TV

Laços de Família e a representação feminina na obra de Manoel Carlos

Eu tenho uma tendência doentia a me derreter inteirinha pela ficção e me apegar de uma maneira que fico realmente desolada quando termino um livro, uma série ou uma novela. Foi assim que aconteceu em 2005 quando eu tinha 13 anos e finalmente assisti Laços de Família, reprisada no Vale a Pena Ver de Novo – já que quando eu tinha 8 anos e o folhetim foi transmitido pela primeira vez, eu não me interessa por “novelas de adulto”.

Essa novela me deixou tão transloucada que o último capítulo eu gravei em VHS (VHS!) e devo ter assistido, sei lá, umas 50 vezes. Tinha vezes que eu assistia 3 vezes por dia – sempre assistindo pelo menos umas 5 vezes a cena final. Deu para entender o turbilhão que isso foi na minha vida? Pois bem, agora dá para imaginar o tanto que eu pirei de emoção quando descobri que a novela seria reprisada DE NOVO, dessa vez no Canal Viva. Desde o dia 15 de fevereiro, eu estou na cilada de assistir Laços de Família de novo e a experiência não podia estar sendo mais diferente da primeira vez. Antes, se os sentimentos eram os únicos fatos, agora não são mais. Não têm como ser.

Em 2014, eu tentei assistir Em Família, afinal de contas, apesar de não ter gostado muito nem de Páginas da Vida nem de Viver a Vida, sentia que tinha um compromisso velado com Manoel Carlos. Essa tentativa deu muito errado porque eu não suportava mais ver a Luiza (Bruna Marquezine) berrando e falando bobagens na cara da mãe, isso para começo de conversa (não quero nem começar a falar do personagem do Gabriel Braga Nunes). Magoadíssima, eu assistia às cenas totalmente indignada, pensando ONDE ESTAVA escondido o MEU Manoel Carlos. A verdade foi que, agora, com o retorno de Laços de Família, eu descobri que o Manoel Carlos de Em Família estava ali o tempo todo, eu é que ainda não tinha aprendido a ver – e que, agora que a Inês está morta e não dá mais para “desver”, eu sigo assistindo a novela, mas passo raiva dia sim, dia também.

Por trás do discurso de quem ama, respeita e sabe falar da alma das mulheres (?), foi um baque quando eu percebi que Manoel Carlos é na verdade um misógino. A palavra é pesada? Eu também acho. Mas se não for assumindo que ele deve carregar essa alcunha, como explicar, por exemplo, que em praticamente todas as suas novelas mãe e filha não se bicam? A Helena de Laços de Família (Vera Fischer) deixou claro nas primeiras semanas que paixão mesmo ela tinha pelo Fred (Luigi Baricelli), o filho mais velho, homem, repetindo aquele velho clichê de que mulher é mais difícil, mulher disputa, enquanto homem é um amigo fiel e tem uma ótima relação com a mãe. Como explicaríamos também a problemática de Pedro (José Mayer) batendo de CINTA na prima de 19 anos (Deborah Secco) em praticamente metade das cenas dos dois juntos? São cenas recorrentes onde ele a deita em seu colo, de bruços, e bate. Em uma das vezes, inclusive, ela estava só de blusa e calcinha.

Valkirias-Laços-de-Familia-2

Não para por aí porque ainda temos a relação completamente equivocada dele com a Cínthia (Helena Ranaldi): ele a xinga, desmerece seu trabalho, não cansa de dizer que ela é uma péssima veterinária de cavalos só por ser mulher (segundo ele, veterinária mulher tinha que se ater a cuidar de gatos e cachorros de madame) e…. tranca a porta do escritório para agarrá-la sem que ela tenha qualquer chance de fugir. Uma dessas cenas, por sinal, foi praticamente um estupro consolidado: ela precisou pegar um martelo (!) para se defender, mas voltou para a casa carregando o peso de saber (!) que estava dando moral para ele sim, porque, “secretamente”, o deseja também… Oi?

Dentro do âmbito do abuso ainda podemos citar o caso de Danilo (Alexandre Borges), que assedia a empregada da casa, Rita (Juliana Paes), que sempre cede, achando graça das “brincadeirinhas” do patrão, que pede, por exemplo, para que ela se abaixe e ele consiga ver sua bunda aparecendo quando o curtíssimo uniforme de trabalho levanta; ou o caso de Capitu (Giovanna Antonelli), que é garota de programa e passa por maus bocados com Orlando (Henri Pagnocelli), um cliente que absolutamente não aceita que ela não queira mais sair com ele ou mesmo largar a prostituição. Ele faz coisas como rasgar sua roupa, puxar seu cabelo, bater em seu pai e invadir seu prédio gritando. Nada acontece com ele.

Podemos falar um pouco do mocinho? Podemos. Edu (Reynaldo Gianecchini) é um tremendo babaca, mimado, criado a pão com leite pela tia, que absolutamente não aceita ouvir não. Parece tudo muito uma brincadeira, ainda mais se a gente cai nas graças do sorriso do Giane, mas alguém aqui assistiu a novela desde o início e lembra do que ele fez com a Helena? Foi assim: eles bateram no carro um do outro e ele já saiu do carro reclamando que a culpa tinha sido dela. Pouco depois disso ele simplesmente CISMOU com ela e decidiu que conseguiria ficar com ela de QUALQUER maneira. Ele ligava sem parar, aparecia na casa dela sem avisar e fazia questão de entrar. Se ela recusava qualquer coisa, ele insistia. No dia em que os dois transaram pela primeira vez, ele chegou na casa dela e simplesmente entrou na suíte, sem nenhum convite e nenhuma permissão. Quando ela disse que não queria, ele pouco se lixou. Continuou sorrindo e começou a beijá-la. Colocamos aí então na nossa conta dois personagens centrais da trama que não-aceitam-ouvir-não-de-mulher. Que maravilha, né?

Valkirias-Laços-de-Familia-3

Ainda no âmbito Edu, temos tia Alma (Marieta Severo), que é completamente obcecada pelo sobrinho homem e vive destratando Estela (Júlia Almeida), a sobrinha mulher. “As meninas são sempre mais ingratas mesmo”, já disse mais de uma vez após discutir qualquer bobagem com a moça.

Dentro das relações femininas continuamos com as péssimas demonstrações: outra dupla de mãe e filha que vive em pé de guerra (Ema e Capitu), mulheres que medem forças o tempo todo, melhor amiga que fala mal da outra pelas costas por causa de homem e ainda dá para mensurar o triste fato de que 99% das conversas de rodinhas de mulheres da novela são sobre homens, afinal de contas, que outro assunto interessante mulheres poderiam ter para conversar, não é mesmo?

É triste encarar esse fato de nos depararmos, dia após dia, com representações femininas de péssima qualidade por aí e machismo sendo constantemente reafirmado. Tenho vontade sair nas ruas levantando a plaquinha do desserviço: imagina um adolescente vendo a novela e aprendendo que está tudo bem se ele não respeitar o NÃO de uma mulher?

Manoel Carlos, imagino que você não tenha feito por mal – só que muito homem segue fazendo merda atrás de merda e dizendo que não foi por mal. No entanto, quando, além de nos sentirmos mal representadas, somos obrigadas a vê-los ganhar respaldo da televisão aberta para justificar o que fazem a gente tem, sim, o direito de não engolir.

Posts Relacionados

9 Comentários

  • Responda
    Nana Castro
    7 de julho de 2016 at 14:34

    Muito bom esse texto!
    De uns tempos pra cá, não tenho mais paciência pra esse tipo de representação. Tentei ver a novela, pois como você disse tb, qdo eu era adolescente eu amava. Não dei conta. 😛

    • Responda
      Analu
      7 de julho de 2016 at 15:13

      Oi Nana, tudo bem?
      Que bom que gostou do texto! Pois é, a gente fica cada vez mais irritada ao perceber essas coisas, né? Eu continuo assistindo, mas passando raiva atrás de raiva…
      Beijos!

  • Responda
    Rodrigo
    8 de julho de 2016 at 10:28

    Excelente texto! No capítulo de ontem, Cinthia foi claramente estuprada e depois a personagem meio que confessa ter gostado. E Pedro falou tanto absurdo que eu fiquei com nojo. Sigo assistindo à novela e bastante chocado como “estava tudo bem” isso no início dos anos 2000. Ainda há muito para mudar, mas acredito que certas coisas tenham evoluído na dramaturgia. Pelo menos hoje é um pouco estranho engolir uma novela na qual as empregadas dormem na casa dos patrões, são todas negras e só servem para ser o alívio cômico

    • Responda
      Analu
      8 de julho de 2016 at 11:44

      Olá Rodrigo, tudo bem? Que bom que gostou do texto! Pois é, essa questão das empregadas também me irrita demaaaaais, tanto a retratação das “empregadas colocadas no lugar delas” de uniforme e tudo o mais na casa da Alma quando a retratação da “empregada quase da família” representada pela Zilda. Elas absolutamente não tem vida, todos os diálogos da Zilda são: oferecendo comida, falando que vai ao mercado, dando pitaco na vida das patroas ou pedindo pra ir no pagode já que já terminou suas funções do dia. Ela não tem horário!!!! Se alguém quer um chá de madrugada ela se levanta e vai fazer, sabe? Jesus, é uma tragédia. Esse texto podia ter mais 20 parágrafos e ainda não ia caber…
      Abraços!

  • Responda
    Rafaela Camargo
    8 de julho de 2016 at 12:18

    Nossa, perfeito o texto! No meu trabalho hoje deixamos a tv ligada e acabamos assistindo o Vale a Pena ver de Novo. A novela que está sendo reprisada no momento é Anjo Mau e me lembro de ter assistido quando tinha uns 10 anos e gostado. Hoje é só o horror! Parece que foi escrita 50 anos atrás e tudo que as mulheres queriam era casar. É um show de misoginia e racismo, de deixar qualquer um constrangido.

    • Responda
      Analu
      8 de julho de 2016 at 12:23

      Oi Rafa, tudo bem? Então, tá difícil, né?? Eu, como uma boa noveleira nostálgica sempre tive um sonho guardado de assistir às novelas antigas mesmo, daquelas que eu só ouvia falar na boca de mães, tios, avós.. mas ultimamente ando me libertando dessa vontade pois se numa novela de 2000 só to achando treta IMAGINA nas mais antigas, socorro!
      Beijos!

  • Responda
    Gabriela
    12 de julho de 2016 at 10:58

    Quando essa novela passou pela primeira vez, eu tinha 10 anos, assistia e amava. Minha personagem favorita era a Íris, lembro que eu adorava ela e por isso mesmo, ficava muito triste quando ela apanhava (ficava mesmo, rs). Lembro de alguma cena onde a mãe dá uma surra nela de cinto. Enfim, algumas novelas depois e eu iria amar a Dóris, de Mulheres Apaixonadas. E ela também leva um surra de cinto se não me engano, do pai. As surras que corrigem elas, né? Eu estava falando com a Paloma outro dia sobre a construção dessas personagens “ninfetas” e depois acabei pensando comigo sobre as “domadas”, tipo a Catarina em “O Cravo e a Rosa”. Em “Oz Dez Mandamentos”, tinha a Zípora – que era brava e tinha uma personalidade forte – e rolava muito esse discurso de que o Moisés precisava “domar” a fera, bem nessa comparação da mulher com um animal que precisa ser contido (o mesmo discurso do Petruchio em “O Cravo e a Rosa”). Se a gente excluir as “ninfetas” e as “domadas”, que tipo de mulher que sobra?

    E são mulheres em fases diferentes, as mais novas, jovens, como a Íris e a Dóris que precisam das surras dos pais; e a Catarina e a Zípora, as mulheres que DEVEM casar e precisam de um homem que as domem. É a mulher que passa de propriedade da família para propriedade de um homem.

    P.S.: Desculpa minha classificação em “as ninfetas” e “as domadas”, mas é o que temos pra hoje.

    • Responda
      Analu
      12 de julho de 2016 at 12:42

      Oi Gabriela 🙂
      Eu sempre detestei a Íris e continuo detestando. Na verdade eu gostaria de ralar a cara dela no asfalto. Na verdade eu gostaria de ralar a cara de 99% dos personagem de Laços de Família no asfalto. E também odiava demais a Dóris. Não lembro de muitas outras facetas dela, mas ELA BATIA NOS AVÓS, socorro. Mesmo assim as questões das surras são realmente complicadas, né? Essa história horrível de que são SEMPRE as mulheres que tem que tomar surras para serem corrigidas. Lembrando aqui, teve isso em outra novela do Manoel Carlos também, “Viver a vida”, que a personagem da Adriana Biroli era bem nível Íris/Dóris e infernizava a vida de todo mundo, até que levou uma surra enorme da mãe. Enfim. Na verdade nem lembro se as surras as corrigiram? Mas o fato é: ele tem mania de mostrar mulher apanhando. QUE BOSTA, né? QUE MUNDO :((((
      Beijos!

  • Responda
    Carolina Leocadio
    30 de outubro de 2017 at 22:19

    Agora o Canal Viva reprisa de novo Por Amor. Desde a antepenúltima exibição da novela (ainda na Globo, pelo Vale a Pena Ver de Novo) eu já tinha mudado de ideia em relação à Eduarda (de ódio a amor) e ao Marcelo (de amor ao ódio) e detectado a misoginia do Maneco, mesmo sendo uma adolescente. Quando a novela foi apresentada no Canal Viva pela primeira vez, eu não tive dúvidas do machismo dele.
    Enfim, eu amo essa novela e nunca entendi por que minha mãe ODIAVA qualquer novela do Maneco até a exibição de Por Amor este ano quando, depois de uma cena de puro machismo, ela comenta: “Por isso não gosto das novelas dele. Ele não sabe representar as mulheres”. E o autor é visto como feministo por trazer personagens feministas independentes de quarenta anos, mostrando inclusive sua vida sexual. Mas ele é homem, não entende as mulheres, romantiza a maternidade e suas novelas provam isso.

  • Deixe um Comentário