LITERATURA

A vida é muito curta, fale rápido: uma autobiografia de Lauren Graham

Quando Lauren Graham anunciou o lançamento do seu segundo livro, dessa vez uma autobiografia, a sincronia não poderia ser mais perfeita: Gilmore Girls, série que alavancou sua fama no início dos anos 2000, estava preparando para decolar seu revival e o assunto estava sendo amplamente debatido na internet. No entanto, muito além da oportunidade para vender um livro, a atriz encontrou o momento ideal para contar sua história desde o começo, de Gilmore Girls a Gilmore Girls (e tudo no meio do caminho).

Como fã de Gilmore Girls desde 2010, considero Lauren Graham uma amiga. Assisti às suas entrevistas no programa da Ellen DeGeneres mais vezes do que seria socialmente aceitável admitir, portanto, trejeitos dela se tornaram familiares para mim e eu gosto deles. Eu sabia que tomar contato com sua trajetória para além do que já fora mencionado nas supracitadas entrevistas não seria decepcionante – muito pelo contrário. Quando tomei meu exemplar em mãos, a única coisa que me desanimou foi o tamanho do livro ser tão pequeno. 234 páginas. Por que só isso? Eu poderia passar horas lendo as histórias que Lauren tem para contar e, por isso, aviso de antemão que talvez essa não seja a “crítica” que você gostaria de ler se o que está procurando é imparcialidade.

Partindo de reminiscências sobre sua infância, Lauren fala sobre como foi viver no Japão com seus pais até os cinco anos de idade, antes de retornar aos Estados Unidos com o pai após o divórcio amigável deles. Os dois moraram num barco na ocasião do retorno e desde pequena Lauren demonstrava ser uma menina inteligente que, inclusive, pulou o jardim de infância. Embora esta seja uma conquista que merece elogios, ela descreve a sensação de ter se sentido deslocada pela primeira vez, e seguiu a narração para seus anos no ensino médio, em que pulou outro ano, cometeu bobagens de adolescente, e estreou sua primeira peça que a fez decidir seguir a carreira de atriz.

Movida pelos impulsos de crescer e conquistar a sensação de ter chegado lá em sua carreira, ela aproveitou os dois anos que ganhou em tempo para viver experiências. Nesse período, ela trabalhou em uma variedade de empregos nada relacionados com o mundo artístico a fim de garantir seu próprio sustento, ao mesmo tempo em que participava de testes para conseguir um trabalho na área que queria seguir. Ler sobre esses passos de Lauren nessa parte da vida tão pouco diferente da nossa quebra por completo qualquer enaltecimento que possamos atribuir à carreira dela, se considerarmos apenas a sua profissão de atriz como uma qualquer, com todos seus altos e baixos.

Depois de um período de dúvidas e já sem os seus dois anos de vantagem, Lauren tomou a decisão de conseguir uma vaga como estagiária em dos teatros que faziam parte do Equity [Actor’s Equity Association, sindicato dos atores de teatro americano] e sonhou em, quem sabe um dia, conseguir ter sua foto pendurada no saguão junto aos outros membros que tiveram participações notáveis ali. Spoiler: ela conseguiu. É durante esse capítulo de sua vida que ela conta sobre o dia em que fez um teste com a bunda à mostra, passagem que é mencionada na sinopse que aparece na contracapa do livro e parece, a princípio, um chamativo cômico e apelativo para os leitores; contudo, ao contrário do que parece, essa experiência fez com que Lauren se sentisse vulnerável e decidisse que não se sentia bem se expondo daquele jeito para conseguir papéis, o que a levou a estabelecer limites sobre o que faria para trabalhar como atriz, ainda que o futuro na profissão fosse incerto.

Pensei que seria maduro e profissional fazer qualquer coisa que me pedissem para ganhar o papel. Aprendi um pouco tarde demais naquele dia que, talvez, as coisas fossem um pouco mais complexas. 

Por meio da perspectiva tão sincera de Lauren, conhecemos não só sua biografia em linhas gerais, como também o modo como Hollywood funciona para jovens atrizes. Ela explica de forma bem prática por que o ramo do entretenimento gosta dos jovens: como nós podemos imaginar, é porque nós, jovens, somos consumidores. O fato de gostarmos daquilo que gostamos pode parecer inofensivo do nosso lado, pois estamos apenas aliviando a carga pesada da nossa rotina assistindo à programas de televisão com uma temática legal — no entanto, o que assistimos é um produto que nos influencia, às vezes de modo sutil, outras vezes, não.

E onde entra a questão de gênero, você pergunta? Segundo a própria Lauren Graham, os anunciantes procuram jovens passíveis de ceder às influencias apresentadas, pessoas que eles podem “comprar”. Mas, assim que as pessoas passam a determinar seus gostos, e se tornam seletivas quanto àquilo que consomem, bem, está na hora de procurar o próximo grupo. A questão apontada por Lauren é que as mulheres tendem a determinar suas preferências mais cedo, e daí o problema com a seleção de trabalhos. Exceto, é claro, quando se trata de Betty White e Carrie Fisher.

Esses dois exemplos brilhantemente escolhidos criam uma corrente de influências e referências dentro da narrativa do livro. Talvez você tenha comprado o Falando o Mais Rápido que Posso por admiração à Lauren Graham, se não por alguma curiosidade sobre ela ou sobre o livro. Lauren, por sua vez, assiste aos trabalhos de Betty White e Carrie Fisher, e também lê os livros da última, por admiração àquilo que elas conquistaram e àquilo que representam. E por essas e outras, é impossível não criar uma conexão com ela.

De alguma forma, entendo por que nosso ramo de negócios gosta dos jovens. Os anunciantes querem pessoas que possam converter, que ainda não se decidiram sobre coisas como seu papel toalha preferido ou que tipo de carro gostariam de dirigir… Pessoas que possam mudar de ideia e passar a consumir uma marca diferente, influenciada pelos anúncios que veem. (…) É por isso que não vemos muitas pessoas de idade avançada – principalmente mulheres, que aparentemente têm uma tendência a determinar suas preferências em relação a papel toalha mais cedo — em filmes e na televisão. 

Outro capítulo interessante é aquele em que Lauren relata os efeito de seus relacionamentos amorosos, ou, melhor dizendo, a falta deles, quando se está sob os olhos vigilantes de Hollywood. Devido à sua agenda lotada, ela encontrava pouco tempo para conhecer e se envolver com homens que poderiam interessá-la, e embora isso não seja realmente um problema, tornava-se um constrangimento quando a imprensa insistia em tocar nesse assunto nas entrevistas, frequentes como parte da divulgação de Gilmore Girls.

É impossível, também, não sentir empatia com ela nesse aspecto, se imaginarmos que a vida dela, como atriz, deveria ser um constante almoço de família com as tias que perguntam “E os namoradinhos?”. Só que, no caso da Lauren, as tias são repórteres com microfones e gravadores afiados, prontos para divulgar a resposta em mídias diversas ao redor do país – e, hoje em dia, graças à internet, do mundo – inteiro. Ela conta que também observava ao seu redor seus amigos se casando e partindo no trem para a “Vila Dos Casais Felizes” enquanto ela 1) Não tinha pressa em relação a isso; 2) Não tinha tempo para isso; e 3) Não tinha pretendente nenhum também (o que é um detalhe importante eu acho). Mas a famigerada pressão que a sociedade exerce está ali, e assim como qualquer pessoa, algumas vezes ela cedeu à pressão e foi a alguns encontros que – surpresa, surpresa – não vingaram. Hoje, compromissada com Peter Krause, também ator e seu colega de elenco em Parenthood, há seis anos, Lauren tem a segurança de reforçar para nós nas páginas do seu livro que tudo bem estar solteira, às vezes o trem já está vindo só que você não sabe disso.

Não há nada de errado em estar solteira, a não ser que, aparentemente, você seja uma atriz que dê muitas entrevistas. 

Para completar o apanhado de sua vida, ela faz uma reflexão sobre o sucesso profissional. Também como consequência de uma pergunta frequente em entrevistas – “Como você soube que havia chegado lá?” – ela explica que ter se consolidado como atriz, realizando seu sonho de adolescente, foi o resultado de um caminho de incertezas, o que muito dialoga com nossos próprios receios. Enquanto tentava criar uma base sólida para sua independência, Lauren teve que trabalhar em diversos empregos nada relacionados com a atuação para poder comer e pagar o aluguel. Ela não sabia se conseguiria atingir sua meta, mas o importante é que ela não desistiu.

Conhecemos algumas – muitas – histórias de celebridades que foram descobertas e num estalar de dedos tiveram sua grande estreia que já lhes garantiu a carreira. Por outro lado, algumas – outras muitas, talvez a maioria? – precisam pavimentar a própria estrada. Fora da visão glamourosa que nós temos da vida em Hollywood, existe gente como a gente que um dia achou que seu sonho era impossível, mas conseguiram “chegar lá”, o que acaba até reacendendo nossos sonhos guardados de ser compositora, editora-chefe, confeiteira, etc.

Bem antes de me questionar se “havia chegado lá”, percebi que a pergunta que mais passava pela minha cabeça era uma versão de “Quando você vai desistir desse sonho impossível?”. Na época, eu me perguntava isso com uma frequência alarmante, também. 

Por fim, após uma breve passagem sobre outra experiência valiosa na sua carreira televisiva, o seriado da NBC Parenthood, Lauren começa a descrever como utilizou seu tempo livre, artigo raro até então, para escrever um romance, e como sem querer foi lançada como escritora. A trama de Someday, Someday Maybe, publicada pela Random House (selo da Penguin), baseia-se na história de uma jovem aspirante a atriz tentando se realizar na profissão. Embora a especulação seja que o livro parcialmente autobiográfico, Lauren explica até que ponto as suas experiências foram inspiração para o livro. E, no processo de escrita, ela desabafa sobre seus bloqueios criativos e a descrença alheia sobre seu projeto de uma forma que só outra escritora mulher é capaz de entender.

Eu estava preenchendo cada minuto livre trabalhando com mais afinco do que havia trabalhado em anos, fiquei surpresa quando contei às pessoas que estava escrevendo um livro e comecei a ouvir repetidamente duas perguntas: “Tem alguém ajudando você?” e “Você está escrevendo tudo sozinha?” Você sabe, as mesmas perguntas que autores homens escutam! 

Apesar de tudo, é um fato: Lauren Graham escreveu um livro sozinha e temos uma edição nacional, cujos direitos foram adquiridos pela Record, para você recorrer se quiser tirar a prova. Infelizmente, eu ainda não li Quem Sabe Um Dia, mas foi por falta de oportunidade e não de interesse. Assim que Lauren Graham se lançou como escritora, não duvidei de sua capacidade um segundo sequer, considerando os básicos que eu conhecia a respeito dela: o fato de ter encarado a vida acadêmica para construir a base de sua carreira e ter interpretado com maestria o papel principal de uma das séries hoje consideradas uma das clássicas da televisão.

Por falar nisso, dois capítulos de Falando o Mais Rápido que Posso são dedicados exclusivamente à experiência de participar de Gilmore Girls pela primeira e pela segunda vez. Se isso é o que te vai te levar (ou já levou) a comprar o livro, é a parte que você mais vai se deleitar, e por isso não entrarei neste tópico. Vou apenas dizer que tudo a respeito a Gilmore Girls para Lauren Graham é resumido em uma enorme gratidão e um carinho excepcional pelo elenco e sua criadora. Então por que não dizer que este é um dos ingredientes que fez a série se tornar esse sucesso todo, não é?

Eu te desafio a ler Falando o Mais Rápido que Posso sem querer tomar um café com Lauren Graham e estender a conversa sobre sua carreira e suas experiências inusitadas. Tão humana quanto é possível, Lauren tem um pé no estrelato e outro na vida real. Ela tem seus momentos de baixa autoestima e problemas com seu cabelo, não tem uma dieta para recomendar e pouco senso para julgar a moda. O fato de ter se tornado internacionalmente famosa só foi algo que veio junto com seu sonho de se tornar atriz. Sem exatamente levantar a bandeira do ativismo, ela defende seus direitos de escolha, como mulher e como pessoa, em um ramo ainda tão misógino. Na televisão, ela tanto é o exemplo de mãe, como de mulher com suas ambições e sua parcela de dramas. Ah, e também um exemplo de uma melhor amiga como ninguém, que enquanto fala o mais rápido que pode, você acompanha o mais rápido que pode. E o faz com um sorriso no rosto e o coração aquecido por estar com uma pessoa como você.

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