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Life is Strange: Before the Storm

O ano era 2015 e por livre e espontânea pressão, eu retomava, aos poucos, o contato com o mundo gamer. Entre chutar bundas com Lara Croft em Tomb Raider e me aventurar caçando tesouros na série Uncharted, também tive a chance de conhecer a história de duas meninas muito indies, sensíveis e que me colocaram para viajar no tempo em Life is Strange.

Com um estilo de jogo que não conhecia – adventure, focado em enredo e múltipla escolha –, Life is Strange conta a história de Max Caufield, que retorna à sua antiga cidade, Arcadia Bay, depois de uma temporada longe. Max é fotógrafa, ingênua e responsável pelo grande trunfo de todo o game: a habilidade de voltar no tempo. Max retoma contato com uma amiga de longa data, Chloe Price, a rebelde com causa por quem os jogadores se encantam, e que, por sua vez, está em busca de sua amiga Rachel Amber, moça popular e querida da escola, que desapareceu sem deixar rastros.

Desenvolvido pelo estúdio francês Dontnod Entertainment e distribuído pela Square Enix, Life is Strange explora a busca de Max e Chloe por Rachel, bem como a importância do amor e da amizade em momentos de perrengue, tudo isso enquanto utiliza um pano de fundo cheio de eventos naturais bizarros, e a tensão de uma violência silenciosa, mas iminente. Com diálogos verossímeis, uma trilha sonora impecável e uma recepção estrondosa, Life is Strange ganhou seu lugar ao sol e conquistou milhares de fãs. Por conta disso, em junho de 2017, a Square Enix revelou que Life is Strange estaria ganhando um novo jogo, Life is Strange: Before the Storm, agora desenvolvido pela Deck Nine Games.

Atenção: o texto contém spoilers!

Before the Storm funciona como um prelúdio ao jogo original, e é dividido em três episódios (menos do que os cinco episódios de Life is Strange), lançados em agosto, outubro e dezembro de 2017, respectivamente. No primeiro capítulo, denominado “Despertar”, Chloe Price – mais ingênua e doce, menos rebelde – decide burlar a entrada em uma antiga serraria onde acontece o show de uma de suas bandas favoritas. Conhecida por criar problemas e por sua língua afiada, Chloe envolve-se em uma briga com dois homens, da qual escapa com a ajuda de Rachel Amber. Rachel é a moça popular, bonita, atriz e fadada ao sucesso da escola Blackwell Academy, e Chloe fica surpresa pelo acontecido. No dia posterior, Rachel instiga Chloe a matar aula, e as duas pegam carona em um trem em direção a lugar nenhum, chegando a um parque de observação. Lá, entre risadas e furtos de vinhos alheios, Chloe e Rachel observam o movimento e as pessoas do parque com um binóculo, até que se deparam com um casal se beijando. Rachel muda de atitude e, mais tarde, quando confrontada por Chloe, acaba por revelar que o casal se trata de seu pai, James Amber, o procurador da região, traindo sua mãe com uma mulher desconhecida. Rachel, amargurada pelo que presenciou, queima uma foto da família em uma lixeira à beira da estrada, o que dá início a um incêndio florestal de grandes proporções que abala os moradores de Arcadia Bay.

O primeiro capítulo do game é fiel em trazer os aspectos já conhecidos de Chloe à trama. A perda do pai, o abandono por sua melhor amiga, Max, e o constante desentendimento com o novo namorado da mãe presentes em Life is Strange se repetem aqui. Ainda que em Before the Storm não haja o principal diferencial de Life is Strange – voltar no tempo –, o jogo abre espaço um recurso chamado de backtalk (ou bate-boca), no qual Chloe pode ganhar ou perder discussões com outras pessoas. É também no primeiro episódio que temos os primeiros encontros de Chloe e Rachel, e deixa óbvio a química, fascínio e envolvimento entre as duas.

No capítulo seguinte, “Admirável Mundo Novo”, seguem-se as consequências das ações de Chloe e Rachel no capítulo um. Por andar na corda bamba há algum tempo, Chloe sofre duras reprimendas do diretor da Blackwell Academy por ter matado aula, e também do companheiro de sua mãe, funcionário da escola. Revoltada, ela foge então para um ferro-velho, onde decide reparar uma antiga camionete, utilizando das dicas que seu pai um dia lhe deu. Em um encontro com Frank Bowers, traficante para quem deve dinheiro, Chloe aceita a proposta de invadir o quarto de Drew, um dos estudantes de Blackwell, visando recuperar um valor devido a Frank. Lá, Chloe percebe que Drew está sendo extorquido por Damon Merrick, outro traficante e conhecido de Frank, e deve decidir sozinha o destino que dará ao dinheiro. Mais tarde, Chloe vai a Blackwell a fim de assistir a peça A Tempestade, que viria a ser estrelada por Rachel. Por conta do mau tempo em decorrência do grande incêndio florestal, uma das atrizes não chega a tempo do início do show, e Price toma o seu lugar, substituindo-a, improvisadamente. Rachel e Chloe se aproximam ainda mais, e comparecem a um jantar na casa dos Amber, aonde a verdade sobre a traição do pai vem à tona com uma revelação surpreendente acerca da vida de Rachel: a mulher desconhecida trata-se, na realidade, da mãe biológica dela.

Em comparação ao primeiro episódio do game, “Admirável Mundo Novo” estabelece o passo da história, e é mais fechado e redondo que o capítulo anterior. Com a proximidade de Rachel e Chloe, que planejam deixar Arcadia Bay para trás, as melhores características de Life is Strange são retomadas: sua sensibilidade e o desenvolvimento dos seus personagens. Conseguimos, assim como Chloe, enxergar o encanto em Rachel, que é muito mais vivaz e desinibida do que nossa protagonista. Os aspectos do romance – ou amizade, dependendo da escolha do jogador – das duas são realmente apaixonantes, o que deixa tudo ainda mais triste, considerando o desenrolar do conhecido jogo original.

No capítulo final, chamado de “Inferno Vazio”, Rachel está determinada a conhecer sua mãe, e conta com a ajuda de Chloe para tal. Unidas, elas dirigem-se ao já conhecido ferro-velho e confrontam Frank Bowers para saberem mais sobre a mulher misteriosa, Sera, que é, também, conhecida do traficante. Damon Merrick aparece e, em uma discussão que perde o rumo, acaba esfaqueando Rachel. Após ser hospitalizada, Rachel apela à Chloe que busque por Sera. Chloe inicia uma investigação a fim de encontrar o paradeiro da mulher, mas descobre que James Amber contratou Merrick para manter Sera longe da filha, assim como manteve em segredo as diversas cartas que Sera destinou à Rachel. Sabendo que a vida de Sera corre perigo, Chloe vai ao seu encontro visando evitar que o pior aconteça. Após uma conversa sincera, Sera implora a Chloe que não conte sobre o encontro entre as duas, tampouco a verdade sobre James, o que deixa Chloe a fazer a grande escolha de Before the Storm.

“Inferno Vazio” é competente em dar um final ao drama entre Rachel e sua mãe biológica. Life is Strange: Before the Storm é, por sua vez, competente em plantar, cultivar e fazer crescer o relacionamento entre Chloe Price e Rachel Amber. O jogador consegue entender o porquê de Chloe, no jogo original, manter uma estima tão grande pela jovem e sofrer tanto com o seu desaparecimento, assim como entendemos o porquê de Chloe tornar-se uma pessoa fechada e de difícil aproximação quando sua outra metade e companheira de aventuras desaparece. Além disso, por meio de sonhos que mais parecem realidade, durante os três capítulos do game, pintamos uma ideia de como a relação de Chloe e seu falecido pai, William, parecia funcionar, deixando a experiência de saber como é ser Chloe Price ainda mais amarga.

Contudo, para os fãs do original que, assim como eu, esperavam explicações acerca do que levou Rachel a ter o destino que teve em Life is Strange, pouco foi esclarecido. Não vislumbramos, tampouco interagimos, com o já conhecido professor Jefferson, e não sabemos como Rachel Amber era próxima de Nathan, ainda que colegas de teatro. Podemos presumir que Rachel levava uma vida paralela, mais misteriosa e perigosa, àquela mostrada nos segundos finais de Before the Storm. Nesse viés, o jogo se manteve íntegro à Chloe de Life is Strange – Chloe jamais havia suspeitado desses aspectos sobre Rachel – mas, infelizmente, deixou ávidos os fãs que gostariam de saber mais sobre o que realmente aconteceu antes do primeiro game. Ainda que para muitos reflita como um ponto negativo, o jogo traz a experiência de um final feliz, mesmo que por um curto período de tempo. Assim, faz jus ao seu nome: a calmaria carregada – Chloe e Rachel não são exatamente pessoas felizes – que antecede uma grande tempestade.

No mais, Before the Storm não consegue replicar o mesmo impacto emocional proporcionado por Life is Strange, mas carrega algumas de suas melhores peculiaridades: a sensibilidade, a vibe adorável e a luta e a glória de ser uma adolescente nos anos 2000. É mais humano e profundo, menos fantasioso. Seu enredo é mais linear, fazendo com que as grandes escolhas não soem tão impactantes – elas não parecem mudar, de fato, o rumo da história, como ocorre no jogo de origem. Seus gráficos, ainda que muito similares, são claramente inferiores. Alguns diálogos soam caricatos e exagerados. A trilha sonora, no entanto, mantém o alto nível. Assinada pela banda inglesa Daughter, a trilha que dá som ao game é delicada, coesa e muito, muito bonita, intensificando os momentos emocionais do jogo.

Life is Strange: Before the Storm não representa o fim da franquia. Em março teremos um episódio extra, chamado “Adeus”, protagonizado por Max Caufield, em eventos que também antecedem o jogo original. Aí sim, ao que tudo indica, nos despediremos com muito pesar do game que aqueceu o coração de muita gente. Já sabemos como a tempestade veio, e sabemos o que ela levou. Before the Storm pode não ter respondido a todas as questões, mas se propôs a contar uma história única, modelada para ser suficiente a si mesma, que diz mais sobre carinho, apoio e respeito do que qualquer outra coisa – e é linda.

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