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Lorelai Gilmore: o centro de Gilmore Girls

Sempre que preciso escolher um personagem favorito em Gilmore Girls, não demoro a responder que tenho vários, mas, se for para escolher apenas um, fico com Lorelai Gilmore (Lauren Graham). A minha própria personalidade é mais parecida com a da Rory (com um misto de Lane e Paris) e por isso, para as qualidades que me faltam, eu me inspiro observando Lorelai, seja no caminho à independência, no jeito de manter as amizades e de mediar os conflitos familiares, e nas técnicas infalíveis de flerte – que ainda estou longe de dominar, a propósito. A base de Gilmore Girls é o relacionamento entre mãe e filha com uma dinâmica de amizade, logo, fica claro que o centro da trama são as garotas Gilmore. No entanto, tudo que cerca e influencia a Rory (Alexis Bledel) veio de ou foi provido por Lorelai, então podemos dizer que, sim, ela é o centro de Gilmore Girls.

Ao longo dos seis anos desde que me tornei fã da série, li muitos textos, análises, teorias e listas sobre ela. As mais aprofundadas diziam respeito à dinâmica familiar das duas, ou das três Gilmore (incluindo Emily na geração), ou se limitavam muito mais à Rory, devido à proximidade da idade da personagem com a maior parte do público e a identificação com o desenvolvimento dela, que passa da trajetória escolar e acadêmica até os relacionamentos – principalmente os relacionamentos. Contudo, análises sobre Lorelai não são feitas com a mesma frequência e a mesma profundidade. Algo que é bastante curioso, considerando que ela é a principal influência da filha e sua vida tem tanto material de análise quanto.

Na primeira vez que assisti Gilmore Girls, me encantei pelo jeito da Lorelai logo de cara. Ela era dinâmica, engraçada de um jeito inteligente, e independente. A relação que ela tinha com a própria filha era admirável. Um tratamento na maioria das vezes democrático e aberto a diálogos, ao contrário da relação que ela tinha com a própria mãe, Emily (Kelly Bishop), que por sua vez, criada sob os moldes conservadores, queria o melhor para a própria filha à base de ditar regras e fazer escolhas por ela. Passei muito tempo condenando o modo de ser de Emily e admirando o de Lorelai. Contudo, o tempo sabe trabalhar muito bem no amadurecimento das perspectivas, e na última vez que assisti à série, percebi com clareza onde residiam todos os erros de Lorelai, que também compõem uma parte importante da sua essência.

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Part I – As long as everything is exactly the way I want it, I’m totally flexible

Por mais que seja maravilhoso o quanto Lorelai e Rory são incrivelmente ligadas, a relação de mãe e filha como melhores amigas interfere muito no olhar que Lorelai tem sobre Rory na hora de ajudá-la a enxergar a realidade como ela é. Ou seja, ela superprotege ou enaltece a Rory em situações que deveriam ser enfrentadas pela própria menina para fazê-la aprender o quanto antes que por mais que você seja esforçada, tenha as melhores intenções e seja muito bem vista por outras pessoas, existem inúmeras pessoas na face da Terra com as mesmas qualidades e isso não é uma garantia de que você vai conseguir o que almeja. Assim como na ocasião em que a Rory perdeu a prova por ter se atrasado, o argumento que Lorelai usou para defender a filha foi criticar os padrões de Chilton, e dizer que ela era “uma ótima menina” e que não deveria ter sido privada de fazer uma prova que ela “se preparou muito, estava pronta para fazer e merecia fazer”. Ao que o diretor Charleston (Dakin Matthews) dá a resposta mais realista sobre as regras da escola, e o problema teria ficado pendente se não fosse Max Medina (Scott Cohen) atuando como o cavaleiro da armadura prateada e propondo um trabalho para repor a nota. A falta de preparação de Rory quanto às críticas fez uma grande diferença na sua formação vide o final da quinta temporada. Uma opinião contrária sobre seu desempenho no estágio colocou a sua formação acadêmica em xeque. E só então Lorelai foi capaz de deixar Rory resolver a sua vida. Ainda que tivesse um sido um período deveras difícil para a série, foi muito necessário ela ter passado por isso.

Além disso, por motivos pessoais, Lorelai limita muito a relação que Rory tem com os seus avós enquanto pode. O que é notável logo no começo da série, quando ela reluta em deixar Rory ir ao clube com seu avô para que ele possa ensiná-la a jogar golfe (ou pelo menos tentar), e fica contrariada ao perceber o quanto ela se dá bem com eles. Assim como ela também hesita em aceitar a decisão de Rory sobre se apresentar à sociedade para agradar à avó. Certas vezes, ela se prende tanto ao ressentimento passado que fecha todas as portas que possibilitariam um melhor relacionamento entre eles. Está certo que Emily e Richard muitas vezes passam dos limites, no entanto, alguns conflitos poderiam ter sido mais bem resolvidos se o primeiro impulso dela não fosse partir para uma discussão direta. Alguns podem até continuar dando razão a Lorelai quanto aos pais, mas outra situação deixa evidente que ela exagera em suas reações quando o assunto é a Rory – ou, pelo menos, a Rory adolescente.

Em “Teach Me Tonight”, quando Rory se envolve em um acidente de carro com Jess (Milo Ventimiglia), Lorelai, furiosa, vai até o pronto-socorro se certificar de que a filha está bem e recebe a garantia do médico de que nenhum dano foi feito, salvo uma fratura no pulso. Pelos cinco primeiros minutos, Lorelai reagiu bem. Até Rory voltar para a sala de raio x e ela aproveitar aquele intervalo para ir até a lanchonete gritar com Luke (Scott Patterson) e responsabilizá-lo pelo acidente, já que ele havia aceitado acolher o Jess na cidade (!), e se não fosse por isso, nada teria acontecido. Ela fez o ocorrido parecer maior do que realmente foi, e teve uma briga séria com um de seus melhores amigos – a quem ela recorre depois para desabafar, como se nada grave tivesse acontecido.

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Parte II – I’m afraid that once your heart is involved, it all comes out in moron

O tratamento que Lorelai dá aos dois grandes casos amorosos da sua vida também é um assunto muito complexo, pois cada um – Christopher e Luke – faz parte de um dos dois mundos diferentes pelos quais ela transita. Christopher (David Sutcliffe) e Lorelai têm um histórico que parte desde muito cedo, quando eles eram apenas dois adolescentes que se sentiam deslocados naquele universo privilegiado e cheio de regras. Eles têm uma sintonia muito grande de gostos e visão, e a prova disso é a existência da própria Rory. O problema no relacionamento dos dois, no entanto, é que eles nunca estiveram na mesma página, por mais que quisessem. A princípio o problema foi Christopher ter demorado a amadurecer, depois eventos de força maior os separaram mais uma vez, e na terceira chance que eles tiveram, pós-Luke, Lorelai já não era mais a mesma e embora ela tenha demorado a reconhecer, ficou claro que Christopher nunca foi mais do que uma incrível companhia e uma maravilhosa possibilidade.

Por outro lado, o desenvolvimento de Lorelai e Luke como casal existe com tamanha força na série, porque a história deles começou a partir de uma faísca. Algo que estava ali no ar, mas nunca saía do imaginário pela falta de atitude de ambos. Luke é a figura de porto seguro para vários personagens da série, não apenas para Lorelai Gilmore. Tem a Liz (Kathleen Wilhoite), sua irmã; Jess, seu sobrinho; e até Kirk (Sean Gunn), que na dúvida de como proceder na vida, recorre a Luke para pedir conselhos. Ele aprendeu a se virar desde muito cedo, quando sua mãe falecera e ele passou a trabalhar com o seu pai. Então, um dos fatores que também pode ter contribuído para que ele e Lorelai custassem a ficar juntos é o próprio amadurecimento que ela precisaria passar para ficar à altura dele nesse sentido – e a reforma e inauguração da própria pousada foi a experiência de que ela precisava. Luke, em contrapartida, precisava se autoconhecer a fim de entender como tratar seus próprios sentimentos e tomar atitudes de acordo. Essa união feita no paraíso só desandou quando os dois começaram a andar em caminhos opostos novamente por problemas de comunicação. Uma vez, Luke pediu para que Lorelai não guardasse segredos dele, o que ela concordou e respeitou. Pouco tempo depois, no entanto, ele falhou com o próprio acordo que estabeleceu, não compartilhando com ela a descoberta de April (Vanessa Marano). Lorelai, por sua vez, desconfortável com aquela situação, falhou em ser sincera sobre o modo como se sentia. Os motivos dela foram compreensíveis e justificáveis até o ultimato, mas sua atitude impulsiva de ir até o Christopher imediatamente após o rompimento foi um momento crítico em que ela meteu os pés pelas mãos.

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Parte III – Oy with the poodles already

De volta à Christopher, um ponto que sempre distinguiu ambos foi como Lorelai, aos dezessete anos, resolveu tomar as rédeas da própria vida e viver de forma independente longe da casa e do mundo de seus pais. Esse é um dos grandes feitos que marcam a sua vida, assim como ter criado a filha sozinha na mesma época. E, por mais que a determinação dela também seja admirável, existe uma problemática por trás do contexto de Lorelai que contribuiu para que ela tivesse sucesso nesse âmbito da sua vida.

Se pararmos para pensar, a independência de Lorelai sempre teve uma cama elástica de segurança. Pressionada pelo controle excessivo de sua mãe, Lorelai saiu de casa com uma Rory bebê, visando não voltar mais para o casarão dos Gilmore. Entretanto, se algo tivesse dado errado em seus planos, ela teria para onde voltar, ainda que fizesse isso a contragosto. De modo algum Emily e Richard fechariam as portas para a própria filha. Talvez ela recebesse uma forte reprimenda e o controle ficasse ainda maior, mas, ainda assim, ela teria para onde recorrer – o que ela faz, inclusive, em vários pontos da série quando seus recursos são insuficientes e ela precisa de suporte financeiro para bancar a educação de Rory.

Além disso, Lorelai saiu para o mundo real preparada com uma ótima educação. Ela frequentou escolas de prestígio e teve acesso a uma grande bagagem cultural. Ainda que ela tivesse construído sua vida a partir último degrau, como empregada do Independence Inn, isso certamente ajudou na perspicácia do serviço e na promoção dela ao longo dos anos. Sua busca por independência não dependeu de uma escolha que pudesse colocar em risco sua qualidade de vida, e muito menos a de Rory, por isso a decisão impetuosa da sua versão adolescente teve mais chances de dar certo – e deu. No entanto, seu feito não merece descrédito. Se Lorelai não alimentasse o desejo de construir sua vida com base nos seus próprios ideais e não tivesse tido determinação o suficiente por causa disso, nada teria mudado e a história que conhecemos hoje não teria se colocado em movimento. Por isso, apesar de todos os erros que ela comete e das falhas humanas inerentes a ela, Lorelai ainda merece seu destaque.

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Parte IV – It takes a remarkable person to inspire all this

Definitivamente, não deve ter sido fácil para ela formar um ser humano enquanto ela mesma crescia e descobria coisas que, até então, estavam além de sua realidade. Mas, por sorte, o conjunto peculiar de figuras de Stars Hollow estava mais do que disposto a recebê-la de braços abertos e ensiná-la a dar os primeiros passos. Lorelai teve boas intenções para ela e Rory desde o início. Ela pode ter machucado algumas pessoas no caminho ou escolhido alternativas que fossem um pouco desgastantes para outras, mas quando se é humana e ainda está experimentando com a vida, quem não faz as mesmas coisas?

Mesmo que tenha vindo de um contexto privilegiado, ela ter aberto mão disso para conseguir suas próprias posses de uma maneira mais suada indica também o quanto ela é destemida além de determinada. E outra: é impossível apagarmos nossas experiências do passado. Se a vida de classe alta fez parte dela no começo, por vez ou outra isso vai refletir em seu comportamento de certa maneira. Quanto aos pormenores da vida, bem, estes podem ser resolvidos por um conjunto diferente de fatores, como o próprio instinto e a relação com outra pessoa. Ainda sendo imperfeita, Lorelai conquistou uma cidade inteira com o seu carisma e um público mundial também. Pessoas capazes de perdoá-la (ou ao menos tentar entendê-la) quando ela comete até os erros mais graves, pessoas capazes de apoiá-la em qualquer circunstância, pessoas dispostas a compartilhar uma boa dose de café e elucidar junto todos os dilemas da vida.

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