MÚSICA

Kim Gordon: A Garota da Banda

A primeira vez que ouvi falar sobre o Sonic Youth foi na letra de uma música. O ano era 2008, eu tinha 15 anos e nenhum juízo na cabeça (não que eu tenha muito hoje), e me interessei pela banda o suficiente para descobrir que o som deles não fazia muito o meu estilo. De lá pra cá, alguns anos se passaram e é verdade que, eventualmente, aprendi a curtir uma ou duas músicas na banda – não o suficiente para me converter completamente ou mudar minha opinião geral sobre o som que eles faziam, mas ainda assim. Nada disso, no entanto, me impediu de colocar as mãos em A Garota da Banda, livro de memórias da Kim Gordon, ex-baixista e vocalista do Sonic Youth e também um dos maiores nomes do rock alternativo.

Vocês devem estar se perguntando: se eu nunca fui fã do Sonic Youth e nunca tive muito interesse pelo trabalho da banda, então por quê eu fui me interessar pelo livro de memórias de uma mulher que, basicamente, passou 30 anos de sua vida tocando nessa mesma banda? A resposta, na verdade, é bem simples: para além dos meus gostos pessoais, sempre tive um interesse enorme pelo relato de mulheres que trabalham (ou trabalharam, em algum momento de suas vidas) com música – o jeito meio ridículo, porém honesto, que eu encontrei de entender melhor um mundo que eu sempre quis estar inserida, mas que por motivos diversos (leiam: falta de talento e determinação) nunca consegui entrar.

Lançado no ano passado, A Garota da Banda, no entanto, não é apenas o livro onde Kim Gordon fala sobre sua trajetória no Sonic Youth, mas sobre sua vida como um todo, da infância e adolescência ao início da carreira, passando pelos perrengues para se tornar artista, os dramas e conflitos de bastidores, as dificuldades por ser mulher num ambiente extremamente machista, relacionamentos e maternidade – em suma, experiências que a transformaram na pessoa que é hoje. O livro começa pelo final, durante o último show do Sonic Youth, em 2011, num festival de música em São Paulo. O fim da banda (que nunca chegou a ser oficialmente anunciado) também marcou o fim do casamento de Kim com Thurston Moore, com quem dividiu os palcos e a vida por quase 30 anos. A partir daí, ela revisita sua própria vida, compartilha lembranças e fala sobre sua trajetória na música e na arte, é claro, mas principalmente como pessoa, com uma honestidade inesperada.

Nascida em Rochester, interior de Nova York, em abril de 1953 – um lugar de céu cinzento, folhas escuras e invernos intermináveis –, Kim viveu na cidade até os cinco anos, quando seu pai foi convidado para ser professor do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e levou toda a família com ele. Foi na Califórnia que Kim viveu a maior parte da sua infância e adolescência, uma experiência às vezes boa, às vezes ruim. Em determinado momento, ela conta que, na adolescência, passou tempo demais oscilando entre querer ser vista como atraente, ao mesmo tempo que ficava aterrorizada por chamar muita atenção, no fundo, querendo se encaixar sem que ninguém percebesse, e que a Los Angeles no final da década de 60 e início da década de 70 era um lugar tão hostil que o simples fato de caminhar por uma rua era algo assustador para uma mulher – uma realidade não muito diferente da que vivemos hoje.

Após o fim do ensino médio, Kim decidiu tirar um ano de folga antes de voltar a se dedicar aos estudos – a saída que encontrou para adiar sua ida para a Santa Monica College e buscar uma alternativa que, de preferência, a levasse diretamente para a CalArts, escola de artes fundada em 1961 por Walt Disney, o lugar onde ela verdadeiramente queria estar. Desde muito cedo, Kim sabia que queria ser artista, embora não soubesse exatamente como chegar lá, e nunca se permitiu pensar em fracassos ou planos b. Mesmo que seus pais fornecessem algum tipo de apoio, eles não podiam bancar todos os seus sonhos, e foi assim que Kim se viu correndo atrás deles por conta própria, trocando de cursos, faculdades, casa e cidade, ralando um bocado e vivendo alguns perrengues até, finalmente, encontrar o seu lugar.

Foi em Nova York, aos 27 anos, que Kim conheceu Thurston Moore e os dois formaram o Sonic Youth, mas sua trajetória na música começou algum tempo antes, meio uma consequência do caminho que ela já vinha trilhando na arte, meio uma vontade de entender a experiência de estar em cima do palco com outros homens, sua relação com a música e, de alguma forma, fazer parte daquilo. Ela não queria olhar para as amizades masculinas de fora, por uma janelinha fechada que nunca te deixa entender por completo o que está acontecendo, mas sim ser a pessoa que olha para as pessoas que estão do lado de fora, com uma superioridade infantil, não muito diferente de tantas outras garotas por aí (e, quando digo tantas outras garotas, também quero dizer eu mesma) que cresceram dizendo que amizades masculinas eram muito mais interessantes e divertidas, e se sentindo superiores de alguma forma por isso, mesmo que no fundo nunca tenham sido verdadeiramente uma parte daquilo. Kim, aliás, rebate muito desse pensamento quando fala da sua própria solidão ao estar numa banda só com outros homens, como eles não conseguiam compreender amplamente a mulher com quem dividiam os palcos, suas necessidades e a complexidade de seus sentimentos.

Isso não significa que Kim não tenha encontrado mulheres com quem pudesse dividir suas mágoas, angústias, projetos e, às vezes, os palcos também, mas, ao mesmo tempo, ela nos apresenta um lado que, cercado por esse imaginário coletivo que tem a música – e a arte, de um modo geral – como um universo glamouroso e inalcançável, repleto de pessoas igualmente glamourosas e inalcançáveis, frequentemente esquecemos: que o caminho trilhado por essas pessoas pode ser também muito solitário, especialmente para uma mulher e, nesse sentido, é triste observar que, embora alguns anos tenham se passado, a música continua sendo um universo predominantemente masculino, que não se esforça realmente para tornar seu espaço mais inclusivo.

No livro, Kim conta que, mesmo que fosse bastante insegura quando começou a tocar, uma vez em cima do palco, ela não pensava no fato de ser a única mulher da banda, se preocupando apenas em fazer com que as pessoas se divertissem enquanto torcia para que as cordas do seu baixo não arrebentassem. No entanto, não demorou muito para que ela se sentisse limitada de alguma forma, simplesmente porque mulheres não são encorajadas a “mandar ver”, mas sim a serem delicadas e controladas – do contrário, serão tratadas como loucas. Não por acaso, cantoras que tentaram ir além, rejeitando o estereótipo no qual a indústria exaustivamente tentou encaixá-las, não duraram muito – como é o caso de cantoras como Janis Joplin e Billie Holiday –, muito diferente do que acontece com muitos homens que inventam modas absurdas o tempo inteiro e nem por isso são condenados de alguma forma, mas são imediatamente elevados ao patamar de deuses.

É uma dualidade ridícula essa, ainda tão presente que chega a ser assustadora (especialmente quando pensamos que ainda estamos tão longe de uma mudança real). Nesse sentido, Kim destaca a importância do movimento Riot Grrl, liderado por Kathleen Hanna, do Bikini Kill, na década de 90 e o termo girl power, mesmo que, algum tempo depois, esse mesmo termo tenha sido utilizado por homens para vender as Spice Girls, um grupo que, segundo a própria Kim, era composto por mulheres moldadas para serem comercializadas como um perfil feminino falso e que, no fundo (ou, talvez, nem tão fundo assim), só serviam para reforçar os estereótipos midiáticos vigentes.

Mesmo firme em sua posição e com opiniões sempre muito fortes, Kim também se questionava sobre seu papel, sentia uma necessidade absurda de agradar, tentava esconder sua sensibilidade, tinha sua confiança constantemente abalada porque não conseguia se encaixar em padrões  com os quais ela nem mesmo se importava (!), lutava contra a própria identidade, sentia como se seu trabalho nunca fosse suficiente ao mesmo tempo que sentia raiva da pessoa que era (!), um sentimento tão presente para muitas de nós, independente do ambiente em que estamos inseridas. A letra de “Shaking Hell”, inclusive, tem uma relação direta com esse sentimento, além de fazer referência a representação da mulher no cinema e na publicidade.

“Em um nível mais pessoal, ‘Shaking Hell’ espelha minha luta contra minha própria identidade e a raiva que sentia sobre quem eu era. Toda mulher sabe o que eu quero dizer quando digo que as meninas crescem com um desejo de agradar, de ceder seu poder para outras pessoas. Ao mesmo tempo, todo mundo conhece os modos às vezes agressivos e manipuladores com os quais os homens muitas vezes exercem poder no mundo, e como, ao usar a palavra empoderamento para descrever as mulheres, os homens estão simplesmente mantendo seu próprio poder e controle.” 

Da mesma forma, muitas das suas letras também falam sobre a experiência de ser a única mulher em uma banda, num ambiente tão machista quanto o do rock (e da música, de um modo geral). Uma das coisas que mais a irritaram, aliás, ao longo de sua carreira, era justamente a insistência dos críticos e jornalistas em perguntarem como era, afinal de contas, ser a garota da banda, como se o fato de ser uma garota alterasse de alguma forma o trabalho que ela fazia em cima do palco. Mais tarde, quando Kim e Thurston tiveram uma filha, a pergunta da vez era “como era ser uma mãe do rock”. Thurston, por outro lado, não precisava lidar com esse tipo de pergunta, mesmo que Coco (a filha do casal), não tenha sido concebida por Kim sozinha.

Embora o livro também mostre a relação que Kim construiu ao longo dos anos com outros artistas (sendo a mais significativa delas, talvez, sua amizade com Kurt Cobain), além de outros projetos idealizados por ela e o fim de seu casamento com Thurston, é ao desconstruir a imagem idealizada das mulheres no rock que ela transforma seu livro em algo tão essencial, não apenas para todas as garotas que em algum momento de suas vidas fantasiaram sobre estarem em uma banda de rock ou para os fãs do Sonic Youth, mas para qualquer pessoa, porque todos, de alguma forma, crescemos sob esse imaginário coletivo e é incrível como a perspectiva de uma pessoa que esteve ali, por um longo período de sua vida, olhando para todos nós do lado de dentro, altera absolutamente tudo. Kim é uma artista singular, inteligente, íntegra, que escreve com uma honestidade absurda e inesperada, e exatamente por isso, transforma seu livro em algo tão especial. Ela termina o livro dizendo que acha que é uma pessoa completamente nova agora, e a sensação que fica, depois de ler 285 páginas sobre sua história, é a de que eu também não vou ser mais a mesma.

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