CINEMA

Mary Pickford: muito mais do que a queridinha da América

“Para começar, olha quanto homem”, diria uma pessoa minimamente observadora ao pisar num set de filmagem pela primeira – ou pela vigésima – vez. Seria cômico se não fosse trágico: desde que o mundo é mundo, a indústria cinematográfica tem sido uma área composta substancialmente por homens; uma realidade que já dura décadas e que, a essa altura, sequer é uma novidade. A história do cinema, não por acaso, tem sido contada quase sempre por homens – a maior parte brancos – que são as pessoas que ainda mantém o poder sobre a indústria nas mãos; homens que são, quase sempre, muito talentosos, é verdade, mas é muito fácil ser talentoso quando se possui espaço para mostrar o próprio potencial.

O cenário muda radicalmente quando falamos sobre as mulheres que fizeram parte desta história; profissionais que, via de regra, ainda conhecemos pouco a respeito justamente porque pouco é, de fato, dito sobre elas. São profissionais cujo trabalho é essencial para entender a história do cinema não apenas como arte, mas como uma indústria que movimenta bilhões; a fábrica de sonhos que assume importância econômica, política e social. Muitas dessas mulheres estiveram à frente das câmeras, mas muitas também estiveram atrás delas, em papéis diversos e tão importantes quanto o de todos os homens que conhecemos os nomes de cor e salteado. Elas, que já não eram vistas como sujeito na sociedade, quiçá no ambiente de trabalho, precisaram batalhar em turnos dobrados – às vezes, triplicados – para ganhar um lugar ao sol, numa época em que o machismo e o patriarcado sequer eram tratados como um problema, e questões sobre a representatividade feminina e a importância de espaços inclusivos e diversos não eram relevantes.

Ainda hoje, áreas como a direção de fotografia são majoritariamente compostas por homens, uma realidade que, não por acaso, deu origem a um dos termos que, até pouco tempo atrás, seria utilizado por profissionais e leigos para designar atuantes da área: cameraman. Não woman, não girl (embora esse último possa assumir uma carga pejorativa dependendo do caso). Man. O que parece uma bobagem é, na verdade, um reflexo do patriarcado que, disfarçado de sociedade, transforma o masculino em sujeito universal; uma ideia que não existe no vácuo e que ajudou a invisibilizar o trabalho de inúmeras cinegrafistas e diretoras de fotografia ao longo dos anos. As poucas mulheres que resistem aos ataques e limitações diários, por sua vez, raramente possuem a chance de contar suas histórias, transformando-se em figuras das quais raramente ouvimos falar. Mesmo quando ganham algum reconhecimento, elas logo tratam de ser esquecidas porque suas conquistas não são tão importantes assim em uma história contada por um ponto de vista essencialmente masculino; e essa é uma realidade que estende-se à outras áreas da indústria. O que sabemos e estudamos sobre cinema hoje nos é relatado por uma voz masculina – ainda muito forte, embora esteja longe de ser universal – que, pouco a pouco, silencia a história feminina até que elas sejam, por fim, totalmente esquecidas.

A trajetória de Mary Pickford se confunde com a própria história do cinema: nascida Gladis Marie Smith, Marie foi um dos principais nomes da indústria cinematográfica durante o período silencioso, uma artista brilhante e absolutamente fundamental para a história e evolução do cinema. Como atriz, ela acumulou mais de 200 produções em seu currículo – 250, segundo o IMDb –, mas suas habilidades eram infinitamente mais abrangentes e iam muito além do trabalho à frente das câmeras. Desde o início de sua carreira, Mary esteve preocupada não apenas em fazer filmes de sucesso, mas filmes que fossem verdadeiramente bons. Foi assim que, para a garantir a qualidade dos projetos em que estava trabalhando, ela passou a se envolver cada vez mais em outras áreas da produção, sempre atenta a todos os detalhes que pudessem passar despercebidos aos olhos de pessoas mais interessadas em fazer dinheiro do que filmes, e sempre buscou trabalhar com os melhores profissionais de cada área. O conhecimento adquirido ao longo desses trabalhos proporcionou que Pickford se tornasse uma excepcional produtora e escritora, que não muito tempo depois, tornou-se dona de sua própria produtora –  um feito até então inédito para mulheres à época.

O início de sua carreira no cinema data oficialmente de 1909, quando a então atriz tinha apenas 17 anos. Contudo, muito antes disso, Mary Pickford já construía uma forte carreira no teatro. O sucesso nos palcos foi o que salvou sua família da pobreza nos tempos difíceis que sucederam a morte precoce de seu pai, mas foi também o que a possibilitou construir uma carreira sólida em Hollywood alguns anos depois. Sua aparência doce e delicada logo conquistaria o público, que enxergaria em suas personagens essas mesmas características e lhe concederia o apelido de America’s Sweetheart; enquanto seu talento logo lhe renderia a alcunha de maior atriz do cinema silencioso.

Entretanto, a mulher Mary Pickford se distanciava completamente do estereótipo explorado à exaustão em seus trabalhos. Ela se tornou a “queridinha da América”, a “mocinha dos cachos dourados” e a “pequena Mary”; mas longe das câmeras, ainda era uma força poderosa e incontrolável, às vezes dura, quase sempre destemida. Em Silent Stars, livro publicado pela primeira vez em 1998, Jeanine Basinger busca construir uma análise profunda sobre a trajetória de estrelas do cinema silencioso que tiveram suas verdadeiras personalidades mascaradas e massacradas pelos papéis que assumiram na tela. A perspectiva de Jeanine não parte de um estudo de gênero – muitos artistas do sexo masculino são, inclusive, analisados ao longo da obra –, mas suas análises emolduram boa parte das limitações que as atrizes da época, confinadas aos estereótipos unidimensionais construídos por uma indústria machista, foram obrigadas a enfrentar. Como muitas profissionais antes dela e muitas que surgiram depois, Mary Pickford também foi vítima desse mesmo cenário que a desumanizava e sacrificava sua própria individualidade.

Essa imagem começou a se formar em 1914, com Tess of the Storm Country, mas foi firmar-se somente três anos depois, com seus papéis em Poor Little Rich Girl e Rebecca of Sunnybrook Farm. Mas Mary Pickford não poderia estar mais distante da criaturinha adorável, de longos cabelos encaracolados e olhar inocente que interpretava em seus filmes, muito embora continuasse a ser vista dessa forma; um estereótipo que jamais era capaz de contemplar todas as nuances que lhe eram devidas, e que acabavam reservadas ao seu círculo mais íntimo de contatos, numa linha tênue que separava a artista da mulher que era nos bastidores. À medida que sua carreira ganha estabilidade, no entanto, Mary se torna refém da personagem única que ajudou a criar. Ela ainda conquistava outros papéis, mas era difícil se desvencilhar da personagem de aspecto virginal que a tornara popular. Em 1920, então com 27 anos, Mary interpretou uma menina de 12 anos no filme Polyanna, numa falta de coerência que grita, para não dizer outra coisa. Mas ela não é a culpada por isso e essa não é a consequência de uma suposta incompetência em seu trabalho como atriz, pelo contrário. A limitação a um arquétipo é um problema que está diretamente ligado à representação falha da mulher no cinema (e na televisão, e na literatura, etc etc), que não se preocupa em construir personagens femininas que sejam verossímeis, contraditórias e humanas até dizer chega, mas lhes nega todas essas coisas de forma contínua.

No livro, Besinger nos lembra que a mulher pequena – ela tinha apenas 1.54m de altura – e de aparente fragilidade era, na realidade, uma figura corajosa e extremamente inteligente, que possuía uma firmeza que, curiosamente, sua imagem perpetuada na tela não era capaz de evocar. Contudo, ao mesmo tempo, suas personagens quase sempre eram jovens heroínas batalhadoras e essa era uma característica que ela lhes emprestava de forma genuína, numa via de mão dupla. Muito antes de se tornar uma grande estrela do cinema – numa época em que ninguém sabia muito bem o que isso significava – Mary já tinha plena consciência do que queria e sabia exatamente o que fazer para chegar lá. Sua mãe fora sua mentora, uma espécie de guia que a orientava e ajudava a crescer de forma profissional, mas tornar-se de fato uma grande estrela do cinema era algo que apenas ela própria poderia alcançar. Foi assim que, ainda muito jovem, Mary Pickford bateu na porta do diretor de teatro, produtor e dramaturgo David Belasco, não porque queria ser atriz – isso, afinal de contas, ela já era –, mas porque queria ser uma boa atriz. Essa diferença, sutil aos olhos e ouvidos de muitos, não passou despercebida para Belasco, que enxergou na jovem até então desconhecida – mas nem tão desconhecida assim – potencial suficiente para lhe dar uma chance. É com essa mesma determinação que, mais tarde, Mary enfia o pé na porta de D. W. Griffith, nos estúdios da Biograph, dando início a sua carreira no cinema.

A parceria entre Pickford e Griffith tornou-se uma das mais famosas na história do cinema norte-americano. Ao lado de Charles Chaplin e Douglas Fairbanks – marido de Pickford à época –, ambos criaram a United Artists, uma companhia cinematográfica independente e ambiciosa que tornou-se referência na distribuição de filmes e consagrou inúmeros diretores, incluindo nomes como Walt Disney. Ali, Mary teve a chance de crescer à altura do próprio potencial, de produzir filmes exatamente como queria e ganhar muito dinheiro com eles. Ela continuou à frente da companhia por muitos anos, até que na década de 50, ela e Chaplin, os únicos sócios sobreviventes da parceria, decidiram vendê-la ao advogado Arthur Krim, que já trabalhava no ramo. Entretanto, muito antes disso, quando Griffith ainda estava vivo, a parceria entre os dois logo começou a azedar, quando ficou claro que Mary não era uma mulher submissa, sendo transformada imediatamente num incômodo. Diferente do arquétipo que lhe fez famosa no cinema, Mary Pickford era uma mulher de complexidade fascinante, que acreditava não apenas no seu potencial, mas na força do seu trabalho como única forma possível de sobrevivência. Era uma mulher que, desde muito cedo, aprendeu a lutar pela própria sobrevivência de forma voraz, mas que também era ambiciosa e que desejava não apenas sobreviver, mas viver inteiramente (e intensamente!) a sua arte.

Nos bastidores, essa complexidade latente e o passado conturbado logo a transformaram numa Mulher Difícil™, o apelido nada gentil que a sociedade dispensa às mulheres que ousam reivindicar o direito de serem… humanas. Na tela, Mary vendia essa imagem de aparente perfeição, a mocinha virginal projetada em muitas de nós até hoje; mas longe delas, ela ainda era uma mulher de carne e osso, imperfeita e inteiramente humana, algo que raramente lhe era permitido ser. Assim, Mary criou a própria produtora, a The Mary Pickford Company – um plano maduro e ousado, para uma mulher igualmente madura e ousada. Embora não tivesse abandonado a United Artists, fundar a própria produtora lhe deu a chance de trabalhar por conta própria, conforme suas próprias regras, e estrelar os próprios trabalhos. Ela não precisava mais aceitar papéis que não queria, não precisava se submeter às vontades insanas de homens sedentos por poder que, com um charuto na mão, acreditavam poder lhe dar ordens sobre algo que nem entendiam direito; muito menos trabalhar com gente que não desejava just because. De repente, Mary possuía plena autonomia e liberdade criativa sobre os projetos que ela mesma escolhia a dedo, emplacando uma série de sucessos consecutivos – entre eles, M’liss, que foi roteirizado por sua amiga, Frances Marion.

Essa rotina entre produção, atuação e pós-produção continuou por muitos anos e, não por acaso, coincide com o período de atividade mais intensa da artista. Mary atuava em diversas frentes, sempre atenta a todos os detalhes, que nunca lhe passavam despercebidos. Suas produções se tornaram grandes sucessos de bilheteria, superando, inclusive, muitos filmes produzidos e estrelados por Chaplin; que é, ironicamente, quem se tornou o grande nome do cinema mudo. Essa fase durou mais ou menos até o advento do cinema sonoro, quando Pickford rompeu de vez com a imagem que vinha construindo desde o início de sua carreira em Hollywood – uma ruptura que não foi recebida com entusiasmo pelo público. Ela fez novos filmes, cortou o cabelo, recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo seu papel em Coquette, e subverteu brilhantemente a imagem frágil e de feminilidade irreal e romântica imortalizada diante das câmeras; mas foi brutalmente julgada em cada um desses momentos. Tanto o público quanto a mídia – que eram as pessoas que julgavam suas escolhas, perpetuando discursos nocivos da sociedade – queriam de volta a antiga heroína que ela fora por anos. Mary fora amada e idolatrada, mas à medida que buscava caminhos diferentes, via todos esse amor e devoção ruir como um castelo de cartas.

A trajetória de Mary Pickford à frente das câmeras se aproximava do fim: após uma sucessão de filmes que se tornaram fracassos de bilheteria – entre eles o próprio Coquette, que lhe rendera o Oscar anteriormente –, em 1933, ela abandonou oficialmente a carreira de atriz para dedicar-se somente à produção, mas o afastamento das telas e do esquadrinhamento da mídia terminou por se tornar um período conturbado, marcado por grandes rupturas em sua vida pessoal, o alcoolismo e a perda de entes queridos. Seus dois irmãos, Lottie e Jack, faleceram nesse meio tempo, somando-se à morte da mãe, que falecera poucos anos antes, enquanto seu segundo casamento chegava ao fim, trazendo à tona escândalos que até o momento haviam estado fora dos holofotes. Todos esses acontecimentos e perdas transformaram Mary numa mulher deprimida, que logo rendeu-se à bebida – um problema que dividia com outros membros de sua família e que levou seu pai à morte quando Mary tinha apenas seis anos –, porque ali ela encontrava o conforto que lhe era negado em tempo integral. Houve, ainda, uma tentativa frustrada de retornar às telas, em 1947, quando fez teste para um papel em Life With Father; mas o papel foi dado à Irenne Dunne, tornando a aposentadoria de Pickford definitiva.

Em 1953, a atriz publicou seu livro de memórias, intitulado Sunshine and Shadow, numa época em que já não aparecia mais em público e vivia reclusa em sua residência ao lado do terceiro marido, o ator Charles Rogers. Sua última aparição pública aconteceu em 1976, três anos antes da sua morte, durante a cerimônia do Oscar daquele ano, onde a artista recebeu um prêmio honorário pelo conjunto de sua obra e sua contribuição para o cinema norte-americano.

E não há dúvida de que foram muitas. Além de todos os filmes nos quais atuou, Mary produziu mais de 30 títulos em toda sua carreira, arriscou-se em outras frentes em tantos mais, e foi uma das fundadoras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas ela também foi uma figura fundamental ao conquistar direitos que, até então, eram negados à artistas mulheres. Atenta ao feminismo que ganhou força na década de 20, Mary foi uma entusiasta do direito das mulheres ao voto, e em Hollywood, abriu espaço para muitas outras profissionais que vieram depois dela, que tiveram oportunidades inéditas até então. Como atriz, ela tornou-se a primeira profissional à época a ter o nome divulgado antes mesmo do título dos filmes dos quais participava e a receber uma porcentagem dos lucros de cada um de seus trabalhos. Desde o início, Mary Pickford foi uma mulher que acreditou no próprio trabalho, que não se deixou ser silenciada por uma indústria essencialmente machista e cruel, e que nunca teve vergonha de assumir que sua carreira nunca foi obra do acaso, mas a consequência de um planejamento honesto, às vezes doloroso, mas que sempre serviu aos propósitos de uma só pessoa, a quem se manteve fiel até o fim: ela mesma; a única e eterna Mary Pickford.

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2 Comentários

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    Suellen
    4 de Maio de 2017 at 16:37

    Adorei o texto! Eu amo cinema mudo e sofro com a dificuldade de encontrar material que não seja Charles Chaplin. Seria legal ver outros textos seus sobre as estrelas do cinema mudo e sua relevância para a cultura. Clara Bow, Lilian Gish, Theda Bara e outras. Um beijo e parabéns pelo post!

    • Responda
      Ana Luiza
      7 de Maio de 2017 at 01:01

      Oi, Suellen! Fiquei muito feliz com o seu comentário! De fato, o material disponível sobre essas mulheres é bastante escasso – algo que fica bem óbvio quando a gente pensa no quanto a indústria cinematográfica é um ambiente sexista e misógino -, mas pode deixar que providenciaremos mais textos como esse, em especial sobre outras estrelas do cinema mudo. O mundo definitivamente precisa conhecer mais sobre essas mulheres.

      Beijo, beijo e muito obrigada pelo carinho. <3

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