MÚSICA

Marina and the Diamonds: uma trajetória de power & control

No mundo musical, estamos testemunhando uma nova geração de artistas em ascensão. Novos grupos e artistas solo surgiram para embalar nossos humores com suas canções em diversos gêneros, e nessa longa lista tem um nome que merece destaque: Marina Diamandis, popularmente conhecida pelo seu nome artístico Marina and the Diamonds.

Talvez você a conheça, talvez você já tenha ouvido falar dela e ouvido alguma de suas músicas, talvez você não tenha a mínima ideia de quem se trata. Seja qual for o seu caso, acho importante apresentá-la apropriadamente. E me refiro até mesmo aos mais céticos. O meu começo com Marina, por exemplo, não foi dos melhores, mas assim que dei uma chance ao seu trabalho foi um caminho sem volta, e poucos artistas dessa nova leva me impressionam como ela a cada lançamento. Com sua voz singular, sua personalidade forte e as composições autorais repletas de críticas, Marina construiu sua identidade na indústria com muito esforço, mas com muita vontade também.

Marina Lambrini Diamandis tem as raízes no País de Gales e ascendência grega por parte de pai. Foi na adolescência que ela descobriu que queria se tornar musicista. Seu professor de música na Haberdashers’ Monmouth School for Girls a convenceu que ela poderia fazer o que quisesse, e ela levou isso a sério (muito para a nossa satisfação). Aos 16 anos ela foi morar na Grécia com o pai para se conectar com suas origens, e quando retornou, aos 18, trabalhou num posto de gasolina para ganhar dinheiro e continuar estudando música. Seu aprendizado formal nas universidades londrinas que frequentou não foi adiante, no entanto, Marina estava cada vez mais obcecada pelo objetivo de se tornar uma cantora. Ela tentou seguir os mesmos passos das Spice Girls e se apresentou em rádios atrás da oportunidade de ser descoberta e participou de inúmeras outras audições nesse meio tempo.

Em 2007, finalmente, ela decidiu produzir seu primeiro extended play, “Mermaid vs. Sailors”, de forma independente e o compartilhou no MySpace. Marina tentou negociações com mais de dez gravadoras, até decidir fechar com a Neon Gold Records, por acreditar que esta não tentaria ditar sua imagem. Dois anos depois, ela lançou seu single de estreia “Obsessions”, seguido do segundo EP, “The Crown Jewels”, que seria o predecessor e introdutor do seu primeiro álbum completo de estúdio. Até esse ponto, percebemos que a carreira da Marina foi premeditada por ela mesma, seu caminho foi construído com esforço e independe de ter crescido em um ambiente musical. Ela pertence àquele grupo de artistas com começos árduos que viram na música sua vocação e o meio de deixar sua marca.

I know exactly what I want and who I want to be

Depois de Marina ter finalmente encontrado um começo para sua carreira, o álbum The Family Jewels foi lançado em fevereiro de 2010. As músicas “Obsessions” e “Mowgli’s Road” foram os singles de estreia da cantora, mas a última não foi considerada comercial devido a seu conteúdo. O terceiro single, que alcançou a melhor posição (12ª) na UK Albums Chart, foi “Hollywood”, em que Marina canta sobre o deslumbre da fama e o famigerado sonho americano: I’m obsessed with a mess that’s America, etc. Em seguida, vieram “I Am Not a Robot”, “Oh No!” – uma das minhas favoritas pessoais, que fala sobre o absoluto foco no sucesso e a sensação de ser uma fraude ao mesmo tempo – e “Shampain” para encerrar os lançamentos individuais do álbum que daria o pontapé inicial na sua carreira.

Apesar dos esforços, Marina não conseguiu conquistar uma audiência satisfatória nos Estados Unidos, o que a deixou decepcionada com a sua carreira, embora ela ainda não estivesse disposta a usar de qualquer artifício na indústria para se tornar um produto comercial. Em uma entrevista, ela descreveu The Family Jewels como um trabalho inspirado pela sedução do comercialismo, valores sociais modernos, família e sexualidade feminina, e que sua intenção era o público apreciar e consumir o conteúdo como uma história e uma teoria que encorajassem o autoquestionamento. E ela viria a cumprir seu objetivo, embora ainda não soubesse.

Welcome to the life of Electra Heart

Em abril de 2012, Marina lançou o seu segundo álbum de estúdio intitulado Electra Heart, um álbum conceitual que representaria uma personagem em quatro arquétipos femininos: SuBarbieA, Homewrecker, Teen Idle e Primadonna. Para isso, ela adotou um visual com cabelo em degradê cinza, um coraçãozinho desenhado na bochecha e roupas cor-de-rosa com recorte inspirado nos anos 60 que se encaixou muito bem com todos esses arquétipos.

Electra Heart, a personagem, chegou para dividir opiniões e expressar sua personalidade fria, impiedosa e, por que não, poderosa. O single “Homewrecker”, o primeiro o qual tive contato, me foi chocante no início justamente por isso – sem prestar atenção, não entendi porque aquela mulher cantava intensamente sobre ser uma destruidora de lares, até que finalmente percebi que a música – e todo o álbum – se tratava de uma forte crítica à imagem da mulher na sociedade. Algumas músicas falam sobre relacionamentos e domínio, outras exploram sentimentos intensos, que oscilam entre a obscuridade e a inocência.

Os singles de divulgação de Electra Heart foram “Primadonna”, “Power and Control” e “How to be a Heartbreaker”, e todas as três são eficazes para afirmar o nosso empoderamento e controle, mas é “Sex Yeah” que dá o grito de forma mais direta:

If history could set you free
From who you were supposed to be
If sex in our society
Didn’t tell a girl who she would be
‘Cuz all my life I’ve tried to find what
History has given me

O álbum teve uma boa recepção internacional no geral, alcançando a 31ª posição na Billboard. Eis o começo da real ascensão de Marina no mundo e no meu critério.

Livin’ la dolce vita, life couldn’t get much sweeter

Dois mil e quinze trouxe junto com ele o terceiro e mais recente álbum de estúdio de Marina chamado FROOT assim como o single carro-chefe. Essa é considerada a fase mais frutífera (perdão pelo trocadilho) da sua carreira em termos de alcance: o álbum alcançou a oitava posição na Billboard na ocasião do seu lançamento. Para esse álbum, Marina reduziu a crítica social para se concentrar mais nos sentimentos expressados pela sua música. FROOT assume um tom melancólico sendo o álbum que volta a abrir espaço para a vulnerabilidade que não coube dentro do conceito do seu predecessor, e em questão de gênero, ele se reaproxima do indie pop de The Family Jewels, mas com um toque de synthpop.

A carga sentimental de algumas músicas do álbum revelam, no entanto, ideias paradoxais. Por mais que Marina cante sobre relacionamentos em “I’m a ruin”, “Blue” e “Gold” e demonstre estar vulnerável na maior parte dos versos, no fim a mensagem das músicas é a mesma: a prioridade é sua liberdade e ela está certa quanto a isso. Então, quando ela canta “I played with your heart and I could treat you better but I’m not that smart” na primeira música mencionada, a imagem de ser uma ruína é totalmente enganosa – como deveria ser, afinal, quem pode ser considerar uma ruína por se colocar em primeiro lugar?

Além disso, há “Happy”. O segundo single oficial da campanha de divulgação do álbum é algo diferente do que Marina havia lançado até então, pois a música dialoga sobre um estado emocional muito mais profundo: o depressivo. O tom melodioso acompanha uma mensagem positiva que acompanha a imagem de fé, possibilidades e recuperação. Por meio da música, podemos encontrar identificação e apartar sentimentos indescritíveis e, tomem a palavra de alguém que já foi salva por ela, essa canção consegue tocar lá no fundo.

Por último, para não deixar um exemplo da crítica inerente ao trabalho da Marina no novo álbum, muita ironia reside nas entrelinhas de “Can’t Pin Me Down”Do you really want me to write a feminist anthem? I’m happy cooking dinner in the kitchen for my husband – e “Savages”, afinal, debaixo de tudo, nós somos selvagens, apenas em aspectos diferentes.

A Neon Nature Tour teve um de seus últimos shows no Brasil, no Lollapalooza 2016, e na entrevista que Marina concedeu ao site Papel Pop, ela disse que não pretendia compor um próximo álbum tão cedo por estar cansada da indústria, mas que, eventualmente, surgiria com alguma novidade. Em todos os passos de sua carreira, é inegável o quanto ela tenta ser honesta com os fãs e a isso se deve a fidelidade e a idolatria a ela.

Dentro de uma indústria em que muitos artistas se sujeitam a ser marionetes de suas gravadoras para conseguir se manter, a prioridade de Marina é manter a integridade daquilo que acredita e a autonomia para definir sua música e sua imagem. O que, convenhamos, não é a saída mais fácil, porém é a saída digna que uma mulher optou para nos representar na música pop.

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3 Comentários

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    Vic
    18 de novembro de 2016 at 09:02

    Amei!

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    Ana Julia
    21 de novembro de 2016 at 23:16

    Eu amo essa mulher 💙💙💙
    Análise interessante, me fez refletir sobre minhas impressões sobre os albuns tbm.

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    Tatiana Leite
    26 de novembro de 2016 at 23:01

    Electra Heart fala comigo em tantos sentidos que eu não consigo nem me expressar – a não ser reafirmar a verdade mais verdadeira sobre essa mulher: MARINA RAINHA, RESTO NADINHA!
    Gostei muito dessa análise mais detalhada porque me fez pensar muito mesmo nos cds dela e, realmente, acho que tudo o que você falou se encaixa mesmo como uma luva!

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