LITERATURA

Lições de Chimamanda Ngozi Adichie para educar pessoas feministas

O livreto Para Educar Crianças Feministas surgiu como uma carta que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie escreveu para uma amiga de infância que acabara de ser mãe de uma menina. Essa amiga, Ijeawele, recorreu à Chimamanda em busca de conselhos que ajudassem na criação de Chizalum Adaora não só como uma criança feliz e saudável, mas também como uma criança feminista. De acordo com a definição estabelecida por Chimamanda em outro livreto, Sejamos Todos Feministas, feminista é a pessoa que acredita na igualdade econômica, política e social entre os sexos, uma definição que é simples, mas cuja práxis se torna complexa uma vez que a desigualdade está em todo lugar.

A desigualdade é estrutural em nossa sociedade e ir contra ela significa lutar todos os dias, em várias frentes, contra a corrente, para então educar uma criança com esse olhar de igualdade de modo que ele seja mais forte que os séculos de construção patriarcal que ela irá enfrentar no mundo real. Apesar da mensagem do livro ser voltada para a criação de filhos, esse caráter estrutural da desigualdade de gênero (e racial, e social, e sexual, dentre outros) torna os ensinamentos do manifesto de Chimamanda Ngozi Adichie – escrito de forma simples e com muita delicadeza – importantes como um exercício de reflexão e aprimoramento contínuo para todas as pessoas. Ser feminista é aceitar o desafio de ser um trabalho em progresso, com disposição de construir com força e coragem um mundo melhor não só para nossos (futuros, no meu caso, quem sabe) filhos, e também para nós, amanhã e agora.

Pensando nisso, e para aproveitar o clima de renovação que todo início de ano traz, selecionei algumas entre as 15 sugestões elencadas pela escritora para compartilhar com vocês e também comigo, e espero que assim como Ijeawele e Chimamanda (que agora também é mãe de uma menina), nós estejamos dispostas (e dispostos) a tentar.

1) Seja uma pessoa completa

“A maternidade é uma dádiva maravilhosa, mas não seja definida apenas pela maternidade. Seja uma pessoa completa. Vai ser bom para a sua filha.”

Ser uma pessoa completa é um desafio não só para mães, mas para todas as mulheres, visto que, historicamente, a condição feminina é definida justamente pela incompletude. Não é à toa que Simone de Beauvoir escolheu O Segundo Sexo como título de sua grande obra sobre a mulher, em que a autora defende a tese de que a mulher não é pensável sem o homem, não é considerada um ser autônomo. Assim, precisamos aprender todos os dias a ocupar esse espaço de pessoa completa, que antes de ser mãe, esposa, namorada, filha ou até funcionária de alguém, é um ser-humano cujo valor e existência existe não por causa ou a partir de uma âncora masculina, menos ainda por uma condição que limita nossas possibilidades.

Na introdução da carta, Chimamanda Ngozi Adichie escreve que a premissa feminista inabalável da qual partem todas as duas crenças é justamente acreditar no valor da mulher: “Eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor. Não ‘se’. Não ‘enquanto’. Eu tenho igualmente valor. E ponto final.” E se nós temos esse valor, isso significa que todas as outras mulheres também têm, mesmo aquelas com as quais a gente não concorda, ou aquelas que a gente não gosta. 

Por último, ser uma pessoa completa e se enxergar como ser humano significa também aceitar nossos defeitos e limitações. Para mães, a cobrança de todos os lados por ser perfeita e “dar conta de tudo” é forte e muito cruel, por isso é tão importante reforçar a mensagem que está permitido falhar e não saber todas as respostas. O mesmo vale para o feminismo de modo geral: como ensina Roxane Gay em Má Feminista, querer ser uma feminista perfeita é a mesma coisa que querer ser uma mulher perfeita, um ideal que o feminismo existe justamente para questionar. Colocar feministas (ou qualquer mulher) num patamar de idealização é tão desumanizador quanto negar à mulher da condição de ser uma pessoa completa, pois ser humano é ser falho.

Para saber mais: Não precisamos ser perfeitas; Emily, a terceira garota Gilmore; Em Ritmo de Fuga e o papel das coadjuvantes femininas;

2) Aprenda que papéis de gênero são totalmente absurdos

“Os estereótipos de gênero são tão profundamente incutidos em nós que é comum os seguirmos mesmo quando vão contra nossos verdadeiros desejos, nossas necessidades, nossa felicidade. (…) Em vez de deixá-la internalizar essas ideias, ensine-lhe autonomia.”

Pensar a respeito de papéis de gênero vai muito além da dicotomia entre rosa e azul, bonecas e carrinhos, ainda que eles contribuam bastante na construção dos estereótipos nocivos de gênero. Meninas são ensinadas a ser dóceis e agradáveis, a não questionar, a não confrontar, a se diminuir, a não ser assertivas quanto ao que querem e ao que não querem. Além de excluir (e expor a violência corretiva) quem ousa sair dessa norma, essa tradição cria mulheres que se calam diante de abusos, que não acreditam em seus potenciais, que se submetem a figuras masculinas de autoridade, que têm dificuldade de comunicar o que querem. E que odeiam outras mulheres, já que aprendemos que tudo que é feminino é também menor e menos importante. Quem vai querer ser como “as outras”?

Ao mesmo tempo, a masculinidade é uma construção que rejeita tudo que é supostamente feminino, criando meninos educados na base da força, que não aceitam “não” como resposta, que enxergam as mulheres (e todo o universo feminino) como inferiores e que também exclui, na base da violência, os homens que ousam sair dessa norma. Homens difíceis são perdoados porque “homem é assim mesmo” e mulheres sofrem duplamente já que ser difícil não é “coisa de mulher”. E pensar que tudo começa com as bonecas, que nos ensinam a ser afáveis e domésticas, enquanto meninos constroem torres de bloquinhos só para depois destruí-las.

Chimamanda reforça: “‘Porque você é menina’ nunca é razão para nada. Jamais.” Esse é um bom mecanismo na hora de questionarmos nossas atitudes e pensamentos e também confrontar os outros. É sempre bom perguntar por que estamos agindo ou pensando de determinada forma, porque se for um pensamento pautado por essas noções distorcidas de gênero, uma hora vamos cair na armadilha de justificar algo pelo gênero e isso não é justificativa. Isso vale até mesmo para a biologia, que é usada de forma seletiva para explicar comportamentos sociais, e se eles são sociais significa que eles podem ser questionados e mudados. “Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.”

Para saber mais: The Love Witch e os estereótipos de gênero nos relacionamentos; Stranger Things: Desconstruindo estereótipos desconstruídos de gênero; Rainhas do Sertanejo: Um guia subversivo para iniciantes

3) Questione a linguagem

“A linguagem é o repositório de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossos pressupostos. Mas, para lhe ensinar isso, você precisará questionar a sua própria linguagem.”

Quando Dilma Roussef ainda era presidente, lembro do desconforto que as pessoas tinham com a insistência dela em ser chamada de presidenta. E lembro com carinho de como até o final ela insistiu no termo, porque é uma marcação de gênero que destaca uma mulher que é a primeira líder executiva de um país – e isso é importante independente de qual seja a sua visão política. A resistência em adotar o termo é um reflexo não do apreço das pessoas pela gramática, mas de como ainda é difícil para muitos aceitar uma mulher em posição de poder, e a linguagem cotidiana é um reflexo disso.

Questionar a linguagem significa pensar sobre por que na hora de xingar uma mulher recorremos sempre a xingamentos de cunho sexual (puta, vadia, vagabunda) que não possuem equivalentes masculinos (“vagabundo” não tem o mesmo significado de “vagabunda”, por exemplo) e por que os elogios que costumamos fazer às crianças reproduzem papéis e expectativas de gênero: meninas são “lindas” e “princesas”, meninos são “espertos” e “inteligentes”. Chimamanda sugere um exercício interessante: “Se você critica X nas mulheres e não critica X nos homens, então você não tem problema com X, mas com as mulheres. X podem ser palavras como raiva, ambição, extroversão, teimosia, insensibilidade.”

Se a linguagem é um espelho de nossos preconceitos, precisamos ficar ainda mais atentas com relação a outros recortes sociais, já que nossa linguagem também é racista, homofóbica, gordofóbica, e algumas dessas manifestações acabam passando despercebidas e são tão nocivas quanto os exemplos citados acima. Não existe “cabelo bom” ou “cabelo ruim”, assim como “da cor do pecado” não é elogio e “fazer gordice” não é uma piadinha engraçada. Para sermos feministas precisamos lembrar que ser mulher não é uma categoria ou experiência única e ignorar essas particularidades é continuar reproduzindo desigualdade por aí.

Para saber mais: Xica ou Chica da Silva: o estereótipo da negra quente e sedutora; Todas as princesas que não fuiTire o racismo do seu vocabulário; Querida amiga magra, a gente precisa conversar

4) Converse sobre sexo

“A vergonha que atribuímos à sexualidade feminina se refere a uma questão de controle. Muitas religiões e culturas controlam o corpo feminino de uma ou outra forma. (…) Nunca associe sexualidade e vergonha. Ou nudez e vergonha. Nunca transforme a ‘virgindade’ em foco central. Toda conversa sobre virgindade se torna uma conversa sobre vergonha.”

A relação das mulheres com seus corpos, sua sexualidade e o sexo seria muito melhor se tivéssemos uma educação sexual desde a infância, seja em casa ou na escola, que não fosse baseada em vergonha e medo. AduItos acham bonitinho quando um garoto brinca com o próprio pênis, mas desde pequenas as meninas aprendem a ter vergonha do seu corpo, que sua genitália é suja, que é errado colocar a mão ali, que não se pode falar abertamente sobre menstruação ou sexo. Mesmo adultas, boa parte das mulheres não conhece seus corpos, não conversa abertamente sobre isso nem com amigas próximas, a masturbação ainda é um tabu, consentimento é um problema, fingimos orgasmos porque aprendemos que é melhor não gozar e manter intacta a autoestima do homem do que falar abertamente sobre nossos desejos e vontades.

Mesmo nos homens, que tem sua sexualidade celebrada, a ausência de educação sexual se reflete de forma negativa, porque eles vão buscar essa educação (cada vez mais cedo, graças à internet) na porrnografia e tudo que eles aprendem sobre sexo vem de um modelo que desconsidera o prazer feminino, que ensina que sexo se resume a penetração e o foco é o pênis. O abismo de informação é tão grande que um político importante recentemente deu a entender que acreditava que apenas os homens tinham uretra (e muitos aí nem sequer sabem da existência do clitóris). A revelação de que homens tinham receio de limpar a bunda chocou a internet em 2017. Sífilis voltou a ser uma epidemia.  

A autonomia sobre os nossos corpos – que reflete na luta pelo aborto legalizado e contra a cultura do estupro, por exemplo – está diretamente relacionada ao quanto conhecemos a respeito de nossos corpos e nossa sexualidade. Se você é mãe, pai ou tem contato com crianças, crie um espaço seguro, sem medo ou vergonha, para que ela possa se informar e conversar sobre isso sem reproduzir mitos e preconceitos. E se você é mulher, conheça seu corpo e faça as pazes com ele. Ele não é sujo, ele não é errado, ele não é feio; seu desejo sexual (ou a ausência da atração sexual, que também é normal no espectro da assexualidade) é importante e válido e merece atenção. Se descubra e ajude suas amigas a se descobrirem também.

Para saber mais: It Follows: O sexo como maldição e o futuro como pesadelo; The Bold Type: Mulher ajuda mulher; Você sabe como se sente uma garota nesse mundo?

5) Tenha um senso de identidade

“A dinâmica de poder no mundo fará com que ela cresça vendo imagens de beleza branca, da capacidade branca, das capacidades brancas, em qualquer lugar onde ela estiver. (…) Ensine-lhe a sentir orgulho da história dos africanos a da diáspora negra. Encontre heróis e heroínas negros na história. Existem.”

Em seu discurso no último Globo de Ouro, Oprah Winfrey falou sobre o significado que teve para ela ver Sidney Poitier, primeiro ator negro a ganhar um Oscar, ser celebrado por todos, ao mesmo tempo em que via sua mãe, empregada doméstica, limpando a casa de outras pessoas. Ela falou sobre o movimento que está acontecendo agora contra os assédios sexuais, em que tantas mulheres estão falando e sendo ouvidas, e lembrou de Recy Taylor, mulher negra que foi estuprada por seis homens brancos em 1944 e que morreu aos 97 anos, há poucos dias, sem que a justiça sobre seu caso fosse feita.

A figura de Oprah Winfrey é poderosa tanto para meninas, principalmente meninas negras, que precisam de figuras de sucesso como a dela para se inspirar, como também para encorajar sobreviventes de abuso e violência a lutar, contar suas histórias e seguir em frente. Chimamanda Ngozi Adichie, assim como sua amiga, é nigeriana de família igbo e escreveu sobre a importância de manter vivas essa cultura e tradição como forma de pertencimento e também resistência num mundo que desvaloriza, apaga e silencia a história africana. É o que Beyoncé também fez ao trazer os negros para a frente de Lemonade.

Como mulher branca, posso falar sobre a importância de olharmos pra trás e enxergarmos na figura de nossas mães, avós e bisavós, e das mulheres que vieram antes de nós de modo geral, as heroínas que elas foram à sua maneira por terem vivido num mundo mais difícil e hostil que o nosso, abrindo caminho para tantas coisas que temos agora. Da mesma forma, é importante se reconhecer nesse lugar de privilégio e como ele contribui para a manutenção de preconceitos e desigualdades, para que possamos pegar o caminho contrário e sermos aliadas de outras mulheres.

“Então eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está por vir! E quando esse novo dia finalmente chegar, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui conosco nesta noite e alguns homens bastante fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levem ao tempo em que ninguém nunca mais precise dizer ‘eu também’.”

Para saber mais: Por que Lemonade é um álbum tão importante?; Little Fires Everywhere: Celeste Ng e a diversidade da experiência humana; Lena Waithe: Mais uma voz para as mulheres negras na televisão; Consciência negra e representatividade: As lendas de Dandara


O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.

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2 Comentários

  • Responda
    Clarinha Diniz
    15 de Janeiro de 2018 at 16:14

    Tenho pensado bastante a respeito disso, e apesar de não querer ter filhos, é algo que pode acontecer, então quero saber como educar uma criança de bem, independente de ser menina ou menino. Gosto de ver meus pensamentos refletidos e validados em cada tópico, com certeza vou ler o livro. Obrigada pela dedicação em escrever tão bem sobre, Anna.
    Um beijo.

    • Responda
      Anna Vitoria
      15 de Janeiro de 2018 at 18:09

      Fico feliz que tenha gostado, tomara que goste do livro também <3

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