CINEMA

Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil

Marina Abramovic é mundialmente conhecida pelas suas performances. Chamada de “a avó da performance”, hoje possui um instituto criado para desenvolver técnicas performáticas, o MAI (Marina Abramovic Institute). Presente no Brasil ano passado, Abramovic trouxe uma grande exposição retrospectiva de seu trabalho para Sesc Pompéia, em São Paulo. Dentro da exposição, os visitantes podiam conhecer e experienciar o Método Abramovic, o principal legado da artista.

O filme acompanha Marina por uma jornada espiritual, na qual a artista percorreu milhares de quilômetros e diversos cantos brasileiros. É curioso observar que, apesar de ser bastante conhecida nos grandes centros urbanos, Abramovic se passa por incógnita percorrendo o interior do Brasil. Sem o peso de “celebridade”, Marina não recebe tratamento especial e as câmeras pouco intervém na autenticidade de suas experiências. Sem uma direção única, vemos a artista na clínica de João de Deus, médium especialista em tratamentos espirituais e cirurgias, tanto espirituais como físicas (e sem anestesia!); visitando Dona Filhinha, uma senhora já centenária, sensitiva e especialista em ervas medicinais, e participando de rituais xamânicos em Curitiba (que, curiosamente, eram liderados por um homem e uma mulher brancos).

Marina Abramovic é intimidadora; em muitos momentos a artista parece estar sempre numa performance, mesmo se apenas observa uma cerimônia, se está meditando próxima a natureza, ou se está escolhendo cristais. Contudo, o filme mostra outra facetada artista: a frágil e vulnerável. Abramovic conta que o grande motivador de sua busca espiritual foi a dor do amor perdido. Em lágrimas, ela lembra de seus grandes amores e o quanto sofreu com cada um deles, e que procura uma conclusão para deixar de sofrer. Marina consegue transformar algo tão banal quanto sofrer de amor (todo mundo já sofreu por amor) em algo muito maior, em performance, em arte.

A artista sente. Mas sente com os olhos voltados para o próprio corpo. Em seu método exemplificado na exposição em São Paulo, havia etapas como percorrer um pequeno espaço o mais lento possível, ou sentar por trinta minutos numa cadeira com cristais. Ao se desligar dos aparelhos eletrônicos, das outras pessoas, fechar os olhos, prestar atenção à respiração, o corpo diminui seu ritmo e ficamos mais atentos em nós mesmos, nos barulhos que o corpo produz, como nos movemos, o que e como sentimos. Ao colocar sua dor sentimental em seu trabalho, Marina Abramovic não rebaixa sua obra ao banal, mas sim eleva a dor ao comum, ordinária, aquela que todos sentem, a objeto artístico. O sentir é o que importa.

A performance de Abramovic pode parecer ter como objetivo a reação externa, de quem assiste, mas é o inverso; a performance começa no interior do performer e na sua relação com o próprio corpo. Por isso, por estar sofrendo, a artista busca a cura para voltar a ter controle sob seu corpo.

Os momentos de descontração talvez sejam os mais interessantes, neles vemos uma Marina Abramovic relaxada, entre amigos, e até fazendo piada. A sala de cinema se rendeu às risadas quando, cheia de auto ironia, a artista exemplifica o seu Método comendo alho e cebola crus para combater possíveis intoxicações alimentares.

Marina Abramovic é mulher. E por ser também artista performática, ela possui controle e conhecimento total sob seu próprio corpo e sua imagem, pois são eles seus objetos de trabalho. Mesmo não se identificando como feminista nem discutindo questões de gênero, o fato da artista ser mundialmente conhecida e ter um instituto e um método batizados com seu nome é bastante significativo (e um pouco megalomaníaco). Ao colocar sua dor pessoal como principal motivação artística, Marina ensina que os sentimentos de uma mulher com dor não são banalidades, e mais ainda: são objetos artísticos.

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1 Comentário

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    Cláudio Barros
    26 de agosto de 2016 at 11:18

    Maravilhoso obtexto sobra Marina Abramovichi, é pluridimensional, traz a experiência com a obra da artista para a informação fácil é entender,mas não banaliza,. Adoro sua forma de escrever, Julia

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