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Jessica Jones: nós não estamos sozinhas

Jessica Jones não é uma série qualquer. Lançada no final do ano passado, a série chegou para reforçar um movimento ainda recente (mas extremamente necessário) que busca trazer protagonistas femininas para o centro de um universo predominantemente masculino: o dos super-heróis. A série, no entanto, vai além. Se, enquanto super-heroína, Jessica (Krysten Ritter) é uma personagem completa e muito bem desenvolvida em toda sua complexidade, enquanto mulher, ela se torna figura fundamental na representação de um problema que, infelizmente, ainda é muito romantizado na ficção: os relacionamentos abusivos.

Puxem aí na memória: Anastasia Steele e Christian Gray, Bella Swan e Edward Cullen, Rachel Green e Ross Geller, Arlequina e Coringa, Vivian Ward e Edward Lewis. São exemplos clássicos quando falamos sobre a romantização de relacionamentos abusivos; casais que, para além de seus contextos e histórias particulares, têm em comum relações bastante problemáticas, em maior ou menor escala, que são tratadas de forma romantizada – seja no cinema, na literatura ou mesmo na televisão –, reforçando estereótipos e comportamentos nocivos já tão enraizados culturalmente que são encarados como algo natural, um episódio isolado ou um ato passional, um exemplo a ser seguido.

Por definição, relacionamentos abusivos são aqueles em que existe a predominância de poder de um sobre o outro, ou seja, quando uma pessoa exerce controle (econômico, psicológico, físico, etc) sobre o parceiro. Entre os principais indicativos de um relacionamento abusivo estão o ciúmes e a possessividade, chantagem e isolamento, agressividade e violência física, verbal e/ou psicológica. Embora não seja um problema exclusivo de relacionamentos heterossexuais, muito menos do sexo masculino (afinal, mulheres também podem se tornar abusivas), é preciso lembrar que vivemos numa sociedade machista e patriarcal, que trata suas mulheres de forma pouco gentil (pra dizer o mínimo) e que, não por acaso, são essas mesmas mulheres as principais vítimas do abuso. Somos nós que sofremos com o ciúme e a possessividade do outro, somos nós que somos isoladas e agredidas e somos nós que temos nossos problemas ignorados, banalizados ou diminuídos pela sociedade.

Ao romantizar o abuso, a mesma mídia que faz campanha sobre o combate à violência contra a mulher, ironicamente transforma sua vítima em responsável – seja por causa da sua roupa, do seu comportamento, por não ser submissa, por sua condição econômica e social, ou por não aceitar um “we were on a break” como desculpa – e absolve a culpa do verdadeiro culpado, passando a mensagem de que comportamentos nocivos são algo natural. Segundo a ONU (Organizações das Nações Unidas), sete em cada dez mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento de suas vidas e, mesmo assim, o abuso continua sendo tratado de maneira equivocada, leviana e superficial. “É só uma fase ruim”, “é o jeito dele”, “vocês se amam e o amor vence tudo”. Será?

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É nesse contexto tão problemático que Jessica Jones se desenvolve, indo contra os estereótipos estabelecidos até então e mostrando o problema em toda sua complexidade. Nela, conhecemos Jessica, uma jovem detetive que tenta reconstruir sua vida após os abusos sofridos nas mãos de Kilgrave (David Tennant) – um controlador de mentes frio, cruel e totalmente sem escrúpulos que obriga pessoas a agirem de acordo com seus desejos e necessidades, fazendo-as acreditar que estão agindo por vontade própria quando, na realidade, é exatamente o contrário. A experiência de ter a mente controlada por outra pessoa, que por si só já parece algo terrível, assume aqui níveis ainda mais catastróficos. De repente, não estamos mais falando de um cara que te obriga a matar uma pessoa inocente, enfiar a mão num liquidificador ligado, cortar a própria orelha ou assassinar um ente querido, mas de um cara que te manipula ao ponto de te fazer acreditar que matar uma pessoa inocente, enfiar a mão num liquidificador ligado, cortar a própria orelha e assassinar um ente querido são ideias maravilhosas e que você não só deveria fazer isso, como você quer fazer isso, mesmo que, no fundo, você não queira de verdade.

Aos poucos, entendemos como Jessica – uma mulher forte, dona de si, que levanta carros e dá porrada como ninguém – se transforma numa mulher traumatizada, que se afastou de tudo e de todos, que encontra na bebida seu escape e não confia em ninguém além dela mesma. A partir daí, fica claro que o que estamos vendo não é apenas uma super-heroína assombrada pelos fantasmas do passado, mas a representação real de uma mulher que foi vítima de um relacionamento abusivo e agora tenta seguir em frente, não como se nada tivesse acontecido, mas encarando os próprios traumas, reconhecendo que a melhor forma de superá-los não é fugindo, mas sim lutando.

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Seu momento de esclarecimento ocorre quando conhece Hope (Erin Moriarty), uma jovem vítima de Kilgrave que mata os próprios pais por ordem do vilão; mas esse é só o gatilho para que Jessica comece sua própria jornada de empoderamento e superação. A série acerta ao construir um roteiro forte, real e extremamente poderoso, que traz para o centro da história questões muito palpáveis para todas nós, vítimas de algum tipo de abuso ou não. Ao tomar posse dos personagens e suas habilidades individuais, a história cria uma grande e perturbadora metáfora que nos apresenta a verdadeira face dos relacionamentos abusivos, deixando claro que mesmo as pessoas mais fortes estão sujeitas a eles. Ninguém está a salvo. Essa é a mensagem de Jessica Jones pra vocês.

Kilgrave não usa força física, muito pelo contrário. É através dos seus poderes, do controle e da manipulação nua e crua, que ele consegue o que quer, faz o mal e destrói a vida de várias pessoas pelo caminho – não muito diferente de muitos abusadores que são vistos pela sociedade como pessoas razoáveis só porque nunca levantaram a mão para uma mulher. Em sua tentativa de provar a inocência de Hope, Jessica bate de frente com a ignorância de pessoas que são absolutamente incapazes de acreditar que uma pessoa pode, de fato, controlar a mente da outra – pelo menos até que elas tomem o lugar da vítima e enxerguem o outro lado do problema, um lado muito mais complexo do que acredita nossa vã filosofia. “Então isso realmente acontece”, “então esse papo de abuso psicológico não é só uma história que inventaram para nos assustar”. Pois é.

A partir daí, entendemos por que se desvencilhar de um relacionamento abusivo pode ser tão difícil. Tudo acontece de forma muito sutil e não é à toa que, de repente, o certo e o errado já não são mais tão óbvios. A própria Jessica, por exemplo, só consegue se desvencilhar do poder de Kilgrave quando algo terrível acontece e, mesmo tendo sobrevivido, a certeza que fica é que Jessica nunca mais será a mesma, que a extensão dos traumas causados pelo abuso vão muito além de sua prisão mental e que essa história não acaba quando ela se vê livre de novo. Sobreviver, definitivamente, não é o suficiente.

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Numa das cenas mais marcantes da série, Jessica acusa Kilgrave de estupro, assim mesmo, com todas as letras. Ele ri, repudia, se faz de vítima e diz que não fez nada, é claro que não. Mas está tudo ali e, uma vez que percebemos isso, é impossível ignorar. E aí fica impossível não pensar que talvez nada disso fosse possível se a pessoa por trás dessa história não fosse uma mulher, o que eleva o projeto para um novo nível de complexidade e representatividade. Criada por Melissa Rosemberg, uma escritora e produtora norte-americana, a série reforça um outro ponto importantíssimo: mais importante do que contar a história de uma mulher é contar essa história a partir da perspectiva de outra mulher. O que assistimos aqui é a representação real do que é um relacionamento abusivo para uma mulher – nossos sentimentos e receios representados de forma fiel, honesta e, por isso mesmo, extremamente assustadora. Não existe nada de romântico no abuso. Eis aí a diferença de ter uma mulher contando a história de outra mulher. Representatividade é sobre isso também.

“Eu tive uma escolha. Escolhi sobreviver”, conclui Jessica no episódio que coroa sua espetacular temporada de estreia, que tanto nos ensinou e continuará ensinando daqui pra frente. Jessica não é apenas uma super-heroína tentando acabar com os planos de um vilão megalomaníaco. Ela é, antes de mais nada, uma mulher com problemas reais e extremamente humana, tentando superar os abusos que sofreu e salvar a si mesma, salvando tantas de nós no processo. Ela chega com o pé na porta e escancara uma situação que precisa ter fim. Nós não estamos sozinhas e, aqui do outro lado, também escolhemos sobreviver. Somos todas Jessica Jones.

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2 Comentários

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    cyntia campos
    12 de dezembro de 2016 at 08:06

    Pode me explicar porque o relacionamento entre Rachel Green e Ross Geller, está citado como abusivo? Assisti só alguns episódios e tive a impressão de que ela tinha potencial pra ser a pessoa com mais poder na relação

    • Responda
      Ana Luiza
      12 de dezembro de 2016 at 14:05

      Porque ele é um tanto controlador e obsessivo, porque tenta limitar a Rachel de várias formas e não dá apoio quando ela descobre a carreira que quer seguir, mas prefere diminuí-la em tempo integral. Ele enche o trabalho dela de presentes e flores e sei lá mais o quê como se fosse um cachorro marcando território porque tem ciúmes do chefe dela e quando ele a trai, ainda tenta jogar a culpa pra cima dela com um papo errado de que eles estavam dando um tempo. Fora que quando não estão juntos, ele tenta sabotar vários dos relacionamentos da Rachel.

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