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Las Chicas del Cable: em busca de liberdade

A Netflix não para de expandir seus domínios sobre nossas vidas sociais e Las Chicas del Cable, ou Cable Girls, nome com o qual a série foi vendida internacionalmente, é mais um de seus projetos a ganhar vida por meio de seus oito episódios lançados no último mês de abril no serviço de streaming. Ambientada na Madrid de 1928, uma cidade encantadora com uma arquitetura rica e vibrante, Las Chicas del Cable tem por premissa contar a história de quatro mulheres muito diferentes que, um dia, vêem suas vidas se entrelaçarem de maneira permanente.

Aviso: este texto contém spoilers!

A história começa com Alba (Blanca Suárez), uma moça que está prestes a mudar de vida completamente quando, na companhia de sua melhor amiga, Gimena (Alba Ribas), decide deixar a Espanha e se mudar para a Argentina. O que tinha tudo para ser um sonho realizado encontra um final trágico quando o ex-namorado abusivo de Gimena se coloca no caminho das duas e interrompe o tão desejado recomeço das amigas. Las Chicas del Cable mostra logo a que veio em um primeiro episódio intenso e cheio de reviravoltas, quando Gimena é assassinada pelo ex-namorado e Alba, encontrada abraçada ao corpo sem vida da amiga, é enviada para a prisão por um crime que não cometeu.

O delegado Beltrán (Carlos Kaniowski), responsável pela prisão de Alba, a chantageia e, para ter sua liberdade de volta, a moça precisará conseguir uma grande quantia de dinheiro – e é assim que Alba encontra na seleção de telefonistas da Companhia Telefônica de Madrid uma oportunidade de conseguir o dinheiro necessário para se ver livre de Beltrán: roubando o cofre da empresa. De maneira a não levantar suspeitas, Alba se inscreve na seleção utilizando um novo nome – Lidia Aguilar – e se mistura às outras candidatas. E é nessa situação que a moça se depara com as outras mulheres que conduzirão, junto com ela, a trama de Las Chicas del Cable.

Marga (Nadia de Santiago), uma dessas mulheres, quase não conseguiu reunir a coragem necessária para deixar sua cidade no interior da Espanha para tentar a sorte na grande Madrid. Apoiada por sua avó, que sempre acreditou no potencial da neta, Marga se inscreve na seleção das telefonistas e chega à cidade para o teste. Muito tímida e inocente, quase parece que Madrid engolirá Marga viva e inteira, mas aos poucos a força da personagem é demonstrada em um crescimento e desenvolvimento muito bem explorados com o decorrer dos episódios. Carlota (Ana Fernández), por sua vez, não tem nada de tímida e inocente: esfuziante e cheia de vida, Carlota não aceita de bom grado as ordens de seu pai militar e, sempre que possível, escapa de casa pela janela do quarto para se encontrar com seu namorado, o engenheiro que trabalha na Companhia Telefônica, Miguel (Borja Luna), ou para comparecer às reuniões das sufragistas. Carlota vem de uma família rica e de importância em Madrid e não precisaria se preocupar com dinheiro, mas sua liberdade e o poder de fazer o que bem entende com a própria vida, livrando-se dos mandos e desmandos do pai, a faz se inscrever no teste para ocupar uma posição de telefonista – conquistar o próprio dinheiro é o primeiro passo para ser livre, e é isso o que Carlota busca.

Ángeles (Maggie Civantos) já é telefonista e está na companhia há muitos anos, uma funcionária exemplar. Doce e gentil, Ángeles é casada com Mario (Sergio Mur) e tem uma filha, porém o marido não quer que ela permaneça no serviço – a ideia era de que Ángeles trabalhasse apenas enquanto Mario não fosse promovido e conquistasse um salário maior, mas a mulher ama verdadeiramente o que faz e não quer abrir mão do que conquistou na Companhia Telefônica por um capricho patriarcal de Mario. Em meio a um tumulto, é Ángeles quem acaba intercedendo por Alba/Lidia, Marga e Carlota, que chegam atrasadas para o teste, e, com permissão de Sara (Ana Polvorosa), a supervisora, consegue que as três participem da seleção. A partir desse momento, as vidas dessas mulheres se entrelaçam e juntas passarão por momentos de alegria, tristeza e muita sororidade. Sororidade – essa palavra, tão usada da boca pra fora em algumas produções – parece marcar o tempo de Las Chicas del Cable. Embora, a princípio, pareça improvável uma amizade verdadeira surgir entre mulheres tão diferentes e com histórias tão distintas, acompanhamos no decorrer dos episódios um sentimento genuíno e muito bonito despertar entre as quatro. Alba ergue grandes barreiras em volta de si, não se permitindo confiar ou amar alguém depois de uma grande desilusão, mas até mesmo ela, com o desenvolver do relacionamento entre as quatro, começa a dar um imenso valor a amizade que nasce ali.

Las Chicas del Cable aposta nas histórias dessas mulheres para avançar sua trama, mas escorrega em alguns momentos ao assumir um tom muito dramático e até mesmo novelesco como, por exemplo, quando começa a destrinchar o relacionamento de Alba e Francisco (Yon González), diretor da Companhia Telefônica. A história de encontros e desencontros entre os dois, apesar de parte essencial da trama, por vezes se torna piegas e muito clichê. O casal, quando jovem, fugiu de suas famílias em direção a Madrid para começar uma nova vida, mas são separados na estação de trem e ficam dez anos sem saber do paradeiro um do outro. Enquanto Alba vai presa por um mal entendido, Francisco busca por ela em todas as pensões, hotéis e hospitais em Madrid, mas sem sucesso. Enquanto está presa, a jovem Alba conhece Victoria (Kiti Mánver) uma senhora rica e dona de um bordel, que resolve ajudá-la; mas com segundas intenções. Victoria ensina a Alba um modo de viver em que a jovem aprende a tirar vantagem dos homens ao seu redor, e isso se torna a nova personalidade de Alba, agora Lídia, quando ela reencontra Francisco depois da década que passaram separados. Francisco também não ficou estacionado no tempo esperando o retorno de Alba e construiu uma vida para si mesmo ao conseguir entrar para a família Cifuentes – dona da Companhia Telefônica – por meio do matrimônio com Elisa (Ángela Cremonte), irmã de seu melhor amigo, Carlos (Martiño Rivas).

Tanto Alba quanto Francisco mudaram muito na década que ficaram separados. Há muitas mentiras e desencontros na história dos dois e eles não parecem conseguir lidar muito bem com isso. Ainda que o relacionamento e a forte tensão entre os personagens permeie toda a trama de Las Chicas del Cable, essa história acaba ficando muito fraca perto das tramas de Carlota e Ángeles, por exemplo, que possuem uma carga dramática maior se tudo for colocado em uma balança (metafórica, é claro). Não nego que, por vezes, me vi torcendo por um desfecho positivo para Alba e Francisco, mas o amor dos dois parece ter sido fadado ao fracasso desde o início, mesmo com a constante insistência de Francisco para fazê-los dar certo – que chega a ser insuportável e fora de lugar, visto que ele está casado com Elisa e a ela deve sua lealdade. Alba, enquanto isso, continua tentando realizar seus planos de roubos para se ver livre do delegado Beltrán mas, em uma inesperada manobra do destino, se vê verdadeiramente apaixonada por Carlos, que não faz ideia de que ela seja o antigo amor de seu melhor amigo.

As idas e vindas entre eles continua presente nos oito episódios – algumas vezes, contadas em um tom romântico e verossímil, em outras, apelando para frases de efeitos e muitos olhares intensos. O fato é que romance é uma parte intrínseca da vida de muitas pessoas, mas tal enredo perde força perto de outros acontecimentos da série. A história de Ángeles, por exemplo, que lida diretamente com relacionamentos abusivos e como a lei espanhola da época protegia única e exclusivamente o homem, deixando a mulher completamente desamparada quando era agredida ou temia pela vida, me parece muito mais importante do que um triângulo amoroso. 

Ángeles não quer deixar seu posto na Companhia Telefônica e Mario é completamente contra, quase como quem não consegue admitir que a esposa trabalhe e que ele não seja mais o único provedor da família. Como se isso não bastasse, Mario trai a esposa constantemente com Carolina (Iria Del Río) e não se sente o menor remorso por isso – para ele, ter várias mulheres está em seu direito enquanto homem e a única pessoa dentro do casamento que deve alguma coisa ao outro, é a esposa. Quando confronta Mario por todas as traições, Ángeles sente a fúria do marido que a espanca violentamente, o que a leva, inclusive, a perder o filho que estava esperando. Assustada e com medo do que o futuro possa reservar a ela e sua filha, Ángeles planeja, com apoio de Alba, Carlota e Marga, uma fuga para Barcelona. A lei espanhola não está ao seu lado e fugir é a única opção que lhe resta para se ver livre dos punhos de Mario e, embora as quatro amigas consigam planejar toda a fuga com cuidado, Mario descobre o paradeiro de Ángeles e toma a filha dela, deixando-a sozinha e desesperada. Ángeles não tem para onde correr: a lei está ao lado do marido e o único meio de conseguir o “divórcio” – o que é completamente bizarro – é por meio da morte de um dos cônjuges. 

A trama de Ángeles demonstra bem o que era ser mulher em 1928. Não havia qualquer direito ou proteção e, como uma das frases da série frisa bem, as leis foram feitas por homens e para homens. Eles tem todos os direitos que nós não temos. Mulheres são seres de segunda classe. Ainda que o movimento sufragista estivesse ganhando força e cada vez mais adeptas – como Carlota e Sara –, o mundo ainda era um mundo de homens, feitos por eles e para eles, e às mulheres nada restava. E na luta para conquistar um mundo novo se encontram Carlota e Sara, que enxergam no movimento sufragista uma luz no fim do túnel para toda a desesperança de ser mulher.

Carlota não esperava encontrar Sara, a supervisora das telefonistas, em uma palestra sufragista, mas a partir desse inesperado concatenar de ideias, nasce um relacionamento que, para Carlota, era impensável. A atração entre as duas acontece quase sem querer, uma admiração que, de repente, parece algo mais. Carlota não parecia sequer se dar conta de que é possível, sim, amar outra mulher, e se surpreende com o beijo que Sara lhe dá. Nas palavras da própria Sara, somos criadas para entender que só há um tipo de amor possível e que tudo fora dessa linha padrão é errado. Mas como amar pode ser errado? Mesmo que mantenha um relacionamento com Mario, de quem gosta muito, Carlota não consegue deixar de sentir atração por Sara e se deixa levar, descobrindo o amor com outra mulher de uma maneira muito delicada e terna. A forma como Las Chicas del Cable aborda o bissexualidade de Carlota em plena década de 1920 é digna de nota: apesar de o relacionamento entre as duas ainda não ser exatamente público, tudo é escrito de um jeito tranquilo e sereno, como se não houvesse motivo para exaltação – e de fato não há. Ainda que a série traga Mario para o relacionamento – seria o trio poliamoroso ou apenas um meio de colocar um ménage entre duas mulheres e um homem para deleite da audiência? – ainda há que se levar em conta que a abordagem da série foi simples e direta, sem grandes dramas ou artifícios.

Em Las Chicas del Cable, cada personagem – Alba, Marga, Ángeles e Carlota – representa um tipo de mulher, seus medos e seus sonhos. Alba procura recomeçar a vida, procurando ser verdadeira pela primeira vez em muitos anos, prezando as amizades recém conquistadas enquanto decide entre um novo amor ou seu antigo; Marga aprende a confiar em si mesma, crescendo e se tornando uma mulher completa ao deixar o medo do desconhecido para trás, aprendendo a viver em Madrid longe de tudo o que lhe é caro; Ángeles, que a princípio parecia ter o “pacote completo” com marido e filha, descobre que sua vida está longe de ser um conto de fadas, lidando com o lado amargo do amor; e Carlota, em sua luta pelas mulheres e sua auto-descoberta de que amor é muito mais do que aquilo que nos ensinam e que não há cartilha para nos diga como sentir.

Las Chicas del Cable não é uma série perfeita mas entrega uma primeira temporada consistente, com uma boa trama e personagens femininas inteligentes, carismáticas e imperfeitas. Ainda que completamente diferentes uma das outras, Alba, Marga, Carlota e Ángeles, conseguem construir uma amizade sólida e ímpar, onde uma fará de tudo pelo bem estar da outra. Tanto se fala de feminismo e sororidade que é um alívio assistir uma série que fala das duas coisas sem usar de didatismos – nós vemos que as protagonistas se importam umas com as outras, a amizade que nasce entre elas é o coração da série e sem isso nada seria tão interessante. O desenvolvimento de todas as personagens acontece devido à essa amizade tão inesperada, e é belo ver mulheres se apoiando não importa o quê. Claro que ainda temos Carolina como a amante de Mario e que trama para revelar a verdadeira identidade de Alba para todos mas, como disse, a série comete erros em alguns momentos mas, no geral, tem mais acertos do que equívocos.

O romance entre Alba e Francisco às vezes soa forçado e a insistência dele em fazer com que Alba volte com ele é até desnecessária, mas a trama melhora exponencialmente quando Alba e Carlos começam a se envolver. Apesar de construído com base em mentiras – pelo menos por hora –, o relacionamento de Alba e Carlos é muito mais leve do que entre ela e Francisco, então é fácil torcer pelo primeiro em detrimento do segundo. Outro ponto positivo da série, que vale ser mencionado, é a riqueza de detalhes que a produção colocou para nos transportar diretamente de nossos quartos e computadores para a Madrid de 1928: os figurinos são belíssimos e a arquitetura enche os olhos, nos fazendo desejar, mesmo que por um minuto, usar vestidos esvoaçantes e batons escuros – mas, ei!, quem está nos impedindo? A trilha sonora contemporânea é outro ponto de destaque da série que consegue mesclar com maestria o lado mais “histórico” de Las Chicas del Cable com a música nossa de cada dia.

A mensagem que fica ao final dessa primeira parte da temporada de estréia de Las Chicas del Cable – ainda teremos mais oito episódios na segunda parte! – é a da importância da amizade entre mulheres e como é essencial lutar pela igualdade de gênero. Ainda que envolta em papel bonito e brilhante, a série acerta ao nos lembrar de que é importante lutar, ainda que a batalha seja longa e cansativa. Como ouvimos Alba narrar bem no início do primeiro episódio em 1928, havia 2 bilhões de pessoas no mundo com suas próprias esperanças, seus sonhos e seus problemas. A vida não era fácil para ninguém, mas menos ainda para uma mulher. Não éramos livres, mas sonhávamos com liberdade. O ano é 2017 agora, muita coisa mudou mas ainda sonhamos com liberdade. E continuamos dispostas a lutar e anos apoiar. Não importa o quê. 

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