LITERATURA

Martha Gellhorn: muito mais do que a mulher do Hemingway

Muito antes da Svetlana Aleksiévitch nos contar os horrores da guerra em seu livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, existiu uma mulher que abriu o caminho para que isso fosse possível: Martha Gellhorn, a correspondente de guerra que cobriu basicamente todos os conflitos do século XX – e sobre a qual a maior parte de nós nunca ouviu falar.

“Por que nunca ouvimos falar de mulheres correspondentes de guerra?” – foi o que me perguntei assim que entrei para o Jornalismo. Estudamos as reportagens dos grandes homens que cobriram conflitos, que se arriscaram para informar a população. Admiramos os seus feitos, falamos sobre eles e, tenho pra mim, seriam erguidas estátuas pra eles se as faculdades de comunicação tivessem recursos suficientes. Mas nunca falamos das mulheres que também arriscaram suas vidas – e, inclusive, muito mais do que os homens, por conta de toda a questão de gênero e completa falta de respeito ao corpo feminino, que ainda hoje é tido como propriedade pública – e nos contaram as histórias do mundo.

Quando o Stieg Larsson falou sobre mulheres guerreiras (na sua trilogia Millennium), fiquei querendo saber mais sobre, só que me deparei com uma internet cheia de links que não me diziam nada, que não me contavam quem eram essas mulheres. Isso porque os registros históricos da participação feminina nos conflitos armados foi esquecido, destruído, deixado de lado sob as poeiras do tempo – afinal, não é interessante, numa sociedade patriarcal, permitir que as mulheres lembrem que já guerrearam tanto quanto os homens, que não são frágeis seres de porcelana que quebram ao vento mais suave e que podem guerrear novamente, se quiserem.

Martha não era uma guerreira, mas sim uma pacifista: ela acreditava tanto no poder da paz e da solidariedade que se meteu num vagão pra Espanha no intuito de ajudar as vítimas da terrível Guerra Civil Espanhola. Como não sabia mais o que fazer para ajudar, porque os horrores da violência eram demais e faltavam recursos, ela decidiu fazer a única coisa que sabia: escrever e denunciar a guerra.

A grande diferença entre Martha e outros correspondentes é que ela não fazia aquilo para ganhar seu sustento. Idealista que era, realmente pensava que o jornalismo era a forma mais sensata de fazer com que todos parassem com aquela insanidade, denunciando o que acontecia dentro de um conflito, mas ela não fazia isso falando com grandes generais, comandantes e pessoas do governo que autorizavam aquelas atrocidades. Não; o que ela fez foi caminhar pelas ruas de cidades destruídas, viver entre povos devastados por obuses, estilhaços e ferimentos irreparáveis no corpo e na alma. Ela conversava com essas pessoas e escrevia suas crônicas, as enviando para revistas e jornais dos Estados Unidos, mostrando a dor através da descrição de um hospital de crianças morrendo de fome, órfãs, ou descrevendo um diálogo com uma mulher simples que tentava, bravamente, continuar a sua vida, apesar dos pesares e de saber que qualquer instante podia ser o seu último.

Não era comum em sua época existir uma correspondente mulher (e, infelizmente, isso ainda é raridade), porém, ela se destacou indo contra a obrigatoriedade da escrita objetiva dos jornalistas em geral. Sua escrita não informava apenas acerca de estatísticas de guerra, nomes de generais, operações ou alvos, mas sim sobre as pessoas que realmente eram afetadas pelos conflitos presentes nos diversos países onde ela esteve. Seu objetivo não era ser uma jornalista de hard news, mas sim fazer com que todos vissem o que ela via, sentissem o que ela sentia ao ver crianças morrendo numa guerra que não era delas, mães aguardando eternamente por filhos que já poderiam estar mortos e velhos tendo de assumir funções de supridor de necessidades de uma casa que não mais existia, já que os homens adultos e jovens estavam todos servindo a governos que nada tinham a ver com eles, exceto a nacionalidade.

No primeiro dia de aula, tivemos uma palestra. Foi aquela coisa clichê de falar sobre o curso, nos apavorar dizendo que agora teremos responsabilidades jornalísticas e que devemos cuidar tudo o que postamos nas redes sociais porque um dia pode ser que sejamos pessoas importantes no jornalismo e alguém pode revirar nossos podres e usá-los contra nós. Achei coerente o aviso e relaxei, já imaginando bons momentos nesse curso. Foi quando o palestrante perguntou pra algumas pessoas por que elas haviam escolhido cursar Jornalismo. Eu fui uma das indagadas e respondi que entrei no Jornalismo porque desde criança quero ser correspondente de guerra e contar as histórias das pessoas que sofrem. Esperava uma reação com um simples “ok” ou até mesmo um “que legal, tu conhece tal correspondente x…?”. Mas o que recebi foram risadas, tanto do palestrante quanto de vários colegas que estavam na plateia. Fiquei encarando aquelas pessoas até que uma delas disse: “Bem, tu é muito menininha pra cobrir uma guerra. Tem que deixar o vestido de lado primeiro”.

Fiquei, obviamente, bem irritada, mas então passei a entender que eu teria de me esforçar muito mais do que meus outros colegas se algum dia quisesse chegar lá. Como nasci mulher, como uso batom, vestidos rodados e tenho cabelo comprido, como me encaixo no estereótipo de mulher delicada, não sou vista como capaz de fazer o “trabalho de um homem” e me meter nas trincheiras.

Não sei se Martha passou por esse tipo específico de preconceito machista, mas desconfio fortemente que sim. Porém, o que sei com certeza é que ela não foi – e ainda não é! – levada a sério. Isso é evidente quando nos deparamos com o fato de que basicamente apenas a mencionam como a ex-mulher de Ernest Hemingway, considerado o grande repórter de guerra do século XX, a própria encarnação do mito da coragem de um correspondente. Encarnação tão perfeita que, muitas vezes, ficava dentro do avião enquanto Martha saía e se misturava ao povo, aos soldados, aos destroços.

Seu relacionamento com Hemingway durou quase uma década e foi bem conturbado justamente por essas questões; dela sempre ter de se autoafirmar e de fazer o dobro para ter o mínimo de reconhecimento. Tanto que, assim que o casamento terminou, ela proibiu que as pessoas a relacionassem com ele, dizendo que “não serei apenas uma nota de rodapé na biografia de outra pessoa”. Infelizmente, ela não foi atendida, porque vivemos em uma sociedade machista que trata a mulher como um apêndice do homem e, por mais que ela conquiste meio mundo, ainda a trata como a sombra de seu companheiro ou a acusa de apenas conseguir sucesso por associação a ele.

A injustiça nisso é tamanha que Martha nunca ganhou – ou mesmo foi indicada – ao Nobel de Literatura, mas seu ex, sim, sendo que os relatos de guerra de Hemingway foram basicamente feitos nos mesmos lugares que os dela e com qualidade questionável, se considerarmos o fato de que o que ele fazia era extremamente superficial perto das crônicas literárias dela. Mas só pudemos ter uma mulher relatando guerras levando um prêmio Nobel pra casa ano retrasado – e mesmo assim com muitas críticas que diziam que Svetlana não merecia o prêmio, pois apenas contou coisas que ouviu, nada mais. No entanto, o prêmio de Hemingway, que fez a mesmíssima coisa, com a diferença de que misturou, também, um pouco de ficção à realidade, nunca foi contestado e as pessoas o têm como uma grande referência literária. Talvez se Martha vivesse hoje também poderia estar ao lado de Svetlana, compartilhando um momento de reconhecimento da mulher como escritora, correspondente e agente denunciador dos terrores da crueldade dos conflitos bélicos. 

É também uma injustiça relacionarmos, quase automaticamente, jornalismo literário ao nome de Truman Capote sendo que já existia jornalismo literário antes de Capote e antes mesmo do termo jornalismo literário ser cunhado entre os profissionais da informação. E foi uma mulher que o fazia, desde que Capote era criança e nem sabia que um dia escreveria o clássico livro-reportagem A Sangue Frio, que basicamente todo estudante de Jornalismo tem de ler algum dia. Talvez se não nos concentrássemos tanto em narrativas como as de Capote e Hemingway e lêssemos as crônicas de Martha, teríamos jornalistas com mais empatia, com um olhar afinado ao sofrimento do outro, que não tivessem como prioridade a conta bancária ou cumprir as regras jornalísticas do lead, mas que realmente contassem histórias e denunciassem violências.

Apesar da falta de reconhecimento, do machismo opressor presente em peso nos conflitos e de todos os percalços que é ser uma mulher no meio de uma guerra, Martha continuou a escrever até seus 87 anos, quando morreu, em 1998 – se preparando para fazer uma viagem às nossas terras brasileiras para falar da guerra nossa de cada dia, que daria continuidade à reportagem que ela havia feito, dois anos antes, sobre massacres dos meninos de rua.

Antes de morrer, Martha reuniu suas crônicas no livro A Face da Guerra, que não é apenas um registro de todos os conflitos que ela cobriu durante décadas – desde a Guerra Civil Espanhola, passando pela Segunda Guerra Mundial e chegando à América Latina –, mas também um manifesto pela paz e pela conscientização de que somos cidadãos e devemos estar informados a respeito do nosso país e do que ocorre no mundo, caso contrário os governos continuarão a fazer o que quiserem conosco. “Como cidadãos, acho que temos todos um dever exaustivo de saber o que nossos governos estão fazendo, e é covardia ou preguiça perguntar: o que posso fazer a respeito disso afinal? Cada pio ajuda, mesmo que seja só pelo seu respeito próprio.” Tomara que um dia a gente lhe ouça, Martha, e acabemos de vez com o silêncio.

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2 Comentários

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    Divana
    10 de julho de 2017 at 07:50

    Meu Deus! Eu amo o blog de vocês.
    Ele é um achado. Tudo o que tem aqui é interessante e escrito de forma maravilhosa. Fácil de entender, completo e que leva a uma reflexão.
    Parabéns!

  • Responda
    Letícia Pinto Cardoso
    22 de novembro de 2017 at 14:44

    Eu, na minha ingenuidade, achava que ela era super reconhecida, tô triste porque não é, e porque seu pedido não foi aceito. Vou comprar o livro dela e ir atrás de tudo o que ela escreveu.
    Obrigada, mana, por este texto que é quase uma epifania.
    <3

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