TV

Las Chicas del Cable: em busca de si mesmas

A segunda temporada de Las Chicas del Cable – As Telefonistas, em português – estreou no catálogo da Netflix no final de dezembro. Enquanto isso, no universo da série, estávamos entrando em 1929 por meio de uma comemoração de Ano Novo na Companhia Telefônica de Madrid. Passados seis meses desde a última vez em que encontramos Lidia (Blanca Suárez), Ángeles (Maggie Civantos), Marga (Nadia de Santiago) e Carlota (Ana Fernández), muitas coisas mudaram na dinâmica entre as personagens, mas o elo que as une permaneceu e se tornou ainda mais forte.

Aviso: este texto contém spoilers!

Utilizando-se de um recurso narrativo muito conhecido dos fãs de How to Get Away with Murder – apresentar um evento acontecendo apenas para retroceder no tempo no momento seguinte, deixando a audiência curiosa a respeito do desenrolar da história que levou os personagens àquela situação –, Las Chicas del Cable dá início ao seu segundo ano com as quatro amigas despejando um corpo enrolado em um lençol em um dos rios que circunda Madrid. Se na primeira temporada Alba foi presa por um crime que não cometeu e foi chantageada para conquistar sua liberdade, agora não é apenas ela a estar envolvida em um delito, mas as quatro amigas.

Ángeles, que permaneceu em um relacionamento abusivo com seu marido, Mario (Sergio Mur), quando seu plano de fugir com a filha deu errado, se vê, desde então, procurando uma alternativa para reconquistar sua liberdade. A lei espanhola não permite divórcios a não ser que um dos cônjuges tenha falecido, e Ángeles não vê outra saída para preservar sua vida que não seja colocar um fim na de Mario. O marido continua a agredi-la e os pedidos de ajuda por parte de Ángeles não são o suficiente para uma lei que não valoriza a vida da mulher. Exausta das agressões, Ángeles começa a envenenar o marido, mas Mario descobre o que ela está fazendo e, novamente, passa a agredi-la – dessa vez ele arrasta a esposa para fora da comemoração de Ano Novo na Companhia Telefônica, mas Ángeles não está sozinha e conta com a ajuda de Lidia, Marga e Carlota, que tentam parar Mario antes que algo pior aconteça.

O pior acontece, dessa vez, mas não com Ángeles que, anteriormente, chegou a sofrer um aborto por conta das agressões infligidas por Mario. Com um taco de basebol esquecido no terraço da Companhia Telefônica, onde a cena se desenrola, Ángeles acerta o marido enquanto ele tenta enforcar Lidia, que foi em socorro da amiga. Mario cai, já sem vida, e as quatro amigas se deparam com uma situação que voltará a assombrá-las durante todos os oito episódios da temporada. Em meio ao pânico que se desenrola, é Lidia quem tem o sangue frio para decidir o que fazer com Mario, e as quatro se unem para se desfazer do corpo sem que ninguém da Companhia Telefônica note o que está acontecendo. Ainda que o ideal fosse avisar a polícia e tratar tudo como um acidente, elas decidem, para o bem de Ángeles, lidar com o assunto sozinhas.

Ainda que Las Chicas del Cable derrape inúmeras vezes ao forçar a mão no drama e nas situações inverossímeis, é difícil deixar de se importar com as personagens e seus destinos. Ángeles, que sofreu horrores nas mãos de um marido abusivo, vê na morte do mesmo sua chave para a liberdade e para ser sua própria pessoa pela primeira vez em muitos anos. Sua transformação e evolução enquanto personagem é a mais notável da segunda temporada, o que demonstra sua resiliência. Conseguindo a liberdade que tanto almejou, Ángeles pode decidir o que fazer com a própria vida, como se vestir e que cor de batom usar – situações tão banais que lhe foram roubadas pela vilania de seu marido. Se antes, com Mario, Ángeles era a figura apavorada e com medo constante, agora ela consegue se redescobrir enquanto mulher, o que envolve até mesmo um relacionamento intenso e recheado de segundas intenções com o detetive que investiga o desaparecimento de Mario, o Inspetor Cuevas (Antonio Velázquez). A nova Ángeles usa as cartas que tem em mãos para manter-se livre, ainda que isso não dure para sempre. Das quatro personagens principais, é Ángeles a responsável por conduzir a trama da segunda temporada de Las Chicas del Cable, desbancando até mesmo a exaustiva trama de Lidia e a eterna dúvida da mocinha: escolher entre o amor de Francisco (Yon González) ou de Carlos (Martiño Rivas). 

Toda a trama envolvendo Lidia, inclusive, rodeia o já conhecido e batido triângulo amoroso. Ao final da primeira temporada, a moça rouba o projeto do Rotary 7, responsável por automatizar o serviço telefônico, o que tornaria dispensável o cargo de telefonista, e deixa Francisco e Carlos em má situação com a Companhia Telefônica. Francisco foi afastado da empresa e Carlos tenta recuperar o cargo de diretor, mas no meio do caminho está o que ambos sentem por Lidia, e o que farão para recuperá-la. Ou não. Os oito episódios da segunda temporada são um eterno vai e vem entre Lidia, Carlos e Francisco. Em um primeiro momento, todos querem se vingar uns dos outros mas, no momento seguinte, já estão em dúvida a respeito do que sentem. É um pouco cansativo assistir a essa repetição de encontros e desencontros, e a carga dramática investida nessa trama poderia facilmente ser resolvida em poucos episódios e não ter sido dispersada durante toda a temporada.

Ainda que seja uma série da Netflix, Las Chicas del Cable parece retirar muito de sua inspiração das tramas novelescas, e, talvez por isso, o triângulo amoroso entre Lidia, Carlos e Francisco tome tanto tempo de tela. Não há nada de errado em uma mulher ficar em dúvida entre o pretendente ‘x’ ou ‘y’, mas sua vida não deve se basear apenas nisso. Mesmo que Lidia seja a responsável por gerir um projeto ambicioso na Companhia Telefônica, pouco se fala sobre isso além do que é necessário para criar atrito entre ela, Franciso e Carlos. A própria série enaltece a importância de haver uma mulher à frente de um projeto tão importante, mas pouco faz para, de fato, mostrá-la dirigindo-o. Se Las Chicas del Cable pretende mostrar mulheres independentes como protagonistas de suas próprias histórias, a série erra ao se prender em um assunto tão batido quanto o “quem a mocinha escolherá ao final”.

Lidia é uma personagem rica e interessante por si só, com um passado que ainda não descobrimos totalmente e que poderia ter tramas diversas além de escolher entre Francisco e Carlos. A começar por seu projeto de cabines telefônicas públicas para Madrid e a vontade que ela tem de se tornar diretora da Companhia Telefônica. Na primeira temporada de Las Chicas del Cable, Lidia entrou na empresa como telefonista apenas para cumprir uma exigência de seu chantageador, mas terminou por encontrar não apenas um trabalho de que gostava, mas também amigas importantes. Com tantas tramas possíveis a disposição, é uma pena que os roteiristas tenham optado por duas das mais simples para desenvolver a história de Lidia: um triângulo amoroso e uma gravidez inesperada. A exemplo da primeira temporada, ainda há muitas mentiras e desencontros nas histórias dos três e tanto Lidia, quanto Francisco e Carlos, metem os pés pelas mãos inúmeras vezes, e nem sempre tentando acertar. O orgulho ferido de cada um deles é capaz de causar diversos estragos em seus relacionamentos e alguns desses erros são irreparáveis. As falhas dos personagens – que poderiam ser as características responsáveis por aproximá-los do público –, aqui só nos faz sentir incômodo diante de tantas idas, vindas e indecisões.

Enquanto isso, quem não tem dúvidas a respeito de suas ações é Sara (Ana Polvorosa). Quando o relacionamento poliamoroso entre ela, Carlota e Miguel (Borja Luna) teve início na temporada anterior, nos surpreendemos pela virada de roteiro de Las Chicas del Cable, e agora, nos novos episódios, utilizando-se de um gancho deixado ao final da primeira temporada, vemos Sara assumindo para si mesma e para Carlota uma verdade com que sempre conviveu: o fato de sentir-se presa no corpo errado. Se em pleno 2018 pessoas trans ainda sofrem preconceito e violência – o Brasil, por exemplo, é o país com maior índice de assassinatos de transexuais e travestis, segundo dados de 2016 –, o que dirá no ano de 1929. Sara, no entanto, quer entender o que se passa com ela visto que, desde muito nova, sentia-se estranha ao olhar para o próprio corpo, não reconhecendo como sua verdade aquilo que encarava no espelho.

Dessa maneira, Las Chicas del Cable insere uma trama intensa e dolorida na busca de Sara por compreensão a respeito de quem ela verdadeiramente é. Procurando entender-se melhor, Sara decide passar por uma avaliação médica; ainda que receosa a respeito do tratamento escolhido por Sara, Carlota a apoia com todo seu amor, enquanto Miguel se afasta, sem aceitar o que está acontecendo, com ciúmes do relacionamento entre as duas mulheres. O que se passa a seguir é um internamento e tratamentos cruéis, visto que o médico ludibria Sara a acreditar que ele poderia ajudá-la quando, na verdade, busca extirpar a transexualidade de seus pacientes por meio de tratamentos que poderiam ser facilmente classificados como tortura. É doloroso assistir Sara passando por esses procedimentos, e o que resta dela, quando Carlota recebe seu pedido de ajuda e prepara uma fuga, é apenas a sombra da pessoa forte e determinada de outrora.

Determinação também pode ser vista como uma das características de Marga, a jovem do interior que chegou à grande Madrid sem saber muito bem como fazer para vencer na vida na primeira temporada, mas que amadureceu e aprendeu a lutar por aquilo que deseja. Mesmo que suas cenas junto de Pablo (Nico Romero) sempre tenham um teor cômico não presente nas tramas das outras personagens, é doce vê-la vencer a timidez, entregando-se a um relacionamento com o rapaz. O que incomoda na trama do casal, no entanto, é o constante retorno de Marisol (Agnés Llobet), cuja única função na trama é tentar atrapalhar o relacionamento entre Marga e Pablo. Esse, inclusive, é um tropo utilizado com recorrência por Las Chicas del Cable: além das constantes maquinações de Marisol para separar Marga de Pablo, ainda precisamos acompanhar o mesmo acontecendo com Carolina (Irina del Río), que reaparece na trama apenas para antagonizar Ángeles e Lidia, e Alexandra (Andrea Carballo), que se coloca entre Carlos e Lidia, criando uma nova dinâmica baseada em ciúmes e dissimulação entre os três. A personagem da mulher ferida e vingativa já deveria ter caído em desuso há muito tempo, ainda mais quando a mesma personagem coloca-se contra outra mulher apenas por conta de um homem que, na maior parte das vezes, nem é tudo isso.

Quem conseguiu se livrar desse estereótipo e abraçou uma nova versão de si mesma, foi Elisa (Ángela Cremonte), esposa de Francisco. Se na primeira temporada Elisa sofreu um colapso nervoso por conta da infidelidade do marido e da presença de Lidia na vida dele, agora ela decidiu que não vale a pena perder sua sanidade por conta de um homem que não lhe valoriza. Lutando contra a própria mãe, Doña Carmen (Concha Velasco), que pretende interditá-la judicialmente, Elisa toma decisões pensando em seu futuro pela primeira vez e se alia a Sebastián Uribe (Ernesto Alterio), novo presidente da Companhia Telefônica, em busca de sua liberdade. Mesmo que a trama de Elisa receba pouca atenção no panorama geral – há muito do já citado triângulo amoroso, além da investigação pelo sumiço de Mario e as quatro amigas desenvolvendo seus próprios dramas –, é interessante ver a personagem desatando as amarras que a mantinham refém de sua família. A questão é que Elisa pensou viver um conto de fadas junto de Francisco, e por muitos anos o considerou a estrela de sua vida; o que ela percebeu, agora, é que pode ser sua própria luz, e isso demonstra o crescimento pessoal muito interessante para a personagem. Ela não precisa de ninguém, além de si mesma, para conquistar a felicidade que deseja.

A segunda temporada de Las Chicas del Cable erra em alguns momentos e na repetição de tramas cansativas, mas ainda consegue entregar episódios interessantes e personagens femininas carismáticas e verossímeis. As quatro principais – Lidia, Ángeles, Carlota e Marga – permanecem totalmente diferentes umas das outras, mas encontram na amizade a força de que precisam para seguir em frente, pulando de mãos dadas as pedras que aparecem no caminho. Mesmo que em alguns momentos elas coloquem a amizade à prova com omissões, o que elas têm em mente, no final, é que todas fiquem bem na medida do possível. A morte acidental de Mario as deixou unidas para sempre, forjando um elo de confiança praticamente inabalável, e a partir disso se desenvolveu toda a segunda temporada. Um ponto positivo disso tudo é que enquanto guardavam um segredo de tamanha magnitude, puderam fortalecer a amizade e a confiança que já existia entre elas.

O triângulo amoroso entre Lidia, Carlos e Francisco, embora cansativo e repetitivo, também tem seus pontos positivos visto que os atores envolvidos têm muita química em cena. É fácil se deixar levar pelo dilema de Lidia quando Carlos e Francisco se mostram tão apaixonados, mas não podemos esquecer que, no frigir dos ovos, ambos tramaram a queda da moça, ainda que os sentimentos que nutrem por ela não os tenha permitido levar a vingança até o final. Ao final do dia, Lidia estaria mais segura – e plena – se ficasse apenas com suas amigas, algo revolucionário não apenas para a fictícia Madrid de 1929, mas também para o universo das séries como um todo. Amor é parte intrínseca da vida de muitas pessoas, mas não precisa ser o único norte da existência de alguém. Lidia é inteligente, cativante e interessante o suficiente para ser completa por ela mesma.

A riqueza de detalhes da produção de Las Chicas del Cable permanece impecável nessa segunda temporada: figurinos, cenários e a arquitetura dão o tom da Madrid do final dos anos 1920 e nos faz desejar sair por aí usando vestidos esvoaçantes, batom vermelho e chapéus combinando. Outra marca registrada da série – responsável por causar estranheza em um primeiro momento – permaneceu, e em sua trilha sonora passeiam músicas inesperadas para o período retratado. Em um momento podemos ouvir uma melodia saída diretamente de Melodrama, da Lorde, para no momento seguinte acompanharmos as personagens em suas centrais telefônicas – a quebra de expectativa ao colocar músicas contemporâneas para acompanhar as cenas de uma drama histórico é interessante, mesmo que não funcione perfeitamente em todos os momentos. De maneira geral, a segunda temporada de Las Chicas del Cable cumpre sua função de progredir com as tramas de Lidia, Ángeles, Carlota e Marga, mas peca ao cair em velhos clichês televisivos. Os episódios se encerram com um cliffhanger interessante para Lidia e Ángeles (em tempo: o que aconteceu com a pequena Sofia?!), e só nos resta aguardar a terceira temporada para descobrir o que o destino – e a sala de roteiristas – reserva para cada uma delas. Se na primeira temporada as quatro amigas estavam em busca de liberdade, aqui elas buscam a si mesmas.

Posts Relacionados

2 Comentários

  • Responda
    Chai
    19 de Janeiro de 2018 at 12:51

    Oi Thay! Gostei muito do teu texto, concordo bastante com a tua opinião sobre essa segunda temporada. Achei meio incômodo terem abusado tanto da velha rivalidade mulher x mulher. Ainda vejo Chicas del Cable como uma série de mulheres, os homens são quase como complementos ao meu ver.
    Acho que a terceira temporada tem algumas coisas interessantes para apresentar e poder correr atrás de melhorar os problemas dessa.

    • Responda
      Thay
      20 de Janeiro de 2018 at 19:22

      Oi Chai! Obrigada pelo comentário!
      Concordo com você, os personagens masculinos não trazem tanto peso para a história; tudo em Las Chicas del Cable se desenvolve por causa e para as personagens femininas, e isso é ótima! Espero que na próxima temporada os roteiristas pesem menos a mão no triângulo amoroso e deixem Lídia com uma autonomia maior, e que parem de colocar mulheres competindo por embustes. 😉

    Deixe um Comentário