova, mas que tem a oportunidade ainda inédita de ser verdadeiramente humana e complexa, de um jeito incômodo e real. Mary é uma mulher de personalidade forte, que nem sempre é agradável, que erra mais do que acerta e não faz questão de agradar ninguém se isso, antes de mais nada, não lhe agradar também – e isso é mais do que muitas mulheres na ficção têm a chance de mostrar. Uma temporada não é suficiente para alterar uma década inteira de representações tortas, mas talvez – e só talvez – tenhamos a chance de mudar esse cenário pra valer e mostrar que o negócio de família, afinal de contas, também é coisa de mulher.

Posts Relacionados

1 Comentário

  • Responda
    Divana Barbosa
    21 de maio de 2017 at 01:26

    Eu assisto Supernatural desde seu lançamento e agora aguardo muito pela 13ª temporada, que tem muito a contar sobre Mary, Lúcifer, Sam, Dean, Castiel e Jack. Se você não sabe quem é Jack, não vou dizer pra não ter spoiler, hahaha.
    O relacionamento familiar deles é muito complexo como família e isso é apresentado muito bem na 12ª temporada e eu estou muito feliz com essa apresentação. Me fez lembrar das coisas que aconteceram lá no início e em como elas afetaram o presente em que estão, e como que vai ser a vida de todos os personagens após tudo o que aconteceu, tendo Amara como uma personagem que desencadeou praticamente toda a parte importante dessa temporada que acabou esses dias.
    Aguardando muito a 13ª temporada e que ela seja digna desses muitos anos de Supernatural na nossa vida. <3

  • Deixe um Comentário