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Kara e Alex Danvers: o poder das irmãs em Supergirl

Quando comecei a assistir Supergirl, logo após sua estréia em 2015, não estava preparada para gostar tanto da série. Com um frescor totalmente novo para seriados sobre super-heróis, as tramas envolvendo a última filha de Krypton sempre prezaram por um discurso livre de preconceitos e repleto de empoderamento feminino – mesmo que muito didático, no começo –, nos presenteando com uma série como há muito não se via. Dentre todas as tramas e personagens carismáticos, um dos relacionamentos mais preciosos que a série nos dá é justamente o das irmãs Alex (Chyler Leigh) e Kara (Melissa Benoist).

Após a nave que a transportava chegar na Terra, é a família Danvers que acolhe Kara Zor-El. Alex certamente não esperava ganhar uma irmã naquele momento, muito menos uma irmã de outro planeta. Acolhida por Eliza (Helen Slater) e Jeremiah (Dean Cain), Kara encontrou nos Danvers uma família amorosa, compreensiva e gentil, embora, por algum tempo, a adolescente Alex não tenha encarado a novidade da melhor maneira possível. Em um dos episódios da primeira temporada Alex diz, com todas as letras, o quanto sentia ciúmes de sua nova irmã: antes de Kara chegar, era Alex o foco da família, mas como poderia ela competir com alguém capaz de tocar as estrelas? 

Já adulta e trabalhando para a Cat Co. de Cat Grant (Calista Flockhart), Kara se revela ao mundo ao salvar de uma queda o avião em que Alex viajava. Em um primeiro momento, a irmã parece furiosa com o ato imprudente de Kara, que deveria se preservar e manter sua identidade e poderes em segredo, mas logo os verdadeiros motivos para o rompante de Alex são descobertos: em um misto de ciúmes e preocupação, Alex confessa os sentimentos que carregava desde a adolescência, quando competir com Kara pela atenção dos pais a fazia se sentir diferente e inadequada. Já adulta e com o sentimentos sob controle, Alex acaba aceitando trabalhar para o D.E.O (Department of Extra-Normal Operations) para proteger Kara do seu próprio jeito, demonstrando que o conflito pelo qual passou na adolescência, com a entrada abrupta de Kara para a família Danvers e a sua vida, era coisa do passado.

A presença de Alex no D.E.O., inclusive, é um dos motivos pelos quais J’onn J’onzz (David Harewood) aceita que Kara trabalhe para eles usando o manto da Supergirl. Essa nova interação entre as irmãs servirá para fortalecer ainda mais seus laços, visto que, juntas, a dupla é responsável por salvar vidas diariamente e não importa muito quem tem o poder de carregar aviões ou o conhecimento técnico, as duas formam uma parceria precisa e certeira. Kara e Alex sempre buscam na outra o apoio necessário para passar por um momento difícil, o conselho carinhoso de que precisam, o abraço reconfortante ou alguém para dividir uma pizza enquanto assistem a um seriado médico (Grey’s Anatomy, talvez?).

O fato é que o relacionamento entre irmãs não é algo muito explorado de maneira saudável nos seriados atuais, muito menos nos seriados cuja temática é de super-herói. Parece que, para ser portador de um poder incrível ou capacidade sobre-humana, a pessoa em questão precisa ter um passado trágico com sua família, ser órfão. E embora Kara seja, de fato, órfã de seus pais biológicos, ela pôde encontrar nos Danvers e em Alex um recomeço. Um episódio muito emblemático que mostra exatamente a importância de Alex na vida de Kara tem lugar na primeira temporada da série: em “For the Girl Who Has Everything”, o 13º episódio, Kara está sob o domínio de uma planta que causa alucinações vívidas, a Black Mercy, fazendo-a acreditar que nunca precisou sair de Krypton. Seus pais estão vivos, sua tia, Astra (Laura Benanti) não foi enviada para a prisão no Fort Rozz e tudo parece estar em seu devido lugar. Em resumo, Kara tem a vida perfeita. 

Só que essa não era a vida perfeita. Nessa vida, Kara não tinha Alex, e foi isso o que a trouxe de volta, fazendo-a se desvencilhar do veneno da Black Mercy e conseguindo, dessa maneira, romper o domínio que as substâncias alucinógenas da planta tinham sobre ela e se libertar do sono eterno em que sua realidade em Krypton era tida como única e real. A presença de Alex, lutando para trazer a irmã de volta do sono em que a Black Mercy a colocou, faz Kara entender que sua vida não é perfeita, mas não é menos especial ou importante por conta disso. Kara pode ter perdido seu planeta e seus pais, pode sentir saudades daquilo que teve quando criança, mas agora a Terra é seu lar e ela pôde encontrar em Alex, e nos Danvers, uma nova família. E mesmo quando Alex precisa tomar a difícil decisão de matar Astra para salvar J’onn J’onzz, alguns episódios depois, os roteiristas não se utilizam desse acontecimento para criar antagonismo ou enfrentamento entre as duas irmãs e, muito pelo contrário, demonstra o quanto elas são maduras e confiam o suficiente uma na outra para conseguir resolver a questão da melhor maneira possível. Embora Kara fique realmente entristecida pela morte da tia e enfurecida com Alex, a última filha de Krypton sabe que sua irmã não tinha escolha e no amor, uma das coisas mais belas, é o perdão.

Aviso: a seguir spoilers da 2ª temporada!

Com o passar dos episódios e decorrer da primeira temporada, fica cada vez mais visível o quanto Alex e Kara se importam uma com a outra. Na 2ª temporada da série, atualmente em exibição nos Estados Unidos pela CW e no Brasil pela Warner Channel, descobrimos que a vida romântica não existente de Alex era muito mais do que um caso de workaholic e possuía raízes muito mais profundas além de uma batalha interna que estava atingindo à superfície com a chegada da detetive Maggie Sawyer (Floriana Lima).

Quando Alex se dá conta de que é lésbica e está apaixonada por Maggie, Kara é a primeira pessoa a quem ela recorre em busca de apoio e conselhos. Kara parece triste quando recebe a revelação de Alex, mas apenas por pensar que, se não fosse por ela e seu segredo pesando sobre a vida da irmã, ela teria se compreendido muito tempo antes. Passar a adolescência protegendo Kara e seu segredo, na visão da kryptoniana, privou Alex de conhecer a si mesma. Alex fica comovida com a visão da irmã e Kara a assegura que ela nunca estará sozinha e que não precisará passar por essa nova fase sem apoio. No momento em que Maggie recusa a investida de Alex, muito gentilmente, devo frisar, Kara se torna superprotetora com relação à irmã – o que é extremamente fofo, real e uma coisa que eu faria em absoluto.

Não é difícil encontrar na cultura pop a representação de personagens femininas competindo e brigando entre si, então é sempre um sopro de ar fresco poder acompanhar um relacionamento tão carinhoso e real como o de Alex e Kara. Elas nem sempre concordam uma com a outra, são mulheres com sonhos e desejos diferentes, mas a maneira como os roteiristas trabalham o relacionamento das duas em Supergirl é sempre delicado e cuidadoso: não há muito que seja capaz de abalar a fé e o amor que uma tem pela outra e mesmo que as discordâncias sejam inevitáveis, Kara e Alex se apoiam e sempre estão lá uma para a outra. Se na cultura pop temos inúmeros exemplos de irmãos convivendo em harmonia e irmãs construídas em cima de competição e arquétipos estereotipados, é sempre um alívio e um contentamento ver uma relação complexa e ao mesmo tempo tão bonita como a das irmãs Danvers.

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