LITERATURA

Little Fires Everywhere: Celeste Ng e a diversidade da experiência humana

Em uma cidade planejada aparentemente perfeita no interior dos Estados Unidos, uma adolescente, a ovelha negra de uma família tão aparentemente perfeita quanto a comunidade, acende pequenas chamas em todos os cômodos de sua casa, numa disruptura incomum da tranquilidade diária. É assim que Celeste Ng inicia Little Fires Everywhere, seu segundo romance, que vai voltar no tempo para se debruçar sobre o porquê das chamas, e, a partir dessa pequena comunidade planejada, vai discutir como as diferenças de gênero, raça e classe moldam e transformam a experiência humana.

Filha de imigrantes chineses, a americana Celeste Ng dedicou seu primeiro romance, Tudo Que Nunca Contei (publicado no Brasil em março pela Intrínseca), à história de Lydia Lee, uma adolescente com origem mestiça: seu pai, filho de imigrantes chineses; sua mãe, branca. No centro do romance, um mistério: o desaparecimento e posterior confirmação da morte de Lydia, afogada no lago da pequena cidade onde a família vivia. Não se trata de um livro dedicado a solucionar o mistério, no entanto. Pelo contrário, sua estrutura não-linear na verdade serve de pano de fundo para entendermos o que significa crescer como alguém com ascendência asiática e europeia ao mesmo tempo nos Estados Unidos da década de 1970, o que significa ter um pai com uma vida inteira dominada por discriminação e não-pertencimento, que espera apenas que seus filhos se encaixem entre os colegas, e uma mãe com sonhos profissionais frustrados, destinada a ser dona de casa em tempo integral, que espera que sua filha se destaque, seja diferente das outras, seja ambiciosa. “Estude em tempo integral”, diz a mãe. “Faça amigos”, diz o pai. E Lydia, é claro, não sabia o que fazer, quem ser. Tudo Que Nunca Contei também acha espaço para lidar com sentimentos e experiências humanas mais básicas, como o luto, ou como é ser um filho eclipsado quando um irmão – um irmão de olhos azuis – recebe toda a atenção. Ng cria ao mesmo tempo um retrato muito sólido de uma família e dos efeitos devastadores da experiência de Lydia Lee, crescendo em uma sociedade racista e machista.

Little Fires Everywhere, em comum com o romance anterior, tem personagens muito sólidos e perfeitamente desenvolvidos – cujas histórias são exploradas com bastante minúcia –, uma prosa muito bonita e o pano de fundo histórico: o final da década de 1990, anos que viram os infames escândalos envolvendo o então presidente Bill Clinton e o subsequente processo de impeachment balançando a nação. Como o romance anterior, este também fala de gênero e raça, adicionando na mistura a questão da classe social; nele, Ng expande o escopo, se distanciando da história de uma única família para falar de várias, abordando um período de tempo em que o marasmo confortável de Shaker Heights é desordenado por pequenos incêndios – dessa vez metafóricos – acontecendo em todo lugar, cortesia da chegada de Mia e Pearl Warren à comunidade. Ou ao menos é nisso que a Sra. Richardson, proprietária do apartamento que Mia aluga durante sua estadia em Shaker Heights, gostaria de acreditar.

“Naqueles dias, parecia a Pearl que tudo estava saturado de sexo; escorria por todos os lados, como mel sujo. Até no noticiário. No Today Show, o apresentador discutia os rumores a respeito do presidente e de um vestido azul manchado; circulavam histórias ainda mais impudicas, sobre um charuto e onde ele poderia ter sido colocado. As escolas ao redor do país enviavam assistentes sociais para ‘ajudar os jovens a lidar com o que estavam ouvindo’, mas nos corredores da escola de ensino médio de Shaker Heights, o estado de espírito era de hilaridade, e não de trauma. […] Entre matemática e biologia e inglês, as pessoas trocavam piadas alegremente, como se fossem crianças trocando cartinhas de baseball, e as piadas ficavam mais explícitas a cada dia que passava.” (tradução livre)

Mia e Pearl Warren são o contrário da vida muito ordeira de Elena Richardson. Mãe solteira, Mia é uma nômade, sem uma casa, sem mobília, com poucas posses: apenas as que cabem em seu carro, no qual ela viaja pelos Estados Unidos com a filha adolescente a tiracolo; em cada lugar, uma curta estadia, apenas o tempo suficiente para realizar um de seus muitos projetos fotográficos. Para ajudar na subsistência das duas, porque não é possível viver apenas de sua arte, Mia faz bicos, trabalha de garçonete, faz o que pode. Pearl, no entanto, estava crescendo, sentindo falta de criar raízes e laços duradouros. Quando elas vão para Shaker Heights, é para ficar. Ainda sem mobília, no entanto. Ainda sem nada de muito permanente que pertencesse às duas.

Num ato de suposta benevolência, com o objetivo de manter a forasteira sob seu olhar atento, a Sra. Richardson traz Mia e Pearl para dentro de sua casa, com a primeira trabalhando como sua empregada e a segunda se tornando amiga de seus quatro filhos: os convencionais – e convencionalmente atraentes e populares – Lexie e Trip, o sensível mas bem comportado Moody e a ovelha negra que ela tanto quer corrigir Izzy. Mia e Pearl são quase da família, mas é claro que ninguém jamais esquece que na verdade elas não são. Entre Mia – de recursos limitados, solteira, artista, dedicada em primeiro lugar às próprias ambições – e a Sra. Richardson – afluente, esposa modelo, dedicada em primeiro lugar aos papéis mais tradicionais e em um emprego mais ou menos – existe uma constante tensão, muito bem mascarada por uma aura de boa educação e de generosidade, por parte da segunda, e gratidão, por parte da primeira. Como deveria ser na boa comunidade de Shaker Heights.

O que enfim as coloca de lados diametralmente opostos é um caso de adoção que balança a comunidade inteira, quando uma pequena bebê chinesa, abandonada na rua, é adotada por um casal de amigos dos Richardson, que há anos tentavam sem sucesso conceber uma criança. A menina não fora abandonada voluntariamente, como se pensava, e a mãe dela – imigrante, sozinha e com conhecimentos insuficientes de inglês – entra em uma disputa judicial para ter a guarda da criança novamente. O caso é muito televisionado e divide a comunidade. Todo mundo tem uma opinião sobre qual seria o destino ideal para a criança. A Sra. Richardson, é claro, fica ao lado da amiga. Mia, da mãe biológica do bebê – e mais tarde vamos entender que existem muitos motivos para isso, muito além de simpatia que sente por alguém que, muito mais que ela, não pertence àquele mundo, muito embora todas as pessoas lá se acreditem muito generosas, amigáveis e acima de todos os preconceitos (coisa do mundo lá fora).

Se o caso divide a comunidade de Shaker Heights, ele também não parece possuir uma resposta óbvia dentro do próprio romance. O narrador onisciente conta a história do ponto de vista de muitas personagens ao mesmo tempo. Embora nossas próprias crenças e ideologias nos façam enxergá-las de maneiras diferentes, a verdade é que a narrativa apresenta a todas elas com muitas nuances, fugindo do maniqueísmo de bem-e-mal que torna histórias mais simplistas uma fuga tão adequada de nossa realidade onde as coisas nunca são tão simples, onde a maior parte das pessoas não sai em marchas neonazistas e – gosto de acreditar – não odeia ou quer causar mal diretamente a ninguém. Mas tudo isso continua acontecendo de qualquer maneira, e entender a estrutura que nos rodeia é mais difícil quando estamos no lado privilegiado da equação. O livro nos lembra disso com tanta sutileza quanto eficiência.

Elena Richardson não é o estereótipo da mulher cruel e não busca ativamente machucar ninguém; ela acredita só estar cuidando dos interesses de sua amiga e de seus próprios filhos (menores e vulneráveis), e nenhum deles tem intenções ruins. Mas, de sua posição confortável, ela frequentemente acredita estar acima de outras pessoas e manipula o jogo como pode – e ela pode, porque tem meios. Na briga pela guarda da pequena bebê, ninguém jamais questiona o amor do casal McCullough pela garotinha – ele é visível para qualquer um. O que Ed Lim, advogado de Bebe, mãe da criança, questiona é se eles estão preparados para criar uma filha chinesa – porque ainda que Shaker Heights goste de se pensar uma adorável comunidade pós-racial, não é assim que o mundo anda, e a menina seria sempre diferente ali. O que Ed Lim questiona é se eles saberiam entender e explicar essa diferença para ela.

“‘Não é nada racista’, ela insistiu. ‘Eles só fazem uma menininha genérica. Sabe, uma que atraia todo mundo’.
‘Mas ela não se parece com todo mundo, não é? Ela não se parece com May Ling. […] A May Ling tem alguma boneca asiática – quer dizer, alguma boneca que se pareça com ela?’
‘Não – mas quando ela for mais velha, e estiver pronta, nós podemos comprar uma Barbie chinesa para ela’.
‘Você já viu uma Barbie chinesa?’ perguntou Ed Lim.
A Sra. McCullough corou. ‘Bem – eu nunca procurei. Ainda. Mas deve existir’.
‘Não existe. A Mattel não fabrica’. A filha de Ed Lim, Monique, estava no terceiro ano do ensino médio agora, mas enquanto ela crescia ele e sua esposa constaram com aflição que não existiam bonecas que se parecessem com ela.” (tradução livre)

O tribunal é o ambiente perfeito para que essa discussão apareça de forma muito explícita e também muito didática, já que a função do advogado ali é justamente argumentar. Se utilizando desse ambiente, o romance consegue juntar perfeitamente arte e política de uma maneira completamente coerente dentro da narrativa. A discussão proposta por Ed, questionando os pais adotivos sobre os brinquedos e histórias infantis que são tão importantes na formação de uma criança, lembra bastante O Olho Mais Azul, de Toni Morrison; lá, essa questão é um mote central, mas da perspectiva de meninas negras. Talvez pareça algo pequeno para quem sempre encontrou bonequinhas (brancas) e dezenas de princesas (brancas) e outras personagens (brancas) nas quais se espelhar. Mas as consequências devastadoras da falta de representatividade para quem não se vê na cultura que lhe é oferecida ficam evidentes no livro de Morrison, onde a pequena Pecola acredita que só pode ser bonita – e, por consequência, válida em seu papel social de menina/mulher – se se parecer com Shirley Temple (porque só há Shirley Temples nas prateleiras e telas de cinema). Se não se parecer consigo mesma.

Em Little Fires Everywhere, esse é só um momento de passagem em suas quase 400 páginas, porque ele abarca muitas outras questões, e especialmente muitas outras questões sobre ser uma mulher no mundo, mas não só isso. Não era tarefa fácil, porque há uma dezena personagens a serem exploradas, mas nenhuma é deixada para trás, e o livro volta e salta no tempo diversas vezes para que possamos entendê-las melhor. As muitas digressões que explicam essas meninas e mulheres poderiam dar muito errado ao tentar abarcar tantas discussões em um livro só, mas Ng consegue criar personagens complexas e completas, sólidas e vívidas, que parecem sempre muito reais em suas nuances.

Talvez o único problema realmente destacável do romance seja que por vezes as digressões são tão extensas e detalhadas que é fácil perder a visão do todo que ele busca construir. Tudo Que Eu Nunca Contei, ao se debruçar sobre apenas uma família, mesmo com muitas voltas no tempo, forma um todo mais coeso, mais bem amarrado e, por ser mais compacto, acaba sendo mais impactante e doloroso quando chegamos ao seu final. Mas isso não tira de Celeste Ng os muitos méritos de Little Fires Everywhere. Bonito, bem escrito, complexo, comovente e, sobretudo, muito necessário.

“Quase duas décadas depois, outras pessoas levantariam essa questão, falariam sobre livros como espelhos e janelas, e Ed Lim, já cansado, se sentiria tão frustrado quanto grato. Nós sempre soubemos disso, ele pensaria; por que vocês demoraram tanto?” (tradução livre)

O livro foi cedido para resenha pela Penguin Press.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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