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Juana Inés ou por que uma mulher poderosa incomoda tanto

Eu sempre fui apaixonada por História. Quando era criança, passava horas do dia lendo os livros didáticos dos meus irmãos, procurando por mulheres da vida real que tivessem feito grandes coisas, mas apenas encontrando nomes masculinos nas trocentas páginas daqueles livros gigantescos. O tempo passou, a internet entrou na minha vida e eu comecei a vasculhar os sites por mulheres que tivesse feito a diferença. Naquele ano de 2007, não achei muita coisa, afinal, isso ainda não era muito discutido – e é nessas que a gente percebe o quanto 10 anos fazem a diferença –, mas, alguns anos depois, fui à biblioteca da escola e encontrei um livro (Papisa Joana, Donna Woolfolk Cross, Geração Editorial, 2009, 496 p.) que me satisfez por encontrar uma história que, real ou não, eu sabia que poderia ter protagonizado: a história de uma menina chamada Joana que só queria ler seus livrinhos e ser nerd no seu tempo, mas que foi proibida porque isso “não era coisa de mulher”.

No século IX, a Igreja Católica era cruel: a Inquisição ainda não havia começado, mas a chamada Idade das Trevas já dava seus primeiros passos rumo à intolerância, misoginia e atrocidades. Foi nesse período que surgiu uma das figuras mais debatidas da história clerical: Joana, a Papisa. A história conta que Joana era uma mulher com sede de saber, que buscava o conhecimento e o estudo, porém isso era negado a todas as mulheres naquela época. O que ela fez? Se disfarçou de homem e entrou para a vida sacerdotal para poder ter acesso a livros, estudos e mestres, coisa que só um homem poderia na época. O que resultou disso? Ela acabou se destacando por sua inteligência e perspicácia e se tornou Papa – a primeira e única Papisa da Igreja Católica.

A história parece absurda demais pra ser verdade? Há quem afirme que sim, porém há quem estude evidências e aponte que, de fato, Joana existiu e comandou a Igreja por cerca de 3 anos. Mas mesmo que essa história fosse apenas uma lenda, a de Juana Inés (Arantza Ruiz/ Arcelia Ramírez), a protagonista da nova série da Netflix, não o é.

Juana Inés era uma menina adolescente, do século XVII, quando foi mandada à corte da Vice-Rainha da Nova Espanha (México) para ser dama de companhia. Mas para ela isso não era o bastante: ainda criança, descobriu a biblioteca de seu avô e aprendeu a ler e a escrever sozinha, tornando-se poetisa e estudiosa da literatura disponível na época, ou seja, de teologia e filosofia. Porém, assim como a Papisa, Juana não era permitida a ler ou a escrever porque a Igreja, fortíssima naquela época, comandava também o governo e fazia as leis, proibindo mulheres de ter acesso a quaisquer estudos com o pretexto de que o homem é à imagem e semelhança de Deus e a mulher é apenas um sexo defeituoso, criado somente para servir e procriar.

As opções para as mulheres na época eram casar ou virar freira. Juana, mesmo detestando a vida religiosa e não tendo vocação alguma para tal, decidiu que no convento ela teria mais liberdade pra estudar e escrever do que dentro de um casamento. (Pausa para: o absurdo a que mulheres, ao longo dos séculos, tiveram de se submeter é ultrajante. O casamento não era visto como uma alternativa “correta”, como infelizmente ainda o é nos dias atuais, mas sim como uma obrigatoriedade para que o homem tivesse não apenas uma empregada 24/7, mas também uma parideira oficial, já que jamais assumiria os filhos tidos fora do casamento, que não herdariam suas posses e não tinham os reconhecimentos de propriedade da Família-Abençoada-Por-Deus.) E foi o que fez: a guria virou freira e continuou escrevendo seus poeminhas e acumulando livros, chegando ao impressionante número de 4000 exemplares em sua biblioteca pessoal.

Claro que a Igreja não estava nada contente com isso e a reprimia a todo instante já que a Inquisição estava a todo o vapor na época, mas Juana estava 100% nem aí e apenas afirmava que se Deus não quisesse que ela escrevesse, não teria lhe dado o dom. Mas, mesmo com toda sua resistência, ela teve seus livros e escritos tirados dela por seu confessor, o padre Nuñez, que conseguiu lhe atingir no final de sua vida, com a Inquisição, lhe acusando de pecados inexistentes, que para uma mulher eram a morte, mas para um homem era a glória.

“Meu único pecado foi ser mulher em um mundo de homens.”

A série, produzida pelo canal mexicano Once e disponível na Netflix, retrata muito bem a dificuldade de ser mulher num mundo de homens, num mundo dominado por padres e onde a mulher só tem espaço para servir e servir calada. Trancafiada num convento, não somente por escolha própria, mas por falta de opção, Juana escreveu coisas incríveis como o poema “Homens Néscios”, onde claramente chama os homens de estúpidos e os critica duramente por sua conduta hipócrita, e a “Carta Magna da Liberdade Intelectual da Mulher Americana”, em que defende com fervor o direito da mulher a se expressar, a estudar, a ter sua opinião e inteligência respeitadas. Com tais escritos, Juana Inés pode ser considerada como uma verdadeira precursora do feminismo na América.

A coisa mudou tanto assim?

Olha, sim, mas não.

Na Igreja Católica, as mulheres ainda não têm vez: os poderes estão nas mãos dos homens, que decidem o que vale ou não para seus fiéis. E, até hoje, não houve (outra) Papisa, apenas Papas, que chegam ao poder pelos votos de outros homens. A instituição também ainda é contra os métodos contraceptivos e possuiu, até 1966, sua listinha de livros proibidos (o Index Librorum Prohibitorum, que mesmo tendo oficialmente acabado, ainda existe por baixo dos panos já que os representantes da fé católica continuam proibindo seus fiéis de lerem livros que eles consideram heréticos, como a saga Harry Potter e O Código da Vinci).

Saindo do campo da religião cristã, que é misógina por natureza, temos o educacional, que mostra, em pesquisa feita pelo Editorial J, que apesar de serem em maior número como estudantes, mulheres ainda estão em minoria como docentes. Isso se dá porque as mulheres não estão interessadas em ensinar? Os dados indicam o contrário: a maior parte do corpo docente da educação básica é composta por mulheres; já no ensino superior, a maioria ainda é de homens. Isso nos leva a alguns questionamentos, entre eles o de que uma mulher só é autorizada a ensinar quando cumpre o papel maternal daquela que alfabetiza, daquela que ajuda a criança a dar seus primeiros passos, daquela que é próxima à mãe, mas não quando ela leciona disciplinas em cursos como Direito, Medicina, Jornalismo etc.

Falando em cursos universitários, outro indício de que as coisas mudaram desde a época de Juana Inés, mas nem tanto assim, foi o fato de que a livraria Saraiva fez uma promoção bem bacana pra o Dia Internacional da Mulher: todas as mulheres teriam 50% de desconto nos livros comprados. Legal, né? Exceto pelo fato de que os livros em questão seriam apenas os que se encaixassem em categorias consideradas femininas, românticas, literatura de mulher: nada de didáticos ou nas áreas de Contabilidade, Ciências Biológicas, Exatas, Idiomas, Direito, Engenharia, Medicina, Tecnologia ou Informática. Porque onde já se viu mulher se interessar por isso, não é mesmo?!

Se viu em 1660, no México, quando Juana Inés mostrou pra todo mundo que se não lhe dessem o direito a estudar com um mestre a ensinando, ela seria autodidata e aprenderia em livros que escondia das vistas de todos. Se viu quando Juana decidiu, assim como a Papisa, se disfarçar de homem para poder entrar numa universidade. A coisa não deu muito certo e ela acabou sendo freira, porém seu amor pelo conhecimento não foi calado. Assim como o nosso não o será.

Juana Inés e a Papisa Joana podem ter em comum apenas o nome, a carreira religiosa e a sede pelo saber, pode até ser que a história da Papisa seja uma lenda (porém, tenho cá minhas dúvidas a respeito), mas o que realmente as une é o fato de ambas terem sido temidas pelos homens de sua época, temidas pela Igreja, temidas por uma sociedade que não aceitava – não aceita – que mulheres sejam inteligentes, talentosas e donas de suas vidas. Essa série é incrível, as atuações são maravilhosas, o figurino dá vontade de entrar na TARDIS e pedir ao Doctor pra parar lá por um dia apenas, só pra poder usar aqueles vestidos maravilhosos e aquelas flores no cabelo. Mas a importância dela não é essa. A importância reside em nos fazer conhecer uma mulher poderosa que só não foi mais por causa da maldita misoginia de uma religião arcaica que oprime mulheres há séculos. Vale a pena conhecer a dona Juana e se encantar com os 9 episódios que compõem essa série maravilhosa.

Mia Sodré está há 23 anos ajudando na entropia do universo. INTP, aquariana com ascendente em sagitário e lua em câncer. Faz Jornalismo, mas queria mesmo era ser companion do Doctor ou ser paga para ler livros. Blog | Twitter | Instagram


Nesta semana da mulher, de 1º a 8 de março, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva – Ação Nerd Feminista – para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Momentum Saga, Nó de Oito, Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre, Valkírias, Psicologia&CulturaPop. #WeCanNerdIt 

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1 Comentário

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    Dia Internacional das Mulheres – O que colhemos da Ação Feminismo Nerd 2017?
    9 de março de 2017 at 01:16

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