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Todas as lições que podemos aprender com Steven Universe

Steven Universe

Nos últimos dias, minha grande diversão tem sido tentar resumir o argumento central de Steven Universe para amigas que nunca ouviram falar nesse desenho. Não que o jogo “resuma a história do seu/sua filme/livro/série favorito/a em um tweet” não resulte sempre em coisas divertidas e surpreendentes, por nos fazer pensar — normalmente pela primeira vez — no que é o núcleo do núcleo da história contada, e ainda assim parece ser muito pouco se comparado à magnitude e complexidade da obra final, seja ela qual for. Mas no caso de Steven Universe, a brincadeira fica ainda mais divertida por trazer uma combinação de diversos elementos surpreendentes.

Em um resumo não tão resumido, Steven Universe é um desenho animado que conta a história de um grupo rebelde chamado Crystal Gems. Milhares de anos atrás, uma raça alienígena (as Gems) toda composta por mulheres invadiu a terra com a intenção de colonizar o planeta e explorar seus recursos naturais. Com o passar do tempo, a consequência natural seria a extinção das formas de vida nativas. A colonização vai se desenvolvendo, até que parte das colonizadoras (as Crystal Gems) se apaixona pela Terra e seus habitantes, e se rebela contra o seu planeta natal, dando origem a uma guerra na qual muitas gems, dos dois lados do conflito, foram destruídas.

O lado rebelde venceu a batalha, e expulsou os colonizadores, mas apenas três das Crystal Gems sobreviveram: Rose Quartzo, a líder, Pérola e Garnet. Mais tarde, elas encontraram e adotaram Ametista, uma gem que ficou incubada por tempo demais e acabou deixada para trás, sozinha, no Jardim de Infância, lugar onde as gems eram criadas na Terra. Juntas, as quatro fixam residência por aqui e defendem o planeta de gems corrompidas (criaturas disformes e selvagens) que ficaram para trás.

Depois de milênios habitando e protegendo o planeta, Rose Quartzo conhece Greg Universo, um humano, e se apaixona por ele. Os dois namoram e ela engravida, mas para ter o filho ela precisa abdicar de sua forma física. É assim que nasce Steven, o único do seu tipo, meio humano e meio gem. Ele é feito de matéria orgânica, mas tem a pedra de sua mãe presa na barriga, o que dá a ele diversos poderes. Depois de morar com o pai durante os primeiros anos da sua vida, Steven vai morar com as três Crystal gems restantes para aprender a usar seus poderes e salvar o mundo junto com elas.

Atenção, esse texto pode ter spoiler de todas as quatro temporadas já lançadas.

Essa, obviamente, não é o resumo que eu saí distribuindo por aí nos últimos dias, e sim a história de fundo do desenho, que vamos descobrindo com o passar dos episódios. O desenho é produzido pelo Cartoon Networks Studio e foi criado por Rebecca Sugar, ex-integrante da equipe de criação do desenho Hora de Aventura.

Crystal Gems

Gems, humanos e um Steven

Muito além de combater monstros e salvar o dia, o que vemos nesse desenho e que faz dele o que ele é são os relacionamentos e sentimentos. Apesar da premissa elaborada, os elementos centrais de Steven Universe são as personagens. Todas elas, humanas ou gems têm personalidades complexas e diversas, e motivações muito bem definidas e compreensíveis para as suas ações.

As Crystal Gems são o primeiro exemplo de quão variadas são as personalidades encontradas em Steven Universe. Garnet, a nova líder após o nascimento de Steven e “morte” de Rose Quartzo, à primeira vista parece ser fria e não demonstrar muitas emoções, mas com o passar do tempo ela vai se mostrando cada vez mais afetuosa, preocupada e protetora de todas as outras, principalmente do Steven. Pérola é uma gem originalmente voltada para servir outras gems, mas lutou ombro a ombro com as outras Crystal Gems durante a guerra e não aceita mais ordens; muito pelo contrário, ela tem uma postura maternal e adora dizer aos outros o que fazer, além de ser muito sensível e maníaca por organização. Já Ametista tem uma personalidade bastante caótica, impulsiva e infantil, e adora comer, apesar de gems não precisarem se alimentar.

Apesar de serem muito diferentes entre si, as três conseguem conviver em harmonia na maior parte do tempo. Garnet é o centro estável e pacífico do grupo, enquanto Pérola e Ametista vivem entre si uma relação semi-conflituosa que emula bastante uma relação mão-filha adolescente comum na cultura pop. Esses mesmos papéis se mantêm em relação ao Steven, tanto a relação maternal tradicional com a Pérola, quando uma relação de cumplicidade com a Ametista que remete a uma relação fraternal.

A personalidade do Steven, por sua vez, é muito particular e muito adorável, inspirado no irmão mais novo da criadora do desenho (também chamado Steven). Apesar de estar aos poucos dominando seus poderes e de 90% das vezes se sair muito bem em missões e contribuir concretamente para o sucesso delas, ele não gosta de conflitos e acredita sinceramente no que há de bom em cada um, de uma maneira que consegue ser surpreendentemente não irritante. Sua postura pacífica se reflete até em sua arma e poderes, que possuem em comum a característica marcante de serem de defesa, como ele mesmo aponta em um episódio da terceira temporada. Steven é um pisciano em toda a sua glória, para quem sentimentos são os únicos fatos e que só quer que todo mundo se entenda e viva em harmonia.

Steven Universe

No meio disso tudo, pode parecer que os seres humanos são apenas o plano de fundo, sem graça demais para serem um elemento relevante da realidade de Steven Universe, mas isso está bem longe de ser verdade. Os humanos da série vêm em todas as cores e formas e personalidades, possuindo também diferentes graus de importância. E quando eu digo “todas as cores e formas e personalidades” eu quero dizer que a produção tem uma preocupação muito evidente com a diversidade racial, étnica e cultural tanto nos personagens quanto nos atores por trás deles.

Connie, a melhor amiga de Steven, é inicialmente uma menina tímida que gosta muito de ler, tem muitas atividades extra-curriculares e nenhum amigo. Depois que ela e Steven se conhecem, eles se tornam inseparáveis, inclusive em missões. Em nenhum momento Connie veste a carapuça da mocinha indefesa, apesar de estar constantemente lidando com perigos consideráveis, pelo contrário — ela aprende a lutar com a espada para poder proteger Steven.

Greg, o pai de Steven, é outra surpresa muito positiva. Com a aparência desleixada e morando numa vã, passa inicialmente a impressão de um pai negligente, o que não está mais longe de ser o caso. Apesar de atrapalhado, ele se preocupa muito com Steven e está sempre presente. Foi ele quem criou o Steven durante a infância, e construiu a casa no qual o menino foi morar junto com as Crystal Gems quando chegou o momento de aprender a usar seus poderes. Acima de tudo, ele era e continua sendo muito apaixonado pela mãe de Steven.

Além de Greg e Connie, os dois humanos mais relevantes, também é importante mencionar o Lars, que ganhou mais importância no final da quarta e começo da quinta temporadas. Lars é um adolescente rabugento que finge evitar Steven, sonha andar com a turma “descolada” e secretamente ama cozinhar. Ele é inadmitidamente apaixonado por Sadie, sua colega de trabalho e outra personagem humana muito bacana do desenho.

O ponto central é: nenhum personagem–seja ele humano, gem ou Steven–é indefeso, inútil ou irrelevante. Todos eles estão apenas vivendo suas vidas como bem entendem e demonstram habilidades inimagináveis quando necessário.

A beleza da vida terráquea e outras lições

Toda a trama e os cenários belíssimos de Steven Universe se juntam no propósito bastante poético de enaltecer as pequenas e grandes belezas de todas as formas de vida. Em Steven Universe, ninguém é inferior. O princípio básico é que todas as criaturas são seres complexos formados pelas mais diversas características que se combinam de formas únicas em cada um. A mensagem é que todos têm o potencial para a beleza e para o bem, e toda violência só é justificada na medida em que vise interromper uma violência anterior.

É por isso que Rose Quartzo, a mãe de Steven, lutou contra o seu próprio povo para proteger a Terra e todos os seres que vivem nela, o que nos leva a uma mensagem muito central do desenho como um todo: é preciso lutar pelo que é certo, e proteger quem é mais fraco do que você. Ser forte não te dá o direito de passar por cima dos outros.

Steven Universe

Todas essas lições são dadas de forma muito natural no curso da trama, e não de uma forma artificial como uma lição de moral obrigatória incluída no pacote para fins de validação. Os aprendizados decorrem do próprio contexto e da trama, e por isso mesmo são reforçados a cada episódio de uma forma muito mais proveitosa e sutil.

Além disso, Steven Universe tem diversos momentos gloriosos que tratam diretamente sentimentos e situações mais delicadas e difíceis de lidar–como ciúmes, culpa, tristeza e luto–de forma muito saudável, centrada e madura. É incrível e enriquecedor até para adultos, já que estamos todos sempre necessitados de aprender e crescer um pouco. Eu não conheço nenhum outro desenho que tenha tanta utilidade pública quanto esse.

Função social: um segundo nível de aprendizado

Ninguém nasce preconceituoso. Mas considerando que boa parte dos nossos preconceitos são aprendidos dentro da própria família, produções como Steven Universe, voltadas para crianças e acessíveis a ponto de passar no Cartoon Network possuem uma função social muito importante no sentido de construir uma sociedade melhor.

Apesar de serem basicamente pedras e não seres sexuados, as gems todas claramente representam seres do gênero feminino, o que não significa que todas performem feminilidade. Todas as gems são referidas no feminino, mas o nível de feminilidade varia de um extremo a outro do espectro. As noções de masculinidade e feminilidade em geral são muito subvertidas na série. Por exemplo: o personagem mais sentimental de todos é claramente o Steven, e as mais protetoras são a Garnet e a Connie. Outro ótimo exemplo vem no episódio que conta a história do Steven bebê, no qual vemos o Greg protagonizando um papel estereotipadamente maternal, enquanto as três Crystal Gems não fazem a menor ideia de como funcionava um bebê.

Não bastasse isso, as gems (reforçando: todas representando seres femininos) possuem os mais variados tipos de relacionamentos românticos e sexuais entre si — dos mais funcionais aos mais disfuncionais. A orientação delas nunca é questionada, muito pelo contrário: é tratada de forma tão natural que nem é discutida, e essa naturalização é simplesmente tudo o que a gente quer ver no mundo. Até a bissexualidade é tratada de forma igualmente natural e muito inteligente a partir da personagem da Rose Quartzo, que se relaciona tanto com outras gems quanto com humanos.

Vemos amores platônicos e inabaláveis como o da Pérola pela finada Rose Quartz, relacionamentos estáveis perfeitamente saudáveis como o da Ruby e da Safira, relacionamentos poliamorosos estáveis entre seis gems (podendo aumentar), relacionamentos casuais representados pelas fusões pontuais, e até mesmo relacionamentos claramente abusivos como o da Jasper e da Lapis Lazuli.

Steven Universe

A Garnet (fusão entre a Ruby e a Safira) é o maior exemplo de relacionamento estável e saudável. As duas vivem perpetuamente fundidas, por escolha própria e de comum acordo. A simbiose delas é tão grande que elas se sentem como uma só. “Eu sou um sentimento, eu sou uma conversa“, elas cantam e isso é absolutamente lindo. Como a própria Rebecca Sugar mencionou em entrevista, a Garnet representa uma força muito grande de sentimento e de autocontrole e ela é maravilhosa.

No polo contrário, um relacionamento que felizmente foi “rápido”, mas cuja representação foi extremamente importância foi a Malaquita (fusão entre Jasper e Lapis Lazuli). As duas representaram muito claramente um relacionamento abusivo, baseado em apego e na necessidade de fazer com que a outra pessoa fique presa no ciclo de sofrimento e egoísmo. Mesmo que tenha sido uma passagem rápida, os sentimentos paradoxais, divididos entre o apego e a consciência da situação tóxica foram muito bem expostos e retratados. É um tema especialmente difícil de se tratar, e o fato de isso ter sido feito de forma tão sensível e clara em um desenho supostamente voltado para o público infantil é muito gratificante de se assistir.

A ideia das fusões é mais um dos muitos elementos maravilhosos de Steven Universe. Fusões são metáforas muito boas e muito bem empregadas. Eventualmente têm uma clara conotação sexual, mas em geral simbolizam relacionamentos de uma forma muito simbólica e real. São um modo simplificado e ainda assim não superficial de abordar um tema complexo como relacionamentos e os sentimentos envolvidos neles.

Em resumo, Steven Universe é uma obsessão muito intensa e muito saudável. (E tem músicas muito maravilhosas.) Se existe uma obra que merecia dominar o mundo, é essa. E se esse texto convencer uma pessoa que seja a dar uma chance para esse desenho maravilhoso, todo o tempo investido vai ter valido a pena.

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1 Comentário

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    ugu
    30 de junho de 2017 at 10:18

    Muito obrigado por esse texto lindo!! eu ficava imaginando se era só eu que via a profundidade dos símbolos apresentados nesse desenho (que atualmente é a melhor série da cartoon na minha opinião, e me arranca lagrimas com frequência!) dahora!

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