MÚSICA

Look What You Made Me Do: Taylor Swift contra o mundo

Talvez você não confie nela; tudo bem, não precisa confiar, mas você sabe que precisa reconhecer sua inteligência. Todo mundo já te disse isso, mas não deixa de ser verdade: gostando ou não, é preciso dar créditos a Taylor Swift – ela sabe jogar o jogo público como ninguém.

E isso não é novidade. Faz anos que esse discurso aparece em posts, textões e comentários internet afora, tendo sido especialmente forte na época do lançamento de seu quinto álbum 1989, lá em 2014. A sátira de “Blank Space” conquistou muitos corações, apesar de algumas pessoas não terem engolido o papo de que tudo aquilo era uma encenação irônica. Passados três anos, depois de uma quantidade exaustiva de dramas públicos, entramos em uma nova era em que Taylor Swift é odiada e perdeu completamente sua reputação de boa menina. Falsa, cobra, control freak, rainha dos boletos, vitimista – o que não falta é acusação sobre quem é a “Verdadeira Taylor”, e isso, é claro, afetaria seu trabalho; nós só ainda não sabíamos como.

Algumas coisas não mudam e o jogo midiático de Taylor Swift é uma delas. Mas no começo de sua nova era, a de Reputation, Taylor dá um passo adiante no que até então era um jogo feito puramente de imagens. Enquanto “Blank Space” se mostrava uma sátira principalmente no clipe, apesar da letra, é claro, ser parte importante da ironia, “Look What You Made Me Do” traz em sua própria sonoridade parte da sátira, não deixando espaços em branco para nada além do humor.

Produzida por Jack Antonoff, homem à frente da banda Bleachers – além de fazer parte da produção de algumas das melhores artistas atuais, como Lorde, Charli XCX e Carly Rae Jepsen –, já era de se esperar que “Look What You Made Me Do” se diferenciasse do resto da obra de Taylor mesmo antes de sabermos seu título. 1989, que marcou a mudança de sonoridade da artista, também teve uma faixa produzida por Antonoff, “Out of The Woods”. Era previsível também que Taylor seria influenciada pela sonoridade de seus amigos, como de costume; foi assim que ganhamos uma estranha realidade em que Lorde entrou para o Bleachers e uma linha do tempo em que temos uma dark! Taylor tocando nas rádios. Mas vamos esquecer um pouco o que nos fez chegar aqui e nos atentar para a música em si.

Começamos com essa musicalidade dark de vilão de filme da Disney, mas não é só isso. Existe algo esquisito no som, algo que não se encaixa no padrão de vilões ou filmes de terror. Soa estranho, errado, as coisas não batem direito ao ponto de ficar difícil até de gostar da música. A música varia entre duas únicas batidas de base – a do começo e a da ponte – que variam de uma para outra. Tentando explicar em termos não musicais, é como se tivéssemos a base A, que tem uma variação que vamos chamar de 1-2 de batida (uma batida + duas batidas rápidas), e a base de B, que tem uma batida de um 1 (uma única batida no mesmo ritmo constantemente). Essas duas bases praticamente não variam na música, o que muda é que a base A teria uma versão A+, que é a mesma base só que com mais instrumentos, enquanto a base B teria uma versão B-, que é a mesma base só que com menos instrumentos. Assim, “Look What You Made Me Do” poderia ser dividida dessa maneira:

Estrofe 1 – A
Estrofe 2 – A+
Ponte – B

Refrão – A
Estrofe 3 – A
Estrofe 4 – A+
Ponte – B
Refrão – A

Estrofe 5 – B-
Parte falada – B

Refrão – A

O que faz a música ficar tão estranha é exatamente a presença da base A praticamente na música inteira, mas com mais ou menos sonoridades que não entram de maneira harmônica. Os novos sons entram de um jeito esquisito e até desagradável sempre na segunda parte do corpo das estrofes (2 e 4), o que também acontece de certa maneira com a base B ao fim da música – quando se tira o som que pautava o ritmo, fazendo com que a própria Taylor recrie a base em suas palavras, e insira a batida apenas quando a música passa para o infame telefonema que a velha Taylor não pode mais atender (por quê? Ah… porque ela está morta).

Assim, a música trabalha com um crescente: A > A+ > B, mas quebra as expectativas ao ter o refrão, tradicionalmente o ponto de mais alto de uma música, voltando para a batida inicial. Essa quebra, além de desconfortável, cria duas imagens. A primeira é ondulatória, de subida até um ponto e queda para o ponto inicial – fazendo do movimento da música praticamente o movimento de uma cobra, que é exatamente a nova reputação da Taylor, aquilo que ela tem sido chamada desde a divulgação do áudio gravado por Kim Kardashian e Kanye West, o emoji que quase todos postam em todas as suas redes sociais. Como já sabíamos a partir dos pequenos vídeos de divulgação de Reputation, Taylor decidiu se apropriar da imagem de cobra que lhe deram, mas em vez de apenas usá-la em sua imagem, como foi o que aconteceu em “Blank Space” e sua fama de ex-namorada louca, a cantora traz isso para a base de sua nova música.

O segundo desenho que “Look What You Made Me Do” forma é de um círculo, sempre partindo e voltando ao mesmo ponto (a base A) logo no refrão. A música cria um movimento cíclico de volta eterna, que é reforçada pelo lyric video, que trabalha o refrão novamente com a imagem da cobra, mas agora comendo o próprio rabo, ou seja, formando um oroboro. Dentre as muitas simbologias dessa imagem, a mais comum é a de eterno retorno, tendo como leitura tanto a evolução que se volta a si mesma, gerando uma mudança na evolução linear, quanto a leitura de que é impossível fugir daquele movimento, tornando o movimento em um ciclo infernal.

A letra deixa bem claro que aquilo que o eu lírico (que aqui vamos interpretar como a própria Taylor) faz não é o que ela quer fazer, mas sim o que lhe obrigam. Sabendo de seu histórico, podemos assumir que Taylor tentou ir contra a imagem que fazem dela, mas não conseguiu fugir disso – mesmo em 1989, quando Swift estava finalmente conquistando o reconhecimento como uma mulher que não fala só de ex-namorados e entra em dramas, ela não conseguiu se dissociar dessa imagem, caindo ainda mais a fundo em brigas e rixas com diversos famosos –, é um ciclo infernal do qual ela não consegue sair, e isso fica claro em sua melodia.

Se é impossível sair dessa narrativa que lhe foi imposta, Taylor Swift faz o que melhor sabe fazer: se apropria dessa narrativa, a subvertendo por dentro. Se ela é uma cobra, então que sua música se movimente como uma, que sua imagem seja a de cobra e que ela abuse disso, mas sem deixar de lado aquilo em que acredita: ser essa cobra a machuca, é um inferno e nunca foi o que quis para si, mas ela não teve escolha se não aceitar essa realidade em que ela é uma vilã. Ser dark! Taylor é uma decisão ruim – o oroboro está mordendo sua própria cauda afinal de contas – porque Swift não é, ou pelo menos, não se vê dessa maneira; mas essa foi a única forma que encontrou de sobreviver na vida pública.

Taylor precisa matar sua personalidade e ressurgir como uma vilã como maneira de se manter viva, então é o que ela faz. É o que a fizeram fazer. Está na letra de sua nova música: a única ação de Taylor é morrer e renascer, todo o resto é puro papo. Taylor Swift precisou se suicidar para que pudesse continuar sua vida, e aí entra novamente a estranheza de seu novo single: Taylor não está mais viva, mas tampouco está morta. Ela é um zumbi que se levanta e, caso você não tenha percebido isso na música, não há problema: a primeira aparição de Taylor em sua nova fase é exatamente como um zumbi saindo da tumba de sua reputação.

Todos a pintam como “A Grande Vilã” do mundo pop, mas ela não se encaixa nessa caricatura – isso é um personagem de filme da Disney –, e Taylor mostra isso em sua sonoridade estranha, que não a faz completamente sinistra e do mal, em sua letra honestamente risível de clichês de vingança que não significam nada e, para se certificar que todo mundo consiga entender a piada, em seu clipe Taylor encarna todas as críticas contra si mesma, estampando o quão cômico é o discurso de seus haters.

No entanto, ainda sem conseguir sair de seu ciclo infernal, Swift repete e repete para que olhem o que foi obrigada a fazer, ao ponto de ela não acreditar mais em sua própria existência como pessoa. Taylor está presa entre quem ela é (algo que nós, que só vemos sua figura pública, nunca vamos saber) e quem dizem que ela é. A reputação que lhe dera a transformou em um ser que ela não entende direito, que ainda não é completamente vivo e nem tem ainda total força de vontade. Mas Taylor sabe muito bem que o pop, assim como a literatura, é feito de tropes e clichês; assim ela se utiliza desse imaginário em seu clipe para se reafirmar nesse mundo, trazendo para si não apenas imagens icônicas do pop – como a cena das motocicletas e a dança coreografada (algo que Swift nunca tinha feito antes) –, mas também e principalmente as imagens icônicas de si mesma – seja de seu passado, seja do mito de cobra que criaram para ela.

Então, Taylor cai no mesmo jogo de sempre, que ela não gosta, mas que não sabe como parar de jogar. O jogo ainda é a única opção que existe em sua perspectiva, então a artista o joga, mas mostrando o quão esquisito, incômodo e risível ele é. É uma jogada de mestre: tomar para si todas as cartas e redistribui-las no tabuleiro dando risada. Enquanto isso, a nova Taylor ainda fica lá atrás, em cima da asa que cortou do avião, vendo todas as versões de si gritarem uma com a outra da mesma forma que nós fazemos aqui. Só a conheceremos no dia 10 de novembro, enquanto isso temos que aceitar sua versão zumbi, ainda não totalmente viva.

E a Verdadeira Taylor? Esse é um segredo que ela nunca vai nos revelar. XOXO, pop culture girl.

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3 Comentários

  • Responda
    yasnaya
    4 de setembro de 2017 at 18:17

    Quando escutei não entendi nada, que sonoridade é essa, pra quem fez 1989?????????????
    Enfim, nem gosto da música, sinceramente, apesar de todo o circo envolvido.
    Acho todo o contexto relevante, por ser quem ela é. A respeito por ela usar tudo a seu favor, um belo de um dibre.
    Se me perguntarem quem é TS eu não saberia dizer. Mas ela sabe muito bem e comanda melhor ainda.

  • Responda
    BrendaK.
    20 de setembro de 2017 at 09:43

    Todos os textos que vocês possuem são ‘defendendo’ e mesmo ‘olha, você não gosta da Tay mas deve reconhecer o quão brilhante ela é’

    Aff. Por favor né?

    Cadê a análise onde param de enaltecer a garota branca sem limites e sem pudores pra conseguir o que quer, que é desonesta, ambiciosa além de construir tudo na narrativa de vítima? Repensem o lado único contado da história…

  • Responda
    BrendaK.
    20 de setembro de 2017 at 09:47

    Não me impressiona nada na verdade que de uma maioria majoritariamente branca no blog, vocês tenham sérios problemas de fazer um recorte racial em todo esse teatro da Taylor Swift.

    Sad! Tudo é hater, nunca pode ser o que de horrível podemos tirar dessa publicidade tão bem construída

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