CINEMA

Logan: O limite físico dos super-heróis

No mundo dos super-heróis, não há consequências. Morte não é definitivo, só uma forma de gerar impacto emocional e deixar um personagem de lado por um tempo, até alguém ter interesse em revivê-lo para novas histórias. Relacionamentos – familiares, românticos, profissionais, de amizade – são tão variáveis que tentar explicar o mínimo de história de um super-herói para alguém que não conhece quadrinhos pode ser enlouquecedor. Fatores físicos ou emocionais são reversíveis, mesmo que pareçam fundamentais para o personagem (por exemplo, as cicatrizes características do Deadpool desapareceram no atual título Spider-Man/Deadpool, e o tradicionalmente anti-nazista Capitão América agora é da Hydra).

Atenção: o texto contém spoilers!

É aí que se encontra a diferença fundamental de Logan e a razão pela qual eu chorei litros vendo o filme mais recente do universo X-Men. Você não sai da sala de cinema pensando em como aquela história vai continuar, em como vão reviver personagens queridos ou revelar que na verdade era tudo um plano elaborado e está todo mundo bem. Em Logan, a morte é definitiva – a começar pela matança perpetuada por Logan (Hugh Jackman) e Laura (Dafne Keen), que é mostrada em detalhes vívidos, sangrentos e nojentos: cabeças decapitadas rolando no chão, rostos dilacerados por garras de metal, membros arrancados jorrando sangue escuro; enquanto em outros filmes de super-herói a violência é fantasiosa, sugerida mais do que mostrada, parte da história como se em uma brincadeira de criança, Logan te faz sentir cada ataque, cada morte. O que poderia ser uma decisão só para chocar os espectadores ou gerar o frisson da violência gratuita cinematográfica acaba sendo justificada pela narrativa: Logan é um filme sobre a realidade física dos super-heróis, sobre os corpos envolvidos nas batalhas.

Um desses corpos é o do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart), possivelmente o mutante mais importante do mundo, tendo que enfrentar a velhice. Fisicamente, Charles está frágil e a realidade da sua experiência como PCD, que nos outros filmes é uma característica existente mas pouco explorada, se faz sentir. Seu cérebro, sempre tão poderoso, não é imune ao passar do tempo: a memória de Charles está debilitada e ele tende a convulsões em momentos de estresse; e, claro, isso impacta muito mais do que sua própria sobrevivência ou consciência – suas convulsões causam tremores de terra, fazem todas as pessoas ao redor ficarem paralisadas e sem ar, e foram responsáveis pela morte de muitos humanos e mutantes anos antes (um dos fatos que sua memória debilitada o impede de lembrar).

Não é uma coincidência que o filme que nos mostra violência explícita seja o mesmo filme que nos mostra Charles precisando da ajuda de Logan para ir ao banheiro. Porque, sim, Logan ajuda – compra remédios, tenta controlar as convulsões de Charles, o protege de agências do governo que o procuram, o apoia mesmo lidando com a memória dolorosa da morte de seus parceiros X-Men. Ouso supor que Logan mantém esse apoio por estar, ele também, se confrontando com as verdades do seu corpo: o adamantium injetado em seus ossos, que compõe suas icônicas garras, o envenena, tornando-o finalmente… mortal. Suas centenas de anos vividos sem consequências físicas duradoras (apesar de com enormes consequências psicológicas e emocionais, como é amplamente explorado em filmes anteriores do mesmo universo) chegam ao fim: agora Logan demora para se curar de feridas, é coberto de cicatrizes, fica cansado, precisa de óculos para ler letras pequenas; agora Logan sabe que precisa evitar conflito físico porque não tem a certeza que sobreviverá sempre ileso, mas não aceita essa situação com tanta facilidade quanto deveria. Afinal, se é difícil para nós, meros mortais, encarar nossas mudanças físicas, imagine quão difícil deve ser  depois de séculos de potencial imortalidade, de quase total imunidade a violência e doenças, depois de décadas vivendo com um esqueleto inquebrável.

Caliban (Stephen Merchant), o mutante que auxilia Logan em seu cuidado com Charles, é outra escolha interessante para a narrativa. Apresentado aos espectadores em X-Men: Apocalipse como uma espécie de mercenário e conhecido pelos leitores de quadrinhos como membro dos Morlocks e dotado de força sobre-humana, seu papel em Logan é muito diferente. Caliban é dotado do poder de localizar outros mutantes, mas sua mutação tem um preço físico: ele queima rapidamente se exposto à luz do sol, então vive coberto e escondido em sombras. Essa vulnerabilidade de Caliban é colocada em evidência pela narrativa de Logan: é o que o faz ajudar aqueles que estão atrás de Logan e Charles, e também o que leva à sua morte.

Sim, sua morte. E não é só ele: Charles e Logan também morrem. Porque um filme sobre a realidade física dos corpos mutantes no mundo não pode fugir da realidade mais inevitável da existência: a morte. A maior sobrevivente de Logan é Laura, a X-23, a origem de toda a narrativa e também seu fim. Laura é uma mini-Wolverine, um experimento de laboratório feito a partir do DNA de Logan, uma criança com poder de regeneração, garras de adamantium (e, como uma versão melhorada de sua origem, garras também nos pés, não só nas mãos) e a atitude de quem foi criada para matar. O que os cientistas responsáveis por Laura e por seus outros experimentos – toda uma ala hospitalar de crianças mutantes fabricadas, com poderes variados, gestadas por jovens mexicanas mortas no parto, mais corpos escolhidos por seu contexto e realidade, descartados por serem vistos como descartáveis – não previram foi sua humanidade: não é possível esperar que humanos sejam despidos de instinto de sobrevivência, de desejos, de impulsos; não é possível fabricar máquinas de matar em corpos humanos e esperar que elas sejam robôs.

Filmes de super-herói esperam que seus protagonistas transcendam o corpo, mesmo filmes do universo X-Men, cuja narrativa trata tanto da diferença, da aceitação, da cooperação entre aqueles que têm diferenças genéticas. O impacto de Logan, portanto, está em negar inteiramente essa aspiração, tentando ser um filme de heróis, mas esbarrando nos limites da existência física e corpórea.

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1 Comentário

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    Ana Julia Silveira
    12 de março de 2017 at 19:26

    Filme emocionante. Principalmente para aqueles que acompanham a história desde o começo. É o fim de uma era que coincide, para muitos, com o fim de uma fase da vida. É o fim. Dói. E nao tem volta. Vida que segue. O mesmo pode ser dito de outras séries, embora Harry Potter, por exemplo, não chega a ser mostrado dessa forma. Enfim, fechou de forma bem feita e deu brecha para uma nova geraçao de filmes.

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